terça-feira, julho 31, 2012

Bate leve, levemente...

80% do território nacional está em seca severa ou extrema e a água armazenada nas bacias hidrográficas encontra-se abaixo do habitual, revela o último relatório de Acompanhamento e Avaliação dos Impactos da Seca.


 
Via Ondas 3




28

O sistema económico fundado no isolamento é uma produção circular do isolamento. O isolamento funda a técnica, e, por sua vez, o processo técnico isola. Do automóvel à televisão, todos os bens seleccionados pelo sistema espectacular são também as suas armas para o reforço constante das condições de isolamento das «multidões solitárias». O espectáculo reencontra cada vez mais concretamente os seus próprios pressupostos. 

Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012 
O texto original data de 1967.

segunda-feira, julho 30, 2012

172


O urbanismo é a realização moderna da tarefa ininterrupta que salvaguarda o poder de classe: a manutenção da atomização dos trabalhadores que as condições urbanas de produção tinham perigosamente reagrupado. A luta constante que teve de ser travada contra todos os aspectos desta possibilidade de encontro descobre no urbanismo o seu campo privilegiado. O esforço de todos os poderes estabelecidos, desde as experiências da Revolução Francesa, para aumentar os meios de manter a ordem na rua culmina finalmente na supressão da rua. «Com os meios de comunicação de massa que eliminam as grandes distâncias, o isolamento da população demonstrou ser um meio de controlo muito mais eficaz.», constata Lewis Munford em A Cidade na História, ao descrever um «mundo doravante único». Mas o movimento geral do isolamento, que é a realidade do urbanismo, deve também conter uma reintegração controlada dos trabalhadores, segundo as necessidades planificáveis da produção e do consumo. A integração no sistema deve apoderar-se dos indivíduos isolados enquanto indivíduos isolados em conjunto: as fábricas como as casas de cultura, as aldeias de férias como «os grandes conjuntos habitacionais», são especialmente organizados para os fins desta pseudocolectividade que acompanha também o indivíduo isolado na célula familiar: o emprego generalizado dos receptores da mensagem espectacular faz [com] que o seu isolamento se encontre povoado pelas imagens dominantes, imagens que somente através deste isolamento adquirem a sua plena força.



Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012
O texto original data de 1967.

O livro de Munford (clicar ali em cima, no seu título) foi o terceiro livro do mês aqui no Georden, já lá vão mais de cinco anos.

domingo, julho 29, 2012

171


Se todas as forças técnicas da economia capitalista devem ser compreendidas como operando separações, no caso do urbanismo trata-se do equipamento da sua base geral, do tratamento do solo que convém ao seu desenvolvimento; da própria técnica da separação.


Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012
O texto original data de 1967.

sábado, julho 28, 2012

169

A sociedade que modela tudo o que a rodeia edificou a sua técnica especial para trabalhar a base concreta deste conjunto de tarefas: o seu próprio território. O urbanismo é esta tomada de posse do meio ambiente natural e humano pelo capitalismo, que, ao desenvolver-se logicamente como dominação absoluta, pode e deve agora refazer a totalidade do espaço como seu próprio cenário.




Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012
O texto original data de 1967.

sexta-feira, julho 27, 2012

175

A história económica, que se desenvolveu inteiramente em torno da oposição cidade-campo, chegou a um estádio de êxito que anula ao mesmo tempo os dois termos. A paralisia actual do desenvolvimento histórico total, em proveito da exclusiva continuação do movimento independente da economia, faz do momento que começam a desaparecer a cidade e o campo não a superação da sua cisão, mas o seu desmoronamento simultâneo. O desgaste recíproco da cidade e do campo, produto do desfalecimento do movimento histórico pelo qual a realidade urbana existente deveria ser superada, aparece nesta mistura ecléctica dos seus elementos decompostos, que recobre as zonas mais avançadas da industrialização.



Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012
O texto original data de 1967.

quinta-feira, julho 26, 2012

Isto é bem capaz de ser importante

Em apenas quatro dias, a superfície de gelo que cobre a maioria da Gronelândia começou a derreter quase na totalidade, um fenómeno nunca antes observado. Ao mesmo tempo, vídeos na Internet mostram uma ponte destruída e uma carrinha a ser levada pelo caudal do rio.

in Público (com vídeos)

26


Com a separação generalizada do trabalhador e do seu produto perde-se todo o ponto de vista unitário sobre a actividade realizada, toda a comunicação pessoal directa entre os produtores. À medida que progride a acumulação dos produtos separados, e a concentração do processo produtivo, a unidade e a comunicação tornam-se o atributo exclusivo da direcção do sistema. O êxito do sistema económico da separação é a proletarização do mundo.


Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012
O texto original data de 1967.

quarta-feira, julho 25, 2012

174

O momento presente é já o da autodestruição do meio urbano. O rebentar das cidades sobre os campos, cobertos de «massas informes de resíduos urbanos» (Lewis Munford) é, de um modo imediato, presidido pelos imperativos do consumo. A ditadura do automóvel, produto-piloto da primeira fase da abundância mercantil, inscreveu-se no terreno com a dominação da auto-estrada, que desloca os antigos centros e exige uma dispersão cada vez maior. Ao mesmo tempo, os momentos de reorganização incompleta do tecido urbano polarizam-se em torno das «fábricas de distribuição» que são os hipermercados edificados em terreno aberto com um parking por pedestal; e estes templos do consumo precipitado estão eles próprios em fuga no movimento centrífugo, que os repele à medida que eles se tornam por sua vez centros secundários sobrecarregados, porque trouxeram uma recomposição parcial da aglomeração. Mas a organização técnica do consumo não é mais que o primeiro plano da dissolução geral que conduziu a cidade a consumir-se a si própria desta maneira.


Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012
O texto original data de 1967.

quarta-feira, julho 18, 2012

Às vezes dá nisto...

Estive a pensar e perguntei-me:

Em que aspectos a cidade de Braga está a falhar mais?

a) Oferta de espaços (verdes / de convívio / de lazer, em suma, público e não apenas de consumo de mercadorias...)
b) Cultura (oferta / acesso)
c) Habitação (estado / acesso)
d) Comunicações (transportes / vias)
e) Serviços (qualidade / acesso)
f) Oferta Comercial (diversidade)
g) Planeamento urbanístico
h) Cidadania (participação / expressão / intervenção)
i) Conservação (espaços / monumentos)
j) Qualidade ambiental (clima / atmosfera / paisagem /...)
k) ...

(não me lembro de mais...)

Que imagem temos da cidade nestes aspectos?
O que faz falta?

Talvez, sabendo os podres, possamos definir, ainda que apenas mentalmente, o caminho a seguir.
E / ou, melhor, saber quais os caminhos a preterir.

Às vezes dá nisto.

Alguma ideia a germinar por aí?

segunda-feira, julho 16, 2012

Guimarães CEC 2012: andanças



Vidal: Guimarães, quarteirão dos couros (11-07-12)

Recordo deambulações nocturnas por estas bandas. Estudantes deleitáveis, futuros geógrafos (sem geografia que nos valha), espécie de passeadores incorrigíveis pela cidade. E como esta foi mudando! Por momentos revivi, mas não de uma forma fantasmática, porque nunca deixei, de uma maneira ou de outra, de a visitar (amiúde) sem me sentir um visitante. Desta vez não estava escuro no quarteirão dos couros, e não pude deixar de pensar no documentário que revi recentemente na Rtp2, Périplo – Histórias do Mediterrâneo, realizado por Camilo Azevedo e apresentado por Miguel Portas, quando a viagem se detém em Fez – Marrocos - com as suas enormes tinturarias a céu aberto (muito semelhantes a estas), os seus tapetes, as suas ruelas labirínticas. Observando o quarteirão dos couros em Guimarães, estava perante uma história económica, social e cultural, para sempre tatuada na cidade, e que é também a história do seu povo, ou se quisermos, como nos sugere Calvino na sua obra As Cidades Invisíveis: “a cidade não conta o seu passado, contém-no como as linhas da mão”. E não pude deixar de pensar como, de certa forma, Guimarães está tão próxima de Fez, tão próxima que nem sequer o vemos. Ou não queremos ver…

sexta-feira, julho 13, 2012

Ah, Homem!

Imagem via GreenPages

Se os ambientalistas portugueses quiserem fazer parar a construção da barragem do Sabor ou do Foz-Tua, talvez devam falar com Rajendra Singh, 52 anos, presidente da Tarun Bharat Sangh (TBS), uma organização não-governamental indiana, e pedir-lhe alguns conselhos.

Rajendra teve um papel central na suspensão da construção de uma mega-barragem, no rio Bhagirathi, um dos principais afluentes do Ganges. Em 2010, o Governo indiano aceitou desmantelar a obra até aí erigida.

E se o assunto forem as pedreiras que esventram os parques naturais das serras de Aire e Candeeiros ou da Arrábida, talvez devam fazer o mesmo. Depois de uma luta aguerrida, nos anos 1990, o Supremo Tribunal Indiano obrigou 470 minas de mármore a encerrarem, no Parque Nacional de Sariska.

Por outro lado, se os problemas de falta de água no Alentejo ou em Bragança precisam de solução, o presidente da TBS terá, com certeza, uma resposta. Por sua causa, hoje, em todo o Rajastão, um dos mais pobres e áridos Estados indianos, existem mais de 10 mil johads, construções que retêm as chuvas das monções, erguidas pelas comunidades rurais, em centenas de aldeias. Através da sua política de conservação e gestão da água e das florestas, onde antes havia zonas desérticas, agora há campos agrícolas; onde havia leitos secos, de pó e pedra, há hoje correntes fortes e peixes; onde havia aldeias sem gente, voltou a haver escolas e serviços de saúde.
Pode um homem mudar o mundo? Parece que sim.

Quando o líder da comunidade de Golpalpura, Maangu Meena, chamou Rajendra Singh, estava com cara de poucos amigos.
Disse-lhe: 

"- Você e os seus companheiros são boas pessoas, mas estão a fazer tudo mal! Nós não precisamos dos vossos medicamentos, nem da vossa educação. Podemos ter tudo isso na cidade. Se querem fazer algo útil, resolvam o problema da falta de água!"



DE MÉDICO A CAVADOR




Foi um choque. Como podiam ser tratados assim voluntários com cursos superiores? Singh, então com 26 anos, era licenciado em medicina e tinha uma pós-graduação em literatura hindu e os seus amigos também eram "doutores". Tinham largado tudo, abandonado os empregos e as famílias, e há sete meses que se dedicavam às populações daquele distrito.

"Vínhamos para fazer a revolução, combater as injustiças, não para tratar da água", recorda. Os outros foram-se embora, desiludidos. Ele ficou.

"Durante sete meses, cavei um buraco, dez a doze horas por dia, sem saber muito bem o que estava a fazer. Os velhos camponeses iam-me ensinando, enquanto se riam de mim." 

O esforço deu origem a uma johad, um reservatório tradicional de recolha de chuva, usado durante séculos nas aldeias rurais da Índia. Construídas nos declives naturais, em forma de pequenos lagos ou barragens, as johads serviam para armazenar, durante o ano, a água que caía nas monções. Além de ser usada para usos domésticos e agrícolas, a água capturada ia-se infiltrando e recarregava os lençóis freáticos. Mas já nada disto acontecia.

"Na Índia, a água é um assunto das mulheres. 
Nos anos 1980, eram obrigadas a caminhar durante sete ou oito horas para recolherem cerca de 30 litros. Os homens tinham abandonado as aldeias para procurar trabalho na cidade, porque as terras eram tão áridas que não havia agricultura ", conta Singh. Mas o resultado do seu voluntariado, em 1986, foi o primeiro passo para a mudança: na primeira época de chuvas, a johad recolheu tanta água que algumas nascentes de poços secos começaram a correr. O fenómeno não era visto há décadas e isso revelou a Singh a sua verdadeira missão.

Decidido a espalhar a boa nova, organizou uma peregrinação para divulgar a sua forma de combater a seca: palmilhou as povoações que viviam nas margens do rio Arvari, morto há mais de 60 anos.
Na aldeia de Bhaonta-Kolyala, nascente original do curso de água, os habitantes estavam entusiasmados com o que tinha acontecido e pediram a Singh que os ensinasse a fazer johads. Mas ele pôs condições: tinham de formar um Gram Sabha, uma assembleia local, onde cada família tivesse o seu representante. Além disso, todas as decisões relativas ao uso da água e à gestão das florestas e das pastagens tinham de ser tomadas em conjunto.
Criou, assim, uma forma de envolver toda a comunidade na resolução dos problemas que mais a afetavam: a seca extrema, a erosão dos solos, a desertificação.

Nos anos seguintes, as populações ribeirinhas, com a ajuda da organização criada por Rajendra, construíram 375 estruturas, ao longo do rio. Devido à constante recarga de aquíferos, em 1990, o Arvari correu, pela primeira vez, durante umas semanas e, no ano seguinte, durante um mês. Até que, em 1996, se tornou num rio perene, fluindo todo o ano. Seguiram-se outros seis afluentes: Ruparel, Sarsa, Sabi, Bhagani, Jahajwali, Majis Hari todos renascidos pela mão de Singh.


DEMOCRACIA VERDE




Quando chegou a água, chegou também o Governo, pronto a concessionar a exploração pesqueira no rio, agora com peixe em abundância. Mas as populações opuseram-se fortemente. Criaram o Parlamento do rio Arvari, uma assembleia constituída por representantes das 72 aldeias sediadas nas margens do curso de água representa, hoje, mais de 100 mil pessoas e reivindicaram para si a gestão do rio. "Quanta água podemos tirar? Que culturas se devem plantar? Quanta madeira se pode cortar das árvores? Foi este tipo de responsabilidade que os habitantes assumiram", explica Singh.

As grandes beneficiárias desta revolução talvez tenham sido as mulheres.
Deixaram de percorrer dezenas de quilómetros em busca de água potável e podem agora dedicar-se a outras actividades.
Mais: a TBS fomentou uma política de igualdade de género, criando conselhos específicos nos quais as opiniões femininas são tidas em conta e fazendo depois chegar os seus pareceres vinculativos aos Gram Sabha de cada aldeia.

"Na minha cultura, 'civilização' significa respeitar as mulheres, a água e os rios.
Com a regeneração das áreas agrícolas, começou a haver rendimento disponível, que vem da venda do leite e dos cereais.
As mulheres assumiram a gestão desse dinheiro e ganharam poder", nota Singh.
"Agora, podem tomar decisões e são sempre as mulheres que tomam as decisões mais sábias." Estas batalhas culturais são difíceis mas comparando-as com as tentativas de assassínio por parte de industriais das pedreiras ou com os processos judiciais movidos pelo Estado contra si ou a sua organização (377 acusações, das quais foi sempre absolvido), parecem muito simples.
E para Singh, são: "Se vives para a natureza, ela dá-te sempre a proteção de que precisas." O activista foi agora convidado pelo primeiro-ministro para integrar a Autoridade Nacional para a Bacia do Ganges, uma agência estatal autónoma, com plenos poderes e meios financeiros, cuja missão é despoluir o rio sagrado. 

"Deviam fazer o mesmo no Tejo, que bem precisa. Posso vir cá quando quiserem, é só convidarem."




Notícia, integral mas adaptada, transcrita daqui: Visão Verde

quinta-feira, julho 12, 2012

Cheira bem, cheira a dinheiro!

Depois das luvas dos TUB, mais esta.
Soma e segue!
(Siga pra bingo!)

A Câmara Municipal de Braga avaliou o imóvel da Fábrica de Sabonetes Confiança em 3,67 milhões de euros e afinal um perito das finanças veio dizer que não vale nem 1 milhão (cerca de 900 mil euros).

Notícia do Diário do Minho de hoje, para a qual não achámos hiperligação na própria, mas que alguém, ainda bem e atento, colocou aqui.

Pergunta: Porquê esta discrepância de valores?

Resposta: Porque o dinheiro a ir para o privado é de todos, não de quem quer comprar.

Uma negociata mais, entre eles e entre eles apenas, em nome do interesse público. Em nome do Comum, da Res Pública, em nome dos "concidadãos" e dos "munícipes".
(É para isto que nos querem "munícipes".)

Já estava tudo encaminhadinho, a máquina bem oleada, mas o fisco pôs o pauzinho na engrenagem.

Terá sido em nome da contenção orçamental (isto é, já não se pode "desviar" sem regras)?
Será por causa da crise?

- "Olhe que não, olhe que não!"

Que é em tempo de crise que é mais fácil roubar.
Que é em tempo de conflito que a pilhagem se torna mais fácil, proveitosa, impune e indetectável.

quarta-feira, julho 11, 2012

"Somos todos espanhueles"




Hoje o senhor Rajoy anunciou um "paquete" de medidas para combater a crise económica; hoje o "pacote" de Rajoy foi calorosamente aplaudido pelos deputados do seu partido...


Entre essas medidas figuram as seguintes:


• Os funcionários... um mês de salário a menos!...
• O IVA... sobe de 18% para 21%...
• Para os partidos políticos, os sindicatos e as organizações empresariais reduzem-se-lhes em 20% as subvenções...; pobrezinhos!
• Dá-se um golpe no sistema de pensões...; pois claro, porque no fundo um dependente sempre é um inútil e improdutivo!
• Baixa-se o valor do subsídio de desemprego...; 
• Acelera-se o atraso na idade de reforma e endurece-se o pedido de reforma antecipada;
• Sobem-se os impostos...; mas deixam-se soltos os ladrões de colarinho branco;
• Elimina-se a dedução na aquisição de casa...; e ter uma habitação digna vai deixar de ser um dos direitos humanos fundamentais...


Por Fernando Lucini


A mesma fórmula, a programada pelos estrategos guerreiros do tempo do Capitalismo, Miltons Friedmans e o raio que os parta a todos, aplicada a países que não conhecem minimamente, não respeitam, despeitam, e só querem fazer desaparecer do mapa.

Ou esvaziá-los de poder por completo.

"If you like you can use your flag, boys"


If you like you can use your flag, boys
If you like you can use your flag
We've got too much money we're looking for toys
And guns will be guns and boys will be boys
But we'll gladly pay for all we destroy
'Cause we're the Cops of the World, boys
We're the Cops of the World

(...)

And when we butchered your sons, boys
When we butchered your sons
Have a stick of our gum, boys
Have a stick of our bubble gum
We own half the world, oh say can you see
And the name for our profits is democracy
So, like it or not, you will have to be free
'Cause we're the Cops of the World, boys
We're the Cops of the World 

Phil Ochs, "Cops of The World"


Na canção,  gravada pela primeira vez em 1966, parece-nos cantar

And we'll find you a leader that you can elect

Mas ele canta 
And we'll find you a leader that you can't elect

As intervenções militares, com as guerras preventivas, danos colaterais, fogos amigos, guerras ao terror, "shock and awe", José Cousos e bases militares espalhadas por todo o mundo estavam (?) para os tempos da Guerra Fria como os FMIs, os BM, os Golden Sachs, as agências de rating, as OMC's estão para os "reajustamentos económicos" hoje.

E é vê-los cair, em dominó, e os seus decisores serem substituídos pelos chefinhos e líderes não eleitos que já passaram pelas empresas e multinacionais e servidores do poder dos bancos e das agências financeiras que efectivamente controlam todos os aspectos da vida que passam pela moeda bastarda de troca social que é o dinheiro, incluindo o que vais comer amanhã - ou se vais comer-, as notícias que vais ver e as notícias das quais não vais querer ouvir falar, por serem chatas e te terem feito a cabeça para não prestares a mínima atenção ao que realmente importa e afecta o teu dia-a-dia...

Irlanda, Islândia, Portugal, Grécia, Espanha, Itália, quiçá França, talvez até Alemanha.. (a propósito, a taxa de inflação na Alemanha, dizem os média em rodapés, baixou para 1,7%...).

Pelo caminho, vidas destruídas e erradicação... não da pobreza mas dos pobres.
Porque é bem mais democrático (não é em Democracia que dizem que vivemos? e que é este o culminar do progresso das sociedades humanas, o tal "fim da História", seu Fukuyama duma figa que, nem eu sei, já deves ter revisto todas as tuas teorias benfazejas para a espécie neandertal que rasteja por esta Terra...) deixar morrer de fome milhões de homens do que matar, com guerras civis, mundiais ou regionais (todas as guerras são regionais...), os mesmos milhões.

Independência.
In-dependência.

In-de-pen-dên-CIA.
IN-de-PEN-DÊN-cia.

IN-DE-pen-dên-cia.

Braga: religião no espaço público

Vidal: São vicente, Braga (10-07-12)


Parece que há grafitis e grafitis. Este está por ali nas paredes da Escola Secundária Sá de Miranda. E resiste. Ficamos definitivamente a saber que as plantas não rezam. E será que estudam?

terça-feira, julho 10, 2012

Amén, senhor Presidente

E agora desculpem-me se isto estiver a ficar demasiado fulanizado.
É que as corrupções são camisolas de vestir. E há quem as vista. E bem! Fazendo vista grossa.

É a notícia pra aquecer: no D. de Notícias, no J. de Negócios, no Público...
É o senhor, Vítor Sousa, "de consciência tranquila", claro está, que já vai a caminho do lugar cimeiro da administração distrital. Na corrida. Já tem todos os requisitos.
Senão vejamos:
- é escolhido pelo partido a que pertence, sem mais delongas ou considerações da parte dos seus afiliados;
- é de um partido que angaria associados com lanches durante uma tarde;
- esteve numa empresa pública muncipal e agora candidata-se ao Município;
- já é suspeito de práticas obscuras;

Este senhor que se segue, mais os eleitores que são feitos à imagem e semelhança - não sabemos quantas centenas ou dezenas de acólitos da corrupção - tem tudo pronto para saltar prò poleiro.
Já tem a prática toda dos mais famosos cá do país que até acabam - estando já numa "idade avançada" ou de "grande maturidade" - a cumprir penas domiciliárias.

Não é "World Leaders Chose World Leaders".
É: "Caciques locais escolhem caciques locais".

E tudo permanece continuamente entre os mesmos de sempre, bolorentos e já a arrebentar com a nossa paciência de fracos e esfomeados. Os leões vêm-nos comer a mão. E levar-nos-ão os votos.

E depois eles dirão, arrogantemente democráticos:

"Vêem? Eles deram-nos razão. Tínhamos motivos em estar tranquilos."

Uma coisa é a legitimação democrática. Que em nada anula a suspeita que recai, uma vez mais, sobre os párocos deste antro barroco muito mal frequentado.
Outra coisa é a suspeita de tráfico, de desvios de maquias, de abuso do poder, de delapidação e apropriação de dinheiros que dizem públicos mas que os "públicos" nunca vêem. Além de salários chorudos.
Outra coisa ainda é a tranquilidade, a imunidade, de que os corruptos de pança cheia gozam nestes burgos cacicados.

Notícias omissas nos órgãos que servem o poder, transformam, há anos valentes, esses órgãos em acólitos e instrumentos desse poder. Não há que enganar. Depois vêm logo acudir, a dizer que estiveram também lá, a dar a notícia. Para ninguém pensar que estaria a omitir o que se diz por aí e "o que se escreveu que se escreveu".

Como já dissemos - e isto continua cada vez mais escandalosamente a saltar cá pra fora, como qualquer porcaria que sempre vem ao de cima de cada vez que remexemos um bocadinho mais nesta terra... - são pessoas e camisolas corrompidas e bem cheirosinhas, lavadas a branco, com bom dinheiro - para que tu e eu nos calemos, que temos o filho a trabalhar ali, que o amigo deu "um jeito" - que controlam, estrategicamente, colocadas em pontos fulcrais desta economiazinha de fachada a cair de podre.

Uma farmácia, uma empresa de "tratamento" (?) de lixo, um belo restaurante, mais uma empresa e outra empresa municipal, mais não sei quantas ligações toupéiricas a construtoras/destruidoras civis e imobiliárias, mais o apoio da santa sé, que tem de se apoiar sempre em quem mais forte for sendo... (os fracos da História...), mais o clube de futebol, mais a rádio e um jornal local...  e temos o caldo entornado.
Sempre a mesma sopa.

E estas são as pessoas que temos.
E estes serão os escolhidos que elegeremos.
Tranquilos, porque nunca serão julgados.
Tranquilos, seus perpetuadores complacentes estúpidos, os eleitores.
Porque há muito morreu neles a possibilidade de julgar.

segunda-feira, julho 09, 2012

Ninguém leva a mal…

Vidal: Zona da Quinta da Armada, São Victor, Braga (08-07-12)


O mais curioso neste (suposto) arraial minhoto era não aparentar ser um arraial nem (muito menos) minhoto. Um arraial é uma festa popular ao ar livre, por vezes associada a uma romaria, e neste caso apenas se verificava a parte do “ao ar livre”, de festa nem sombras, e popular não é certamente sinónimo de brejeiro. Pelo menos a entrada seria à borla. Não basta ter música(?), mais um tipo a debitar uns supostos concursos e anúncios, normalmente associados a comida, e mais comida (o objectivo seria arranjar fundos para uma associação de bairro?). E não chamaríamos música – e muito menos música popular ou tradicional – àquilo: uns altifalantes a roncar decibéis imperceptíveis, ora a grunhir música de discoteca tipo “carrinhos de choque”, ora brasileirices intragáveis, ora (uma ou outra) portuga daquelas de bradar. E repetidas. Umas e outras: sempre as mesmas. De minhoto talvez porque aconteceu em Braga. E arraial, só se foi de comida…

sábado, julho 07, 2012

Divórcios...

Resolução da Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira n.º 29/2012/M. D.R. n.º 130, Série I de 2012-07-06

Região Autónoma da Madeira - Assembleia Legislativa

Proibe o Governo Regional da Madeira e os Serviços, Institutos e Empresas Públicas sob tutela da Região Autónoma da Madeira de responderem a qualquer iniciativa de inquérito, com origem na Assembleia da República

Nunca digas desta água não beberei

sexta-feira, julho 06, 2012

Música para Neozelandês Ouvir

Não sei muito sobre o período revolucionário do meu país. Sei, no entanto, bastante da música que esse período produziu.
A minha opção de apresentar este género não partiu portanto de um interesse particular pela Revolução, mas sim por um interesse particular pela música da Revolução. Excluí o fado porque está demasiado conhecido por quem gosta de música do mundo; e o pop rock é igual a todos os outros popes rockes do resto do mundo. Pensando bem, talvez se possa mesmo defender que as canções que se fizeram nos anos que rodeiam o 25 de Abril, e dedicados a ele, sejam as mais portuguesas de sempre, com a sua mistura de urbano e rural, antigo e intervencionista, tradicional e eléctrico. Penso nas soluções originais de raíz rural do Zeca Afonso, nas harmonizações inéditas mas tocadas com instrumentos populares do Sérgio Godinho, na força universal da tipicidade lusitana dos Trovante.

Essa era alguma da música que levei para a Nova Zelândia. Seguiam na bagagem também o José Mário Branco, o Vitorino, o Adriano, o Cília e o Carlos do Carmo - este último não por causa do fado, mas por causa daquele medley de homenagem aos cantautores de Abril que ele apresenta no disco do Olympia.
Começámos pois a nossa pequena revolução radiofónica com «Grândola, Vila Morena», seguimos com «Os Pontos nos Iiis», «Trova do Vento que Passa», e ainda «Uns Vão Bem Outros Mal», «Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades», e por aí fora. Eu ia explicando em inglês os títulos, os temas, as razões, a conjuntra em que nasceram todas estas canções. O Xavier fazia perguntas, as minhas respostas contextualizavam a música dessa noite num passado distante de caravelas e impérios e num passado recente de activismo, lutas e conquistas sociais.

Não sei o que terão pensado os agricultores, os criadores de gado, os lenhadores dessa comunidade rural de duas mil almas [Raglan], sobre esta revolução que lhes entrava pela casa adentro na noite serena. Terão talvez pensado que este povo português é tramado. Um povo de irredutíveis idealistas. E também um povo solidário, sensato, espartano, gente imune às tentações do consumismo bacoco e arrivista. Eu não desfiz o engano no final do programa, deixei-os ficar com essa ideia. Para se actualizarem, terão de vir ao fim do mundo para eles. É muito longe...


Gonçalo Cadilhe, em "Um Lugar Dentro de Nós", Clube do Autor, 2012, pp.100-101

quinta-feira, julho 05, 2012

" O Velho Expresso da Patagónia", de Paul Theroux


Título: “O Velho Expresso da Patagónia”

Autor: Paul Theroux

Tradução: Nuno Guerreiro Josue

Edição: Quetzal (2009)


Mas esta moral explicada por geografia "transpontina" era mais complexa do que parecia à primeira vista. Se os texanos tinham o melhor de ambos os mundos, decretando que os antros de perdição permanecessem do lado mexicano da Ponte Internacional – com o rio correndo, como o progresso errático de uma discussão difícil, entre a virtude e o vício –, os mexicanos tiveram o bom senso e o tacto de manter Boys’ Town camuflada por decrepitude, no outro lado dos carris; outro exemplo da geografia da moralidade. Divisões por todo o lado: ninguém gosta de viver ao lado de um bordel. Ainda assim, ambas as cidades existiam por causa de Boys’ Town. Sem a prostituição e o crime organizado, Nuevo Laredo não teria fundos municipais suficientes para plantar gerânios na praça em volta da estátua do seu gesticulante patriota, muito menos para se anunciar como bazar de artigos de vime e de folclore de tocadores de guitarra – não que alguém alguma vez tivesse ido a Nuevo Laredo para comprar cestos. E Laredo precisava do vício da cidade irmã para encher as suas igrejas. Laredo tinha o aeroporto e as igrejas, Nuevo Laredo, os bordéis e as fábricas de cestos. Era como se cada nacionalidade tivesse gravitado para a sua área especial de competência. Era economicamente sensato; seguia à letra a teoria das vantagens comparativas explicada pelo eminente economista David Ricardo (…)


Mexicanos entram nos estados Unidos porque há trabalho para eles. Fazem-no ilegalmente – é praticamente impossível que um Mexicano pobre entre legalmente se a sua intenção é procurar trabalho. Quando são apanhados, são atirados para a prisão, cumprem uma pena curta e depois são deportados. Ao fim de poucos dias, regressam aos estados Unidos e às explorações agrícolas onde conseguem sempre encontrar trabalho mal pago. A solução era simples: se fosse aprovada uma lei que obrigasse as explorações agrícolas a empregarem apenas homens com vistos e autorizações de trabalho, acabava-se o problema. Essa lei não existe. O lobby das explorações agrícolas assegurou que assim fosse, pois, se não houvesse Mexicanos para explorar, como fariam estes asnos negreiros as suas colheitas?

(pp. 71-72)


Será interessante certificar que Paul Theroux viaja e escreve durante o ano de 1978. Datando a edição original de 1979. O que mudou?

"E hoje, portaste-te bem, robô?"

quarta-feira, julho 04, 2012

O Poder é Prepotente



Há provas, objectivos, e acontecimentos, indesmentíveis, que demonstram que o estado social em que vivemos não respeita a coexistência nem o direito às diferenças de opinião e manifestação.
Um regime assim tem um nome e há que chamá-lo, sem medo e declaradamente, FASCISMO.


O Fascismo, antes de ser um regime político, é um modo de relacionamento entre as pessoas e o espaço público. É a predisposição (racional ou não) de uma comunidade a regular as suas práticas individuais e colectivas segundo uma Ordem. É o processo quotidiano de inter-coacção, vigilância e medo pelo qual as condutas desviantes, a espontaneidade, as singularidades e idiossincrasias, o humor, a divergência ou a rebeldia se vêem obrigadas a optar entre justificar-se – assumindo uma discursividade institucional e fundindo-se com a unicidade da Ordem – ou desaparecer, anular-se, deixar de existir. 




A Ordem é um sistema moral e estético, responsável pela integração vertical da multiplicidade de existências, de seres e lugares, do bem e do mal, do belo e do feio, do limpo e do sujo, do crime e do pecado, que materializa, elege e glorifica na vida de uma comunidade um modo, por oposição a todos os outros modos. A Ordem é a expressão material – observável tanto na gestualidade de um encontro entre dois amantes como na disposição do asfalto, nas paredes de uma rua como nas mesas de uma esplanada, na circulação automóvel como no tom de uma gargalhada – da ideologia que permite que uma parte reservada dessa comunidade mantenha o Poder sobre o seu todo. 


O Georden solidariza-se com o movimento libertário Da Barbuda.


Leiam, por favor, o seu testemunho, fonte, aliás, proveniente da belíssima foto acima. Aqui:

segunda-feira, julho 02, 2012

"Lest the mirror stop turning"*



* verso de uma música dos King Crimson, "Cirkus"



"Lest" é uma palavrinha maravilhosa que quer dizer "para impedir que".

"Para impedir que o espelho pare de rodar", somos assediados em contínuo, como por metralhadora inesgotável, movida a dinheiro, por propagandas e ideias-feitas, inquestionáveis, inquestionadas, que nos esmagam a paz de espírito e, por conseguinte, nos anulam a capacidade de análise.

E, "não sabendo a verdade do problema colocado, não se pode aferir a estratégia a seguir."

Da mesma forma, a "inevitabilidade do capitalismo", o "fim da história", o "não há outra alternativa" (como se a que é imposta fosse UMA alternativa...).

A partir daí, acenam o futuro risonho com a destruição do presente. 
Nas suas mais variadas formas e fastios. 




Como estas:


"Teremos de fazer sacrifícios para sairmos da desastrosa situação económica em que caímos."

(mesmo que para "a operação ser um sucesso o paciente morra")


(versus)



"O terrorismo serve para a sociedade aceitar a sua própria escravatura em nome da liberdade".

(frase de um livro de Eric Fratini que ainda está por publicar)



Lede isto.


(voltaremos aqui, porque tudo isto faz parte do Portugal Provisório que vai enferrujando e calcinando a reversibilidade...)

domingo, julho 01, 2012

Frágil