domingo, dezembro 26, 2010

Geografias do divórcio

(Imagem retirada daqui)

Se o amor entre as pessoas é uma relação, o divórcio não deixa de ser também uma relação.
A relação que, por isolamento, alienação ou pela diferença, uma pessoa mantém com o que está à volta do seu corpo.

A diferença pode ser sinónimo de aproximação ou então de afastamento: quando as diferenças são tais que a comunicação se vê dificultada ou mesmo impossibilitada.
A alienação não estará tanto, como sugere a palavra, no "para além de", mas talvez mais no "aquém de".
Na incompreensão e / ou não aprendizagem de que o ser singular o é pelo plural.
Que um ponto no mapa precisa de outros pontos para fazer o mapa, para se fazer ponto e para se fazer ponto no mapa.

Um miúdo a brincar com o seu mini e novo brinquedo-lixo (ou lixo-brinquedo) do ovo "quinder" num chão lajeado de um centro comercial é um exemplo de divórcio. Divórcio entre a prática e o espaço apto para a prática. Entre a necessidade do ludismo e da brincadeira (normais não só na infância) e a possibilidade de a satisfazer, é-nos oferecido, cada vez mais, um espaço impróprio. Com ruído, cores apenas da sobrestimulação do consumo (não da natureza), e centenas de pessoas transformadas em lixo e máquinas, que, pelo lado, ao lado, longe, passam indiferentes.

Outro exemplo de divórcio é traduzido por restos de lixo instantâneo que ficam na berma de uma estrada: que relação de afectividade ou de pertença pode um transeunte (e ainda mais se o é de automóvel - é de mais longe e anda mais depressa...) estabelecer com o lugar onde pára?
Uma relação de desinteresse, meramente funcional: aquele lugar, que não chega a ser lugar, é um depositório do lixo que a sociedade de consumo imediato nos pede para aprovar (na servil condição da compra).


"Manter a distância entre a vida privada e a vida pública."

Que merecem os outros de nós?
Da dor que somos e nos acontece, como ocultar isso àqueles com que queremos relacionar-nos?
Que relação queremos estabelecer com essas pessoas?
Que compromisso e que investimento nos merecem aqueles que mais amamos?
Se somos inteiros, como sermos apenas uma parte para com os outros sem nos trairmos a nós mesmos?
Quanto de nós não estamos a ser numa relação de divórcio?

De onde vêm as diferenças que nos separam e nos exilam do mundo?
- da cultura, que nos singulariza ou nos uniformiza;
- da economia, que nos classifica ou desclassifica.

A biologia, essa, devia unir-nos, contrair uns corpos contra os outros,
Mas é a própria biologia que nos separa, se as necessidades são distintas ou entendidas como tal.
E se entramos em competição de uns contra os outros e recusamos a partilha.
Normal é ao indivíduo cansar-se, num ciclo de períodos mais ou menos duradouros.

A este respeito, cabia verificar onde se dão mais divórcios (i.e., fim dessa "instituição" que é o "casamento", seja ele religioso ou civil - porque apenas nos referimos ao que fica "no papel", alvo de estudos) e, também - por causa desse cansaço do próprio cansaço biológico (logo, da necessidade irreprimível de afecto e sociabilidade) - quantos desses divórcios chegam ao fim (i.e., "casamentos" reatados).

A este respeito, também, por causa da partilha, importa questionarmo-nos, de uma vez por todas (não, de uma vez por todas, darmos a resposta - isso é diferente) se amarmos uma pessoa (ou vivermos com uma pessoa) é realmente suficiente.
Há povos em que 1 (um) homem é casado com mais que 1 (uma) mulher.
Haverá povos em que 1 (uma) mulher é casada com mais que 1 (um) homem?
Haverá identificação nalgum desses povos?
Há alguma coacção sentida por algum desses homens ou por alguma dessas mulheres?


Aquilo que está dentro de nós é comunicável:
- metamorfosea-se em actos e posturas;
- edifica-se em instituições e relações.
(sendo uma dessas "instituições", precisamente, a lei do casamento; outra, a da poligamia, que não sei se é realmente a mesma coisa - nem estamos a querer dizer que são a mesma coisa)


A comunicação requer capacidade de expressão e capacidade de entendimento. De ambas as partes.
A interpretação varia com a cultura e com a biologia.

Há um divórcio entre:
o "Norte" e o "Sul";
o "Litoral" e o "interior";
os "ricos" e os "pobres";
o homem e os "outros" animais;
o homem e a Terra;
o "global" o "local";
os "cidadãos" e os "seus" "representantes";
os que gostam de ver notícias sobre o último "aifone" e os que não querem saber do que se passa no "Darfur" (- O que é que se passa no Darfur?)
...

Porque cada um está entretido e ocupado, ou preocupado, com o "que lhe diz respeito".

Mas não poderá haver justiça se não houver diálogo entre as partes.
Porque a maior justiça é a identificação, a adequação e a partilha das partes.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Voltei a acordar com o capitalismo

Imagem retirada daqui

Em cada história que vamos ouvindo, o traço da competição e do individualismo.
- Ah, mas essas características não são apanágio do sistema que tanto criticas...
- Pronto, foi esse o teu "argumento final"? (aquele que termina com os diálogos? ou... com os monólogos...).

O senhor Carlos Malainho, vereador da Câmara Municipal de Braga e Presidente do Conselho de Administração dos TUB (Transportes Urbanos de Braga) anuncia que para o ano talvez haja novas carreiras (percursos) para cobrir as necessidades da população.
A linguagem do politicamente correcto e dos aplausos num político ainda inexperiente, pois lá deixou escapar algumas palavras que mancham o discurso.

Primeiro diz que essas novas carreiras se centrarão sobretudo "no casco urbano".
MAS QUAL CASCO??
De que é que este homem está a falar? Braga tem casco? Onde fica e onde termina? Poderia, mais correctamente, ter usado a expressão "cidade".
Em Braga, não há casco. Um casco, mesmo que usado em termos aproximativos, está muito longe de dar a ideia do que é esta cidade: um contínuo não pensado de cimento e betão quadrado, mal construído e em zonas impróprias. Isso, sim, é a cidade Braga.
Casco têm, mais evidentemente, as cidades e vilas limitadas por uma muralha, por exemplo.
Braga tem (ou tinha...) muralha, mas penso que o vereador não se estaria a referir a espaço tão pequeno para "servir a população"... Que população haverá ali, até?

Servir quem mais precisa?
Nesta cidade a apodrecer por dentro, o ideal típico da cidade desequilibrada do capitalismo...


Depois diz que a Câmara Muncipal de Braga é o principal accionista da empresa.
Pois claro.

Porque o que as empresas fazem, fazem-no em nome dos accionistas: é a esses que elas servem, é para esses que elas servem, é para isso que elas servem.
Pensávamos nós que era para servir as populações...
Somos tão virgens...

Isto é só um comentário de pacotilha.

Mas amanhã, em cada narrativa do quotidiano, voltaremos a acordar com conversas de transeuntes que falam do que compraram e usam, do que vão comprar e usar, do que vão deixar de usar e substituir, da melhor forma de colher dividendos, fugir aos impostos e negar o serviço e o dever públicos.
Em nome de deus e do lixo!, amén.
Porque amanhã voltaremos a acordar em capitalismo.

E eu já não sei onde o sonho, onde o sono...

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Eu continuo a achar isto impressionante...


A fotografia é pública, mas esse carácter não a torna imediatamente reconhecível, coisa que depende do conhecimento de cada um.


A questão não está no "objecto" (então) principal, mas sim no que está à volta "dele"...

Alguém quer dar palpites?


Podem ver melhor (maior) aqui.

sábado, dezembro 11, 2010

Um sítio fabuloso

http://www.pordata.pt/azap_runtime/# base de dados de Portugal Contemporâneo. Não é que interesse muito, mas o presidente do conselho de administração é o senhor António Barreto. Mais que tudo é útil e existe.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

As crises económicas - mais um inquérito

Olá, amigos.

Andamos numa de depressão abrupta. Como as que se sucedem às euforias contínuas, cilcotímicos que somos às vezes...

Em tempos de crise(s), que nos fazem os sentimentos que sentimos em nós e nos outros? :

- Permitirão uma aproximação, uma maior compreensão e compaixão?

Ou, pelo contrário,

- Aumentarão as distâncias entre as pessoas, trazendo ao de cima o sentimento, básico e primário (animal, portanto), da luta pela sobrevivência individual?


Aguardamos pareceres vossos.


Sustentemos o Sustentável (façamos por ser possível - está apenas na nossa vontade -) riscando mais que cruzes em papéis caídos no esquecimento.

terça-feira, dezembro 07, 2010

"A Corrosão do Carácter", de Richard Sennett


Título: A Corrosão do Carácter - As Consequências Pessoais do Trabalho no Novo Capitalismo

Edição Original: The Corrosion of Character - The Personal Consequences of Work in the New Capitalism (1998)
Autor: Richard Sennett
Tradução: Freitas e Silva
Edição: Fevereiro de 2007 (2ª ed.)*
Editora: Terramar
ISBN: 972-710-9287-5
Paginação: 259 páginas


Na verdade, ao partir para a leitura deste livro, esperava algo ainda mais próximo de nós, ou algo em que melhor revíssemos a realidade que nos afecta. Aquilo que sentimos e que esperávamos ver igualmente reflectido neste livro foi mais ou menos esboçado no artigo anterior.

Esta -de certa forma- "decepção" (ou não correspondência) prende-se, cremos, com a objectividade necessária (necessária para a credibilidade) à análise sociológica. Aquela "frieza" do analista social, que se mantém à parte, apenas como observador. Postura que erradamente tendemos a considerar como neutra ou apolítica.

Sabemos que não é o caso de Richard Sennett. Quanto mais não seja porque, à partida, todos somos seres humanos. Mas mais que isso: como pode ficar indiferente alguém que contactou com pessoas que sentiram, na pele, efeitos económicos, familiares e psicológicos causados pelo "novo capitalismo"?
O autor apelida-o assim para o distinguir de um outro (menos selvagem e destruidor?), anterior à "economia global" proporcionada pela revolução nas comunicações e telecomunicações.


Através da análise
a) da despromoção (descida nos quadros da empresa);
b) da desvalorização (não reconhecimento pelo trabalho prestado);
c) do desenraizamento (quando os trabalhadores são obrigados a ir trabalhar para outra região);
d) da redução dos efectivos (nem vamos reproduzir mais um anglicismo desnecessário por que é apelidado);
e) do abaixamento salarial e da perda dos direitos sociais associados;
f) da "flexibilidade" (flexibilidade para quem?, importa sempre perguntar);
...
Sennett está, portanto, a descrever as consequências que derivam da perda e/ou desvalorização do factor trabalho e do trabalhador de que o capitalismo precisa para funcionar.

Não obstante nos parecer ainda pouco violento e denunciador (estaremos nós noutro patamar de sensibilidade?), trata-se de um trabalho importante para melhor compreendermos "as traseiras" da "aldeia global" em que cada vez mais somos obrigados a viver.



"Mesmo assim, tive uma revelação em Davos, ao ouvir os que mandam no reino do flexível. «Nós» também é um pronome perigoso para eles. Eles vivem confortavelmente na desordem empresarial, mas receiam a confrontação organizada. Claro que receiam o ressurgimento dos sindicatos, mas ficam pessoalmente muito pouco à vontade, mexendo-se, desviando o olhar ou refugiando-se a tirar apontamentos, se forem obrigados a discutir as pessoas que, na sua gíria, «ficam para trás». Sabem que a grande maioria dos que trabalham no regime flexível ficam para trás, e, obviamente, lamentam. Mas a flexibilidade que celebram não dá, não pode dar, qualquer orientação para a condução duma vida vulgar. Os novos senhores rejeitaram carreiras no velho sentido da palavra, de caminhos que as pessoas podem percorrer; ritmos duradouros e sustentáveis de acção são territórios estranhos.



Pareceu-me, por isso, quando andava a entrar e sair das salas de conferência, dispostas num emaranhado de limusinas e de polícias nas ruas da aldeia montanhosa, que esse regime podia, pelo menos, perder o seu actual controlo da imaginação e dos sentimentos dos que estão por baixo. Aprendi com o amargo passado radical da minha família; se ocorrer mudança, acontece na base, entre pessoas que falam por necessidade íntima, e não através de levantamentos de massas. O que os programas políticos retêm dessas necessidades íntimas, pura e simplesmente não sei. Mas sei que um regime que não dá aos seres humanos razões profundas para cuidarem uns dos outros não pode manter por muito tempo a sua legitimidade."

(pp.224-225)


Até quando?


* - até haver reedição, o livro encontra-se esgotado na editora.
(pedimos desculpa pela publicidade na capa do livro do mês, mas falta-nos a forma habitual de a conseguirmos)

Nota: Envie a sua sugestão de leitura para georden@gmail.com que posteriormente publicaremos neste mesmo espaço.