quinta-feira, dezembro 26, 2013

Os ermos onde, julgando que nos compramos, nos vendemos.

O crânio é uma carcaça por causa dos abutres. 
Chama-lhes burros!



A Associação Comercial de Braga 
deseja-lhe boas festas e compras felizes. (+*+)


As duas funções primeiras de muitos lugares (a comercial e a religiosa) foram exercidas em espaços contíguos, pois o mercado começou por se realizar no adro da igreja ao domingo, dia em que os camponeses que viviam mais ou menos dispersos nos arredores se dirigiam à povoação central, à sede da freguesia. De igual modo, as grandes feiras e romarias coincidem frequentemente com as festas religiosas importantes. Ao longo dos tempos a Igreja Católica procurou afastar as duas actividades. Um certo desprezo que a sociedade medieval votava à actividade comercial que associava à usura, explica mesmo diversas interdições colocadas à realização de mercados, feiras e outras actividades comerciais ao domingo, restrição que, nos países de cultura católica, foi transposta para o hábito de os estabelecimentos comerciais encerrarem nesse dia.

Teresa Barata Salgueiro, in "A Cidade em Portugal", 1992, p. 299
Edições Afrontamento, 3ª ed. Junho de 1999.

As propagadoras de som (+*+) espalhadas pela parte pedonal da paróquia são as correias de transmissão do poder e das suas linguagens (conducentes à acumulação do capital), para crermos definitivamente que a época festiva é propriedade de estadunidenses (mais que anglófonos).
E se quem assim pensa passar a gostar de tanta americanice, então a época festiva é propriedade dos estadunidenses. E deixaremos definitivamente de notá-lo.
...Mas na verdade é actualmente mais chinesa que outra coisa, embora tal não se reflicta nas musiquinhas-muzaque que insistimos em difundir nos lugares propensos "à servil condição de demanda."

A publicidade coloniza os espaços abertos, até pelas ondas hertzianas!, como o lixo se multiplica e avoluma sob a forma de produto sólido das actividades desperdiçadoras em que vamos empregando o nosso tempo e a nossa energia.

E todo este encarrilar na rodinha do consumo-destruição, com direito a banda-sonora (sobrevive, infantilmente decadente, o Coro de Santo Amaro de Oeiras), reflecte o poder imperante do capital. Aquele em que toda a festa, dos contentinhos do capital, agora equivalentes aos contentinhos da liberdade, serve de pretexto para mais umas negociatas.

Braga, a idólatra, "jubilante por albergar em seus domínios" o tão ilustre fait-divers em que transformámos esta data [basta atender ao conteúdo, vazio, sem notícias, dos... noticiários do dia 25 de Dezembro...], "iniciara preparativos para uma grande festa em sua honra que, a pretexto de o apresentar à sociedade bracarense, se revelava a ocasião propícia para ela própria se mostrar influente e bem relacionada. E ademais, não menosprezando a fama que sempre o acompanhava, o evento até podia proporcionar excelentes deixas à sua carente alcovitice."

"O Divino Marquês", Mão Morta


Quanto à produção material mais ou menos fixa da cultura na cidade de Braga, temos presentemente um panorama confrangedor. Não que andemos em concorrência com outras urbes, a actividade cultural não está ao nível da dimensão física, económica ou demográfica da cidade de Braga. 
O que talvez seja indicativo de que o ar empestado e cheiro a verdete das capelas nunca foi suficientemente "varrido", nesta aldeia da mesquinhez, do isolamento, dos sitiados e do mexerico.
Isto talvez a propósito do senhor Paulo Brandão, que não vai salvar a cidade, ter sido reconduzido a director do Theatro Circo, destronando o rei Rui.

Um pequeno levantamento dos espaços por mim conhecidos, onde já estive (excepto os marcados com asterisco) torna-se útil e pertinente. No total dos abaixo listados (30 espaços), 19 são privados / com fins comerciais. Acontece que, para atrair público, se servem (onde é que já vimos este menosprezo?) da oferta cultural, misturando ou tentando conciliar as actividades.

E também por aí se confunde o carácter: é público ou privado?
O Centro Cultural Braga Viva e o auditório Galécia (em centros comerciais) são públicos?
O auditório Vita e a Velha-a-Branca são privados?

Dos restantes 11 associados ao erário público ou a instituições e associações sem fins lucrativos, esboroam-se no horizonte as aspirações a que tais espaços conseguem responder. Dizemos, e queremos dizê-lo, estão desaproveitados, desocupados, ou usados timidamente. Vazios ou esvaziados da sua razão de ser: as actividades que neles podem / poderiam ter lugar.

A classificação que se segue não é arbitrária: é só uma possível, para começar o desenho. Assim, temos como espaços (sobretudo) fechados que podem albergar actuações musicais em Braga:

Grandes Auditórios (espaço para mais de 50 lugares sentados, com assentos móveis ou fixos):

Auditório do Conservatório Calouste Gulbenkian (R. da Fundação Calouste Goulbenkian)
Audtório Galécia (no C. C. homónimo)
*Auditório Vitta (R. de S. Domingos, 94B)
Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva (R. de S. Paulo, 1)
*Centro Cultural Braga Viva (no Bragashopping, Av. Central)
*Centro Cultural e Social de Santo Adrião (R. do Centro Cultural e Social de Santo Adrião)
GeNeRation (Pç. Coronel Pacheco, 15)
Instituto Português da Juventude (IPJ) (R. Sta. Margarida, 6)
Museu D. Diogo de Sousa (R. dos Bombeiros Voluntários)
Parque de Exposições de Braga (PEB) (Av. Dr. Francisco Pires Gonçalves)
Salão Medieval da Biblioteca Pública de Braga (Largo do Paço)
Salão do Museu Nogueira da Silva (Av. Central, 61)
Theatro Circo (Av. da Liberdade, 697)
Universidade do Minho (Gualtar) (vários anfiteatros)

Pequenos espaços (com ou sem lugares sentados; menos de 50 lugares, normalmente com um pequeno palco que pouco mais dá que para umas actuações de dois / três músicos, sobretudo sem amplificação):

Casa dos Crivos (R. de São Marcos, 94)
*Casa do Professor (Av. Central, 106-110)
Centésima Página (Av. Central, 118-120)
Fnac (no C. C. Braga Parque) (Quinta dos Congregados, S. Vítor)
*Mercado Cultural do Carandá (Rua Dr. Costa Júnior)
*Museu da Imagem (Campo das Hortas, 36-37)
*Posto de Turismo (Av. da Liberdade, 1)
*Torre da Menagem (R. do Castelo)
*TOCA (Av. Central, 33)
Velha-a-Branca - Estaleiro Cultural (Largo Sra. a Branca, 23)

Bares (espaços que vivem sobretudo do consumo de bebidas):

Espaço Quatorze (Rua dos Chãos, 14)
Estúdio 22 (Rossio da Sé, R. Dom Paio Mendes, 22)
Insólito Bar (Av. Central, 47)
Live Rock Bar (agora denominado Barco Negro) (R. do Raio, 6)
Pëste - Espaço Cultural (antigo CUSP) (R. Nova de Santa Cruz, 236)
*Projectil (Travessa do Caires, 39)

Excluímos, por um lado, os salões paroquiais, que bem mereciam maior actividade conhecida. Cada freguesia dispõe deles, pelo que não podemos falar de falta de equipamento, ou de centralização da oferta. Pela frequência de passagem, ou por "tropeçar" na divulgação (daí ter falado em "actividade conhecida", destaco com alguma oferta as sedes das juntas de Freguesia de Panoias (com concertos de metal), e de S. Vítor (conferências, por vezes concertos de fado...)

Por outro lado, por não terem, talvez, ainda rompido muito bem a barreira de círculo em que se encontram, i.e., também as escolas secundárias dispõem de bons auditórios (vide o Auditório Sebastião Alba (na Escola Secundária Alberto Sampaio) (R. Álvaro Carneiro)), mas a sua actividade cultural (no caso, teatro, sobretudo) não atinge grande raio de influência, atraindo sobretudo a população escolar e docente das mesmas.

Por outro lado, se analisarmos outro ramo comercial / cultural (a cultura transformada em mercadoria é discussão aqui apenas pressentida), verifica-se que os valores da lentidão, do auto-recreio, da lucidez e da instrospecção de que o livro permanece paradigma, "vendem" cada vez menos.

Livrarias / Alfarrabistas:
(uma vez fechadas, não há muito, a Braga Books e a Capítulos Soltos, restam, actualmente na cidade, 12): 

Augusto Costa (R. Frei Caetano Brandão, 76)
Bertrand (no C. C. Liberdade Street Fashion, Rua do Raio)
Bracara (R. do Forno, 11)
Bracara Alfarrabium (R. de Janes)
Centésima Página (Av. Central, 118-120)
Culturminho (R. Francisco Duarte, 319)
Fernando Santos (alfarrabista) (R. dos Chãos, 121)
Fnac (no C. C. Braga Parque) (Quinta dos Congregados, S. Vítor)
Librobraga (R. de S. Vítor, 182)
Minho (Largo da Sra.-a-Branca, 66)
Oswaldo Sá (R. 25 de Abril, 435)
Páginas da Sé (R. Frei Caetano Brandão, ?)

Conhecemos ainda uma, na Rua D. Diogo de Sousa, que se dedica apenas a livros infantis; e um alfarrabista na cave do C. C. Santa Cruz, que após algumas visitas...nunca vi aberto, não estão contemplados.


Outro campo, a música: transformada por um lado em mais uma mercadoria, e acessível (com a pirataria), é, por outro, esvaziada das suas capacidades mobilizadora (muitos não concordarão, pois continuam a arrastar multidões para os concertos) e sensibilizadora (basta atender à repetição de refrões e linhas vocais desprovidas da melodia, lugar ocupado pela alienação e pela gritaria).
A paixão desvanece-se e rui, vencida portanto pela mercadoria e pela alienação do seu ouvinte.
Resultado: lívida amostra dos mostruários que em nada se compara à criatividade e produção musical que vamos tendo nos tempos que correm (visitem o sítio A Trompa e vejam quantas edições nacionais saíram a cada ano desde que existe a página... em 2009 foram apenas... 393 (!) lançamentos, entre álbuns e epês...)


Lojas de Discos (são 4, senhor...)
(lojas com alguma amostra onde se pode ainda adquirir música gravada em suporte físico):

Centésima Página (Av. Central, 118-120) (sim, também tem discos)
Fnac (no C. C. Braga Parque) (Quinta dos Congregados, S. Vítor) (a melhor oferta, ainda assim...)
Media Markt (R. da Senra) (coitada...)
Worten (no C. C. Minho Centre) (coitadinha...)

Os espaços que restam, à semelhança das livrarias, são uma pálida amostra do que já existiu, por exemplo na transição das décadas de 80 para a de 90...
A Beat Records, que estava no Bragashopping, está em suspenso, com reabertura, noutro lugar, para este ano que aí vem. A Carbono foi a última a fechar. Antes tinha sido a ex-Grafonola. Antes desta, outras como as Valentins de Carvalho, a Scorpius, a Strauss, uma que havia no C. C. Galécia (clube de vídeo), a Duartes, a Elepê,  e outras que já não são do meu tempo, como a Sonolar...


Outro exemplo é o de uma actividade de interesse público, a Saúde, mas aproveitada pelo esvaziamento das funções do Estado, que gostamos de depauperar. Ah, já agora, acredito que haja muita gente para quem Governo e Estado são a mesma coisa... e é por confusões assim que metemos tudo no mesmo saco do obscurantismo calcinante)
Assim, numa cidade que ostracizou um hospital, e viu ("isto anda tudo ligado") nascer um grande hospital privado e aquele passar a gestão mista (investimento privado e público, lucros para o capital), temos na cidade 25 farmácias 
...(são 25, senhores): 

Alvim (Pç. Conde S. Joaquim,45)
Amado Braga (R. da Lameira, 115)
Beatriz (R. Dr. Francisco Duarte, 192) 
Brito (Av. da Liberdade, 777)
Central (R. dos Capelistas, 34)
Coelho (Pç. do Município, 66)
Cristal (Av. da Liberdade, 571)
Henriquina (R. de S. Víctor, 92)
Instituto Galénico (R. Carlos Lloyd Braga,18)
Lima (R. dos Chãos, 166)
Marques (R. de S. Marcos, 44)
Martins (Av. Central, 20/22)
Misericórdia (Lg. Carlos Amarante)
Nuno Barros (Cç. de Real, 4/6)
Lamaçães (Av. Dr. António Palha, 37)
Peixoto (Pç. Dr. Francisco Malheiro, 36)
Pimentel (R. Dr. Elísio de Moura, 66)
Pinheiro (R. do Caires, 82)
Pipa (Av. D. João II, 394)
Rodrigues (R. D. Diogo de Sousa, 41 )
Roma (R. dos Chãos, 111)
S. João (Av. da Liberdade, 143)
Santos (R. de S. Vicente, 202)
Silva (Lg. Senhora-a-Branca, 27/8)
Sousa Gomes (R. D. Frei Caetano Brandão, 22/40)

Excluímos a da freguesia de Ferreiros, numa listagem constante do último Boletim Cultural de Braga, Dezembro de 2013.


Mas cada coisa é avaliada não pela fachada e sim pelo que nela vai dentro.
Se quisermos enveredar pela di-visão de que falávamos há dias, separando forma e conteúdo.

Se não quisermos, resta-nos perceber que as paredes que circundam espaços servem - têm servido - para embrulhar o vazio.
No império do valor monetário que tudo toma, eis a melhor prenda que o capital vai deixando para nós, a cada dia que passa.

(Talvez voltemos a isto.
Parece-me é que nunca conseguimos abandoná-lo...)

domingo, dezembro 22, 2013

O amor do Zé Povinho por Lisboa...


Avenida Praia da Vitória, Avenidas Novas, Lisboa, 22.12.2013.

sábado, dezembro 14, 2013

A Gaia Sapiência (também de Reclus)

A acção do homem dá a maior diversidade de aspecto à superfície terrestre. Por um lado ela destrói, por outro, melhora; segundo o estado social e os progressos de cada povo, ela contribui para degradar a natureza ou para a embelezar. 

Acampado como um viajante de passagem, o bárbaro pilha a terra; ele explora-a com violência sem lhe devolver em cultura e cuidados inteligentes as riquezas que lhe tomou; acaba, inclusive, por devastar a região que lhe serve de moradia e torná-la inabitável.

O homem verdadeiramente civilizado, compreendendo que o seu próprio interesse se confunde com o interesse de todos e o da própria natureza, age de forma completamente distinta. Repara os estragos perpetrados pelos seus antecessores, ajuda a terra em vez de se encarniçar brutalmente contra ela; trabalha pelo seu embelezamento tanto quanto pela melhoria da sua extensão. Não só ele sabe, na qualidade de agricultor e de industrial, utilizar cada mais os produtos e as forças do globo, como aprende, como artista, a dar às paisagens que o cercam mais encanto, graça ou majestade.

Tornado "a consciência da Terra", o homem digno da sua missão assume por isso mesmo uma parte de responsabilidade na harmonia e na beleza da natureza circundante.



Élisée Reclus, 
"Da Acção Humana Sobre a Geografia Física", 1864.*


Para muitas coisas com que o ser pensante se confronta ele pode vê-las de dois lados, portanto opostos. Os nossos escritos enformam, quase sempre, essa metodologia - a de um maniqueísmo insuficiente: para podermos concluir que, vistas de dois prismas apenas, muito do mundo em questão nos fica por explicar (coisas que caem fora do entendimento). Este maniqueísmo insuficiente deve sê-lo, isto é, devemos construir o olhar até percebermos onde ele consegue chegar. Ora, é esse "até" a expressão mesma da sua insuficiência.

O nosso cérebro sente-se incapaz e pobre. Mas tal pobreza deriva de um esforço de compreensão, activo, e não de uma imersão, exaustão, nos factos indistintos, nos dados, intratados (não-crivados, não tratados) com que o mundo, uno e materialmente indivisível, nos afoga.

Este é, portanto, um primeiro passo para nos lançarmos sobre ele e o agarrarmos.
É apenas um. 
E é necessário dá-lo.

A passagem do geógrafo francês, de olhar atento e tão cedo (1864!) com tão grande alcance, emprega este método: o da abordagem da postura do homem face à natureza, na relação que ele mantém com o espaço e a transformação e utilização dos seus elementos (vulgarizados pelos economistas como "recursos").

Por um lado, a do passageiro: quem não conhece não pode amar. Pode apaixonar-se, sim. Conquanto que essa paixão o leve a conhecê-la, ela dará inspirá-lo-á positivamente.

Por outro, a do que cria raízes e sabe da sua dependência: quem precisa, cuida. Pode entrar numa relação de submissão, também. Mas essa consciência, necessária, está já nele. 
E ele não deve perdê-la.

Se quisermos, podemos tentar "encaixar" os espaços com boa e má qualidade ambiental (repararam em mais estes dois antónimos? : também é por isso que o argumentário depois funciona) como os resultantes destas duas posturas.

De um lado o interesse no lucro, que é privado, pois então! (sementes transgénicas, petróleos, curas para doenças fabricadas e doenças fabricadas para as curas, incêndios para pasta de papel, expropriação e construção, rentabilização do espaço...)

Do outro, o prejuízo, que é um somatório que se rege por outros parâmetros.
E que é colectivo, pois então: saúde, educação, transportes, segurança social, democracia, ambiente...

(Que se der lucro, é privatizado: assim se vê de que lado estão os que vão dirigir o que é de todos.
Que é, dizíamos, colectivo, e que não tem de dar prejuízo. Mas que é normal que dê: são funções que têm de ser asseguradas... mas estou a desviar-me...)

É o prejuízo colectivo é o económico. E assim se aferem os valores por que nos regemos.
É colectivo no sentido de "colectivizado".
Para que todos paguemos e alguns não tenham que pagar o mal todo que causaram. Ou, melhor dos mundos, se der, e dá sempre, ainda beneficiar com tal "estatização", "publicação" dos prejuízos.


Apesar de "Eco-nomia" ser a "lei" da "terra", esta disciplina foi mal-entendida por uma besta, o homem já afastado da verdadeira lei da terra: a Ecologia.
Aprendeu mal a lição e profetiza há séculos que só saibamos tirar negas.
Pois só "passa", só vence, quem conseguir maus resultados: em nome do "crescimento", da prosperidade, do capital.
Oremos, irmãos.
Ajoelhemo-nos e glorifiquemos o deus guito e os seus propaladores.

O mundo invertido.

Em suma, se quisermos, podemos tentar encaixar a acumulação da riqueza e do poder, na balança já inicialmente desequilibrada do mundo, nestes dois últimos parâmetros: privado e público.

Vão ver: não cabe lá tudo.
Mas o que lá cabe é demasiado.


*Editora Imaginário / Edição Expressão & Arte, 2010, São Paulo
Tradução, adaptada, de Plínio Augusto Coêlho

quarta-feira, novembro 20, 2013

Publicar título

O engravatado leva o cão pela mão enquanto passeia o telemóvel.
Antes do seu bulot, o prato principal dos que passam fome existencial...

A fila engrossa de descontentes.
Com papás que, para levar os meninos à escola, atropelam os passeios.

Tanto investimento
- é o seu dever, ai deles que os não os ponham a estudar, logo a sociedade os crucificará, sem direito a mártires.
nas crianças
para que as possamos desprezar e explorar com mais desdém
quando entrarem
se entrarem
para
o mercado
mercado
o mercado
marcado
o marcado
de trabalho

a maternidade
a maternidade
a maternidade...

As paredes dos prédios não impedem
os ruídos.

Quem mora nas nossas cabeças?

os adeptos que vão esperar a selecção
bombos da festa
bobos da corte
da corte dos porcos
quais medievalistas
da idade das trevas
em que a educação e a cultura sofrem cortes
e a curiosidade e o conhecimento são mal-vistos

o fim da civilização
ou o fim do civismo

o fim da cidade
a expensas da privatização
e dos espaços exíguos
remanescentes
que sobraram para entreter as crianças
- cuidado!
 que o carro pode atropelá-las!

Vinde brincar para dentro.
Do computador,
Computadores.

Computam
computam,
computam...

autistas
mimados

Como se a única legitimidade aceite para não comprar fosse não poder...
Já não há vontade.

Se somos maquinais infernais
ad aeternum
maleficus
sanctificatus...


Louvaminhas,
tu,
Domingo vais à missa
ou então ficas a ver televisão,
que te é concedida a graça
que te desgraça.

E a martelada sincrónica
à batida do coração em descarga
bílis e sangue venoso
a escorrer pelo alcatrão

do ser humano trucidado
pelo cinzentismo
e pela normalização

dos mercados
marcados
tu!
estás marcado
tira a senha!
põe-te na fila,
sê civilizado.

Sê servilizado
e não digas que não vais daqui,
que o respeitinho é muito lindo
e faz girar as sociedades
. ex-clavas .

Há gado no talho
e porcos no açougue.

E todos os cadáveres cheiram ao mesmo.

Há valores que não têm lugar na sociedade.
Por isso há valores que migram.
Ou definham e morrem.

Uma serra dava jeito para derrubar estas tábuas...
E lá fora ouve-se a melodia
de quem há muito vai afiando a faca.

Será Noé?

segunda-feira, outubro 28, 2013

Um hostel onde podes dormir numa caravana vintage


"Este não é um hostel comum. Situado em Bona, na Alemanha, o BaseCamp Bonn é um armazém transformado para albergar 15 caravanas de campismo “vintage”, duas carruagens ferroviárias e quatro caravanas Airstream dos EUA. Para além disso, estão ainda disponíveis autocarros VW e os míticos Trabant, da ex-RDA. Ao todo, o hostel é composto por 120 camas e as casas de banho são partilhadas. O conceito foi criado pelo hoteleiro Michael Schlosser e é único. As caravanas foram projectadas pela designer de televisão e cinema, a alemã Marion Seul. Cada uma tem um tema diferente e os preços variam dos 22 aos 72 euros por noite."

Ler mais aqui.

domingo, outubro 27, 2013

Há mãos portuguesas em projeto que transformou prédio devoluto em arte

"O dono de uma galeria de arte em Paris viu num prédio devoluto de 10 andares uma enorme tela em branco. Há 11 portugueses entre os 105 artistas de todo o mundo convidados a dar uma nova e temporária vida à Torre 13."

Ler mais aqui.

ACONSELHO A VISUALIZAREM AS FOTOS que se encontram no artigo...
FABULOSAS!

sábado, outubro 26, 2013

Bolsa de terrenos para cultivo disponível online

"As terras abandonadas em Portugal podem agora ganhar uma nova vida com o projeto “Bolsa de Terras” que disponibiliza, online, uma lista de terrenos abandonados para quem quiser fazer negócio ou ter a sua horta familiar.
O projeto desenvolvido pela Agroconceito, empresa de apoio e consultoria na actividade agrícola, pretende concretizar o sonho de muitas pessoas que desejam cultivar um pouco de terra e, ao mesmo tempo, dar utilidade às terras que se encontram abandonadas por Portugal."

Ler mais aqui.

terça-feira, setembro 24, 2013

O Direito À Cidade, por Henri Lefebvre

1 - Há dois conjuntos de questões que têm velado os problemas da cidade e da sociedade urbana: as questões do alojamento e do "habitat" e as da organização industrial e da planificação global. As primeiras, por baixo, e as segundas, por cima, têm produzido uma explosão da morfologia tradicional das cidades, desviando as atenções, enquanto se prosseguia a urbanização da sociedade.

2 - Estes dois conjuntos de problemas foram e continuam a ser colocados pelo crescimento económico. A experiência prática demonstra que pode haver crescimento sem desenvolvimento social (crescimento quantitativo sem desenvolvimento qualitativo). Nestas condições, as mudanças na sociedade são mais aparentes que reais. O fetichismo e a ideologia da mudança (dita de outro modo: a ideologia da modernidade) encobrem a estagnação das relações sociais essenciais.
(p.139)


Título: O Direito À Cidade
Edição Original: Le Droit à la Ville (1968)
Autor: Henri Lefebvre
Tradução: Rui Lopo
Prefácio: Carlos Fortuna
Edição: 2012
Editora: Letra Livre / Estúdio
ISBN: 978-989-8268-15-0
Paginação: 142 páginas


No regresso ao livro do mês, trazemos a seminal análise de Lefebvre, "O Direito à Cidade". Nele, o filósofo prenunciava já a crise da sociedade (urbana ou rurbana*) nos seus valores e, por consequência, na sua organização funcional e espacial.

O esvaziamento dos poderes das comunidades, distraídas com os restos dos prazeres (ou impaladas pela cruz da propaganda), vai a par da perda dos espaços de convívio e de outras formas de fazer cidade que não a de consubstanciar e reforçar as práticas... despojadoras do poder. Mediante o servilismo mercantil e suas dependências ocupacionais.

A cidade, tal como ela for e nos aparecer, revela o conjunto dos poderes organizados, espacializados em instituições ou sedes, colonizados em áreas (maiores ou menores) do seu espaço vital visível.

Não existe nenhuma sociedade sem ordem, sem um significado, perceptível e legível no terreno. (p.32)

A materialização do poder organiza-se hierarquicamente, em lógicas que traduzem (convencionámos) a rentabilidade e eficácia da sua acção e pressupostos.

Hoje em dia, tornando-se centro de decisão ou, sobretudo, agrupando os centros de decisão, a cidade moderna intensifica a exploração da sociedade inteira (organizando não só a exploração da classe operária, mas também a de outras classes sociais não dominantes). Isto significa que a cidade não é um lugar passivo de produção ou de concentração de capitais, mas que o "urbano" intervém como tal na produção (nos meios de produção). (p.67)

Urge a inversão das práticas que construíram o inferno para a maioria e o céu para os "deuses do Olimpo".

A multiplicação e a complexificação das trocas, no sentido lato do termo, não podem ser prosseguidas sem que existam lugares e momentos privilegiados, sem que esses lugares e momentos de encontros se afastem dos constrangimentos do mercado, sem que a lei do valor de troca seja dominada, sem que se modifiquem as relações que condicionam o lucro. (...) Se queremos superar o mercado, a lei do valor de troca, o dinheiro e o lucro, não será necessário definir o lugar dessa possibilidade: a sociedade urbana, a cidade como valor de uso? (p.83)

O processo vem desenhando-se desde longe e aparece-nos hoje como dado adquirido, inquestionável e dogmático, e - pior - como se não fosse analisável e desconstrutível.


Ao longo do século XIX, a democracia de origem camponesa cuja ideologia animou os revolucionários poderia ter-se transformado numa democracia urbana. Esse foi, e é ainda para a História, um dos sentidos da Comuna. Mas, como a democracia urbana ameaçava os privilégios da nova classe dominante, esta impediu-a de nascer. Como? Expulsando do centro urbano e da própria cidade o proletariado, destruindo a "urbanidade". (p.28)

A transformação do espaço (qualquer espaço) em espaço urbano, na voragem industrial, acarreta externalidades (reparemos na palavra: externalidades, como sugerindo algo que afecta os que estão fora. No caso, fora dos espaços urbanos...) Mas a crise surge quando tais "danos colaterais" assumiram tal dimensão que se anunciam já DENTRO do espaço urbano. É o caso da sustentabilidade alimentar, caucionada pela praxis betonizante dos modos de vida até então óbvios ou intocáveis.

Nos países ditos "em vias de desenvolvimento", a dissolução da estrutura agrária empurra para as cidades os camponeses desalojados e arruinados, ávidos de mudança; o bairro de lata acolhe-os e desempenha o papel mediador (insuficiente) entre o campo e a cidade, a produção agrícola e a indústria; frequentemente, o bairro de lata consolida-se e oferece um sucedâneo de vida urbana, miserável, no entanto intensa para aqueles que aloja. Noutros países, nomeadamente nos países socialistas, o crescimento urbano planificado atrai para as cidades a mão-de-obra recrutada no campo, e verifica-se o sobrepovoamento, a construção de bairros ou "raios" residenciais cuja relação com a vida urbana nem sempre se consegue distinguir. Em resumo, uma crise mundial da agricultura e da vida camponesa tradicional. (...)
Desde que surgiram os problemas de conjunto, sob o nome de urbanismo, subordinámo-los à organização geral da indústria. Atacada simultaneamente por cima e por baixo, a cidade alinha-se a partir da iniciativa industrial e figura na planificação como motor, tornando-se um dispositivo material próprio para organizar a produção, para controlar a vida quotidiana dos produtores e o consumo dos produtos.
(pp.84-5)

A extensão da cidade produziu o subúrbio, e depois o subúrbio engoliu o núcleo urbano. Os problemas foram invertidos, quando não são ignorados. Não seria mais coerente, mais racional e mais agradável ir trabalhar para o subúrbio e habitar na cidade em vez de trabalhar na cidade e habitar num subúrbio pouco habitável? (...)
Para o Poder, desde há um século, qual é a essência da cidade? ela fervilha de actividades suspeitas, de delinquências: é um centro de agitação. O poder de Estado e os grandes interesses económicos só podem conceber uma estratégia: desvalorizar, degradar, destruir a sociedade urbana. (p.87)

A crise espacial entrelaça-se / é produto da crise da organização, com a sobreposição dos interesses da maioria pelos interesses da minoria capitalista ou institucional (não necessariamente económica, mas visando uma certa racionalidade que pretende atingir a eficácia, o domínio através da acumulação):

Esta crise da cidade é acompanhada, um pouco por todo o lado, de uma crise das instituições urbanas (municipais) devida à dupla pressão do Estado e da iniciativa industrial. Tanto o Estado, como a empresa, como os dois (rivais ou concorrentes, mas frequentemente associados) tendem a apoderar-se das funções, atributos e prerrogativas da sociedade urbana. Em certos países capitalistas, deixa a iniciativa "privada" ao Estado, às instituições e organismos públicos, algo mais do que aquilo que recusa encarregar-se por ser demasiado oneroso? (p.88)

O mundo da mercadoria tem a sua lógica imanente, a do dinheiro e do valor de troca generalizado sem limites. Uma tal forma, a da troca e da equivalência, mantém apenas indiferença em relação à forma urbana; ela reduz a simultaneidade e os encontros aos que praticam trocas, e o lugar do encontro reduz-se ao lugar onde se firmam contratos ou quase-contratos de troca equivalente: ao mercado. (p.91)

O cerco aperta-se, as fugas, dêem por onde derem, vislumbram-se na loucura e na alienação ao virar da esquina. Seja no património, seja no turismo, seja em qualquer aspecto, transformado, kitchizado, para consumo dos ávidos carentes do real.

Se o espectro do Comunismo já não persegue a Europa, a sombra da cidade, o lamento pelo que morreu porque foi morto, porventura o remorso, substituíram o antigo assombramento. A imagem do inferno urbano que se prepara não é menos fascinante, e as pessoas precipitam-se para as ruínas das cidades antigas com o objectivo de as consumir turisticamente, julgando assim obter a cura para a sua nostalgia. (p.102)

De forma muito estranha, o direito à natureza (ao campo e à «natureza pura») entra na prática social desde há alguns anos através do lazer. Esse direito fez o seu caminho através de protestos que se foram tornando banais contra o ruído, a fadiga, o universo «concentracionário» das cidades (enquanto a cidade apodrece ou explode). Estranho encaminhamento, dizemos nós: a natureza entra no valor de troca e na mercadoria. (p.118)

A materialização mais evidente deste conflito de visões do mundo e de valores (públicos e privados) tem, como vimos na primeira citação (que é das últimas passagens do livro), na sua base a discrepância e mútua necessidade (mão-de-obra para escravizar, caixotes para a enfiar, por um lado, e actividades económicas para acumular e reprodução e colonização espacial para crescer e se afirmar, por outro) entre desenvolvimento (social) e crescimento (económico):

As massas, pressionadas por múltiplos constrangimentos, alojam-se espontaneamente em cidades-satélite, em subúrbios programados, em guetos mais ou menos «residenciais», possuindo apenas para si um espaço cuidadosamente medido, enquanto o tempo lhes foge. As massas conduzem a sua vida quotidiana de forma subordinada (sem o saberem) às exigências da concentração dos poderes. Mas não se trata aqui de um universo concentracionário. Tudo isto pode suceder na ideologia da liberdade e sob a capa da racionalidade, da organização e do planeamento. Estas massas que não merecem o nome de povo, de popular, de classe operária, vivem «relativamente bem», tirando o facto de a sua vida quotidiana ser telecomandada, e sobre elas pesar a ameaça permanente do desemprego, o que contribui para um terror latente e generalizado. (p.123)


A materialização conceptual que de tudo isto se releva pode ser lida como paralela à globalização, pois parece ignorar fronteiras e obstáculos. Porque a globalização vigente é a da economia capitalista, não a da cultura da diversidade e da transformação (para melhor) das condições de vida das massas disformes (disformadas) do planeta (cada vez mais cinzento), Lefebvre vê no automóvel o "objecto-piloto no mundo das mercadorias, que tende a levantar [suprimir] esta última barreira: a cidade." (p.129):

Os habitantes do Olimpo, como a nova aristocracia burguesa (quem o ignora?) já não habitam. Eles andam de palácio em palácio ou de castelo em castelo; eles comandam uma frota ou um país a partir de um iate; eles estão em toda a parte e em nenhuma. Exercem assim fascínio sobre as pessoas mergulhadas no quotidiano, eles que transcendem a quotidianidade; possuem a natureza e deixam os seus esbirros fabricar a cultura. (p.119)

Agora não é só a corrosão física das fronteiras jurisdicionais (pelos transportes) que praticam o poder, mas também a das institucionais e mentais, mediante o fluxo de dados e informação via meios de comunicação para as massas. Detidos pelas minorias, claro está.

A salvaguarda da sociedade urbana (da cidade, como o autor a entende) não é (ou nem é, de todo) a mera protecção da memória dos monumentos, ou a organização saudável dos "bairros residenciais", ou a racionalidade (económica) dos comportamentos (visem eles, até, a ecologia), mas sim a prática de valores que contrariem, em todos os domínios da vida social, o valor imperante: o de troca. A apropriação da cidade pelos cidadãos é caminho que desbrava e destrói a privatização da cidade (dos corpos e das almas) pelas empresas e instituições.

É essa a crise basilar que está a inquinar e destruir o mundo.
E Lefebvre, já em 1968, o sabia bem.


Que dia é hoje, hein??


* Rurbano refere-se à interpenetração ou hibridização do rural e do urbano, que representa, aliás, uma grande extensão actual do mundo, quer em materialização espacial, quer comportamental. Esta é também a crítica / análise feita por Álvaro Domingues, em "Vida no Campo".

segunda-feira, agosto 26, 2013

In Memoriam



Epitáfio para mais um sujeito que não foi eleito:

Tu que viveste ao largo, no offshore do FMI,
E descansas agora num espaço apertado.
Dá-te por contente: 
É privado.

segunda-feira, agosto 12, 2013

Sem direito a publicidade



Manifestantes prometem voltar enquanto a estátua do cónego Melo permanecer em Braga. (ler mais AQUI)

Coisas que merecem as nossas vacances permanentes. Como diria o Vian:  j'irai cracher sur vos tombes. 

[estátua]

quarta-feira, julho 31, 2013

E se for já neste século?

À medida que aumentam os níveis de dióxido de carbono na atmosfera, a água do mar vê baixar o nível de ph. A extinção marinha está a preparar o terreno. 
E nós seremos a seguir. Se não for antes.




A extinção, prevê-se, será este século.

Ler mais (em Inglês) aqui.

sexta-feira, julho 26, 2013

Dos exércitos (e) da farda que não desbota, renovada

Que força é essa, amigo,
que te põe de bem com os outros
e de mal contigo?

Sérgio Godinho


Somos jovens e ostentamos esta supercor na farda.
O nosso trabalho é distribuir propaganda.
Ela tem de chegar a todas as pessoas que passarem por aqui e mais àquelas a que conseguirmos chegar. 
As palermas!

(E assim começou a guerra, declarada, de uns contra todos...)

Os não-jovens queixam-se que os jovens lhes retiraram o trabalho.
Porque aceitaram ser recompensados (ahaha, ahaha, malevolamente rindo lá das alturas que os pariu) por menos dinheiros que eles.
E, já se sabe, as empresas querem é reduzir os custos fixos...

Os jovens supercoloridos vêem cada pessoa como uma pessoa a atingir.
Um cliente a abater, a fazer tilintar as moedas (Passa pra cá o guito!, o guito que eu não verei, que só vai prò meu patrão...) que são a garantia de eu continuar... a ver cada pessoa como um palerma a atingir, etc., etc.



Estes são os trabalhos indignos.
Alguém tem de o fazer, diz o falacioso capitalista merdoso instituidor do teu bem-estar. Ou, vê lá se votas bem!, na tua ruína.

Distribuidor de panfletos,
Limpador de cloacas,
Cobrador das dívidas,
Poluidor dos rios,
Triturador da inteligência,
pasmaceiro da excitação!

Tu tornaste-te no homem que trabalha.
Tu deixaste de ser o homem que também trabalhava.


(Porque o sistema de opressão económica nunca foi suprimido)


Tu és o exército e vens bem munido.
A cor da tua farda é camaleónica e adapta-se até aos sítios mais esconsos, onde aprendes a tua arte de fazer mal aos outros e de sofreres com isso e de fazeres mal a ti e de fazeres os outros sofrer com isso.

Tu pertences ao exército dos excluídos, dos deserdados, dos desapossados, dos lixos produzidos em massa pelo sistema da exclusão económica do capitalismo mais e também do menos aguerrido (não há tréguas nem quartéis).

Tu és o exército a recrutar mais exército, a fazer baixar os salários, a fazer aceitar o depauperamento da dignidade no trabalho e a impossibilidade da vida sem o trabalho.
És o promotor dos vendedores da propaganda que cada vez menos gente vai comprar.
Porque cada vez mais há exércitos de gente que não pode comprar tal ideologia.
E é por isso que os supermercados estão cheios de ideias de que cada vez mais desconfiamos, venham elas embaladas em políticos, partidos, empresas, bancos, opinadores e todos os vizinhos do lado e até a tua mãe e o teu pai, que isto é guerra que grassa sem piedade nem olhar a quem.

Aqui não se salva nem Deus: assassinaram-no!




São ideias demasiado caras para as nossas posses.
Por isso há interesse num certo equilíbrio das contas: o tal algo que mude para que tudo fique na mesma.
Mesmo que uma crescente maioria possa ir ficando de fora do sistema...

E chamar-te-ão.
Chamarão a todos.
Tu és a vítima e o sinal número um da crise: tu és o produto da crise, da instabilidade dos mercados e dos mercados da instabilidade.

Tu és fonte de lucro inteiro e do abaixamento dos salários e do rebaixamento da condição humana.

És o soldado universal que se soma às fileiras das trincheiras quinzenais dos centros de desemprego por esse mundo fora.

Sim, eu sei, tu queres lá saber se és um conceito marxista!, tu queres ser feliz agora, tu não és nada parvo, porra!
Tu existes.

Fazem com que estejas disposto a tudo.
"Que te compras, que te vendes, é o que pensa o tirano..."
A trabalhar mais horas por semana, horas extra, sem seres por tal pago, sem descanso merecido, exausto do triturar das máquinas infernais do lucro dos patrões que dão a cara para ocultar a dos accionistas.

Tu és a vergonha e o atraso que o capital criou para nós, a sociedade-cloaca!
Tu estás disposto a matar por um naco de comida cada vez mais insignificante.

Tu és o primeiro produto da economia da catástrofe e nasceste muitos anos antes da economia da catástrofe, assim designada, ter sido descoberta para nos renovar o uniforme.
O uniforme do sistema económico, político, mediático e mental do mundo.
O tal do inevitável, e do irreversívelzinho.


Mas tende cuidado, generais, para manterdes o exército bem ocupado.
Pois pode ele começar a pensar.
Em vós.
E a chacina já se desenha em cada rua, em cada praça.
Onde quer que houver um homem que ficou sem trabalho e conservou a cabeça. E que não quer alimentar uma engrenagem injusta e niveladora, por baixo, alcatrão quente e moldável no calor da crise.

Não poderás manter-te oculto e anónimo durante muito tempo.
Somos cada vez mais e nós vamos dar contigo.
Onde quer que estejas.
Fedes na tua natureza e sabemos onde te encontrar.

quarta-feira, julho 24, 2013

Dos sacrifícios (e) dos sacrificados (e da destruição, esperançosa, da tua casa)

Eu cresci aqui e agora tenho de partir.

Anónimo de muitos tempos e muitos lugares, sem lugar


Parece que há oportunidades que esperam por ti, não sejas palerma.

Correcção, piegas: não sejas piegas.

Mas eu quero morrer aqui.
Aceito que me subtraiam uma parte da minha terra para poder continuar a viver aqui.
Sim, aceito que instalem perfuradoras nos meus terrenos para fazerem prospecção de petróleo por fracturação hidráulica.

Pois, o horizonte não fica lá muito bonito, não.
E o barulho...

E as minhas vacas e os meus pastos, doentes.
E tudo aquilo de que me alimento.

Qual é o meu problema?
Ninguém me diz o que é que eu tenho??

Tenho de pagar do meu bolso (a Saúde é um direito, amigo...) (uma garantia de dinheiro que sai do teu para o bolso do conglomerado farmacêutico-industrial-saúdico com seguradoras à mistura...) para todos estes exames, para tentar perceber o que se passa comigo, o porquê destas cascas por todo o meu corpo.

Porque o negócio envolve milhões.
Correcção, milhões de corpos e almas.
E ninguém poderá, quererá, ousará demonstrar a mais pequena relação entre o teu estado de saúde deplorável com os danos da coisa que lá tens no teu quintal.

Os derramamentos e as infiltrações de petróleo e de água salinizada que tudo hão-de comer, depois de te comer a ti.
Afastado o problema, tu!, não há mais contas a prestar.

Mas até dizes:
- Sim, eu sacrifico uma parte da minha terra para continuar a viver no sítio onde nasci.
Sim, eu aceito sacrificar uma mão para continuar vivo.

Diz aquele outro:
Sim, eu também aceito sacrificar uma parte da minha terra para continuar a viver onde nasci.

E vamos recuando, recuando.
Sacrificando o quê?

Sacrificando as pernas para continuarmos vivos.
Sacrificando o corpo para nos mantermos ligados à máquina.

Sacrificando a saúde já, imediata, pura, viva da silva, em troca da morte lenta, quiçá, não é certo, os estudos não comprovam, nem desmentem...


Não, não importa a terreola onde estas histórias de vida se passam.
Tanto faz. É metáfora.

Mas os danos são reais.
As vidas são reais.

(Mas também temos boas clínicas privadas que vos asseguram uma boa esperança de vida.
Mas isso terá um preço. Tudo tem um preço, não é?
E, pode crer, vale bem a pena...!)

Estamos a sacrificar partes para... assegurar cada vez menos nada.

Estas são as massas que já pouco têm a perder.

Estes são

"os que descem cada vez mais
para subir cada vez menos"

porque

"quando mais o mal se expande
mais acham que ser grande
é lixar os mais pequenos."


E lixar é a instabilidade.
Hordas de desempregados começam a pensar em tomar o poder, de sachola, metafórica, e de picareta, metafórica, nas mãos.
Em busca do derramamento do sangue verdadeiro.
Mas dos carrascos.

segunda-feira, julho 22, 2013

Da instabilidade (e) dos mercados (e do ensanguentamento, orgulhoso, das mãos com luvas)



Público em linha, hoje, 22.07.13


Crises há muitas, e nós somos os palermas.

Parece que a convocação de eleições antecipadas representa instabilidade para os países. 
Ah, correcção, para os mercados.
Que, interligados e anónimos, não são nacionais. 
Não só, nem tampouco nacionais.

Donde se depreende que a economia e as finanças (mundiais e de trazer por casa) são inimigas da Democracia.

A Democracia, essa rameira à força, funciona.
Ponto final.
Funciona até ao momento em que vais testá-la.
Por exemplo através de eleições.
Ou de alguma petição para alterar alguma coisa que inverta o processo de desapossamento de muitos engendrado por uns quantos.

Mas... e porque seria o contrário (o desapossamento de uns quantos pelos muitos) mais legítimo?, poderiam os statusquoístas contra-argumentar, inquinando a reescrevendo toda a História e cartesiana filosofia de ser da Democracia.

Mas a questão, já falámos dela até à ponta dos cavacos.
Mesmo assim é mais importante que a nova ministra oculta ir mostrar o buraco, segundo a bela prosa e óptimos directores do Jornal de Notícias.

A instabilidade é, portanto, inimiga dos negócios.

E é aqui que se demonstra como Portugal é um país atrasado.
Porque em países mais avançados (avançados porque já passaram por esta fase) souberam as empresas fazer negócio com instabilidade.
Correcção: "...fazer negócio com A instabilidade".

Passa um anúncio a dizer o seguinte:
"Os estudos mostram que tem havido uma subida de assaltos a casas."
(Solução?)
"Agora existe o vero não sei quantos (lá o que dizem os lábios da menina espanhola cujos contornos, dos lábios, não coincidem com a fala que ouvimos), o sistema de segurança que protegerá a sua méson dos larápios.

Dos larápios à moda antiga, especifique-se.
Mas na publicidade tudo é superficial, desde os sorrisos ao convencimento.

Donde se depreende que... a insegurança é boa para o negócio.
Pelo menos para este.


E a the next big idea vem da parte de um moço que, acelerando o processo que existe na natureza e que produz o inquinamento que está a arruinar o mundo, mais conhecido por petróleo.

Para isso, pega-se em biomassa, coloca-se esta num reactor, retira-se-lhe a humidade e o resultado, líquido, é um composto muito semelhante ao crude, que pode, diz o jovem de trinta anos, ser refinado com os convencionais processos usados por qualquer petroquímica do mundo.

Mas, alto, então vão pegar em biomassa verde e transformá-la em petróleo?
Calma.
Mas quem disse que era biomassa verde?
O lado bonzinho é que esta nova forma de fazer dinheiro se insere já na economia da catástrofe: a biomassa usada para tal é proveniente dos matos ardidos - ou seja, uma coisa que acontece naturalmente todos os anos em Portugal, como todos nós sabemos.
Correcção, uma coisa que acontece normalmente todos os anos.

Donde se depreende que os incêndios são, também nesta nova variante de aproveitamento, bons para o negocídio.
Pelo menos para este.


Numa Visão muito recente falava-se da extracção de petróleo por fracturação hidráulica. E que, assim, há imensas reservas à espera da nossa ganância. Incluindo na China, território delimitado enorme.

Termina o artigo o excelente propagandista a dizer:
A questão é a de saber se ainda vamos a tempo... 
A tempo para fazer baixar o preço do petróleo.

Isto é, andamos prà'qui entretidos a discutir as alterações climáticas, a perda de biodiversidade, de habitats e de espaços húmidos, a poluíção atmosférica, os problemas de saúde, os refugiados ambientais, os derramamentos de petróleo, a escassez e os conflitos pela água, os milhos transgénicos, que vão salvar o terceiro (mas só o terceiro...) da fome...

Espera, nós não estamos a discutir nada disso...!
(andamos entretidos com a crise)

Mas... e o artigo não menciona uma única palavra sobre os devastadores danos ambientais que tal extracção de petróleo implica.
E andamos nós a tentar mudar de paradigma e este tipo de propaganda, o que lhes interessa, é continuar a formatar os leitores informados para que alimentemos este, destruidor e a ultrapassar urgentemente.

Só falta depois criarem empresas especializadas na limpeza (se esta fosse possível) da porcaria que as perfuradoras deixam para trás.
Limpeza paga em nome de todos, paga, portanto, por todos, a essas empresas, então, entretanto criadas.

Andamos a tapar o sol com a peneira. Rota.



As empresas de reconstrução após a catástrofe têm muito a ganhar.
Porque alguém tem de a pagar.
Porque alguém tem de lhes pagar.
A elas compete-lhes fazer o melhor serviço.

As empresas de reconstrução após as guerrinhas, travadas lá longe das suas sedes, têm muito a ganhar.
E se ganham muito, depreende-se que essas guerrinhas são boas para o negóciozinho.
Donde se depreende que, quantas mais, melhores as cotações nos mercados.
Mercados anónimos, negócios locais com chupismos de todo o lado, e vítimas globais que apenas (poderia ser doutra forma?) se manifestam a nível local.

O passo seguinte é piorarmos a visão e num momento da deslucidez para que o desespero nos empurra é depreendermos que também as catástrofes naturais (sismos, maremotos, queda de diques, Katrinas, etc.) são provocados.
Porque tudo o que for bom para o negócio tem muita força.

Portugal está a habituar-se à instabilidade há já alguns anos e as empresas estão a adaptar-se a isso.
E assim, todos os valores impostos, que são as empresas que mandam enquanto não mandarmos nós (que, por coincidência, trabalhamos nelas ou, menos, para elas) são invertidos e as sociedades passam a caminhar de costas para a frente.

Belo futuro!
Troca de favores: garantimo-vos o nosso presente em troca do futuro que prometeis para nós.

Contai com todos os cavacos mercadológicos para no-lo assegurarem.
A todo o custo.

O sangue é um osso do ofício.
Correcção: o sangue dos outros é um osso do ofício.
As mãos, com mestrado tirado nas melhores universidades internacionais, estão preparadas para lidar com os o brilhantismo dos açougues e e dos carniceiros.


Ah! Tal sistema e tais processos não são sustentáveis.
A corrupção é um beco, pois que se come por dentro, enrolada nas trapalhadas que cria.
Aceleremos isso, não pactuando com ela, ou infiltrando-nos nela e explodindo-nos, kamikaziamente, com ela.

Mas continua a ser tarde...
Somos os palermas de antanho.