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sábado, março 18, 2017

Passado e Presente, com Aquilino

"A árvore, além de condensador ideal, é um repartidor exímio, almotacé chamam em certos municípios da serra ao homem encarregado de distribuir a tancada de água pelos paroquianos. Ora, estes derradeiros tempos tem-se desarborizado desalmadamente sem rei nem roque. Oiteiros, outrora vestidos do verde movediço e espumoso dos bosques, estão hoje hediondamente nus. A façta de combustíveis por um lado, a construção intensiva por outro, levaram ao despovoamento das matas. Em breve os castanheiros serão tão raros como na fauna marítima o é a baleia (...)

p.91

"Ora os rios já não se vêem correr como dantes, e decerto não são culpados apenas os governos que tem havido desde D. Afonso Henriques para cá. São culpados todos os membros da família portuguesa que desalmadamente despiram os cerros dos soutos de castanheiros, os ossos de Portugal, dos carvalhos, a árvore tersa dos fabulistas, dos amieiros, dos teixos, das faias e tantas espécies indígenas que na sazão estival purificavam os ares e, povoados de pássaros, alegravam a terra."


p.97

"Não obstante a eira estar discriminada nos cadastros da matriz deste e daquele vizinho, conserva ainda o seu quê de comunal. (...)
Também havia em regime comunal as lameiras ou campos de pastio, para onde soltavam vacas e cevados, no tempo em que se guardavam «pelos usos» e a bola da fornada. O porqueiro erguia-se cedo, tocava o chifre, parecido com olifante de Roldão, e os leitões começavam a sair das pocilgas. Recolhia a merenda que lhe traziam as donas, e toca com a vara para o pastio, tendo cuidado especial com os bacorinhos de leite e os mamotos. À noite entrava na povoação ao som da buzina, com aparato igual, cada um se encarregando de apartar para o seu chiqueiro as reses que lhe pertenciam. Nada se pode imaginar mais patriarcal ou pelo menos mais entranhadamente Idade Média.
Com o andar dos tempos, a paróquia alienou as lameiras para reconstruir a igreja em ruínas, tapar com parede de quintal o logradouro que se ficou a chamar cemitério, arranjar as calçadas. O domínio comum passou a mãos particulares, às vezes por uma tuta-e-meia depois de mascambilhas a que nem sempre ficaram estranhos os zagalotes dos bacamartes e os padrinhos de má morte da política."

p.160-161

"Não é com a pulverização da propriedade que se desenvolve o instinto da mesma dado que haja virtude ou proveito social em cultiva-lo. A propriedade que desde longa data se vem retalhando em alíquotas tão miserandas é a causa evidente de grandes ruindades e abusões."

p.263

Passagens de "Aldeia: Terra, Gente e Bichos", de Aquilino Ribeiro, escrito em 1946.
Reed. de 2010, ed. Bertrand.

sexta-feira, dezembro 04, 2015

Do they know it's... a Republic?

Um sonho estranho.
Emergiu talvez como água a brotar das fissuras da rocha, a qual pensamos impermeável.

Um jovem, de cara tapada, pintava num muro, a trincha, palavras de ordem contra a opressão.
Contexto inferível: estamos em ditadura, talvez franquista.
Por entre os carros que passam, algumas pessoas, paradas e outras que também passam, observam com olhar medonho. Algumas com olhar persecutório, prontinhas a apanhar o larápio.
Nada contra a Nação, talvez.
Mesmo que dela muitas haja.

Num outro tempo, mas no mesmo lugar, a mesma cena:
Um jovem, de cara tapada, a pintar num muro, a trincha, palavras de ordem contra a opressão.
Mas... outro tempo, agora: é que a ditadura foi deposta.
Não sei se anos da transição, ou pós.
Estamos em Espanha, e não sei porquê.
Mas por entre os carros que passam, algumas paradas e outras que também passam, observam com olhar medonho. Algumas com olhar persecutório, prontinhas a apanhar o larápio.

Este foi o sonho.
E acordei a perguntar-me: estas últimas não sabem que a ditadura foi vencida?

E questiono-me se as estruturas não podem, por vezes, ser, ao invés dos agentes da opressão, ser os garantes dos valores democráticos?

Que pode o regime ser republicano mas os governados serem fascistas.

E penso como, pela lassidão da tarefa de promover os seus valores, a democracia e o republicanismo deixam as pessoas resvalar para o simplismo, para a conversa de títulos de jornal, para a intolerância, a xenofobia e para as explicações e justificações de estarem assim ou terem que ser assim ou assado.

Pondo as coisas claras, é óbvio que a democracia, no seu estado são, contém, tem de conter, uma dose inquebrantável de intolerância: intolerância para com os valores que lhe são contrários e que a põem em causa. De acordo com tal tábua de valores se julgam os que sob ela coexistem.
Já não é tão óbvio que a democracia tenha de conter e usar da violência para aplicar tal intolerância, uma vez que a primeira, em primeiro lugar, a limita, e em segundo, lhe é contrária.

E assim chegamos aos que usam o sistema democrático para destruir, por dentro e em sede própria, a democracia. Legislando, por exemplo, no sentido de restringir o poder de decidir, instituir a outorgação, a empreitada, a nomeação directa. Legislando contrariamente à tendencialização da igualdade de oportunidades e da gratuitidade dos direitos e valores que enformam e definem o regime republicano e democrático: Paz, Alimentação, Saúde, Educação, Habitação, Mobilidade. A que acrescentamos o respeito pelas / e fomento da saúde ecológica, diversidade e riqueza culturais, geográficas (paisagísticas, biológicas e humanizadas).

Como a Justiça faz sentido é para os mais fracos: para que precisa o poder (económico, sobretudo) de ir a tribunal? Só se for para corroborar, numa credibilização social equiparável à sacrossanta ciência, o seu poder. Também no domínio da Justiça, onde supostamente os critérios económicos não devem ter interferência.

Estamos longe das querelas sobre as aritméticas e as virtualidades constitucionais da representação parlamentar do novo governo. Até porque esta é bem mais que aplicável, uma reflexão filosófica e conceptual.

Podem continuar os governados a pensar o contrário do que pensam aqueles que elegem, mas sempre haverá alguma coincidência nas ideias. Daí a importância, também aqui, da diversidade representada.
E é tudo uma questão de proporção. Dentro, uma vez mais, da representatividade possível ou vigente.


O remate desta dissertação é o de que numa República, a Assembleia e o Governo que governa DEVEM gerir as coisas públicas, a "res" "publica". Não a coisa privada, nem muito menos as coisas PARA os privados. Falamos aqui, em primeiro lugar, do que se pode constituir como materialização de poder económico.

Acaso saberão eles que isto é uma República?

O postulado inerente a todo este raciocínio é o seguinte:
Se a República promover e souber fazer valer os seus valores, através da forma como funciona, atingindo os valores que defende, as pessoas governadas tenderão a respeitá-la / -los e, a promovê-la/-los e defendê-la.
E, ao contrário,
Se a República for minada, se mediante instituições e legislação se tender a contrariar os seus valores, as pessoas governadas tenderão a afastar-se dela. Por exemplo, deixando de acreditar nela, deixando de participar. Quando dermos por isso já nos transformámos em fascistas.

Acaso saberemos nós que vivemos numa República?
Se não nos sentimos bem nela, não somos nós que temos de nos mudar, mas sim temos de mudar o regime.
Agora, vivendo num tal regime, ou é ele que vai moldar-nos para que o respeitemos e fomentemos, ou vamos fazendo os possíveis para o minar.
Às vezes basta não tomar posição.
Isso (não tomar posição incluído) define a nossa posição, os nossos valores, e, em princípio, clara e obviamente, se somos fascistas ou democráticos sãos.






quinta-feira, junho 26, 2014

Os Jogos da Cabeça

Desde que vivo entre os homens, é sem dúvida o último dos meus cuidados que falte um olho a este, uma orelha àquele e uma perna a um terceiro, e que outros tenham perdido a língua ou o nariz ou a cabeça.

Vejo, e tenho visto, horrores piores, uns de que prefreriria não falar, e outros que nem sequer consigo calar; vi homens a quem tudo falta à excepção de um único membro demasiadamente desenvolvido, homens que apenas são um grande olho ou uma grande goela ou uma grande pança ou outra qualquer deformidade; a esses chamo enfermos às avessas.

Quando abandonei a minha solidão e, pela primeira vez, atravessei esta ponte, nem podia crer no que os meus olhos viam. Olhava de um lado, olhava de outro, e acabei por dizer: "Isto é uma orelha! Uma orelha tão grande como um homem!" Porém, olhando mais de perto, vi que sob a orelha se agitava outra coisa lastimosamente pequena, miserável e débil. E em verdade, a enorme orelha estava poisada sobre um caule fininho e curto, e esse caule era um homem! Com o auxílio de uma lente, podia-se mesmo distinguir um pequeno rosto invejoso e uma pequena alma empolada que pendiam da extremidade do caule. Contudo, o povo assegurou-me que aquela orelha não só era um homem, mas até um grande homem, um génio. Mas eu nunca acreditei no que o povo diz acerca dos grandes homens, e continuei a crer que se tratava de um enfermo às avessas, com muito pouco de tudo, e demasiado de uma coisa só."

"Da Redenção"
in Assim Falava Zaratustra, Friedrich Nietzsche*


A cabeça, a capital, o capital: três designações para uma mesma coisa: a acumulação: de decisões e ordens, de poder administrativo emanatório, de poder económico e seus correlativos sequazes e algozes. 

E vários aspectos atestam o carácter concentracionário da sociedade capitalista em que nos obrigam a sobreviver.

Com o encerramento de escolas e a consequente deslocação dos alunos para "novíssimos centros escolares". Gasta-se num lado para supostamente poupar noutro, se esse é o critério primeiro.
Com a extinção das freguesias e a deslocalização dos serviços (centros de dia, juntas, Gabinetes de Inserção Profissional...) para a freguesia mais rica ou mais povoada. Poupa-se imenso, e ficam imensas pessoas sem acesso. Mas isso é secundário. Essas passam a suportar os custos, que quem lhes disse que tinham direito?
Com o encerramento de hospitais.... (mais do mesmo...)

A regionalização falhou: dissemos não.
Teremos dito não à regionalização ou apenas às propostas das novas regiões com autonomia administrativa?

Uma ideia terá sido boa e posta em prática: as mui afamadas (bem ou mal, que decida cada um) Lojas do Cidadão. Pessoalmente, e entendendo que a forma como designamos o mundo traduz uma forma de o encarar, preferiria que o nome fosse "Espaço do Cidadão", varrendo à partida a índole comercial com que se apresenta. E que, em verdade, também contém.

Com a concentração (lá está a questão) de serviços num só espaço, poupa-se tempo de deslocações dos utentes, criam-se simbioses entre entidades (a recentemente falada intenção de se lhe juntar os centros de emprego seria extremamente positiva, dada a íntima relação destes com a Segurança Social...), facilita nos horários de funcionamento e, - factor que nos é caro - como a localização das Lojas sói ser no centro da vida das cidades e sedes de concelhos / distritos, cria afluência de pessoas e dinamiza essas mesmas zonas.

Em Braga, a deslocação do maior serviço de saúde para a periferia (uma espécie de ilha, que requer pagamento de passagem, com transporte e, na maioria dos casos, estacionamento... em suma, um negócio bem montado de raiz e com autores bem identificados) constituiu uma depressão imensa para o comércio (se querem usar o factor capital como argumento, usemo-lo então!) local. Atente-se no próximo Centro Comercial dos Granjinhos e no (já antes vazio?) São Lázaro. Quem conheceu as duas fases saberá identificar nitidamente muitas diferenças.

A autonomia das autarquias é coisa que sempre fica no papel.
A pensar nas más práticas empregues pelos diferentes caciques, será que vale mais o prejuízo (vulgo roubo e atropelos) estar distribuído pelo país, ou, maior, estar concentrado na capital?
Isto é inquinar a questão, já vos entrevemos a apontar a muleta, seus acusadores hílaros.
Era só uma questão.
Falcatruas e moscambilhas tanto as há no poder central como no poder local.
Além disso, quando as coisas dão "mesmo" prò torto ainda dá para ir apanhar um sol e perder uns quilitos na choldra. Pois então, porque não?

Quando o que se pretende sempre - e com tantas negociatas e novelas de permeio até nos esquecemos do essencial - é que as populações estejam mais bem servidas, que aquilo de que precisam funcione melhor e lhes esteja mais acessível.
O equilíbrio necessário, por achar, entre o poder e a proximidade vai no bom sentido (consoante os adeptos, entenda-se) quando se encara a política como o poder da proximidade e não como a concentração do poder.
Análise, aliás, muito fácil de fazer, se pensarmos um bocadinho. Daí o antagonismo entre uma ditadura (sob qualquer forma e por escudada por qualquer nome) e uma democracia verdadeiras.

A massa dos eleitores delega em alguns (Presidentes, Governos, Assembleias) o poder. Para que quando a democracia afinal não o era descobrirem que esses poucos decidem contra eles. Os traidores que devem ser punidos com bem mais que uma não-eleição. Com processos-crime, se assim se justificar. Sim, os casos podem justificá-lo. Se os interesses são tanto mais lesados. 
É isto que está em jogo nos jogos do poder.
As decisões afectam uns e outros, mais uns que outros e de maneira distinta uns e outros. Favorece uns, prejudica outros.

É a chamada Insegurança Social.
Quando esperamos uma coisa e não sabemos o que nos espera.


A bomba-notícia de encerrar o atendimento geral - de excelência (falo com conhecimento e também como parte interessada - já o explicitarei) - do serviço da Segurança Social na Loja do Cidadão de Braga é uma medida que está na sombra do conhecimento público. Isto é, à sombra e à revelia dos principais interessados na sua manutenção.

Assinem a petição contra esta decisão de um rei-iluminado clicando na imagem.
http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT73960


E esta intenção que ainda não é notícia, mas que estamos ajudar a denunciar, é contrária ao espírito democrático e, contrariamente ao que designa, descentralizador que levou à criação das Lojas do Cidadão pelo país fora.

A vontade não deriva do poder central da capital. Pelo menos, não directamente. Emana do capitão distrital da equipa. Supõe-se que com as directivas "europeias" do Governo português (serviços idênticos de outras lojas não parecem estar em causa), ávido de poupança (? já lá vamos) por trás. Isto não iliba, de maneira nenhuma, a correia de transmissão Rui Barreira, estratégica e coincidentemente colocada após a tomada de posse do presente Governo português: apenas se lhe soma, agravando a malfeitoria antidemocrática e já costumeira destes nossos supostos representantes contentinhamente eleitos.

O objectivo alegado é ter um mega-atendimento na sede distrital. 
A frase está mal-formulada.
Talvez pretenda ter um atendimento atulhado, ou seja, em quantidade, concentrado (lá está...). Um mega-atendimento (lá está) e não necessariamente um atendimento de excelência. Porque esse já os utentes o têm. Num lado e noutro.
A questão é a distribuição. Agora e sempre.
A da facilidade de acesso.
A da disponibilidade do horário: vai uma pessoa perder um dia de trabalho porque vai deixar de ter o sábado para tratar dos seus assuntos para com a Segurança Social? Ah, pode ir ao fim do trabalho. Errado. Vai deixar de poder. A sede fecha às 17h, a da Loja do Cidadão encerra às 20h. Pretendem mudar o horário da sede?

(esta é a minha parte de interessado. Serei o único?)

Não, não, calma, só vamos retirar o atendimento geral. A entrega de documentos permanece na Loja do Cidadão. 
Ai sim?, e o que leva tanta gente lá é a entrega de documentos? Não nos parece, e os números falam por si, somados de parcelas vindas de todo o distrito... (e este factor levar-nos-á a outro interessado). Conjuntamente, o Registo Civil, a EDP e a Segurança Social representam a razão de ser da Loja do Cidadão.)
Ficando esvaziada de sentido a mera entrega de documentos cedo se justificará - e bem! - a retirada da Segurança Social.
E aí é que está a jogada última, o objectivo último desta intenção.
A saída, definitiva, airosa, e a consequente poupança da renda.

E aqui entra o tal interessado.
O Governo português, se assim é do seu interesse, tem à sua disposição espaços e edifícios onde poderia não pagar rendas para os seus serviços.
No caso cá do burgo, foi uma jogada com o cacique local Rodrigues & Névoa. Os contribuintes pagam e não dão por nada.
Tomai, que é para terdes isto aqui à mão, acessível.
Não era isso que queríeis?

Se cai o pilar do tripé da Loja de Cidadão de Braga, isso não fará cair a cadeira? Necessariamente. Será uma questão de tempo.
A administração da Rodrigues & Névoa foi consultada para a tomada desta decisão? Não devia a empresa acautelar-se e impedir o que é bem provável?
Ora, é parte muito interessada. Que será daquele edifício, já de si quase vazio,?

Membros sem cabeça não fazem nada e uma cabeça que não é suportada pelos membros logo cai ao chão. 
Andar aos caídos é andar com uma cabeça que ninguém, nem nada suporta.
O divórcio entre as vontades de quem decide e quem mais é - negativamente - afectado pelas decisões tem de ter necessariamente consequências.

Estamos aqui, do lado da base, do lado dos membros desapossados, a corroborar a declaração de guerra.
Estes jogos da cabeça darão cabo da cabeça.
Mas parece que nenhuma das partes sairá ilesa...


"O povo assegurou-me que aquela orelha não só era um homem, mas até um grande homem, um génio. Mas eu nunca acreditei no que o povo diz acerca dos grandes homens, e continuei a crer que se tratava de um enfermo às avessas, com muito pouco de tudo, e demasiado de uma coisa só."



* Volto a insistir, prefiram a tradução de Carlos Grifo Babo e esqueçam as outras.

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Edward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical (II)

Redefinindo a problemática espacial

O desenvolvimento de uma análise espacial marxista sistemática coincidiu em boa parte com a intensificação das contradições sociais e espaciais tanto nos países centrais como nos periféricos devido à crise geral do capitalismo que se inicia nos anos 60. Mas já antes houvera precursores importantes dentro da tradição marxista ocidental que não deviam ser descurados.

Por exemplo, entre 1917 e 1925, na URSS, um movimento de vanguarda de planeadores urbanos, geógrafos e arquitectos trabalharam para conseguir “uma nova organização espacial socialista”, correspondendo a outros movimentos revolucionários na sociedade soviética. Não se encarava a transformação espacial como um subproduto automático da mudança social revolucionária mas, sim, que ele implicava também luta e a formação de uma consciência colectiva. Sem esse esforço, a organização pré-revolucionária do espaço teria continuado a reproduzir a desigualdade e as estruturas de exploração. Tais actividades inovadoras deste grupo de pensadores espaciais radicais nunca foram aceites e a sua experimentação revolucionária na reconstrução socialista do espaço acabou por ficar pelo caminho da industrialização e da segurança militar estalinista. O produtivismo e a estratégia militar dominaram a política espacial da União Soviética, quase enterrando por completo o significado de uma problemática espacial mais profunda na transformação socialista.


Esta planificação, das grandes praças, feitas para ou depois utilizadas (cada um apropria-se do espaço como puder...) para, por exemplo, concentrações, manifestações, demonstrações de poder ou fruição da vista aberta, implica a pré-noção, clara, de que não há neutralidade possível no "contentor" que é o espaço. O espaço ensina, permite umas coisas, impede outras. É, aliás, interessante uma das passagens de Soja, referindo-se ao seu estudo sobre Los Angeles, que, paradigma, segundo o autor, das grandes metrópoles (tal é o objecto do seu livro de 1996), contém em si a arquitectura da opressão. Não falando necessariamente no securitarismo da vigilância, nem das cidades-prisão, aponta alguns aspectos, citando Mike Davis e o seu livro "City of Quartz", como: bancos anti-mendigos, ausência de casas-de-banho públicas (humm, onde é que eu já ouvi isto?...), contentores do lixo protegidos e sistemas de rega que se ligam aleatoriamente durante a noite para dissuadir as pessoas de dormir na rua...

E se a organização urbana de estilo soviético faz isso, ela foi construída para inculcar valores e concepções que se insurgem contra aquelas, mais ou menos inconscientemente, instituídas pelo espaço urbano capitalista.

Mas continuando.

O capitalismo foi capaz de atenuar (senão resolver) as suas contradições internas durante um século e, consequentemente, nos cem anos decorridos desde a edição d”O Capital”, conseguiu alcançar o “crescimento”. Não podemos calcular a que preço, mas sabemos os meios: ocupando espaço, produzindo espaço.


Henri Lefebvre, A Sobrevivência do Capitalismo, 1976


Lefebvre relaciona este espaço capitalista avançado directamente com a reprodução das relações sociais de produção, ou seja, os processos pelos quais o sistema capitalista em conjunto pode expandir-se mantendo as suas estruturas definidoras. Ele define três níveis de reprodução e argumenta que a capacidade do capital para intervir directamente e afectar estes três níveis se incrementou com o tempo, com o desenvolvimento das forças produtivas. Em primeiro lugar, existe a reprodução bio-fisiológica, essencialmente no contexto da família e das relações de parentesco; em segundo lugar, a reprodução da força de trabalho (a classe trabalhadora) e dos meios de produção; e em terceiro, a reprodução ainda maior das relações sociais de produção. Sob o capitalismo avançado a organização do espaço passa a estar predominantemente relacionada com a reprodução do sistema dominante das relações sociais.


Vejam-se as cidades em que os espaços verdes, públicos, e os equipamentos colectivos são "des-alvo" de investimento e cuidado, sendo reduzidos e depauperados a cada novo censo que constitui um PDM. Já repararam que as árvores que temos, por exemplo, em Braga, são árvores que herdamos? E que herdámos de um passado já remoto: não tem havido expansão de área verde nem plantação de novas árvores com carácter duradouro em Braga. Tal traduz uns valores e, a nosso ver, trata-se de uma colonização dos espaços privados e das actividades económicas a substituírem a fruição livre da sociedade. Nada de novo, mas é também este o "direito à cidade" de que nos fala Lefebvre.

O espaço construído, sim, esse mesmo, fisicamente, a sua disposição, o que podemos fazer com ele, como nos movemos e o que realmente fazemos nele... ensina, transmite valores. E não é de admirar que seja uma corrente muito presente na sociedade portuguesa o pensamento único, separatista, xenófobo e fascista. Os ciganos, atirados para um canto. Os velhos, a ruírem por dentro da decadência, central ou periférica, da cidade. As crianças só vão ao centro para as creches, infantários e escolas: nada mais há lá para eles, já que os grandes centros comerciais, grande chamariz hipnotizadora, só podem expandir-se fora dos "cascos" ou das "cidades velhas". Há no centro de Braga uma praça, dita da República, e é sintomático como ela tem vindo a ser esvaziada: de pessoas, de actividades, de sentido. Isto, ironia, apesar de ser centralíssima para as actividades económicas... É estranho, não é?


Tais condições reproduzem-se no espaço produzido socialmente (tanto o urbano como o rural), numa espacialidade produzida e que foi sendo crescentemente “ocupada” por um capitalismo expansivo, fragmentado em pedaços, homogeneizado através de mercadorias diferenciadas, organizado através de localizações de controlo, e estendido à escala global. A sobrevivência do capitalismo dependeu desta produção e ocupação diferencial de um espaço fragmentado, homogeneizado e hierarquicamente estruturado, alcançado em grande medida por um consumo colectivo controlado burocraticamente (isto é, pelo Estado), pela diferenciação de centros e periferias a várias escalas, e pela penetração do poder do Estado na vida quotidiana. A crise final do capitalismo só poderá dar-se quando as relações de produção já não puderem reproduzir-se mais, e não só porque se pare a produção (estratégia permanente do operariado).

Assim, a luta de classes (sim, ainda há luta de classes) deve incluir e focar-se no ponto vulnerável: a produção do espaço, a estrutura territorial de exploração e dominação, a reprodução, espacialmente controlada, do sistema como conjunto. E deve incluir também todos os que são explorados, dominados e “periferizados” pela organização social imposta pelo capitalismo avançado: camponeses sem terras, pequenos burgueses proletarizados, mulheres, estudantes, minorias raciais, bem como a própria classe trabalhadora. Nos países capitalistas centrais, a luta, argumenta Lefebvre, assumira a forma de “revolução urbana”, lutando pelo direito à cidade e pelo controlo da vida quotidiana dentro do contexto territorial do Estado capitalista. Nos países menos industrializados, também se centrará na libertação e na reconstrução territorial, na tomada de controlo da produção do espaço e do seu sistema polarizado de centros dominantes de periferias dependentes dentro da estrutura global do capitalismo.


Com esta argumentação, Lefebvre define uma problemática espacial no capitalismo e eleva-a a uma posição central dentro da luta de classes ao colocar as relações de classe dentro das condições que configuram o espaço socialmente organizado. Não defende que a problemática espacial tenha sido sempre tão central. Nem apresenta a luta pelo espaço como substituta ou alternativa à luta de classes. Argumenta sim que nenhuma revolução social pode triunfar sem ser também simultaneamente uma revolução conscientemente espacial.” 

domingo, dezembro 22, 2013

O amor do Zé Povinho por Lisboa...


Avenida Praia da Vitória, Avenidas Novas, Lisboa, 22.12.2013.

segunda-feira, agosto 12, 2013

Sem direito a publicidade



Manifestantes prometem voltar enquanto a estátua do cónego Melo permanecer em Braga. (ler mais AQUI)

Coisas que merecem as nossas vacances permanentes. Como diria o Vian:  j'irai cracher sur vos tombes. 

[estátua]

segunda-feira, julho 22, 2013

Da instabilidade (e) dos mercados (e do ensanguentamento, orgulhoso, das mãos com luvas)



Público em linha, hoje, 22.07.13


Crises há muitas, e nós somos os palermas.

Parece que a convocação de eleições antecipadas representa instabilidade para os países. 
Ah, correcção, para os mercados.
Que, interligados e anónimos, não são nacionais. 
Não só, nem tampouco nacionais.

Donde se depreende que a economia e as finanças (mundiais e de trazer por casa) são inimigas da Democracia.

A Democracia, essa rameira à força, funciona.
Ponto final.
Funciona até ao momento em que vais testá-la.
Por exemplo através de eleições.
Ou de alguma petição para alterar alguma coisa que inverta o processo de desapossamento de muitos engendrado por uns quantos.

Mas... e porque seria o contrário (o desapossamento de uns quantos pelos muitos) mais legítimo?, poderiam os statusquoístas contra-argumentar, inquinando a reescrevendo toda a História e cartesiana filosofia de ser da Democracia.

Mas a questão, já falámos dela até à ponta dos cavacos.
Mesmo assim é mais importante que a nova ministra oculta ir mostrar o buraco, segundo a bela prosa e óptimos directores do Jornal de Notícias.

A instabilidade é, portanto, inimiga dos negócios.

E é aqui que se demonstra como Portugal é um país atrasado.
Porque em países mais avançados (avançados porque já passaram por esta fase) souberam as empresas fazer negócio com instabilidade.
Correcção: "...fazer negócio com A instabilidade".

Passa um anúncio a dizer o seguinte:
"Os estudos mostram que tem havido uma subida de assaltos a casas."
(Solução?)
"Agora existe o vero não sei quantos (lá o que dizem os lábios da menina espanhola cujos contornos, dos lábios, não coincidem com a fala que ouvimos), o sistema de segurança que protegerá a sua méson dos larápios.

Dos larápios à moda antiga, especifique-se.
Mas na publicidade tudo é superficial, desde os sorrisos ao convencimento.

Donde se depreende que... a insegurança é boa para o negócio.
Pelo menos para este.


E a the next big idea vem da parte de um moço que, acelerando o processo que existe na natureza e que produz o inquinamento que está a arruinar o mundo, mais conhecido por petróleo.

Para isso, pega-se em biomassa, coloca-se esta num reactor, retira-se-lhe a humidade e o resultado, líquido, é um composto muito semelhante ao crude, que pode, diz o jovem de trinta anos, ser refinado com os convencionais processos usados por qualquer petroquímica do mundo.

Mas, alto, então vão pegar em biomassa verde e transformá-la em petróleo?
Calma.
Mas quem disse que era biomassa verde?
O lado bonzinho é que esta nova forma de fazer dinheiro se insere já na economia da catástrofe: a biomassa usada para tal é proveniente dos matos ardidos - ou seja, uma coisa que acontece naturalmente todos os anos em Portugal, como todos nós sabemos.
Correcção, uma coisa que acontece normalmente todos os anos.

Donde se depreende que os incêndios são, também nesta nova variante de aproveitamento, bons para o negocídio.
Pelo menos para este.


Numa Visão muito recente falava-se da extracção de petróleo por fracturação hidráulica. E que, assim, há imensas reservas à espera da nossa ganância. Incluindo na China, território delimitado enorme.

Termina o artigo o excelente propagandista a dizer:
A questão é a de saber se ainda vamos a tempo... 
A tempo para fazer baixar o preço do petróleo.

Isto é, andamos prà'qui entretidos a discutir as alterações climáticas, a perda de biodiversidade, de habitats e de espaços húmidos, a poluíção atmosférica, os problemas de saúde, os refugiados ambientais, os derramamentos de petróleo, a escassez e os conflitos pela água, os milhos transgénicos, que vão salvar o terceiro (mas só o terceiro...) da fome...

Espera, nós não estamos a discutir nada disso...!
(andamos entretidos com a crise)

Mas... e o artigo não menciona uma única palavra sobre os devastadores danos ambientais que tal extracção de petróleo implica.
E andamos nós a tentar mudar de paradigma e este tipo de propaganda, o que lhes interessa, é continuar a formatar os leitores informados para que alimentemos este, destruidor e a ultrapassar urgentemente.

Só falta depois criarem empresas especializadas na limpeza (se esta fosse possível) da porcaria que as perfuradoras deixam para trás.
Limpeza paga em nome de todos, paga, portanto, por todos, a essas empresas, então, entretanto criadas.

Andamos a tapar o sol com a peneira. Rota.



As empresas de reconstrução após a catástrofe têm muito a ganhar.
Porque alguém tem de a pagar.
Porque alguém tem de lhes pagar.
A elas compete-lhes fazer o melhor serviço.

As empresas de reconstrução após as guerrinhas, travadas lá longe das suas sedes, têm muito a ganhar.
E se ganham muito, depreende-se que essas guerrinhas são boas para o negóciozinho.
Donde se depreende que, quantas mais, melhores as cotações nos mercados.
Mercados anónimos, negócios locais com chupismos de todo o lado, e vítimas globais que apenas (poderia ser doutra forma?) se manifestam a nível local.

O passo seguinte é piorarmos a visão e num momento da deslucidez para que o desespero nos empurra é depreendermos que também as catástrofes naturais (sismos, maremotos, queda de diques, Katrinas, etc.) são provocados.
Porque tudo o que for bom para o negócio tem muita força.

Portugal está a habituar-se à instabilidade há já alguns anos e as empresas estão a adaptar-se a isso.
E assim, todos os valores impostos, que são as empresas que mandam enquanto não mandarmos nós (que, por coincidência, trabalhamos nelas ou, menos, para elas) são invertidos e as sociedades passam a caminhar de costas para a frente.

Belo futuro!
Troca de favores: garantimo-vos o nosso presente em troca do futuro que prometeis para nós.

Contai com todos os cavacos mercadológicos para no-lo assegurarem.
A todo o custo.

O sangue é um osso do ofício.
Correcção: o sangue dos outros é um osso do ofício.
As mãos, com mestrado tirado nas melhores universidades internacionais, estão preparadas para lidar com os o brilhantismo dos açougues e e dos carniceiros.


Ah! Tal sistema e tais processos não são sustentáveis.
A corrupção é um beco, pois que se come por dentro, enrolada nas trapalhadas que cria.
Aceleremos isso, não pactuando com ela, ou infiltrando-nos nela e explodindo-nos, kamikaziamente, com ela.

Mas continua a ser tarde...
Somos os palermas de antanho.


terça-feira, julho 16, 2013

Contra a Terra Queimada

The spectres scratch on window-slits, 
the hollowed faces and mindless grins 
are only intent on destroying what they've lost. 

"A Plague of Lighthouse-keepers" (SHM), Peter Hammill 

Diz-de da política da terra queimada como da doutrina do choque capitalista: arrasar tudo.
Há quem prediga Portugal a renascer da destruição: há que alimentar não a ele, mas a ela! 

Os mercenários quotidianos, caseiros e foráneos, do capital estão sempre lá, nos bastidores, pois criaram e mantêm, com a nossa cumplicidade, a economia do desperdício e da destruição para dela serem reis e senhores e amestrarem e produzirem, assim, os seus inferiores. 

Há uma cadeira afogada num rio que não é um rio. 
E ninguém vai lá sentar-se. 
Mesmo sem sofrer de rouquidão ou padecer de afonia. 
Será do frio? 

E a água que não é bem água, umas vezes tem peixinhos a querer crescer, outras leva-os, mortos, sem saberem bem o que foi que os matou. 

A saúde de uma cidade pode ver-se pela saúde das suas águas, o desenvolvimento de uma sociedade pela protecção e pelo respeito que confere aos mais velhos e o progresso duma economia aferir-se pelo grau de igualdade entre os rendimentos. 
Mas tudo isso é outra história. Na qual, nos dizem, que não podemos tocar: é inevitavelzinho. 

A política da terra queimada é para ficarmos a sorrir, já sem razão nenhuma, para os destroços que ficarão, se formos nós os assassinos incendiários e destruidores. 
Já que tudo se perdeu, para ninguém mais ficará, diz a inveja depredadora que tudo pretende esterilizar pelo caminho. Deixando para trás caminhos todos por recomeçar. 

E é com tal cinza em pedra que nos vamos confrontando pelos recantos dum país ainda com tanto encanto para cantar. A terra despida, a terra despojada de solo, sulcada e ferida, arrasada pelas chuvas tão úteis mas tão inutilizáveis. Sem estrutura, nada fica. 

Foi para combater isso que o Movimento Terra Queimada surgiu. 
Precisa das mãos de todos os que quiserem ajudar na batalha.





No âmbito de um concurso europeu, o projecto Semear a Vida em Sítios Desertificados aguarda pelo nosso apoio. Neste momento faltam 34 dias para votar os dez melhores e - adivinhem - a proposta deste movimento de Vila Nova de Gaia encontra-se em primeiro lugar. 
Será muito bom - e é bem simples - se tal posição se mantiver. 
Basta votar! 

Neste preciso momento, o Movimento Terra Queimada está a procurar voluntários para vigilância e prevenção de fogos florestais e outros danos na Serra da Freita (distrito de Aveiro), no tão pouco conhecido, pleno de potencialidades, e tão mal protegido Geoparque de Arouca (as parideiras e a Frecha da Mizarela e tal... mas há muito mais neste espaço fantástico!)

Será durante a época de Verão. 
Voluntários precisam-se! 

O Movimento Terra Queimada está no Feicebuque e espera pelo vosso contacto. 
Quem estiver interessado em ajudar no que diz respeito a todos, pode fazê-lo inscrevendo-se aqui

Bem-haja a movimentos como este, apaixonantes e congregadores de fogos criativos e boas energias. Renováveis.
O Georden associa-se-lhe e cá viremos depois dar-vos as nossas impressões da acção.

sexta-feira, julho 05, 2013

Os Anjos de Pureza

"- Quem foi o responsável por isto??
Quem é que o deixou entrar?
Vamos abrir um inquérito e iremos punir os culpados!
É tudo por agora.
Não haverá lugar a perguntas."


Imagem daqui

Assim falou, em conferência de imprensa, irado e furioso, inquiridor, acusador e inquisidor, o maior cego dos tempos calcinados.

O louco acabara de descobrir, coitado, acolitado e empalado, que deixaram entrar o sol na terra.


(Sim, claro, mas, obviamente, mais do que o habitual.
E sabemos do que estamos a falar...)

Ai o purista!!
Nem admite dúvidas.


(Ah, só para informar os caríssimos cegos de que os culpados irão ser punidos sem necessidade daquele inqueritozinho persecutório.)


O purismo é igual a nada: pois todas as concepções mentais separatistas acabarão a morrer na praia a debater-se entre os dualismos. Sejam os do corpo e da alma ou, primordial, o da forma e do conteúdo.

Mesmo assim, admitem, hipocritamente, quais pregadores da mortífera religião católica, que uma coisa nada tem que ver com a outra e que a independência é um facto.

Só à custa de muita propaganda é que lá chegam.

E se esta julgam necessária é já sinal de que tal ideia não decorre de cada um a descobrir.

Os sistemas fechados, física e geofisicamente, não ocorrem na Natureza. Há sempre algo que escapa, sempre algo que, mesmo que em quantidades diminutas, entra nele.

A água da Terra interage com a biosfera, ela própria tendo-a como constituinte.
E se tudo fosse fechado, sem intervenção do exterior, a luz nem sequer entrava, amigo de óculos escuros e bengala a dar a dar.


Imagina o teu ser, já que podes, antes de ser ser capaz de pensar. Pois seria isso o que serias se não interagisses com o meio, que - já nem vou falar de "ingerires" as coisinhas suculentas e sucurrápidas do meio - a luz não entrava, que o oxigénio não entrava, nem o dióxido de carbono saía...


Tu não existes, ó purista!
E eu aqui te denuncio de uma vez por todas!

As fronteiras são arbitrárias e existem apenas para não perdermos a consciência de que elas são transponíveis. E que é NECESSÁRIO que assim seja.

Para seres o que és e para sermos o que somos.

És um ideólogo quase perfeito da manipulação.
O tal da mão invisível.

Dos mercados.

Sem quaisquer intevencionismo - MANTENHAM OS ESTADOS FORA DA ECONOMIA! - assim gritou o senhor Friedman e seus sequazes petizes boys chicaganos a borrar o mundo.



Mas algo falhou, estúpido.

E não foi a economia.
Foste tu e a tua besta criada teoria.
A dita abertura, a ditadura dos mercados, da economia livre e todas as balelas que nos tens feito engolir, qual merda em vez de pão, desde a década de 50.

E vou passar a explicar-te porquê.


A economia não levou as coisas ao sítio, normalmente: apenas acelerou a transferência da riqueza para o poder. Não está na normalidade, económica ou o raio que a parta mais for, a insustentabilidade dos ciclos com becos ocultos, mas segurados, securitizados.


Imagem daqui


Essa seria a primeira explicação. Mas ainda não te chega, sei que não. 

Crente sou, a querer fazer ver o cego pior, o cego que não quer.
Mas alguém mais - tu nem me interessas, que nada és sem os que se te submetem - há-de ver as razões.


A tão propalada e defendida não intervenção do Estado, em nome da justiça e da liberdade - ECONÓMICA, claro, seu carecedor de definições, apto às manipulações nas omissões - :


a) "flexibilização" laboral [para despedir melhor, para pagar menos, para reduzir as férias, para impedir liberdade de associação, reivindicação (sim, quem reivindica também está a empurrar-se para a posição de submissão, pois mantém-se na situação de pedir...)... para tomar consciência de que as coisas são ordenadas e que, se assim são ordenadas, de outra forma o podem ser]


e (basicamente)


b) concessão dos serviços aos privados (dizes ser em nome da eficiência económica, mas sua besta, com ou sem ela eu já te descobri a careca!),


e tal inclui tudo o que diz respeito a todos


- a Saúde
- a Educação e o direito à diversidade de opiniões
- a Segurança Social
- a Habitação
- a alimentação
- a água
- os transportes públicos
- as estatísticas
- o DIREITO ao trabalho
- a manutenção dos espaços públicos
- a gestão dos parques florestais e reservas e recursos naturais (detesto o emprego da palavra "recursos", em "recursos naturais", pois faz depender o entendimento de os mesmos são para usarmos... ou que estão ao nosso serviço... económico, até, claro!)
- o poder de decidir sobre estes assuntos
...


Com o cerceamento exacerbado destes direitos, decorre

não o direito de fazer a guerra, que o monopólio, reparámos, está do teu lado, mas o direito de sofrer com ela...


A concessão é a delegação e esta é o princípio da não-representatividade, e, por sinédoque, do funcionamento sempre cambaleante da injustiça. Seja esta praticada em Capitalismocracia, em Comunismo, ou no que mais te apetecer chamar-lhes.


A concessão dos serviços de todos às empresas de alguns (sob as quais se escondem, vermes protegidos, os "accionistas") não é para garantir, necessariamente a sustentabilidade económica, mas - A RAZÃO ESTÁ MESMO À FRENTE DO NARIZ E É POR ISSO, A PROCURAR RESPOSTAS MAIS LONGE, QUE A NÃO VEMOS - para garantir - de imediato e na própria prática presente, sem esperar de resultados futuros - a transferência dos dinheiros públicos para o bolso dos privados.


O que distingue ambos os interesses, não queres perguntar?

É que um, simplesmente, zela pelo interesse da maioria e outro pelo interesse da minoria. Como não se podem confundir, ambos inventaram uma sua correspondente materialização: o lucro para eles, os danos para todos os outros.


O capitalismo é verme por natureza.

Por isso é que nunca deixará de ser injusto, de manter e amplificar as injustiças e as desigualdades.


Vêde bem, como Portugal é dos países onde a desigualdade económica mais tem crescido nos últimos anos.

O Junqueira explicava há dias, que, apesar da crise e da pobreza, os bilhetes dos festivais eram muito caros mas que isso se deve à capacidade para muitos poderem suportá-los, pois que a diferença de rendimentos assim lhos permite. E assim os grandes festivais vão parar às capitais, que são as capitais do capitalismo. Portanto, das maiores disparidades de rendimentos.


E, conclui, é por Portugal ser um país pobre (tratemos de redefinir que a riqueza ou pobreza de um país não é o valor da média dos rendimentos, mas a, respectivamente, menor ou maior desigualdade entre eles) que os festivais campeiam e estão cheios.

E que é por isso que tem tanto sucesso o Rock in Rio, festival exportado, mera coincidência?, de um dos países mais pobres (i.e. injustos) do mundo. O Brasil.

(Vêde como o sobrinho do Cavaco e a sua terratenente-pavilhão-atlanticizada privada empresa nos vai enojando até à exaustão com a publicidade ao maior cartaz de sempre do festival de Oeiras. É um privado a inundar a televisão e a rádio do Estado... são parasitas, como sempre foram e não PIDEm deixar de ser - está na sua natureza imperial).

Imagem daqui

O capitalismo é uma festa, mas a maior parte são convidados que não têm para onde ir, inebriados pelo espírito que não lhes resolve a pobreza, a eles, com a opulência ali escancarada à frente...


E é assim que podemos dizer que a promessa da mão invisível só resultou se este acelerar das desigualdades fosse o primeiro ou o único propalado benefício da desregulação e do esvaziamento dos Estados enquanto moderadores da economia.


Assim, sim. E a economia livre está a funcionar bem e bem de mais!

O problema (e já lá vou) é que isto equivale a dizer que economia livre é contrário de democracia.
Tal como, a par e passo, o desenvolvimento (tido como crescimento, para uns, e destruidor, para todos) é incompatível e contrário da ecologia.
Tal como, qual espelho, o exercício da democracia directa representa uma ameaça ao "normal" funcionamento depradatório e assassino dos mercados.
E é por isso que eles reagem quando algo os pode pôr em causa.
É a censura dos mercados.
Tão livre que ela é...!


Esta perversão deve-se, dizes, a que ainda não houve suficiente desregulação e privatização.

Por isso o pequeno deus caseiro Gaspar dizia que o pior erro era aquele que ainda não tinha cometido, mas que estava prestes a cometer. ("inevitavelzinho a dar c'um pau...") Porque a ideologia do mercado não permite desvios nem intromissões e se o caminho está errado então é porque tem de ser levado até às últimas consequências. Errado para todos os outros, certo para os iluminados da mão invisível. (Mão invisível? A quererem tanta desregulação??)


Mas esta foi a única perversão quiseste iluminar para nós.


Pois o tal purismo que defendes, tu e os teus mal paridos filhos, não deu prò torto só aí: a questão é que nunca o quiseste praticar.

Pois como os sistemas puros, fechados não existem, tu sempre fizeste o teu necessitar do que pretendias combater

- Para impores a ditadura dos mercados, precisaste, helás!, da ditadura militar. 

E o EXÉRCITO é, olha, olha... uma instituição do Estado.
Sim, tens resolvido esse assunto, cortando financiamentos à Defesa e profissionalizando as Forças Armadas, mas só porque começaste a criar mercenários privados. Acaba-se com um serviço estatal e os dividendos ficam todos do teu lado.


- Para garantires os seguros de saúde, as reformas para quem trabalhou e trabalha, criaste empresas e bancos de investimento, enquanto ias depauperando o sistema de segurança social. Mas só se o ESTADO, lá está permitisse que essas tuas empresas pudessem fazê-lo e, MAIS, te pagassem para o fazeres. De que pagamento falo eu então? Não te chega esse dinheiro de todos passar a estar nas tuas mãos??

Assim, acaba-se com um serviço estatal e os dividendos ficam todos do teu lado.


Para forneceres - só a quem pagar, e BEM (leia-se MUITO)! - água, habitação, saúde e alimentação às massas, à ralé, coisas que tu é que decides e classificas e produzes e instituis, crias empresas para o efeito. Delegadas, por despacho administrativo, local e nacional, nunca internacional, que este é o somatório dos grãos a grãos de areia daqui e dali. 

E, para acelerares este processo de transferência, destruíste esses bens enquanto não estivessem ao teu serviço.
Mais uma vez, deu-se a transferência dos dinheiros. Do público para ti.
Por um punhado de milhões.
Que por só estares nisto pelo dinheiro é que te distingue do público.
E assim dita a lei do mercado.
E assim, dita ela, acaba-se com os serviços estatais e os... DIVIDENDOS ficam todos do teu lado.

PERCEBESTE???
SEU ESTÚPIDO...


O Mercado só existe se o Estado existir.

Pois que ainda não acabaste com ele de vez para continuares a chupá-lo.
A nós.


Porque és de natureza injusta, não representativa, e a tua legitimidade nunca foi referendada...


(NÃO SE ABREM INQUÉRITOS, POIS SE SE ABRISSEM DESCOBRIRIAM A RESPOSTA...
E a resposta seria oficializada: NÃO TENDES LEGITIMIDADE PARA CONTINUARDES A EXISTIR E A "funcionar normalmente".)


... é que precisas do Estado: escondes-te atrás dele para fazeres o teu trabalho sujo que é EXISTIRES.

E queres, via propaganda mil vezes repetida, fazer-nos à tua imagem e semelhança, deus vil e estuporado!
Queres reproduzir o teu sistema de pensamento dentro de nós e por todos os países, terras, povos e sociedades.


O buraco financeiro dos países é uma forma anódina e antónima de falar do dinheiro que os privados sugaram aos Estados. Sim, bancos e empresas chupam tudo e depois vêm com reacções dos mercados e sermões de agências de notificação financeira para imporem o seu pagamento.

E os juros da dívida é para os manterem para sempre acorrentados e garantirem a sua sustentabilidade. Sim, a dos bancos, que as pessoas já não querem ter nada a ver com eles. 
Por isso apelam ao Estado, o Estado de que eles sempre dizem ter querido ver-se livres, para salvar a economia. Pois a economia, tal como ela está e existe, é A DELES

Imagem daqui

Para que o Estado apenas continue a transferir o dinheirinho e o poder para os privados. 

Que o capitalismo tem de crescer e crescer, indefinidamente, sem volta atrás e sem interferências. A ritmo constante, senão... crise!!!!

A crise é o estado permanente, nos que comem muito e nos que não comem ou comem mal (de menos e de mais), por isso, não nos venhas falar que o Capitalismo é o melhor sistema com excepção de todos os outros, seu encurralador NATO implacável que tudo esterilizas...

Se não és puro
se não podes ser puro,
se não consegues ser puro,
se não queres ser puro,
Só podes ser corrupto.
E é corrompendo que te exercitas.



Mas, olha, vê lá:

é que isto está tão mau, tão mau, tão desequilibrado, levaste a um agravamento tal das desigualdades, corrompeste as relações sociais de tal forma, fodeste de tal forma o Estado que, imagina tu, é o próprio ESTADO que está agora a ser posto em causa.


E as instabilidades nos Governos não são senão a antecâmara do que pode chegar a ti. São os Governos e os ESTADOS a linha da frente, a carne de canhão que te protege a rectaguarda enquanto tentas dar à sola.


Mas nós vamos cercar-te.

Tal como nos tens feito durante estas décadas todas.
E, lamento, mas também não vamos ter piedade de ti.