quinta-feira, setembro 29, 2011

Ela, paciente, espera...

Foto de Eduardo F.
Lamas de Mouro, Arcos de Valdevez, 28.09.11

Ups, ele não devia ter dito aquilo... (II)

Primeiro foi este:




Depois veio isto:




Calculo que este moço vai ter um "ataque cardíaco" muito brevemente.
Nós, estamos a seguir, na fila da fome.

Um sistema de crenças desmascarado, o sistema monetário, não vai cair de maduro: somos nós os anunciadores do raio!

terça-feira, setembro 27, 2011

A desestruturação do indivíduo em nome da "sociedade"


"I don't expect you to understand
After you've caused so much pain
But then again, you're not to blame
You're just a human, a victim of the insane"

John Lennon, Isolation



Mas quantas teses teremos de escrever para percebermos que a técnica é sempre a mesma:

Estupidificar para aceitar,
Dividir para controlar,
Atemorizar para bloquear...
(etc. etc...)

No isolamento, a subjugação.
O afastamento do outro é - o que é está a impedir-nos de ver o óbvio?? - o contrário desta coisa a que chamamos SOCIEDADE...

E se a sociedade é reproduzida para ser controlada por ímpios e insustentavelmente, então, DESTRUAMOS ESTA SOCIEDADE E CONSTRUAMOS OUTRA!
Porque a nós, esta não serve.


"Esta m... não anda, porque a malta não quer que esta m.... ande! Tenho dito!
A culpa é de todos, e a culpa não é de ninguém, não é isto verdade?
Quer-se dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular!", como dizia o Zé Mário.

Mas...
...analisemos quem anda a EMPERRAR a evolução e a libertação dos povos.
E - AQUI É QUE ESTAMOS NÓS - quais das nossas acções e não-acções estão a alimentar o imobilismo, a acumulação e o obscurantismo...



"Capitalism stole my virginity"
Londres, 1 de Abril de 2009
Partilhada daqui


"Quando culpabilizamos o sistema financeiro de ser o causador da presente crise, não nos apercebemos que individualmente contribuímos para o sistema financeiro ser o que é.

- Onde depositamos voluntariamente as nossas poupanças?

- Quem gere o nosso salário e cobrança de produtos, folhas salariais, alugueres, serviços, etc.?

- Onde se depositam todos os nossos impostos quando são cobrados pelos Governos?

- Onde se depositam as nossas pensões de reforma?

Ou seja:

- Criticamos o sistema financeiro, ao qual pedimos que mantenha as nossas poupanças protegidas do “ladrão”.

- E criticamos o mesmo sistema ao qual pedimos o maior benefício quando temos poupanças para investir, enquanto exigimos taxas de juro mais baixas para esse dinheiro quando queremos especular com algum negócio.

O nosso problema é que criticamos a especulação financeira das elites e nós, desde a pequenez das nossas economias, fazemos o mesmo.

A sociedade adoeceu de cima a baixo e de baixo pra cima por seguir os critérios baseados na ambição (que são muito bem vistos por quase todos) e no egoísmo.

Se os mais humildes (milhares de milhões no mundo) não acreditássemos na história de que um dia também podemos vir a ser ricos e ter "poder", a historinha acabava e o actual sistema cairia com um castelo de cartas.

Mas tememos que isto aconteça, porque se o sistema económico actual e injusto desaparecesse, cairíamos no desconhecido e o desconhecido sempre infundiu medo.

- Porque é que nestes momentos não exigimos com solução básica para muitos dos nossos males a criação de Bancos Públicos geridos democraticamente pelos próprios cidadãos e não pelos nossos representantes políticos profissionais?

- Porque é que não depositamos as nossas poupanças na chamada banca ética?

- Porque é que não levantamos todas as nossas poupanças, pequenas ou grandes, das entidades financeiras e as guardamos em casa? Não estariam mais seguras?

Talvez tenhamos medo de que qualquer das três opções feita por um número suficiente de pessoas possa provocar movimentos descontrolados e desestabilizadores dos interesses mafiosos que mexem os cordelinhos das nossas vidas.

Acho que é aqui que está o problema: o MEDO ou TEMOR do que POSSA acontecer e, pelo contrário, não do que ESTÁ a acontecer e acontece de cada vez que nos demitimos de fazer o que nos parece acertado.

Comecemos portanto a fazer coisas que nos parecem as correctas, ainda que pensemos que as nossas pequeninas acções não possam alterar o caminho das inevitabilidades, porque o temor ou a falta de amor por nós mesmos só pode acabar em violência.

Esta violência que nós mesmos estamos a semear quando estamos à espera de algo inevitável que temos de enfrentar e que na maioria dos casos acaba por não acontecer.

Não estejamos à espera de acontecimentos negativos, passemos à acção e confiemos no "efeito borboleta" das nossas pequenas acções positivas. Sejamos parte da "teoria do caos" onde pequenas acções positivas nos permitirão fluir harmoniosamente dentro do caos em que este sistema nos mantém subjugados.

Façamos as contas do que seria auto-gerir e bem as pequenas poupanças de milhões de pessoas de boa fé, que deixamos sem pensar nas mãos de bancos que especulam com a fome e a morte.

Estas pequenas poupanças, ainda que não pareçam, são um GRANDE CAPITAL, o único real, que deixamos impunemente nas mãos de gananciosos."


LIGAÇÕES PARA INVESTIGAR:

Efeito Borboleta:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Efeito_borboleta

Teorias do caos:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_do_caos

(em Castelhano)

http://es.scribd.com/doc/2914038/Las-siete-leyes-del-caos-john-briggs-y-f-david-peat

Banca ética:

http://www.triodos.es/es/particulares/

http://www.proyectofiare.com/default.aspx?tabid=28

http://www.bancaetica.com/Lang/Content.ep3?LANG=ES


Extraído daqui.
Traduzido por Eduardo F.

segunda-feira, setembro 26, 2011

Relacionado com a cultura está. Portanto, com o (des)nível democrático

"Na União Europeia, apenas oito países (em 27) cultivam comercialmente Organismos Geneticamente Modificados. A área cultivada tem vindo a diminuir desde 2009, excepto em Espanha e em Portugal, que este ano a aumentaram consideravelmente.


Em Espanha e Portugal, o cultivo de milho Bt geneticamente modificado aumentou entre 2010 e 2011. Estes países, só por si, representam mais de 90% das culturas transgénicas da UE. Nos outros países, pelo contrário, a tendência acompanha o que prevíramos em Fevereiro de 2011: um decréscimo substancial da superfície dedicada a plantas transgénicas, seja o milho Bt Mon810 ou a batata Amflora.
Em 2011, e supondo que a superfície de milho Bt na Polónia, na República Eslovaca e na Checa não terão aumentado o ano passado, temos um total de 114 229 hectares na UE. Ou seja, um aumento relativo em relação a 2010 (82 250 hectares ou 91 099, dependendo dos números espanhóis), aumento claramente ligado a Espanha e Portugal."


A apropriação da Natureza por parte de empresas que, indo à raíz, querem fazer o seu lucrozinho astronómico, vota milhões de agricultores por todo o mundo à dependência: os OGM (organismos programados geneticamente para servir os interesses de quem os programa ou manda programar...) fazem o seu papel uma vez e já está.
As plaquinhas que vemos, ao longo da estrada, junto aos campos de milho indicam-nos quais estão tomados pela dependência: depois a semente já não serve. Nem para reproduzir dá. Consequência: toca a comprar mais.
Consequência - aqui é que está a rentabilidade - mais dinheirinho se dá aos programadores das nossas vidas.
Outras consequências advirão de recorrer a estas práticas, anti-naturais (não só não estão de acordo com o curso das leis da vida, como lhe são contrárias). Porque onde o Homem interfere e mete a pata, dá sempre asneira...
Tão maior quanto maior a pata.
Cumulativamente.


Retirado daqui.
Traduzido por Eduardo F.

sábado, setembro 24, 2011

rOUBO: tU pAGAS

O que deverá saber sobre a RTP e que a "ONGOING" não lhe vai contar:

1º Sabia que todos os países da Europa comunitária e inclusive nos Estados Unidos existem serviços públicos de televisão, e que o modelo misto de mercado que existe em Portugal é a regra e não a excepção?

2º - Sabia que o serviço público de televisão prestado pela RTP é não só um dos mais baratos da Europa, é também um dos mais baratos do mundo? Custa cerca de 15 cêntimos por dia, não por pessoa, mas por contador de luz.

3º Sabia que por esses 15 cêntimos são emitidos diariamente 11 canais de televisão com programação diferenciada (RTP1, RTP2, RTPN, RTP Memória, RTP África, RTP Internacional Asia, América, Europa, RTPMobile, RTP Madeira, RTP Açores) 7 antenas de rádio (Antena 1,
Antena 2, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Antena1 Madeira, Antena1 Açores), Rádio, Televisão e Noticias na plataforma Multimédia, (NET), com uma audiência potencial de cerca de 200 milhões de pessoas?

4º Sabia que a RTP possui o maior e melhor arquivo audiovisual do país e um dos melhores do seu género em todo o mundo?

5º Sabia que os trabalhadores da RTP são dos mais produtivos do sector televisivo europeu, recebendo menos salário líquido do que os seus congéneres no privado e auferindo em média 50% do que os seus colegas europeus?

6º - Sabia que os trabalhadores da RTP não têm aumentos salariais reais desde 2003, sendo os trabalhadores do sector estado os que mais percentual de poder de compra perderam numa década?

7º Sabia que a publicidade da RTP não entra para os seus cofres mas está sim indexada ao pagamento de um empréstimo bancário a um sindicato bancário alemão e holandês, que assumiram o passivo?

8º - Sabia que essa dívida (contraída graças ao antigo PR Cavaco Silva) ronda os 600 milhões de euros a um spread baixíssimo, e que este sindicato deseja renegociar o empréstimo há anos?

9º - Sabia que no caso de a RTP ficar sem publicidade, o accionista Estado teria que assumir o pagamento da dívida, mais juros por inteiro e de imediato?

10º - Sabe quem pagará a dívida de um canal à ONGOING (se comprar a RTP) pelo governo de Passos Coelho?
VOCÊ! E vai custar-lhe 600 milhões de euros!"


(difundido via internet)

sexta-feira, setembro 23, 2011

Mais árvores (Orçamento Participativo de Lisboa)

Da participação cívica no evento LISBOAIDEIA de divulgação do ORÇAMENTO PARTICIPATIVO,

a proposta apresentada para a Plantação de árvores em todas as caldeiras abandonadas/esquecidas do Espaço Público da cidade,

passou a projecto em votação para integrar o OP 2011|2012 da Câmara Municipal de Lisboa.

Vamos todos votar para plantar e consolidar a arborização da cidade.

Siga os passos para votar: http://lisboaparticipa.cm-lisboa.pt/pages/orcamentoparticipativo.php

registe-se no portal (validar registo, clicando no link que será enviado para o email dado e só depois fazer Login), e aceda no separador Orçamento Participativo, seleccionando o menu Projectos em votação:


Título:Plantação de Árvores em Todas as Caldeiras do Espaço Público

Número:222

Área:Espaço Público e Espaço Verde

Freguesia:Toda a cidade

Prazo de execução:24 meses

Custo:600000.00

Nº de Propostas: 1

Proposta(s):
(696) PLANTAÇÃO DE ÁRVORES EM TODAS AS CALDEIRAS ABANDONADAS DO ESPAÇO PÚBLICO

(Como utilizador registado, aparece por baixo destes dados referentes ao projecto, o botão para clicar e votar)


VOTE E DECIDA:

ESTE ANO VAMOS PLANTAR ÁRVORES


Acompanha no facebook em:

http://www.facebook.com/profile.php?id=100002897965211&sk=info

quinta-feira, setembro 22, 2011

Variante de panis et circenses

Brasil: A Pau e Circo ou a Pau no capitalismo e controlo social?

A Copa 2014 e as Olimpíadas 2016 ameaçam desde já a vida, já tão difícil, de milhões de pessoas, em todo o Brasil. Os megaprojectos de “urbanização”, nas cidades-sede, como sejam o caso do Rio de Janeiro, S.Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e Fortaleza, estão a provocar mega-operações de despejo, desemprego, restrição das liberdades individuais, concentração do capital, em suma: megagentrificação, mega-repressão, megapobreza. Coerção e consentimento, criminalização dos pobres e “patriotismo da cidade”. Eis a velha fórmula de hegemonia. E há aqueles que resistem. Lutas que começam antes, que se intensificam durante os eventos e que continuam depois de eles terminarem. A guerra social.

Copa, Olimpíadas, Movimentos Sociais e Cidade de Excepção

Só no Rio de Janeiro está previsto o desmantelamento de 130 favelas até as Olimpíadas. Para a construção de 3 grandes vias rodoviárias (Transcarioca, Transoeste e Transolímpica) serão necessários milhares de despejos e desmantelamentos. Os 73 terrenos do Metro, todos em áreas com infra-estruturas, em vez de serem usados para habitação popular, serão vendidos para adquirir fundos para o metro prometido ao COI. A Zona portuária carioca, onde cerca de 70% do solo é público, também entrou nos planos Olímpicos, para reforçar o projecto de aburguesamento da região. A política de “segurança” tem como prioridade criar zonas de paz (e de muros) nas redondezas dos equipamentos esportivos, nas vias de acesso dos turistas a esses equipamentos e nas áreas valorizadas ou em vias de valorização.

Mega-eventos desportivos como a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos estão associados, hoje em dia, à execução de grandes projectos de intervenção urbana. A organização desses grandes eventos passa a fazer parte de um tipo de modelo de planificação urbana, o “empresariamento urbano”, para o qual a venda e/ou a reconstrução da imagem da cidade, moldada de acordo com as necessidades de acumulação de capital, é um dos aspectos centrais. Intervenções pontuais capazes de estimular uma renovação urbana em diferentes áreas e a construção de uma imagem de cidade sem conflitos são algumas das estratégias necessárias para a implementação do empresariamento urbano. Essas áreas da cidade, valorizadas por obras de infra-estrutura e pela proximidade de equipamentos desportivos, para atrair investimentos e novos negócios, tornam-se palco de despejos e remoções dos moradores pobres, de rua e de habitações irregulares, da repressão aos trabalhadores de rua, ambulantes etc. A cidade também precisa de ser libertada de conflitos e, para tanto, a repressão policial objectiva intimidar e impedir a ocorrência de manifestações dos críticos e atingidos por estas mudanças.

Copa, Olimpíadas e o Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro, os efeitos deste modelo já podem ser sentidos. Todos os projectos de intervenção urbana, tanto na área de transportes, como habitação, segurança e saneamento são voltados para os mega-eventos desportivos. Afinal, os mega-eventos proporcionam alguns dias de grande divulgação da imagem da cidade, e a propaganda é a alma do negócio. Mas, se a propaganda é a alma, o que está a ser negociado é bem concreto: são os terrenos públicos e privados que poderiam ser usados para habitação popular. Estão a ser negociadas as isenções de impostos para os investimentos do capital, enquanto faltam recursos para saúde e educação. Estão a ser negociadas novas leis e parâmetros urbanísticos que atendam às grandes cadeias internacionais de hotéis, e que garantam também que os pobres serão removidos para bem longe. Do mesmo modo mais uma remodelação do Maracanã, outra do Sambódromo, além da construção, com dinheiro público, de vilas olímpicas para atletas, árbitros, média etc, de forma a que as construtoras recebam todos os benefícios, aluguem esses quartos para o poder público antes e durante os eventos, e depois os vendam para os ricos e especuladores.

Em suma, está a ser negociada a cidade, e com ela todos os seus recursos e os já poucos direitos dos seus moradores e trabalhadores. Argumentam que vivemos um momento excepcional, que prazos para obras precisam de ser cumpridos para que o Rio e o Brasil não passem profundos constrangimentos internacionais. O resultado é a instauração de uma cidade de excepção. Só no Rio de Janeiro estão previstas remoções de 130 favelas até as Olimpíadas, milhares de despejos e remoções, repressão brutal, pobres para fora da cidades, ocupando novos terrenos em perigo de derrocadas a mais de 50 km, sem emprego, desenraízados.

A política de “segurança”, o que inclui as UPPs, tem como prioridade criar zonas de paz (e de muros) à volta dos equipamentos desportivos, nas vias de acesso dos turistas a esses equipamentos e nas áreas valorizadas ou em vias de valorização. Segundo a teoria, as cidades globais que concentram sedes de empresas transnacionais, precisam de ter hotéis, serviços e equipamentos de 1ª classe para esses homens de negócios que dirigem as empresas. Precisa também de ter uma excelente infra-estrutura para essas empresas, tanto na área de comunicações como aeroportos, segurança etc. E precisam ainda de ter condições atractivas para as empresas, como isenção de impostos, oferta de terrenos com infra-estrutura e baixo preço, mão-de-obra barata etc. Novamente, segundo essa teoria, alguns dos efeitos desse modelo tão almejado são o aumento da desigualdade social e económica e da segregação espacial. Ou ninguém se lembra das festas de rua para comemorar a vitória do Rio e do Brasil pelo direito de ser sede das Olimpíadas? A realização desses mega-eventos serve também para difusão de um “patriotismo da cidade”. E o patriotismo da cidade serve para angariar apoio popular ao projecto da classe dominante, mas serve também para evitar e criminalizar as críticas, os conflitos urbanos, no trabalho, fortalecendo ainda mais a cidade de excepção.

Coerção e consentimento, criminalização dos pobres e patriotismo da cidade… e há aqueles que resistem. A resistência é feita de lutas que começam antes, que se intensificam durante os eventos e que continuam depois de terminarem. A guerra social.

Fontes: pelamoradia.wordpress.comcomitepopularcopapoa2014.blogspot.comdiasemcompras.wordpress.com

resistencialibertaria.org



Via Contrainfo


A acumulação de capital na sua manifestação espacial: é aqui que a Geografia entra ao barulho com a Economia (capitalista). Este processo de espoliação tem vindo a ser accionado há anos e encontra-se descrito no livro de David Harvey.

quarta-feira, setembro 21, 2011

Da Geografia do Medo




Por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento?
Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são os que mais armas venderam ao regime do coronel Kaddafi?


Os que trabalham têm medo de perder o trabalho.
Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho.
Quando não têm medo da fome, têm medo da comida.
Os civis têm medo dos militares.
Os militares têm medo da falta de armas.
E as armas têm medo da falta de guerras.

E, se calhar, há quem tenha medo que o medo acabe.

terça-feira, setembro 20, 2011

Milagre económico abusivo

A minha posição é a de um observador.
A de um observador nivelado por baixo. A minha posição é uma oposição.
Não nego o direito à felicidade, contesto a mesquinhez das formas.
"E o resto é inveja..." Pois claro, pois claro.

Não são 9 da manhã de uma quarta-feira.
Observo os miúdos trazidos pelos pais apressados e babados, pelos pais bem-educados, bem-engravatados, bem-parecidos. Não observo os miúdos. Observo os pais.

Antes do trabalho - porque o têm - lá vêm.
Estacionam por cima do passeiozinho - é só por um bocadinho...
Pegam na sacola / pasta / mala com rodinhas do filhote.
Acabadinha de comprar, a exigências de birra do filhote.
Acabadinha de vender, a insistências de propaganda da marca e do produto.
Inevitável. Inevitàvelzinho. (não estranhem o acento grave...)

Nenhum pai que seja bom pai quer ter um filho a fazer birra.
- Toma lá e cala-te! Puxa, que alívio. Sou tão bom pai, não sou? (quem disse que era preciso tirar um curso?)

O colégio é pequeno. Mas o ruído maravilhoso das crianças no recreio - depois dos novos amigos - será maior. Banda-sonora como ondas do mar, onde poderíamos descansar o olhar.
Se se podem medir espaço e som pela mesma medida da inocência...

Pela rua estreita, de paralelipípedo, perto dos estacionamentos, escassos, em espinha, os carros deixam os miúdos. Como numa gala de cinema. Faltam os fotógrafos, faltam os espectadores meramente observadores. Para além de mim, discreto, os observadores são os observados e os actores da gala e do desfile dos miúdos que os pais e o capital estão prestes a encaixotar.
Quadradificados e carimbados. Estão prontos para consumir. Vão sair de lá com o carimbo da certificação: "Próprio para o mercado de trabalho" e "Pronto para consumir".

Em tempos de confusão e desigualdade de oportunidades, "Pronto para consumir" tanto se refere ao produto como o ao consumidor, que ao consumir é, ele próprio, consumido.

Dezenas de popós dos papás
vêm em fila desfilar o bebé há pouco posto a pé.
Ajeita a gravata, mamã-pata,
encaminha-te para a linha, mãe-galinha.

O teu todo-terreno não é pequeno,
tem pneuzão só para o alcatrão
e ocupa um bocado do espaço escasso.

A maioria dos automóveis que vejo virem agrupam-se - lá estamos nós a seleccionar, a querer extrair conclusões... (pedimos desculpas, foi esta a escola que me ensinaram as faculdades do pensamento) em viaturas compridas, de tom escuro. Como o couro azul dos sapatinhos daquele miúdo com calções que acaba de fechar a porta.

Pormenor importante: as matrículas. Carros entre os dez anos de idade e um ou outro adquirido há semanas. A maioria destes tinha apenas 2-3 anos.
- É o milagre económico, seus estúpidos pobres que não sabeis raciocinar direito. Coitados, perdoai-lhes, que eles não sabem o que não compram...

Há um país onde tudo corre bem. Se te moveres em determinados circuitos, não verás o que vês noutros meios-parados. Uns circulam, outros não vão longe. Uns vão de férias, outros agonizam.

Como é possível tanta gente a envelhecer a cada parcela de dia que não adianta passar; cada vez mais gente a perder o emprego, a recorrer à ajuda das ditas instituições de solidariedade social (que convivem pacificamente, que convivem passivamente, ignorantemente, com as empresas que pauperizam as pessoas que elas têm por missão ajudar...), a abster-se de roçar a mão no fundo dos bolsos esvaziados e rotos...

Como é possível haver gente que pensa no futuro (ter filhos ou é um acidente de percurso já assumido, e carregam o peso do passado inevitável, ou é ter esperança no futuro e crer e querer andar para a frente) com gente que não tem forças para escapar ao presente que os algema?

Um insulto tanto é uma pessoa com fome à beira de um engravatado no seu carrito a caminho do seu emprego como é um engravatado com emprego (e todos os modos de vida que daí se descontrola e adquire) perante uma pessoa com fome.

Há países que nos dizem que são ricos que têm milhões de pobres nas ruas e nos casebres.
Há países que são pobres que têm das capitais mais caras do mundo.

Penso já o havermos dito algures, mas o que é um país rico?
Aferir um país rico é um exercício aritmético de médias e medianas?

Portugal é cada vez mais rico e é cada vez mais pobre.
E é abusivo este milagre económico familiar que vemos a levar os miúdos - coitados, eles são o futuro!... - às escolas públicas e privadas.

Pobreza e riqueza... depende da perspectiva.
Já dizia o padre Américo.
Amorim.

Deixem-nas crescer.
Portugal continua a ser um belo exemplo do capitalismo: o crescendo das desigualdades.

É milagre! É milagre!

"Casas, Sim, Barracas, Não"

A ministra da Agricultura Assunção Cristas afirmou é necessário incentivar o aumento das propriedades agrícolas e florestais e admitiu penalizar fiscalmente quem deixar as terras abandonadas. Público.


E a propósito, vai tomar atitude idêntica para com os proprietários de casas abandonadas nas vilas e cidades?


Via Ondas3

segunda-feira, setembro 19, 2011

"Ups, não devíamos ter dito isso..."

Foto extraída daqui


O Ministério da Administração Interna será o único que não sofrerá cortes orçamentais.

..."Porque queremos fazer face à onda de descontentamento que pode surgir no país."


As palavras não foram estas. Foram outras, mas no mesmo sentido.
Bem que andámos à procura deste descuido, mas um qualquer buraco do esquecimento milnovecentoseoitentaequatriano já tratou do assunto.

Mas vimos registá-lo aqui. Porque, por nós, não vamos apagá-lo.


Com que então, este é um Estado que adora a repressãozinha policial, não é?


É mais fácil dar-nos com o bastão do que dar-nos justiça.
É mais fácil pôr muitos a pagar o que alguns roubaram.
(Coitados, é a sua natureza...)
É mais fácil votarmos sempre nos mesmos.
É mais fácil apontar o dedo aos políticos.

O mais fácil, quando nos falam em política, é pensarmos na política partidária.

Mas a política não é esta esterqueira que se vai infiltrando em nós, seus veiculadores e propaladores.

Fazer Política é fazer escolhas.

Todos agimos por interesses.
Não venham cá com legítimos ou ilegítimos. Nem inquinem a discussão com o "Todos temos culpas no cartório, não foi isso que te ensinaram?".

Temos - em qualquer dos casos, SEMPRE - é de saber QUAIS são esses interesses.
QUEM é que eles beneficiam.
E aí teremos as respostas ao PORQUÊ das escolhas que são feitas.


Entre o dinheiro e as pessoas, há pessoas que escolhem o dinheiro.
Entre salvar a economia e a democracia, há quem prefira salvar a economia. Como esse sanguinário à solta que acaba de lançar um livro sobre a China.



Em nome dos do futuro matam os do presente.

Se nos estão a esfomear

- com desemprego, dívidas, empobrecimento, precarização da vida, pauperização da alimentação, da saúde, aniquilação da justiça...
(THE LAW IS AN ANAGRAM OF WEALTH, não é o que dizes, Anne Clark?) -

não pode ser em nosso nome que fazem isto.

Contradição gritante.
Mas tenhamos calma, porque a polícia estará para repor a lógica e te deixar bem caladinho.
Amen, banqueiros, seus representantes e seus braços armados à civil e à pistola.
Em nome do Estado, dentro e fora dele...

Porque nunca pararão.
Já não há pobres com dinheiro. Vamos por aí acima.
A solução é empobrecermos todos.
Ahah, quantos pobres são precisos para produzir um rico?... meu bom ingénuo Garrett...


"Quanto menos souberes a quantas andas, melhor pra ti.
Não te chega prò bife? Antes no talho que na farmácia.
Não te chega prà farmácia?? Antes na farmácia que no tribunal.
Não te chega prò tribunal??? Antes a multa que a morte!
Não te chega prò cangalheiro??? Antes prà cova do que não sei quem que há-de vir! CABRÕES DE VINDOUROS. Sempre a merda do futuro, a merda do futuro... e EU?? (...)


Para que não haja dúvidas -

e advogando a DESTRUIÇÃO COMPLETA
de uma Economia
de um Estado
de um Partido
de uma Política,
que não sirva as pessoas
mas apenas uma minoria, -

nós preferimos salvar as pessoas.

Representação etnográfico-musical de Portugal

"Miradouro", de Júlio Pereira
Editado originalmente em Lp em 1987
Reeditado em Cd pela CNM em 1994 (cuja capa aqui reproduzimos)

A capa deste notável disco de música popular portuguesa (aqui só vemos um sexto dela...) contém um mapa etno-musical que compila e representa as tradições das mulheres e homens de Portugal (continental...).

São actividades de carácter lúdico enraizadas na vida, no trabalho e na terra. Com a transformação das paisagens, das apropriações que vamos fazendo do espaço e com as consequentes mudanças no uso do solo, as relações que o homem estabelece com o meio altera-se também. Certas funções, certos hábitos e costumes alteram-se, perdem-se, surgem outros...
Enquanto houver vida, assim foi, é e será.

Júlio Pereira e o Instituto Camões passaram esta representação para o ecrã virtual e, com os meios à disposição, enriqueceram as nossas possibilidades de conhecer melhor o país. Incluindo ilhas. Assim é que é.

Com breves descrições, explicações e exemplos das sonoridades praticadas nas distintas regiões (as diferenças etnológicas "in-formam" / "enformam" / contribuem para - a distinção mesma das regiões...), este mapa pode ser consultado aqui:



Na representação de qualquer mapa, uma das problemáticas por que começar é aquilo que vamos representar (o objecto) e, claro está, como vamos fazê-lo. É que divisões (uma di-visão é sempre uma hierarquização, mesmo que não vertical; é sempre uma parcelização, uma visão parcial. No fundo, é uma questão ontológica do raciocínio, incontornável (?): para apreendermos o grande, amiúde o dividimos e decompomos) há muitas.
Mas há que adoptar uma, explicá-la, e com base nisso, seguir em frente. Sabendo que ela (a forma) terá, necessariamente, implicações na apreensão do conteúdo (o objecto de conhecimento).

Assim no-lo dizem:

"O critério de divisão geográfica por já desusadas províncias, ainda que discutível (como tudo…), pareceu-nos o mais adequado e eficaz, atendendo às particularidades geográficas e sociais de cada região e à permanência dos seus nomes na nossa memória."

E pronto. Disfrutemos e conheçamo-nos melhor.
Ouçamos sempre mais e variado: o enriquecimento é nosso.

sábado, setembro 17, 2011

A auto-destruição começa (e acaba) com a destruição do outro

DESPERTAI, IMBECIS!!!



"Claro que há uma forma de pagar os empréstimos e os seus interesses, Fabrizio: roubar ao que tiveres ao teu lado. Assim haverá ricos e pobres, "espertos" e "burros".

Os bancos emprestam-te em troca de uma garantia, algo que ainda não tens (como a próxima colheita) ou de que necessitas para viver, como a tua casa. Enquanto te enterras, ou ficas espoliado ou te tornas um ladrão como eles.

Por estes dias muitos se têm deixado enganar, e as autoridades são coniventes. Por isso em muitas épocas a usura era proibida, era até considerada pecado. Uma terra que num ano dá uma boa colheita, no ano seguinte pode não a dar; essa coisa do crescimento económico é uma armadilha. Se fazes melhorias no cultivo, é amiúde em prejuízo do meio ambiente que o fazes: tens ser prudente: inquinas a água, envenenas a terra, destróis as florestas... Como somos cada vez mais exigentes... A Natureza e a lógica pôr-nos-ão no lugar..."



Comentário da internet.

domingo, setembro 11, 2011

Se ainda não sabemos isto, sabemos zero

Crónica de Daniel Deusdado publicada no JN de Quinta-feira, dia 8 de Setembro de 2011.



Questão: é possível destruir um rio como o Tua e manter-se a ficção de que o turismo é o maior activo do país?

As barragens foram propagandeadas por Salazar como o milagre da energia barata e são hoje responsáveis por uma parte da produção de electricidade nacional, além de terem melhorado o controlo do caudal dos rios. Foi assim por todo o Mundo. Mas já se evoluiu muito desde então e hoje percebe-se melhor que elas têm um custo implícito, porque os ecossistemas vão sendo profundamente alterados e a nossa saúde paga todos os dias a factura...

Infelizmente, para a maioria das pessoas, isto é conversa. O que importa é se a conta da luz é mais barata. Começo então por aqui: o plano de barragens posto em marcha pelo Governo Sócrates inclui uma engenharia financeira tipo "scut" cujo custo só vamos sentir daqui a uns anos de forma brutal - e aí já será tarde. Uma plataforma de organizações ambientais entregou esta semana à troika um documento que explica onde nos leva o plano da outra "troika" (Sócrates-Manuel Pinho-António Mexia). As 12 obras previstas que incluem novas barragens e reforço de outras já existentes produzem apenas o equivalente a três por cento de energia eléctrica do país, mas vão custar ao Orçamento do Estado e aos consumidores 16 mil milhões de euros... O documento avisa que a conta da electricidade vai, a prazo, incluir um agravamento de 10% para suportar mais este negócio falsamente "verde". A EDP, a Iberdrola, etc., receberão um subsídio equivalente a 30% da capacidade de produção, haja ou não água para produzir. Mesmo paradas, recebem. A troika importa-se com isto?

Os especialistas das organizações ambientais dizem, desde o princípio, que as novas barragens poderiam ser evitadas se houvesse aumento de capacidade das barragens existentes. Era mais barato e a natureza agradecia. Infelizmente a EDP apostou milhões para conseguir novas barragens, e isso incluiu antecipação de pagamentos de licenças que ajudaram o ex-ministro das Finanças Teixeira dos Santos a cobrir uma parte do défice de 2009, além da mais demagógica e milionária campanha publicitária da década, em que se fazia sonhar com barragens como se fossem os melhores locais do Mundo para celebrar a natureza...

Estes monstros de betão vão agora destruir dois rios da região do Douro, desnecessariamente. O Sabor, por exemplo, é uma jóia de natureza ainda selvagem. À medida que o turismo ambiental cresce globalmente, mais Portugal teria a ganhar com um Parque Natural do Douro Internacional ainda inóspito, genuíno. Já não será assim. A barragem em construção inclui uma albufeira de 40 quilómetros onde se manipula o rio de trás para a frente, com desníveis súbitos, acabando com a vida fluvial endógena e o habitat das espécies em redor.

Não menos grave é a destruição do rio Tua e da centenária linha do comboio. Uma vez mais o argumento é "progresso" - os autarcas e as populações acreditam que os trabalhadores da construção civil, que por ali vão andar por uns anos a comer e a dormir nas pensões locais, garantem a reanimação da economia... Infelizmente, não vêem o fim definitivo daquela paisagem e da mais bela história ferroviária de Portugal. Uma linha erigida a sangue, suor e lágrimas. Única. E que deveria ali ficar, mesmo que não fosse usada ou rentável, até ao dia em fosse entendida como um extraordinário monumento da engenharia humana e massivamente visitada enquanto tal.

Ao deixarmos cometer mais estes crimes, em troca de um mau negócio energético, não percebemos mesmo qual o nosso papel no Mundo. Esquecemos que a Natureza nos cobra uma factura muito pesada quando destruímos a fauna e a flora. Estamos a comprometer a qualidade da água e das colheitas de que precisamos para viver, com consequências para a nossa saúde e a das gerações vindouras. Se ainda não sabemos isto, sabemos zero. E ainda por cima vamos pagar milhões. É triste.

sexta-feira, setembro 09, 2011

Pois é...

Os EUA tentaram controlar os critérios editoriais da RDP e da RTP Açores na divulgação de notícias sobre contaminação de solos e aquíferos provocada por atividades da base das Lajes, na Terceira, revela o Diário Insular de 2 de Setembro citando e reproduzindo documentos divulgados pela Wikileaks. Segundo aquela fonte, em 2009 o consulado dos EUA em PDelgada terá feito pressão junto da RDP-RTP em Lisboa após o falhanço de diligências feitas junto da RDP-RTP Açores. Posteriormente, análises levadas a cabo pelo LNEC confirmaram na íntegra os rumores da contaminação de solos e aquíferos onde é captada água para abastecimento humano.


Via Onda3

terça-feira, setembro 06, 2011

Braga, Senhora Nossa da Agonia

Pela grande avenida, a cidade desperta.

Um livro de história despaginado que se apanha do chão.
Um homem, de sacola, aguarda. O pilar do prédio atrás dele não conhece o calor das suas costas.
Uma mulher retoma o ritmo do dia de ontem, acelerando o passo por entre os olhos a reconhecerem a luz.
Os carros escasseiam a esta hora. Antes do burburinho empresarial e económico programado há tantos anos...
Quase não há ninguém à espera do autocarro, à espera ainda do pára-arranca miúdos e sobre-graúdos por entre as ruelas de carros apertados e semáforos descontinuados.
Há um mostrador electrónico que nos estima o tempo de chegada do autocarro que nos vai recolher desta paragem. Estimativa em minutos. Em minutos que nunca mais andam. Decrescentemente. (Anda lá...!)
Melhor seria calculá-lo em distância, como se faz já noutras urbes com outra organização / planeamento... Com GPS é possível. Ou vivemos na Idade Média das paredes do mofo religioso amesquinhante e provinciano? As always.

Uma mãe, magra, leva pela mão o miúdo com sono.
Pelas manhãs, os miúdos têm sono de mochila às costas.
Logo pela manhã, os idosos aquecem já alguns dos bancos onde pretendem já passar algumas horas. Para ver o diáfano da manhã e o raiar do sol que se ergue aos dias do fim.
Miúdas bem vestidas terminam o café da manhã e entram na loja de roupa em que dobrarão e redobrarão as peças mexidas pelas mãos de clientes indecisos...
Os estabelecimentos abrem para nas suas portas se implantarem figurantes a ver os potenciais clientes simplesmente... passar. Eternos potenciais, efémeros figurantes...


Eu vi nos olhares da gente que espera a solidão do ser humano.
E sinto uma tristeza imensa no silêncio atroz que invade os corpos a flutuar.



Eu venho de um silêncio antigo e longo
da gente que se vai erguendo desde o fundo dos séculos,
da gente a que chamam classes inferiores

Eu venho das praças e das ruas cheias
de crianças que brincam
e de velhos que esperam
enquanto homens e mulheres trabalham
nas pequenas fábricas, em casa ou no campo.

Jo Vinc d'un Silenci, Raimon


Assim canta um Raimon em cada cidade que se ergue a cada dia que não passa.
Que a cada dia se ergue para o nada em que caímos. Aspirados pela opacidade cinzenta das manhãs capitalistas e pobres da cidade de Braga.

Ruas que vão perdendo as janelas, prédios com pedras que se esmigalham com o vento, chãos abandonados que conhecem cada vez mais estranhos, pessoas que apenas passam, que passam cada vez com menos motivos para se deterem nos lugares. Lugares esvaziados de sentido, de valor e de vida.

Uma cidade que o tempo está a tomar às pessoas.
Expulsas cada vez mais de si próprias.
Expulsas dos lugares, exiladas de si mesmas.
Sem lugar são, as pessoas ficam doentes.
Sem outra hipótese.

Uma cidade de centros comerciais-caixão,
uma cidade fantasma,
a tentar sobreviver à força das obrazinhas e das negociatas que, beneficiam uns, prejudicam outros - "é a lei da concorrência! A lei da concorrênciazinha!, não te vires contra o mercado!, assim falou o beneficiado, assim o ouviu o prejudicado e todos os espectadores cadaverizados à sua volta...

Um hospital que já o foi.
Uma "área de lazer" que apenas cumpre o propósito mercantil. Não o do lazer.
Edifícios sobredimensionados, espelhados e quadrados, vorazes de atenção e calor...
O esvaziamento físico e de ideias, perdidas estas com os espaços e as pessoas que os fazem...


Ah, como é duro sobreviver no deserto...
Até quando, diz-me sua cidade velhaca e seca???


Qual é a relação destas pessoas que vivem aqui com este... "aqui"?
Crescentemente, a de um espectador frente à televisão?

Sobretudo se forem elas as mesmas que vêem à sua frente...
Se ainda souberem observar.
Se ainda não lhes tiver sido roubada essa faculdade do juízo, também ele ameaçado pela insanidade do meio e das pessoas e da sacrossanta economiazinha e da sua putéfia propriedade que nos expropria.

As pessoas portam a insanidade, não se revoltam contra ela: revoltar-se contra a insanidade é já ceder-lhe espaço, parecem dizer os seus ombros caídos e as suas caras pálidas.

Mas só as pessoas podem recuperar a sanidade.
Porque é para elas.
Nada mais que para elas.


Quem perde as origens perde identidade.

domingo, setembro 04, 2011

Um Tratado Sobre Os Nossos Actuais Descontentamentos, de Tony Judt


Título: Um Tratado Sobre Os Nossos Actuais Descontentamentos
Autor: Tony Judt
Tradução: Marcelo Felix
Editora: Edições 70 - Grupo Almedina - Outubro 2010


Uma obra saída da pena do historiador e escritor Inglês Tony Judt, que morreu em Nova York de esclerose lateral amiotrófica em 2010, ano igualmente da publicação do livro.

Indispensável, este conjunto de texto ou ensaios, pela análise objectiva e clareza de ideias, e sobretudo pela capacidade de nos por a pensar numa época em que “sabemos o preço das coisas, mas não fazemos ideia do que valem”.

“A desigualdade é corrosiva. Ela apodrece as sociedades a partir de dentro. A repercussão das diferenças materiais leva algum tempo a mostrar-se: mas a seu tempo aumenta a concorrência pelo estatuto social e bens; as pessoas experimentam uma sensação crescente de superioridade (ou de inferioridade) segundo as suas posses; cristaliza-se o preconceito para com as posições inferiores da escala social; o crime aumenta e as patologias do desfavorecimento social vão-se acentuando cada vez mais. O legado da criação de riqueza não regulada é realmente amargo.” (Pág. 34)