quinta-feira, maio 31, 2012

 A União Europeia acaba de dar um subsídio de 80 biliões de euros à indústria do gás anteriormente destinado às renováveis. Para o fazer incluiu o gás na lista das renováveis, denuncia o Guardian. 


 A DuPont/Pioneer conseguiu adquirir a African Centre for Biosafety, até agora a detentora do banco de sementes da África do Sul. GMWatch. 


 Atum capturado ao largo da Califórnia revela contaminação radioativa adquirida por ação da catástrofe nuclear de Fukushima. AP/MSNBC. 


Mais uma vez, via Ondas3 




Os três exemplos acima incitam-me a expelir a seguinte observação.


É que todas estas machadadas na rés pública (e não há melhor exemplo da rés pública que o meio ambiente, pois o conceito, no caso, é extensível a todos os seres vivos e não apenas ao Homem) têm vindo a ser dadas por actos e decisões políticas. A quase totalidade, sem escrutínio ou consulta pública (senão, nem valia a pena ir prò poleiro servir os tubarões...)

Derivam de valores e de seus supostos emblemas-representantes que escolhemos por engano (propaganda, demagogia, márquetingue, "merkeling" e outras demais ludibriações com que nos vendem peixe podre por fresco, vulgo Coelho / Coelhone por lince) ou mesmo convencidos de que do arrasamento de todos os direitos e construções morais humanas se podem erguer coisas boas...


Apesar de ter efeitos diferentes de uma guerra, atentemos que não é com guerras que estão a decepar-nos os membros. 


Nós não podemos escudar-nos na nossa fraqueza física, de recursos. Sim, de recursos, sim. Cada vez mais. Atrelados estamos ao jugo da dependência económica, bois are we. À economia de que nos querem fazer crer que estamos dependentes (NÓS NÃO TEMOS DE RESPEITAR A ECONOMIA - E MUITO MENOS OS ECONOMISTAS!! - MAS SIM DE ESTAR ENQUADRADOS NA ECOLOGIA e de rejeitar uma economia que não sirva um Homem equilibrado com o pulsar da Terra)...

Nós não podemos alegar, sequer, a posição minoritária: são uns poucos que as tomam. 
Uns poucos que NÓS TEMOS / TIVEMOS RESPONSABILIDADE - a escolhê-los, ou, como vai esta porcaria dos directórios dos partidos e esta estrutura piramidal cada vez mais titubeante e erodida, a escolher os que escolhem - de colocar, delegando, nos centros de decisão. Nas instituições que, ao darmos crédito, se consolidam e nos esmagam. 

Assim, invocam - que bons que eles são, no fundo, n'é?!...- a legalidade e o estado de Direito.
Invocariam eles o Estado de Direita?
Os fingidores apenas de desmascaram no fim da peça...



Apesar de ter efeitos diferentes de uma guerra, atentemos que de igual forma nos vão decepando os membros. Está a chegar às pontas superiores dos corpos... 

Esta guerra está a ser travada em nome da Democracia. 
Mas não está a ser feita por democratas. 
E estamos a perder.
TUDO.

Por aqui e por ali, o cerco aperta-se (mas a bomba também se vai construindo...)

Milhares de proprietários de imóveis nas margens do Douro podem perdê-los dentro de dois anos. A legislação afecta as margens de todos os cursos de água navegáveis. Não basta apresentar o registo predial e demais documentos de titularidade. Todos têm de comprovar que o edifício ou o terreno em causa está nas mãos de privados há quase 150 anos. JN

O que andaram as juntas de freguesia e câmaras municipais a fazer durante tanto ano? Das duas uma ou até mesmo as duas coisas ao mesmo tempo: a fazer vista grossa aos actos egoistas do chicoespertismo ou a promover e a apoiar muita construção junto das margens. Por isso, enormes extensões das margens do Douro, - e de tantos outros rios, para não falar de tanta ribeira -, foram privatizadas abusivamente, não deixando sequer o direito ao cidadão comum de caminhar ao longo da margem, situação que é totalmente diferente em outros países. Por exemplo, em França, na Alemanha, no Reino Unido, o cidadão pode circular à vontade pelas margens dos rios e ribeiros, havendo trilhos geralmente bem cuidados. E nos pontos em que isso não é possível, há sempre uma alternativa de prosseguir a marcha pela outra margem. 

quarta-feira, maio 30, 2012

Diz que esta se preocupa com as criancinhas em África, mas o melhor é não aparecer na Grécia tão cedo…


A directora do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, ganha 380 mil euros por ano em salário, livre de impostos. A remuneração de Lagarde está a ser criticada depois de aquela responsável ter dito, numa entrevista durante o fim-de-semana, que os gregos devem empenhar-se em ajudar o país a braços com uma grave crise, pagando os seus impostos.
(ler mais no Público)

terça-feira, maio 29, 2012

Estamos no bom caminho…


Mais de 27% das crianças portuguesas vivem em situação de carência económica. O retrato é traçado no relatório “Medir a Pobreza Infantil”, que é nesta terça-feira apresentado pela Unicef e que coloca Portugal em 25.º lugar numa lista de 29 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico. (in Público)

terça-feira, maio 22, 2012

Como se chama...?

Num intervalo de um programa parvo, um intervalo longo, longo, longo, preenchido por parvoíces entre a lavagem da louça, pude ouvir, de soslaio (se os ouvidos também treslêem), pelo menos sete referências a "Vem apoiar a tua selecção".

Seja por anúncio ao jogo, seja por patrocínios comerciais à mesma selecção, seja por a associação da imagem de um banco a uma imagem idealizada dos nossos anseios de uma qualquer vitória...

(- e também houve / ouvi uma referência a "Vote na maravilha de Portugal", Tróia, no caso... (maravilha porquê?, por causa dos morcegos que lá havia nas torres? por causa do empreendimento turístico?... ah, já sei, por causa da praia, que é isso que está a votos...)

- da vitória que nunca chega,
- dos esforços monetários e com a complacência do Estado e de cada um de nós que alimenta esta porcaria de desporto
- da vitória causadora de derrotas e desinvestimentos e desatenções nos outros desportos dos quais, no minuto que lhes é concedido nos telejornais (não vamos nós começar a perceber onde é que afinal nós ganhamos competições...), vamos vendo vitórias efectivas (judo, triatlo, salto em comprimento, corta-mato, maratona, canoagem, ténis, etc., etc.)

...que não passa de entretenimento alienante, estupidificante e manipulador, fétido, corrupto e bimilionário, (onde um senhor que nós também não elegemos, Madaílossauro defende-se com o argumento de que os prémios dos jogadores já estão definidos... que mesmo que não nos revele os montantes, já sabemos serem escandalosos e criminosos para um país tão pobre... apenas compaginável com a pequenez da pocilga em que se vai mantendo a nossa cabecinha chafurdadora)...

Seja por que motivo for (e há muitos interesses económicos a mover um instrumento de poder como o é a televisão e qualquer meio de manipulação de massas, a televisão, os jornais e ...),

como é que se chama à ocorrência destas tantas menções à selecção (de futebol, claro está...) num intervalo parvo?

Chama-se propaganda.


Para manter a tão pretendida "unidade nacional", a idílica, que resiste a todas as tropelias e abusos que este governo mundial e de expulsar por casa vai cometendo em nosso nome...

Há quem use as bandeiras, as mentiras, há quem denigra e crie inimigos, há quem invente ameaças.
Nós inventamos a união parva em volta de 11 parvos a comer relva sintética.

E se aquele matraquear repetido e aviltante proviesse de um qualquer partido político, ou que contivesse conteúdo idem, logo viríamos apontar o dedo.
Mas como é de âmbito incompreensivelmente dito (se...) apolítico, nós não notamos.
Não dizemos nada.
Engolimos.
Fezes-feitos.
Enfezados, portanto.

Não pude desligar a dita, a dura, a tal que "não cede às pressões", que estava com as mãos molhadas.
Valeu-me encher-me de raiva que logo aproveitei - como sempre tento fazer - para transformar em criatividade e comunicação.
Disto.

A vozearia da treta na latrina chamada Portugal.

Verdes, amarelos e vermelhos assim em nada contribuem para a diversidade.
Cultural, biológica, política, social.
Apenas aumentam a mesmice e a esterilidade.

domingo, maio 20, 2012

Piscina coberta


Vidal, Braga (20/05/12)

Recordo-me bem. Final da década de 1990, numa conversa de final da tarde em Barcelos, um professor de geografia falava-me do absurdo de algumas construções em Braga, executadas em cima de linhas de água, ou com o recurso a desvios e verdadeiras operações cosméticas de ocultação. Anos mais tarde, não precisei de lupa para ver alguns dos efeitos produzidos, ali ao braga parque e arredores, por exemplo. Garagens inundadas, com muita ou pouca chuva, e parques de estacionamento que nunca chegaram a ser utilizados, alguns dos quais com bombas permanentes a sacarem água. Assisti em camarote presidencial ao desaparecimento de um ribeiro junto ao retail parque, bem perto da 4ª torre, a tal que prometia o paraíso, e demorou 12 anos a ser concluída. E qualquer pessoa em Braga já experienciou a rotunda da feira nova em dia de chuva. As imagens que aqui deixamos pertencem ao imenso parque de estacionamento de uma superfície comercial relativamente recente, entalada entre o braga parque e o prédio verde. A piscina, com parte funda e zona para crianças, corresponde a uma entrada para (mais um) andar inferior, neste caso fechado por razões óbvias. Imaginemos agora em conjunto esse andar inferior. Conseguem imaginar?

Vidal, Braga (20/05/12)


Construir deveria obedecer sempre ao conceito de adaptabilidade ao espaço onde sita: geologia, topografia, geografia, ecossistema, clima, construções envolventes, acessos, pessoas; associados aos materiais a utilizar e arquitectura. Acabava por ficar, de certeza, mais barato.

quarta-feira, maio 16, 2012

É um princípio: se tens olhos pára

UNESCO quer mandar parar obras da barragem do Tua:

Parar imediatamente as obras de construção da barragem de Foz Tua, solicitar uma missão conjunta de análise à situação da área de paisagem classificada do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial e remeter um relatório actualizado até ao final de Janeiro próximo.

(DAQUI)

domingo, maio 13, 2012

Dos finidores do mundo

O mundo pode não acabar em breve, mas estamos a fazer muito por isso.

O exemplo é um contra-exemplo. Dado pelo amigo do Ondas3:


A justiça chilena mandou suspender o projeto hidroelétrico Rio Cuervo, que incluia a construção de uma barragem na Patagónia chilena.


Submergimos áreas úteis e vivas (afinal de contas, que são 5 mil hectarezitos? Numa área vital e até, pasmem-se, reconhecida como Reserva da Biosfera (qual a não será?) em nome da lei e do progresso e da independência energética, cujos lucros vão para uma empresa, cujos danos de disseminam por todo o mundo (e não pode o mundo cair-lhe em cima, coitados das baratas desorientadinhas que não sabemos onde morder...) ...

...simplesmente porque cada vez somos mais e consumimos mais fazêmo-lo por nossa vontade? Alguém no-lo obriga? Em nome dos Estados, camuflados e tomados por quem quer manter o mundo dominado e a seus pés, para que o mundo não se torne imprevisível e instável... ai, que vai ser de nós, que andámos todos estes séculos de capitalismo a trabalhar para um dia perdermos tudo o que juntámos, assim, sem mais nem menos, como uma qualquer espécie de fim do mundo que se abate qual tromba de água inesperada...

Blá. Blá. Blá.

Em nome do bem-estar. Não esqueçam. Morramos hoje para amanhã vivermos melhor. Já está. Está a ser há muito tempo.

Mas está a chegar ao fim. A festa de babete.

quarta-feira, maio 09, 2012

Metáfora do dia

La Notte (1961), Michelangelo Antonioni
(imagem emprestada daqui)


"Se tais imagens parecem vazias é por o homem estar ausente delas mas sobretudo por esta ausência suspender a legibilidade da imagem à entrada em campo de uma personagem ou figura identificável e condenar o olhar do espectador a errar à superfície duma imagem que não tem outra medida senão o infinito horizontal de um espaço contínuo a perder-se de vista..."

José Moure, "Michelangelo Antonioni - Cinéaste de l'Évidement", Ed. L'Harmatan, Paris, 2001, p.95 (excerto traduzido por Edward Soja)

terça-feira, maio 08, 2012

Ousa a recusa de quem te usa

As Bolsas (atentemos na maiúscula, típica soberba das instituições. Que instituem. À revelia de quem as não elege e de quem, sobretudo, não deixa de as alimentar) de Paris e Atenas estão em forte queda.

Depois das eleições de domingo, os Mercados "recuaram".

É preciso dizê-lo. Claramente e por agora: A economia, tal como é e a propagam hoje, (ah, esqueci-me, portanto... Dizia eu, a Economia...) não gosta da (atentemos no artigo definido...) Política. (Também ela com letra grande, embora ande muito pequenina. Digo eu.)

Que tem isto a ver com Geografia (olha, e ele a dar-lhe...!)?

Aventem-lhe as hipóteses e os finos fios que a as malhas tecem.
Que somos nós.
Por aqui e por ali.
Aprisionados neste presente. Envenenado.

quarta-feira, maio 02, 2012

"Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno", por Serge Latouche

A propósito do tão propalado e sacrossanto crescimento económico, ou crescimento a que já caiu o económico, teríamos de voltar a este livro.

Ontem, 1º de Maio, dia do trabalhador, não foi um dia especialmente memorável para os "colaboradores" de um dado estabelecimento comercial espalhado pelo país, embora com sede fiscal fora dele.

Mediante a decisão / imposição / regulação dos preços nos seus burgos resulta um fácil controlo dos comportamentos de milhares de quase-mortos que pedincham por dignidade e vida. E que se riem, porque as suas preces foram ouvidas: haja caridadezinha...

Esta reacção automática massiva, como mihares de robôs, não é muito diferente dos apitos imbecis pela vitória de um clube ou de um partido, ou por qualquer outra manifestação alienante.
Aconteça ela em conjunto, em massa, ou individualmente.
(Como estarmos milhões, cada um em frente ao seu, a olhar para um ecrâ.
De televisão ou de ordenador.)

Que faz cada um de nós?
O primeiro passo para a reconversão desta economia e para a retracção dos valores que ela impôs está em fazer o contrário do que ela nos obriga (mediante controlos como o de ontem).
Reduzir o consumo.
Irá começar por alterar tudo.
Não será suficiente.
Depois urge não parar.
Mas primeiro temos de começar e forçar.

Ficam aqui algumas passagens interessantes deste pequeno e lúcido tratado.






Título: Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno
Edição Original: Petit Traité de la Décroissance Sereine (2007)
Autor: Serge Latouche
Tradução: Víctor Silva
Edição: Janero de 2011
Editora: Edições 70
ISBN: 978-972-44-1646-5
Paginação: 160 páginas

"Não podemos produzir frigoríficos, automóveis ou aviões a jacto «maiores e melhores» sem produzir também detritos «maiores e melhores». Nicholas Georgescu-Roegen "(...) a maximização do consumo baseia-se na predação e na pilhagem dos recursos naturais, à economia do cosmonauta, «para a qual a Terra se tornou um veículo espacial único, não possuindo recursos ilimitados, seja para dela os retirar, seja para nela vazar os seus poluentes»." Quem acredita que é possível o crescimento infinito num mundo finito ou é louco ou economista.
Kenneth Boulding
(p.28)


"Ao contrário doutras tradições religiosas como o budismo, a tradição cristã não favoreceu no Ocidente a relação harmoniosa entre o ser humano e o seu ambiente vivo e não vivo. O marxismo inseriu-se nesta tradição, o que levou Hans Jonas a dizer: «A humanização da natureza por Marx é um eufemismo hipócrita para designar a submissão total desta mesma natureza ao ser humano para uma exploração total com a finalidade de satisfazer as suas próprias necessidades.»"
(p.141)

"Os novos heróis do nosso tempo são os cost killers, estes gestores que as empresas multinacionais atraem a preço de ouro, oferecendo-lhes grandes quantidades de stock-options e indemnizações por rescisão. Formados geralmente nas business schools, que mais apropriadamente deveriam ser chamadas «faculdades de guerra económica», estes estrategos estão empenhados em transferir ao máximo os custos para o exterior, de modo a fazê-los recair sobre os empregados, os subcontratados, os países do Sul, os seus clientes, os Estados e os serviços públicos, as gerações futuras e sobretudo a natureza, transformada ao mesmo tempo em fornecedora de recursos e em caixote do lixo. Qualquer capitalista, qualquer financeiro, mas também qualquer homo oeconomicos (e todos o somos) tende a ser um «criminoso vulgar», mais ou menos cúmplice da banalidade económica do mal."
(pp.32-33)

"A economia transforma a abundância natural em raridade com a criação artificial da escassez e da necessidade através da apropriação da natureza e da sua mercantilização. Última ilustração do fenómeno, após a privatização da água: a apropriação do domínio vivo, em particular com os OGM. Os agricultores assim destituídos da fecundidade natural das plantas em benefício das empresas agro-alimentares. A imaginação do mercado», como diz Bernard Maris, «é incomensurável. Como se fosse um cuco, instala-se em tudo o que é gratuito. «Exclui estes e aqueles, estampilha a gratuitidade, impõe-lhe logotipos, marcas, portagens e depois revende-a.»"
(p.55)

"Finalmente, é preciso pensar em inventar uma verdadeira política monetária local. «Para manter o poder de compra dos habitantes, os fluxos monetários deveriam permanecer o mais possível na região e as decisões também deveriam ser tomadas o mais possível ao nível da região. Dêmos a palavra ao especialista (neste caso, um dos criadores do Euro): "Encorajar o desenvolvimento local ou regional ao mesmo tempo que se mantém o monopólio da moeda nacional é como tentar desintoxicar um alcoólico com gin."
(p.71)

"Segundo Yves Cochet, «uma alimentação mais económica em energia seguiria assim três orientações opostas às que hoje são correntes: seria mais local, mais sazonal e mais vegetariana». Continuará a ser «mais cara» se se continuar a fazer com que as vítimas paguem e a subsidiar os poluidores."
(p.76)

"A civilização capitalista caminha inexoravelmente para a sua derrota catastrófica; já não é necessária uma classe revolucionária para derrubar o capitalismo, porque ele cava a sua própria sepultura e a da civilização industrial no seu conjunto. É uma sorte, porque se vê bem que a luta de classes se esgotou com o triunfo do capital. (...) Neste sentido, o projecto da sociedade do decrescimento é eminentemente revolucionário. Trata-se não só de uma mudança de cultura, mas também das estruturas do Direito e das relações de produção."
(p.92)

"Se a França aplicasse a directiva europeia e produzisse 20% da sua electricidade a partir de energias renováveis, como a solar ou a eólica, isso criaria 240 000 empregos. Um documento publicado em 2005 pela Comissão Europeia mostra que cada milhão de euros investido na eficácia energética cria 12 a 16 empregos a tempo inteiro, contra 4,5 numa central nuclear e 4,1 numa central a carvão. Ou seja, custa duas vezes menos economizar um quilowatt-hora do que produzi-lo."

A satisfação das necessidades de uma arte de viver convivial para todos pode realizar-se com uma diminuição importante do tempo de trabalho obrigatório, de tal forma são importantes as "reservas", porque, durante séculos, os ganhos de produtividade foram sistematicamente transformados em crescimento do produto, e não em decrescimento do esforço."
(p.110-111)

"Nas condições actuais, o tempo liberto do trabalho não passa a ser apenas por isso liberto da economia. A maior parte do tempo livre não conduz a uma reapropriação do tempo da existência e não constitui um abandono do modelo mercantil dominante. O tempo continua a ser muitas vezes utilizado em actividades que ainda são mercantis, que não permitem ao consumidor assumir a via da auto-produção. Ele é desviado para uma via paralela. O tempo livre profissionaliza-se e industrializa-se cada vez mais. (...) Fundamentalmente, é com uma reconquista do tempo pessoal que nos confrontamos. Um tempo qualitativo. Um tempo que cultive a lentidão e a contemplação, ao ficar liberto do pensamento do produto. (...) Esta reconquista do tempo «livre» é uma condição necessária da descolonização do imaginário. Diz respeito também aos operários e aos assalariados, e não só aos quadros stressados, aos patrões acossados pela concorrência e às profissões liberaris apertadas em torno da compulsão ao crescimento. Podem passar de adversários a aliados na construção de uma sociedade do decrescimento."
(pp.119-122)

"É tão fácil «convencer» o capitalismo a limitar o crescimento como «persuadir» um ser humano a deixar de respirar, escreve Murray Bookchin. O descrescimento é forçosamente contra o capitalismo, não tanto por lhe denunciar as contradições e os limites ecológicos e sociais, mas antes de mais porque lhe põe em causa "o espírito", no sentido em que Max Weber considera "o espírito do capitalismo" como condição da sua realização. Se, em abstracto, talvez seja possível conceber uma economia ecocompatível com a continuidade do capitalismo imaterial, esta perspectiva é irrealista no que respeita às bases imaginárias da sociedade de mercado, ou seja, a desmesura e o (pseudo)domínio sem limites.

O capitalismo generalizado não pode deixar de destruir o planeta tal como destruiu a sociedade e tudo o que é colectivo."
(p.125)