sábado, março 18, 2017

Passado e Presente, com Aquilino

"A árvore, além de condensador ideal, é um repartidor exímio, almotacé chamam em certos municípios da serra ao homem encarregado de distribuir a tancada de água pelos paroquianos. Ora, estes derradeiros tempos tem-se desarborizado desalmadamente sem rei nem roque. Oiteiros, outrora vestidos do verde movediço e espumoso dos bosques, estão hoje hediondamente nus. A façta de combustíveis por um lado, a construção intensiva por outro, levaram ao despovoamento das matas. Em breve os castanheiros serão tão raros como na fauna marítima o é a baleia (...)

p.91

"Ora os rios já não se vêem correr como dantes, e decerto não são culpados apenas os governos que tem havido desde D. Afonso Henriques para cá. São culpados todos os membros da família portuguesa que desalmadamente despiram os cerros dos soutos de castanheiros, os ossos de Portugal, dos carvalhos, a árvore tersa dos fabulistas, dos amieiros, dos teixos, das faias e tantas espécies indígenas que na sazão estival purificavam os ares e, povoados de pássaros, alegravam a terra."


p.97

"Não obstante a eira estar discriminada nos cadastros da matriz deste e daquele vizinho, conserva ainda o seu quê de comunal. (...)
Também havia em regime comunal as lameiras ou campos de pastio, para onde soltavam vacas e cevados, no tempo em que se guardavam «pelos usos» e a bola da fornada. O porqueiro erguia-se cedo, tocava o chifre, parecido com olifante de Roldão, e os leitões começavam a sair das pocilgas. Recolhia a merenda que lhe traziam as donas, e toca com a vara para o pastio, tendo cuidado especial com os bacorinhos de leite e os mamotos. À noite entrava na povoação ao som da buzina, com aparato igual, cada um se encarregando de apartar para o seu chiqueiro as reses que lhe pertenciam. Nada se pode imaginar mais patriarcal ou pelo menos mais entranhadamente Idade Média.
Com o andar dos tempos, a paróquia alienou as lameiras para reconstruir a igreja em ruínas, tapar com parede de quintal o logradouro que se ficou a chamar cemitério, arranjar as calçadas. O domínio comum passou a mãos particulares, às vezes por uma tuta-e-meia depois de mascambilhas a que nem sempre ficaram estranhos os zagalotes dos bacamartes e os padrinhos de má morte da política."

p.160-161

"Não é com a pulverização da propriedade que se desenvolve o instinto da mesma dado que haja virtude ou proveito social em cultiva-lo. A propriedade que desde longa data se vem retalhando em alíquotas tão miserandas é a causa evidente de grandes ruindades e abusões."

p.263

Passagens de "Aldeia: Terra, Gente e Bichos", de Aquilino Ribeiro, escrito em 1946.
Reed. de 2010, ed. Bertrand.