domingo, dezembro 31, 2006

"O Silêncio dos Inocentes"

O dia 29 passou.
E ninguém falou.

Eu também cumpri o meu voto de silêncio.
Porque jurei amor eterno à desmemória,
à inconsciência,
à ignorância,
à estupidez,
ao bulício,
ao rodopio,
ao carrossel,
ao ocultismo.

Mas o silêncio irá bater-me à porta
em forma de tempestades,
secas de outros lagos Chades e outros mares Cáspios,
cheias de Galizas, Portugais, Vietnames, Sri Lankas e Indonésias,
afogamentos de outros ursos polares,
águas coloridas de outros Mediterrâneos,
descolorações de outros corais e paisagens,
extinções de outros bacalhaus (que festim!),
árvores que devorarão incêndios,
ventos de Alentejos sub-sarianos,
luzes excessivas de outras cidades,
picadas de mosquitos de outras Áfricas,
bateres de asas de borboletas que sobem para outras latitudes,
bicos calados de aves que não voltam,
e aves presas em amálgamas de outros chapapotes,
filmes sobre outros dinossauros,
documentários de animais que partiram,
ecos de memórias desprovidas de realidade...

Restam-me as moscas,
pequenos e insignificantes insectos
que me farão companhia
até ser só pele e osso.

Tratai do vosso futuro.
Saíde da feira popular
e dos centros comerciais.
E vereis erguerem-se de novo
glaciares e habitats perdidos.

Se demora,
que esperais?

terça-feira, dezembro 26, 2006

Comunicado da Quercus


Leiam o artigo depois de contemplarem esta maravilhosa vista para o oceano.
A foto foi retirada do mesmo.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

ESTRATOS: 12 - Estaremos preparados?

Ora, com uma costa assim, quase toda de terras baixas e com as cidades maiores à beirinha da água, e tendo em conta a impreparação dos portugueses para a mais insignificante das calamidades públicas, terramoto, inundação, fogo na floresta, seca persistente, duvida-se que o governo de salvação nacional saiba cumprir o seu dever.

in A Jangada de Pedra, de José Saramago (Ed. Caminho, 1986, 12ª edição - Janeiro, 2001, p.215)

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Portugal Provisório?


Visão de 21-12-2006, p. 122

Só tenho dois comentários a fazer:

GATUNOS!!!!!
e
BOMBA NELES!!!!!

ESTRATOS: 11 - Quanta riqueza...

A plataforma continental foi minuciosamente examinada, sem resultado. (…) O Archimède, obra-prima da investigação submarina, manipulado pelos franceses seus proprietários, baixou aos máximos fundos periféricos, da zona eufótica para a zona pelágica, e desta para a zona batipelágica, usou faróis, pinças, apalpadores electrónicos, sondas de vário tipo, varreu o horizonte subaquático com o sonar panorâmico, em vão. As longas vertentes, as escarpas declivosas, os precipícios verticais, exibiam-se na sua soturna majestade, na sua intocada maravilha, os instrumentos iam registando, com muitos cliques e luzes a acender e a apagar, as correntes ascendentes e descendentes, fotografavam os peixes, os bancos de sardinhas, as colónias de pescadas, as brigadas de atuns e bonitos, as flotilhas de carapaus, as armadas de peixes-espadas, e se o Archimède transportasse no seu bojo um laboratório apetrechado com os necessários reagentes, solventes e mais tralha química, individualizaria os elementos naturais que estão dissolvidos nas oceânicas águas, a saber, por ordem decrescente de quantidades, e para abono cultural de uma população que nem sonha existir tanta coisa no mar em que se banha, cloro, sódio, magnésio, enxofre, cálcio, potássio, bromo, carbono, estrôncio, boro, silício, flúor, árgon, azoto, fósforo, iodo, bário, ferro, zinco, alumínio, chumbo, estanho, arsénico, cobre, urânio, níquel, manganésio, titânio, prata, tungsténio, ouro, que riqueza, meu Deus, e as faltas que temos em terra firme, só não se consegue alcançar a fenda que viria explicar o fenómeno que, aos olhos de toda a gente, afinal, se produz, patenteia e prova.

in A Jangada de Pedra, de José Saramago (Ed. Caminho, 1986, 12ª edição - Janeiro, 2001, pp.138-139)

Até já

BRAGA
O escriba deve ausentar-se por uns tempos mas nunca se sabe...

i will not go
Prefer a feast of friends
to the giant family

Jim Morrison

e não esquecer que Belém também é uma freguesia de Lisboa e cidade Brasileira, por exemplo.

Estratos: centros e centro histórico


A propósito das nossas últimas deambulações, no centro ou centros. Por vezes (muitas vezes) acreditamos naquilo que desejámos. É humano projectar.

Apesar de tudo lamenta-se que aparentemente, ou talvez não, a dimensão histórica da cidade fique remetida a uma zona especial com a tal carga simbólica. O centro histórico ainda é (e por isso provavelmente as coisas não evoluem) pensado como um espaço alheio ao devir do restante espaço urbano, espécie de “nicho” ou microterritório, onde resistem valores de identidade e da comunidade e se resista um equilíbrio entre a paisagem e o meio ambiente. Encaramos o centro histórico como algo mais: acima de tudo como um espaço natural e que deve ser encarado como tal. Espaços especiais remetem-nos para um mundo paralelo, onde por vezes esquecemos as pessoas, sobrevalorizamos imagens, projectando-as para outros “sítios”. E as pessoas são fascinantes.

GONÇALVES, Marco " Centros históricos ou a cidade reencontrada" estrato da tese de licenciatura em Geografia e Planeamento, Universidade do Minho- Guimarães,2004

quarta-feira, dezembro 20, 2006

A flanar...



por telhados e paredes...Um dos encantos de Braga (ainda) não destruídos, embora pouco "vistos" são os seus telhados verdadeiros e as suas casas onde mora e vive gente (não apenas habita emparedada). Isto não tem nada de especial, mas quando começa a ser encarado como tal, surgem os problemas, inerentes às eufemisticamente denominadas àreas "especiais". Desconfiem.

Investimento no Alentejo: Central de Sines

Clique para aumentar

Clique para aumentar in revista "Alentejo Terra Mãe", n.º 06, pp. 42-44.

ESTRATOS: 10 - Península, a nova Atlântida?

Que acontecerá quando se interpuser no caminho da península uma fossa abissal, deixando de existir, portanto, uma superfície contínua de deslizamento. Recorrendo, como sempre é desejável para uma melhor apreensão dos factos, à nossa experiência, de banhistas neste caso, compreenderemos perfeitamente o que tal significará se nos lembrarmos do que acontece, em pânico e aflição, quando inesperadamente se perde o pé e a ciência natatória é insuficiente. Perdendo a península o pé, ou os pés, será o inevitável mergulho, o afundamento, o sufoco, a asfixia, quem diria, após tantos séculos de vida mesquinha, que estávamos fadados para o destino da Atlântida.

in A Jangada de Pedra, de José Saramago (Ed. Caminho, 1986, 12ª edição - Janeiro, 2001, p.138)

Millau - a ponte mais alta do mundo





Este já famoso viaduto, desenhado por uma equipa dirigida pelo ingês Norman Foster, está a 245 metros do solo, pesa 400.000 toneladas, resiste a ventos de 210 quilómetros por hora e custou quase 300 milhões de euros.

Nós é que gostamos de megalomanias, não é? Cuidado, ainda ultrapassais Portugal...!


(Para melhor análise da paisagem e sua evolução sugerimos que colem estas imagens numa apresentação. Vejam mais fotos também em http://www.aurelle-verlac.com/millau/viadmil.htm)

Difundido via e-mail.

terça-feira, dezembro 19, 2006

ESTRATOS: 9 - A península flutua por si própria...

Cá fora, com os pés firmes no chão, olhando os horizontes, ou do ar, onde infatigavelmente as observações continuam, a península é uma massa de terra que parece, insista-se no verbo, parece flutuar. Para que flutuasse seria preciso que se tivesse desprendido do fundo, caso em que inevitavelmente iria parar ao mesmo fundo desfeita em torrões, porque, mesmo supondo que nas circunstâncias agentes a lei da impulsão se cumpriria sem maior desvio ou vício, o efeito desagregador da água e das correntes marítimas iria, progressivamente, reduzindo a espessura da plataforma navegante até por completo se dissolver a placa superficial. Portanto, e por exclusão de partes, havemos de concluir que a península desliza sobre si própria, a uma profundidade ignorada, como se horizontalmente se tivesse dividido em duas lâminas, a inferior formando parte da crosta profunda da terra, a superior, como se explicou já, escorregando lentamente na escuridão das águas, entre nuvens de lodo e peixes assustados
(…)
Até agora, e inexplicavelmente, a ninguém do comum ocorrera que a península pudesse estar a escorregar sobre o que fora seu milenário soco.

in A Jangada de Pedra, de José Saramago (Ed. Caminho, 1986, 12ª edição - Janeiro, 2001, pp.136-137)

Flanar e fanar


sombras e recantos...pequenos espaços
com tangerinas (boas, boas e ninguém
lhes pega) e duendes.
Braga perdida.

MANIFESTO | Testemos a nossa ignorância!

Para quem gosta de jogar o jogo das minas, experimente brincar com a realidade, sabendo e testando os seus conhecimentos sobre onde existem armas nucleares.

Não façam o mundo ir pelos ares!

A flanar por aí


Sombras e recantos de Braga...espaços
perdidos e desconhecidos.Visões.
Para continuar...

PORTUGAL PROVISÓRIO: "Iluminar a praia"

Clique para aumentarEsta foto foi tirada na cidade de Quarteira, se alguém souber dizer-me o que é que aquele poste está ali a fazer, por favor diga-me!
Rogério Madeira, 10.12.2006.

Nota: Podem enviar as vossas fotos para georden@gmail.com acompanhada com título, breve texto, localidade, autor e data. Posteriormente, todas serão publicadas no GEORDEN - Sustentar o Sustentável.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Vende-se duna! Uma duna à venda?

Vende-se Duna!Recentemente assisti a notícias sobre erosão e destruição de campos dunares na Costa da Caparica. Para mim, esta realidade não é nova, pois vivo bem perto do mar e desde pequeno assisto a este tipo fenómenos.
Devido a estes acontecimentos que ocorrem um pouco por todo o litoral português e não só, nesta época do ano com mais intensidade, decidi ir até terras de nuestros hermanos, onde percorri toda a faixa litoral que vai desde Matalascañas até Aymonte (Andaluzia) e observar, com os meu próprios olhos, como estavam as praias por aquelas bandas.
Não foi uma surpresa para mim, pois já conhecia parte do que vi, quando constatei que o lado espanhol é igual ao português. É como se fosse um prolongar do Algarve, interrompido apenas pelo Guadiana. Ah! A língua também se altera e a gasolina está mais barata, cerca de 0.9 euros/litro (enchi o depósito).
Como o assunto é erosão costeira, começo por relatar o que assisti na Playa de Matalascañas (perto do Parque Nacional de Doñana).
A certa altura da minha caminhada pela praia, encontro um belo campo dunar à venda. Uma duna à venda? Pelo que vi, só faltará esta para ser vendida. Parece-me estranho como esta duna conseguiu escapar às investidas dos construtores e imobiliários. Vejam como se fez a ocupação do território ao longo de toda a costa da Playa de Matalascañas. O sistema dunar natural foi pAmbos Mundosrogressivamente substituido pelo "sistema dunar das construções". Acho que foi a partir daqui que o dono do restaurante “Ambos Mundos” se inspirou para baptizar o seu negócio. As protecções transversais e longitudinais à costa existentes estão completamente destruídas e a vila está a ser ameaça pela respectiva dinâmica litoral, confrontando-se com o mesmo problema que o nosso: a erosão costeira e destruição dos campos dunares.
No entanto, nem tudo é mau por aquelas bandas, e dirigentes políticos da vila souberam reconhecer que algo devia ser feito e criaram o Parque Dunar de Matalascañas. Aqui se protege uma extensa área de dunas e respectivos ecossistemas litorais (como acontece em Esposende, mas de uma forma mais séria e peLa Dunadagógica).
O insólito desta visita foi quando me encontrava a passear pela vila, deparo-me com uma casa que se chama "La Duna". Quis logo imortalizar o que os meus olhos observavam, e no momento em que eu apontava a objectiva da máquina, aparece uma senhora que diz:

- Que estas haciendo?
E começamos a dialogar:
- Estoy fotografiando el nombre de su casa.
- No es mi casa, pero... Por qué?
- Porque creo que es interesante que una casa se llame "La Duna" y no existe ninguna duna.
- Cómo que no? ¡La duna existe en toda casa!
- Cómo que en toda casa?
- La casa fué construída con arena de Duna.
- Ah! Bien. Vale.
(...) Espaço de Arte e Lazer
Parece ironia, mas o pensamento desta senhora transmite toda a falta de respeito que nós temos pelo nosso litoral. Ninguém quer saber das dunas, e usam-nas para a construção, como locais de campismo, brincadeira, convívio e esconderijo, refúgios para fazer as necessidades e até para fazer amor (neste caso, menos mal).
Posto isto, outra observação: uma estrada transformada em mar com golfinhos. Um óptimo espaço de arte, ao mesmo tempo de lazer, onde Peões e ciclistas podem andar livremente sem pensar no automóvel. Muitas das nossas cidades deviam seguir este bom exemplo. Arriba em betão
Prosseguindo viagem, rumo a Huelva, pela estrada paralela à costa que rompe parte do Parque Nacional de Doñana, encontro uma ciclovia até Mazagón. Em Mazagón assisti à construção de moradias/apartamentos turísticos em plena arriba. Estão a destruir uma arriba em estado de degradação. Solução encontrada foi a sua destruição, colocando betão em toda a sua extensão.
Poderia contar-vos outras mais situações mas o artigo tornava-se demasiado extenso. Assim, deixo-vos algumas fotos e de seguida, colocarei disponível noutro artigo, algumas definições sobre este tema.

Duna branca edificada Terra, Mar e Golfe, num só local! Protecção costeira destruída O aviso devia ser: Cuidado com a Dinâmica Humana Varandas dunares Apesar da protecção continuamos assistir ao constante pisoteio dunar Parque Dunar de Matalascañas Parque Dunar de Matalascañas e início do edificado Futuro reservado: Ruínas subquáticas tendo como função criar o habitat de espécies piscícolas Mapa improvisado

Abraço e até uma próxima “Escapadinha”.

Nunca se esqueçam de flanar, tal como o nosso amigo Vidal já teve a oportunidade de nos dizer: "vamos flanar".

Rogério
over

Mistérios

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Misteriosos são os caminhos. Insondáveis os desígnios humanos.
Neste particular, num edifício degradado e em perigo de derrocada (iminente, no nosso entender), com aviso e tudo (como se pode verificar na imagem), o rés-do-chão (do mesmo) encontra-se ocupado por uma loja de pronto-a-vestir e uma garagem. Não raras vezes, estão clientes e comerciantes, conhecidos e desconhecidos, em alegre cavaqueira à porta do edifício. E que dizer dos automóveis, dentro da garagem e estacionados no exterior? Ninguém quer saber. Nisto como em quase tudo. As televisões aguardam com serenidade…

Ah! Braga, centro da cidade. Dezembro.

Enfim, quase Natal.

Alguns conceitos sobre Erosão Costeira

Dunas da praia da Quinta do Lago (Algarve)A Erosão Costeira está associada a um fenómeno essencialmente natural – a subida relativa do nível médio do mar (NMM). No entanto, os acontecimentos resultantes da intervenção humana no litoral (deficiência de sedimentos, desmantelamento de dunas e a assimetria na distribuição dos sedimentos devido à acção dos esporões, etc.) aceleram o processo da erosão costeira.

As principais causas para o aumento da erosão costeira são: a diminuição do fluxo de sedimentos transportados pelos rios/ribeiros, pois ficam retidos nas albufeiras das barragens; excessiva exploração de areias nos estuários dos rios; destruição sistemática das dunas litorais, devido ao avanço do NMM, à construção em zona costeira e ao constante pisoteio por parte das populações e veraneantes; Avanço da construção sobre a praia do Forte Novo (Quarteira)modificação sensível do regime de ondulação costeira, pela construção de obras portuárias e de protecção sem um estudo de avaliação do impacto ambiental.
Para minimizar os efeitos da erosão e no sentido de estabilizar a linha de costa, podem ser tomadas diversas medidas.
No que se refere às medidas de carácter mais leve, e por isso, mais amigas do ambiente, passam pela protecção e estabilização das dunas, utilizando vegetação e estruturas de estacas (ver exemplo da praia da Manta Rota e Parque Dunar de Matalascañas) e pela dragagem de areias no alto mar e sua deposição em zona de praia (como ocorreu recentemente em Vale do Lobo). O inconveniente deste tipo de intervenção prende-se com o seu elevado custo, uma vez que precisa de ser repetido periodicamente. Cordão dunar ameaçado
Em termos de estabilização pesada, do qual requerem grandes obras de engenharia, existem estruturas transversais e perpendiculares à costa:
As obras construídas transversalmente à linha da costa, tipo esporão, interrompem o trânsito litoral de areias. Estas acumulam-se contra o esporão, no lado montante (barlamar). Devido a esta retenção de areias, verifica-se um aumento da erosão na zona a jusante da obra, fazendo-se sentir estes efeitos, por vezes, a dezenas de quilómetros do local onde a estrutura foi construída (as praias do Forte Novo, Trafal e Vale do Lobo, praias a jusante do porto e esporões de Quarteira, a praia de Matalascãnas (Andaluzia, Espanha), praia a jusante do Porto de Mazagón, e as praias adjacentes da Costa da Caparica, são exemplo disso).
Como consequência desta realidade, verifica-se a tendência para que estas estruturas se multipliquem, devido à elevada potencialidade de degradação do litoral a As necessárias obras de requalificação da praia da Manta Rota (Algarve)jusante (sotamar).
Quanto às obras longitudinais à costa (paredões, enrocamentos), as consequências negativas não são tão óbvias como as dos esporões. Quando os paredões são construídos ao longo da costa litoral, cujo avanço do NMM está afectar campos dunares, essas estruturas impedem, por si próprias, que uma importante fonte de areias possibilite a evolução natural desse litoral. Sem esta reserva natural de areias que era constituída pelas dunas, a praia frontal ao paredão torna-se menos densa e mais sensível à erosão, principalmente durante as marés vivas de Inverno, ocorrendo assim, com frequência, investidas do mar sobre os campos dunares. (ver fotos).
Existem ainda as obras de protecção não aderentes, destacadas (tipo quebra-mares). Estas não têm sido muito utilizadas no nosso país. Os quebra-mares são construídos em mar aberto e têm como função diminuir a força erosiva das ondas, de modo a que a linha de costa não esteja tão exposta à sua acção. Na praia de Vale do Lobo (Algarve), Van Gelder pretende construir uma ilha, a Nautilus Island, que para além de mais um projecto turístico terá a finalidade de proteger a praia de Vale do Lobo e respectivas edificações que se encontram no topo das arribas. Este será um tema a tratar isoladamente noutro artigo.
Protecção dunar da praia da Manta Rota (Algarve)Formação de corpos dunares litorais: As zonas costeiras são áreas onde podem surgir naturalmente campos dunares visto que, geralmente, aí coexistem as três características principais: existência sedimentar em areias; espaço suficiente para o vento deslocar esses sedimentos; e áreas onde esses sedimentos podem ser acumulados.
A deposição das areias transportadas pelo vento ocorre quando este perde velocidade e, consequentemente, capacidade de transporte. Esta situação verifica-se geralmente quando existe um obstáculo como, por exemplo, vegetação. A vegetação desempenha um papel determinante nos corpos dunares, pois além de promover a deposição das areias, contribui para a estabilização das dunas, impedindo a mobilização das areias mesmo quando o vento atinge velocidades elevadas (Carter, 1988 in Célia Duarte, 1999).
Factores de Vulnerabilidade Dunar:
As dunas são corpos dinâmicos com capacidade de reagir às diversas pressões excercidas. No entanto, quando as estas são muito elevadas ou de carácter prolongado, o sistema pode atingir estados de degradação irreversíveis. Existem uma série de factores que, isoladamente ou em conjunto, contribuem decisivamente para a ocorrência de degradação dunar:
- A pressão antrópica sobre o corpo dunar;
- A exploração de areias, na praia e campos dunares, é co-responsável pelo desequilíbrio do balanço sedimentar;
- O excessivo pisoteio e pressão de veraneantes conduzem à degradação da vegetação tornando o sistema mais frágil;
- A ocupação dos sistemas com os mais diversos tipos de estruturas, como casas, hotéis, urbanizações, apoios de praia, parques de estacionamento, etc, são factores que conduzem à mais rápida degradação dos cordões dunares. A existência destas estruturas impede as trocas sedimentares com a praia e afecta toda a dinâmica litoral. Além disso, tais estruturas, promovem um aumento do número de visitantes e banhistas com a consequente degradação da vegetação, tornando-se estes locais insustentáveis.
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Bibliografia: Clique para ler
- AGRELO, Eduardo; MADEIRA, Rogério (2003) - "Erosão Costeira em áreas de oferta turística balnear: Quarteira – Vale do Lobo e Isla de Tenerife"; Universidade do Minho, Guimarães.

- ANDRADE, C. (1997) – “Dinâmica, Erosão e Conservação das Zonas de Praia”, Com. Exposição Mundial de Lisboa de 1998, Lisboa.
- CORREIA, F; FERREIRA, Ó; DIAS, A (1997) – “Contributo das Arribas para o balanço sedimentar do sector costeiro Quarteira-Vale do Lobo (Algarve-Portugal)”, Seminário sobre a zona costeira do Algarve, Eurocoast, pp. 31-39.
- DUARTE, Célia (1999) – “Aplicação de uma lista de controlo de Vulnerabilidade a alguns sistemas Dunares do Algarve”, Universidade do Algarve, Faro.
- FILGUEIRA, Pedro – “A Gestão da Zona Costeira”, Seminário A Zona Costeira e os Problemas Ambientais, Eurocoast, Aveiro, 1991, pp. 211-219.


Por último, deixo-vos "Dois dedos de Conversa" (in Notícias Sábado, 16 Dezembro 2006, p. 14) do Prof. João Alveirinho Dias.

A flanar por aí

Clique para aumentarNão, não se trata de nenhuma grande cidade da América Latina. É apenas Braga e, porque não, também linda nas suas sombras e recantos. A Braga esquecida e pouco vivida, muito perto do centro. Onde?...

Neste espaço, um olhar diferente para as cidades, aqui ao lado, sem as vermos...ou em cima.

EFEMÉRIDE | Dia Internacional das Migrações


Science & Vie, Outubro - 2006, pp. 28-29

Hoje, dia 18 de Dezembro, alerta-se para o problema (se o considerarmos com tal) das migrações. Migrações forçadas, sobretudo.

À medida que o desenvolvimento económico se processa, muitas vezes à custa daqueles países e regiões que não só por comparação vão ficando mais depauperados, as populações, sem outra hipótese, acorrem ao que lhes dá nesgas de uma vida possível. Viagens, como sabemos em certos casos, no limiar da sobrevivência. O que nos leva a pensar que é mesmo urgente mudar...

Nem imaginamos, ao mesmo tempo que somos os promotores inconscientes e autoritários do empobrecimento dessas regiões e povos. "Isto anda tudo ligado", como diz Sérgio Godinho. Mas a nós, o que nos preocupa é quando isso nos afecta. Quando é a essas populações que estamos a afectar, estamos todos contentes, como a prática do consumo evidencia, paradigmaticamente.

A economia é a lei do mais forte, do mais rápido, do mais lucrativo, do mais eficaz. Quais as implicações que isso tem na organização territorial? Claro que uma resposta minimamente credível e fundamentada carece de estudo e investigação. Mas podemos ler alguns resultados: a concentração crescente da população junto ao litoral, de preferência nas cidades, que são o osso de que temos de ir todos atrás, sem outra hipótese.

Afinal, só mais um sintoma do desequilíbrio, em que somos peritos.
"É a economia, estúpido!", dizia o outro.
"Pela economia, estamos a ser estúpidos", dizemos nós.

ESTRATOS: 8 - A catástrofe avizinha-se

Durante os exames e os interrogatórios ouvi uma coisa em que nunca teríamos pensado, foi só meia palavra mas bastou, quem se descaiu julgaria que eu não estava com atenção, Que é, Até agora, a península, não é península, mas como diabo havemos de chamar-lhe, tem-se deslocado praticamente em linha recta, entre os paralelos trinta e seis e quarenta e três, E daí, Talvez sejas bom professor em todas as outras matérias, mas estás fraco em geografia, Não percebo, Percebes já se te lembrares de que os Açores estão situados entre os paralelos trinta e sete e quarenta, Oh diabo, Chama por ele, chama, A península vai chocar com as ilhas, Exacto, Será a maior catástrofe da história, Talvez sim, talvez não, e, como tu disseste há pouco, tudo isto seria absurdo se não estivesse a acontecer (...)

in A Jangada de Pedra, de José Saramago (Ed. Caminho, 1986, 12ª edição - Janeiro, 2001, p.131)

domingo, dezembro 17, 2006

Dezembros e o quase Natal

Como se não bastasse (aos olhos de milhares de leitores), o singelo e honesto contributo do Georden, também a inefável imprensa escrita (da falada, por embaraço não comento), tem, não raras vezes, de forma avisada, e quase oportuna, recordado(e enfatizado) para os perigos e contradições ambientais e suas consequências para a qualidade de vida. As politicas, o (des)ordenamento do território e os habituais estudos. Ele, é o Publico, a Visão e o DN, os jornais regionais, etc, etc, e mais estudos a que tiveram acesso, fiáveis ou não, com o patrocínio de sabe-se lá quem, mas apontando todos, ou quase, para as mesmas consequências. Inevitáveis.

Como aqui já se escreveu (da minha pena e outras), relativamente ao último mês (para não ir mais longe), as inundações (ainda alguém, Jingle bells, se lembra?) e consequentes “tumultos” da indignada populaça, os inquéritos e (a culpa não é minha) mais estudos, redundam, como diziam os “Xutos” em silêncio(s). Nada.

A investida (com avisos de longa data) do mar (ver a Visão de 14 de Dezembro), associada à responsável destruição das dunas e, hábeis construções, mais a “dinâmica” turística, dinamitam a nossa costa e a nossa paciência; são aquilo que se sabe, e sabia. E sabia! Quanto ao aquecimento global, estamos conversados.
Não (re)conheço, quando lá vou, São Bartolomeu do Mar, a praia da Apúlia(onde se constrói uma betonada marginal literalmente sobre o mar), o aristocrático Ofir, Esmoriz, a Caparica sem Costa (coitaditos dos bares) e o circo Algarvio do constrói em qualquer lado(coitaditos dos hotéis) e vê se tens rede. No passa nada. É Natal.


Na semana Carolina Salgado, tendo deambulado pela cidade e livrarias, encontrei, e não é de hoje, várias obras (literárias) importantes, em áreas como a geografia, sociologia e urbanística, antropologia e história, sobre a problemática e a questão urbana (Castells). Nunca, como agora, se reflectiu tanto no assunto, com ou sem atrasos relativos (ou absolutos), tendo ou não em conta outros países. Obras nacionais e estrangeiras, reflectem as várias perspectivas e tendências de pensar a cidade, diferentes visões concebem os espaços(muitos deles são novos). Já não é pouco. No entanto, interrogo-me, ao olhar de soslaio para Braga, já cansado, se realmente vamos aprender alguma coisa. Já perdemos alguns rounds.

Mas enfim, é quase Natal…

"For the times, they are a-changin'..."

A região dos Alpes está a passar pelo seu período mais quente dos últimos 1300 anos, segundo um estudo do Instituto Central de Meteorologia e Geofísica da Áustria. De referir que ainda só nevou 30 por cento do normal para a época. Também a MeteoSwiss, serviço meteorológico da Suiça, registou temperaturas muito altas, 10 graus acima do normal, em Novembro e princípios de Dezembro. No Reino Unido nunca fez tanto calor neste período desde 1659. A Holanda bateu o recorde de 1706 e a Dinamarca de 1768.

Em Portugal os valores médios da temperatura do ar em Novembro foram muito superiores aos valores médios em todo o território, em particular os valores da temperatura mínima. Novembro é o quinto mais quente desde 1931 e o segundo com maior valor da média da temperatura mínima, depois de Novembro de 1983, de acordo com o relatório efectuado pelo IM.

Fonte: Instituto de Meteorologia
Links: Sobre o degelo nos Alpes
Aquecimento global na Wikipédia

ESTRATOS: 7 - Orce

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Debaixo do sol vulcânico as terras ondulam como um mar petrificado coberto de poeira, se isto já era assim há um milhão e quatrocentos mil anos não é preciso ser paleontólogo para jurar que o Homem de Orce morreu de sede, mas esses tempos eram os da juventude do mundo, o arroio que lá longe corre seria então largo e generoso rio, haveria grandes árvores, ervaçais mais altos que um homem, tudo isso aconteceu antes de ter sido colocado aqui o inferno. Na estação própria, chovendo, alguma verdura se espalhará por estes campos cor de cinza, agora as margens baixas são cultivadas a duras penas, ressacam e morrem as plantas, depois renascem e vivem, o homem é que ainda não conseguiu aprender como se repetem os ciclos, com ele é uma vez para nunca mais.

in A Jangada de Pedra, de José Saramago (Ed. Caminho, 1986, 12ª edição - Janeiro, 2001, p.86)

MANIFESTO | Este Natal, comprem lixo tóxico!

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Uma mensagem bonita, adequada à época natalícia. Este Natal, saiba mais.

sábado, dezembro 16, 2006

PORTUGAL PROVISÓRIO vs ESPAÇOS PERDIDOS - Portugal mete água # 1

Clique para aumentar Público de 25-Nov-2006, p. 58 (Local - Porto)



Portugal mete água. E quem se lixa é a sociedade civil. Já que com às nossas cidades não parecemos dar qualquer importância...
Uma saudação ao professor Lúcio Cunha, a quem pouca gente dá atenção. Tal como a Fernando Rebelo ou Gonçalo Ribeiro Telles, que andam há longos anos a falar prò boneco. (O boneco somos nós, convém dizê-lo uma vez mais.)

Há tanto tempo que se sabe que:

1 - Coimbra tem episódios de cheias;

2 - A geologia da região é óptima para enxurradas e desabamentos;

3 - Não se deve construir em zonas declivosas nem em leitos de cheia;

...

Claro, nós sabemos sempre muita coisa, mas os espertinhos da construção civil (que belo nome!) e os planeadores, que só querem o nosso bem, tratam de trabalhar para nós. Por isso, 1+2+3+... dá: derrocadas e vidas, casas e finanças estragadas.

Mas, se nos orientássemos pelo princípio da "racionalidade limitada", procuraríamos opiniões de quem mexe nestas coisas e de saber com o que é que estas coisas mexem. Para aprendermos a dar mais atenção às relações do objecto com o meio, quando queremos esse objecto.
Assim, e como quanto mais burros formos, melhor para a economia é, consumidor prevenido vale por menos um.

Comunicado

Clique para aumentar Público de 25-Nov-2006, p. 53 (Local - Porto)
Repare-se neste tipo de comunicados, oficializados e tornados públicos com a chancela estatutária dos média de referência: (apesar de estar um pouco cortado no fundo) não tem autor. O que quererá dizer essa ausência? Que, pela certa, foi um artigo comprado ao jornal. Quê? Não sabiam que isto é assim que se processa? Pois fiquem a saber. E mais: quando querem formar a tão sagrada e valerosa "opinião pública", fazem destas coisas: ultimatos.
Mas que é isto? Uma prova de que o poder político anda a reboque do económico? Não, porque estamos numa democracia, por isso, não.
Mas, mas... Sim, sempre a acenar com os empregos, que nos mantêm reféns e nos impedem de pensar direito.
A empresa sonha, a obra faz-se.