quarta-feira, setembro 02, 2015

Visões de génio

Planeamento Urbano 
O que aconteceu à Praça?

Os entraves à comunicação são formados não só por edifícios ou partes de edifícios. O próprio desenho duma cidade pode impedir a comunicação e a comunidade. Tomemos a esquina nas sequências do encontro no filme "O Eclipse". Um romance ou filme tradicional poria Vittoria e Piero a encontrarem-se num café romântico. Então porquê esta esquina anónima do EUR? A pálida intersecção não é um mero cenário. Conforma uma ideia geral. Não é só o espaço onde o par de namorados falta ao encontro mas o culpado disso. Exemplifica, ocasional e comprovadamente, a incapacidade geral de a cidade moderna proporcionar encontros.

O que divide passa de um bloco de betão (na Bolsa; nos valores que separam visões do mundo de cada personagem) para uma barra de metal. Um quase oculta a pessoa, o outro mantém a separação, quase união, mas infranqueável.

Quão distinto é um cruzamento rodoviário de uma praça, o tradicional lugar de encontro dos amantes! A intersecção evoca o que é mais transitório, casual e efémero na nossa sociedade: meros contactos, não encontros programados, entre actuais agitados como Piero, que vive na margem das coisas. A arte de marcar encontros em lugares convenientes perdeu-se para a geração apressada, com os seus carros desportivos e a sua superficial abordagem da vida. Noutros tempos, a solução arquitectónica comum para o problema do cruzamento de ruas era a praça - a piazza (Platz, Plaza, do Latim platea, rua larga) -, o locus classicus da comunidade, onde os negócios do dia dão organicamente lugar à socialização da noite. Na Roma de tantos espaços e lugares esperávamos uma alternativa mais interessante àquela pálida esquina. Nas partes antigas, mesmo o bairro mais pobre tem a sua praça e fonte ou, pelo menos, a sua torneira.


Mas no quarteirão do EUR, nenhum consolo desses foi planeado. Uma tradição vital ficou esquecida na amnésia geral do modernismo. As personagens, em particular Piero, precisam desesperadamente de um alívio estético (mesmo se ele provavelmente pense que do único que precisa é alívio sexual). O seu trabalho é cansativo e stressante, ele toma comprimidos e atende logo as chamadas de gente que nem se identifica. Curiosamente, o seu lugar de trabalho, a Bolsa, dá para uma das mais bonitas praças de Roma, a Piazza di Pietra. Mas o lugar tornou-se tão povoado e preenchido por carros que a socialização, embora intensa, é uma anedota do contacto inspirador que o grande arquitecto romano pretendera.

Um dos objectivos de filmar as personagens de costas é dar-nos a mesma perspectiva destes, amplificando o terceiro elemento. No caso, a passadeira.

A ideia original de Antonioni era filmar a sequência do encontro de Vittoria e Piero numa pequena e moderna praça do EUR. Mas o que acabou por ser filmado foi a intersecção marcada pelas faixas da passadeira. Piero diz que vai beijar Vittoria quando eles chegarem ao outro lado da rua. Entretanto, Vittoria pára e diz enfaticamente:
- Estamos a meio.

A decisão de Antonioni de mudar o sítio de uma praça (não importa quão pobre) para um mero cruzamento traduz claramente a sensação de que este está ainda mais abandonado. Na era dos carros desportivos, as pessoas passam por amantes como água na areia da praia. O começo de uma relação amorosa (a própria expressão denota já uma banalidade já pensada) vai já a meio, e o fim está já à vista. Não precisamos que nos mostrem como as coisas acabam. Como os corpos celestes (e o título do filme é indicativo), os amantes modernos convergem apenas durante um breve instante, já que seguem a grande velocidade e em direcções opostas.


Porquê esta esquina suburbana tão indistinta e indistinguível de milhares de outras? O que a rodeia é tão amorfo que dificilmente se pode constituir como lugar. A livre praça europeia, de Danzig a Lisboa possui propriedades visuais que não temos num cruzamento rodoviário. Por uma razão, o espaço da praça é autónomo, sui generis. Não é apenas a ausência de algo. Nem tampouco o que sobra se retirarmos os prédios à sua volta. Ele deve ser planeada, e a sua existência depende dos limites das estruturas que se impõem e lhe dão personalidade. Mas a intersecção do "Eclipse" não tem tal personalidade. É um vazio, não um espaço desejado. Os edifícios que estão à volta não têm alma. Num canto está um muro baixo entre casas indiferentes e a rua. 

Noutro estão alguns prédios de quatro andares ao acaso. Num terceiro encontramos um complexo desportivo, ilegível pelas imagens ao nível da rua. O quarto canto está dominado por prédios em construção ainda sem forma. Não só estas estruturas estão por evidenciar, como as suas relações espaciais com a passadeira estão demasiado distantes e vagas para as percebermos melhor. 

Não, a esquina não pode ser considerada como espaço humano relevante. Não tem fechamento: 
"Linhas-fronteira não servem para encerrar a praça: terminam nos cantos, mas a sua força impele-nos a continuar, não a parar", especialmente quando essas linhas direitas estão ao serviço do automóvel. O piso partilhado pelas duas ruas não foi feito para o pé humano. Demorar-se torna-se crime, uma obstrução ao trânsito. Ao contrário da calçada da praça, o asfalto não constitui um "terreno" paralelo ao céu. O cruzamento é tão-só um produto mecanizado, o mais simples e mais barato e a solução menos humana para o problema da circulação automóvel. Traduz a necessidade de carros, não de pessoas. Em vez de deambulantes, tornaram-se peões, meros piões no jogo do xadrez automóvel. O caso de Vittoria e Piero está em certo sentido condenado só pelo facto de terem marcado um encontro para ali. Não é um ponto de encontro ou de detenção, só serve para seguir rumos diversos.

Os peões que atravessam cruzamentos estão sempre na periferia, nunca no centro. Alheios ao lugar, precisam de marcas especiais - uma passagio zebrato, em italiano - postas paralelas à curva como grandes parêntesis a indicar-lhes por onde é seguro passar. Estas marcas estranhas sugerem que o peão é uma espécie em extinção (lembremo-nos das peles de zebra no apartamento de Marta e das fotos das zebras no "Deserto Vermelho"). As ruas são o habitat natural dos carros; agora são as pessoas que têm de ser conduzidas por entre eles. Estamos tão habituados à autoridade dos carros que competimos sem pestanejar por essas marcas brancas. As passadeiras quedam-se num dinamismo rígido e absurdo. Compelem-nos a avançar. Se as tomássemos à letra, ficaríamos a andar sempre pra lá e pra cá. A sua única função é levar-nos para outra coisa - mesmo que essa outra coisa não tenha sentido nem objectivo.

A intersecção da passadeira não é um espaço próprio. O seu apelo é mecânico, mera fórmula. Como o arranha-céus espelhado, reflecte, num pleonasmo perfeito, apenas a sua função, que é a de atravessar. É uma verdadeira agonia do funcionalismo. A função arquitectónica adquire significado apenas quando joga com o sentido humano. E é precisamente isto que aqui está em questão. Que sentido podem ter vidas humanas reguladas desta forma? As faixas são o emblema da vida agitada de Piero, impulsivamente de um lado para outro, de cliente para corrector, de mulher para mulher. Talvez Vittoria não o deixe beijá-la quando chegarem ao outro lado por reconhecer estes traços.

Não teria aprofundado tanto esta esquina se a câmara de Antonioni não lhe tivesse feito caso. As elevações da câmara, por exemplo, não são inocentes. Quando acompanha a história do caso dos amantes, a câmara sobe de nível com eles, mais ou menos a reboque do enredo. Mas após o desaparecimento do par, a câmara sobe ainda mais, para um ângulo mais objectivo, a perspectiva da indagação científica. Com a perda dos protagonistas, a intersecção muda do objecto para o assunto. A nova narrativa, que termina o filme, é um documentário não-ficcionado. A protagonista é a intersecção. A técnica tinha sido aludida já na cena da vila fantasma [um conjunto de habitações idealizadas pelo regime fascista para alojar trabalhadores mas que nunca chegaram a ser habitadas] na Sicília de "A Aventura". Nele, o par deixa a vila para trás. Neste caso, é o subúrbio que deixa o par para trás. 

Se o objectivo de Antonioni tivesse sido apenas o de mostrar a separação dos amantes, ele teria filmado Vittoria ou Piero a voltar àquela esquina em solitário. O pano de fundo seria na mesma um pano de fundo, nem ser notado por estar igual. Mas com o desaparecimento de ambos, Antonioni releva aquela intersecção banal, fá-nos contemplá-la com tamanha intensidade que sentimos, mesmo sem compreendermos muito bem, a ameaçadora relação entre o tédio urbano e a procura da auto-destruição global. A intersecção do EUR torna-se o presságio da catástrofe. A banalidade do candeeiro de rua transforma-se num ícone como aqueloutra, extrema, do botão vermelho que desencadeia a guerra atómica. Antonioni consegue este efeito espantoso precisamente ao frustrar as expectativas convencionais de um desfecho, transformando o tédio do normal Devir no horror do Fim. 


"L'Avventura" e "La Notte" conduzem-nos a pensarmos as personagens com um conjunto de ansiedades modernas, maioritariamente eróticas, e depois redirecciona a nossa atenção para o aspecto das coisas, especialmente do ponto de vista da arquitectura. Mas em "L'Eclisse", Antonioni vai muito mais longe, para lá da mera aparência. O forte luz do candeeiro e o alto volume da música na cena final são difíceis de aguentar. Nenhum outro filme deixou nos espectadores a perguntar-se "É só isto?", "É só isto que fica de um caso de amor?", "Do nosso destino comum?", "Da nossa civilização?", "Da própria terra?"


Excerto de "Antonioni or, The Surface of The World", de Seymour Chatman, 1985, University of California Press, pp. 108-112
Tradução de Edward Soja.

Houve quem tenha lá ido mais recentemente, ver como a coisa estava.