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sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Votação do CETA

Parlamento Europeu ignora cidadãos na votação do acordo  CETA
Apesar das preocupações manifestadas por 3,5 milhões de cidadãos em toda a Europa, de Estados Membros da União Europeia (UE) e de organismos das Nações Unidas,  a maioria dos deputados do Parlamento Europeu votou hoje a favor do acordo comercial UE-Canadá.
A sociedade civil europeia prepara-se agora para travar o controverso acordo no processo de votação dos 38 parlamentos estaduais e regionais da União Europeia.
_____
Estrasburgo - Enquanto os eurodeputados entravam no Parlamento Europeu esta manhã, cidadãos de todos os países da UE, inclusive activistas da Plataforma Portugueses Não ao Tratado Transatlântico,  estiveram presentes para lhes recordar que os cidadãos europeus esperavam que votassem contra o CETA, o controverso acordo comercial UE-Canadá.
No entanto, a maioria dos eurodeputados decidiu não ouvir o seu eleitorado, tendo o resultado sido de  408 votos a favor do acordo, 254 contra e 33 abstenções.
Estamos, naturalmente, decepcionados com o resultado desta votação, mas este processo ainda não acabou.
Sociedade civil europeia centra-se agora nos parlamentos dos  Estados Membros
3,5 milhões de cidadãos assinaram a Iniciativa de Cidadania Europeia exigindo o fim do CETA e do TTIP e mais de 500 organizações uniram-se nesta campanha.
Centenas de milhares de cidadãos europeus participaram na campanha CETA CHECK, enviando e-mails para os seus representantes no parlamento europeu , escrevendo postais, fazendo telefonemas ou agendando reuniões nos seus círculos eleitorais.
A votação no plenário do Parlamento Europeu não é a fase final do processo de ratificação do CETA. O acordo de comércio será agora remetido para os 38 parlamentos nacionais e regionais da UE onde os deputados nacionais terão oportunidade de votar o CETA.
Prevêem-se ainda muitos obstáculos no processo da ratificação do acordo: o governo da Valónia já declarou que não irá assinar o CETA no seu estado actual, a Áustria realizou com sucesso um apelo ao referendo, tendo reunido 562.552 assinaturas, e a Holanda também poderá ter sucesso num processo de referendo.
O CETA segue um modelo injusto de comércio internacional
Este acordo representa uma ameaça para a saúde pública, o emprego, o ambiente e a democracia.
O ambiente, os direitos humanos e a democracia devem estar à frente do lucro.


Links:
COMUNICADO DE IMPRENSA
 15 Fevereiro 2017

Mais notícias e textos:
TSF - A TSF não noticiou
etc...

sexta-feira, julho 01, 2016

Afinal não

Afinal o Roundup vai continuar à venda.
Por mais 18 meses.
Pelo menos.
Para já.

Não importa a desculpa.
Será sempre esfarrapada.

sexta-feira, junho 24, 2016

ÚLTIMA HORA!

A votação na Comissão Europeia para o prolongamento da licença do uso do Roundup foi hoje e os Estados-membros não chegaram a acordo. Pelo que, em princípio, o famoso herbicida deverá ser retirado dos mercados até ao final deste ano.

Vamos ver qual o "presente" do 4 de Julho...
Ler mais aqui.

sexta-feira, agosto 14, 2015

Dentro e fora, dentro e fora

"Era todo o dia
Sempre dentro e fora
E o Conan dizia 
- "Crise.. Qual crise?""

"Conan, o Homem-Rã", Irmãos Catita

Qualquer velha questão começa com antinomias.
O homem questiona sobre as coisas até questionar a sua rês, aquilo que é, como é e porque é que é.

Fora da sua cabeça as diferenças existem.
Só dentro da sua cabeça elas podem ser apreendidas como luz ou breu, caloroso ou frialdade, dentro e fora e por aí fora.

Os aguadeiros pertencem à profissão de um tempo em que as casas eram desprovidas de instalações de água canalizada.
Os namoros e as pedrinhas nos cântaros que obrigavam as moçoilas a voltar à fonte, descalças e não seguras, para os reencherem.
- Vai prà fila, sua megera! - podiam dizer. 
Mas onde, a compra e a venda?
Da água pública, da água ali, à mão de todos para a maré cheia...


Tenho um amigo cuja casa terá um espaço útil (belo conceito moderno) será pouco maior que a sala do tecto em que me vou abrigando.
Um casebre não é um tugúrio.
"A louse is not a home", né, Pedro?
Mas, cabe perguntar?

Seríamos assim tão pobres?
Seremos assim tão ricos?

Porque seria um espaço tão pequeno suficiente...
(O homem habitua-se a tudo, mesmo que o hábito possa fazer o monstro)
... para viver / sobreviver / ter sobrevivido até hoje?

E porque parece hoje ter deixado de ser suficiente?


Gosto das casas com a porta aberta. Com porta, mas aberta.
Em que a rua e o interior se interpenetra.
E clamam que isso é que é pornográfico, nos tempos que correm.
Ninguém os mandou correr...

Ah, mas uma grande casa, carro à porta, jardim, quiçá piscina, um cão a ladrar a quem queira meter o bedelho para cá do muro, um ladrão a infalivelmente mandar o seu cãozar para o lado de lá do muro.

A separação.
A separação que nos rasga o corpo e alma, vivências, paixões e memórias e as erode para longe, até onde nos faça menos dano.
A separação.

Dentro e fora.

O espaço pequeno, comido, sob formas antigas de edificação, desapropriado para os moldes da desconstrução urbana vigente. Apropriado.

Propriedade somada.

Resultado:
Mais dentro e menos fora.
Pornografia espacial no comboio descendente e excitante mais das terminações nervosas que da base, cerebral.

Imagem e o seu efeito nefasto e implacável, estatuto para quem o suga dos seus adoradores-por-isso-súbditos, poder, ostentação, riqueza, ambição, a distinção
...

a distinção assenta muito bem para engavetar cada um no seu devido compartimento, para que cada um, isolado no seus altares imaginários, não repare que todos vivemos em caixotes betonizados de que alguém se vai aproveitando...

competição... privacidade.
(Dentro e fora)

- Não, não! Alto lá, privacidade é um direito.
Consagrado na constituição consentânea com o parasita vira-casacas do capital. 
Faz parte da liberdade, a privacidade.

Cremos que a privacidade não se teria tornado, não a teríamos tornado, num valor tão extremo, tão democrático, portanto, se o terrorismo da voragem do espaço tivesse conhecido obstáculos e valores que não se comprassem.

Mas quem não tem privacidade, então, ó tu que tanto gostas do racionalismo lógico, concluo que não é livre.
- Exacto, é correcto.
- Ai sim? Então quero:

a) que me devolvas o tecto que pagaste para demolir,
b) que me ressarças do silêncio de que me tens privado quando sais à minha rua,
c) que não ter de comprar direitos, incluindo esse.

E quero muito mais coisas, agora.
Quero o mundo de que tenho sido espoliado, não quero que me dês, nem muito menos que me vendas mais, o teu mundo que me espolia.

Passámos a ter a água dentro, à nossa mão.
Passámos a viver dentro, entre muros fechados, porque o espaço exterior tem vindo a ser comprado, degradado, apropriado, traído e subtraído reduzido, pois claro. 

Nas ruas esconsas e que os privados deixaram para a "liberdade" dos planos urbanísticos, quais relvados atrás dos blocos de apartamentos e sob linhas de alta tensão, vão passando os deserdados, os humilhados e ofendidos do mundo que já não é deles, que já não é nosso. Foi vendido aos "livres" do mundo livre, o mundo capitalista. Não há outro, sussurrantemente nos apregoam por todos filmes, publicidades, musiquinhas da treta nas rádios da treta, nos intervalos imensos dos telejornais esguios.

 Dizemos tudos juntos
Pim, pam, pum,
que cada nota pra cá
mata muitos.
Lá.


O paradigma mudou com a colonização imperialista, expansionista do capital.
Quando passámos a fazer cada vez mais coisas com o fito no guito, mesmo as colectivas, que das egoístas já se perderam as palavras.
Algo mudou:

--- Por fora, na forma como vivemos - mais dentro que fora (futebol de rua é brincadeira de crianças. Vejam o espaço de que precisam para fazer um estádio de futebol - símbolo moderno do poder disfarçado de apenas entretenimento). 
Com medo do outro, que está fora de nós, que não somos nós, que estamos sós.

--- Por dentro, na forma de pensar, que estamos menos solidários, menos activos, menos interventivos, menos curiosos, menos reflexivos, menos atentos (ao que se passa fora de nós, que estamos demasiado preocupados a tentar compreender as nossas histerias e psicoses - sinal do isolamento e da fragmentação do indivíduo social). 
Com medo de nós, na vertigem auto-enganadora dos telemóveis no vai-vem da mão para o bolso de trás, a pensar que quebramos o isolamento com uma comunicação depauperada e de cará-cá-cá; que estamos fora de nós.

Que somos nós?

Estamos sós.
Por dentro e por fora.

 Os serões habituais
As conversas sempre iguais
Os horóscopos, os signos e ascendentes
Mais a vida da outra sussurrada entre os dentes
Os convites nos olhos embriagados
Os encontros de novo adiados
Nos ouvidos cansados ecoa
A canção de Lisboa

Não está só a solidão
Há tristeza e compaixão
Quando o sono acalma os corpos agitados
Pela noite atirados contra colchões errados
Há o silêncio de quem não ri nem chora
Há divórcio entre o dentro e o fora
E há quem diga que nunca foi boa
A canção de Lisboa

"A Canção de Lisboa", Jorge Palma

domingo, março 23, 2014

Para além de toda a ironia

Erguem-se Muros


Os patos-bravos 
são árvores migratórias.
Cucos que expulsaram dos ovos 
os ninhos da imaginação.





Ossos do nosso corpo a definhar, 
ficamos atrofiados 
depois de explodirmos em esporas, 
cogumelos sem tempo.


"O mundo é mudo / pertence às cobras /
que trepam escadas / no arvoredo"*





Adormecemos de espectadores
em cefaleias sobretudo oculares, 
destruidores do dia,
esvaziadores de lugares.










E as escadas são cobras / a trepar o mundo
no arvoredo-mudo...
E se dos anteriores vazios
andamos faltos
será talvez por já nascermos velhos.


Que as ânsias da juventude
são febre passageira,
diz o sensato, 
sensanto, 
senhor santo.







Um campo de concentração,
sob o olhar da técnica
E sem saberes
nem poderes querer,
transformaram-te também em pato,
via farelo de engorda.




O mais barato 
é o que te convém
que o fim do mês
roubou-te já o palato.


O que fica bem
ao teu dente
é o que o teu dente
finca bem.

Deu Deus dentes
a quem não tem posses
e ele não te faz andar prà frente,
prisioneiro dos desejos possíveis...





E todos os dias tropeças
em metáforas incríveis
a que não achas já
qualquer graxa,

Tu!, que estás aquém
do mundo da ironia, 
da fantasia,
em agonia.

Um passeio que ficou pelo caminho




São difusos teus pensamentos transeuntes.
Dizes-lhes olá para mais bem os ignorares
e és tu que te esqueces de migrar,
aclorofílico de brilho azeviche.



Não podes fugir: arfas de cansado.

A ideologia é um jugo
e tu és a bolinha a saltitar 
na roleta OMC/OIT
que também pões a girar.




A escola legitima 
e passa certidão às desigualdades.
E o produto da subtracção
foi ficares sem vinho,
e sem pão.
Mas com a religião 
(de falsas necessidades)
Que só te desanima.

 O direito à habitação sucumbe a muros...

...para que enquanto houver pessoas sem casa 
possa continuar a haver casas sem pessoas...


Todas as fotografias captadas em Braga (São Lázaro e Fraião) na tarde de domingo de 23.3.2014 por Edward Soja.

* Excerto do poema "A Noite dos Poemas", de António Barahona da Fonseca e cantado por Adriano Correia de Oliveira

domingo, fevereiro 16, 2014

Não propriamente a discussão sobre o sexo dos anjos...

La distincion... 
(Ou la la!... ma ouais!)




Retomamos a foto do mês de Setembro passado para frisar duas coisas.

Primeira, que entre uma coisa e outra existe ainda uma terceira (a síntese, a contradição, a soma, a anulação, e ainda, importante, o desconhecido, com o qual devemos contar sempre em cada equação). Mas esta, no presente caso, não será definitivamente uma seta que esteja entre as duas representadas...

Segundo, que, levando-nos ambos os caminhos ao mesmo ponto do percurso (e já dissemos que cada ponto de chegada é mais um ponto numa recta, que continuaremos nós ou nós-outros, parafraseando, vá, talvez, o eterno retorno nietzschiano) temos uma escolha fulcral a fazer na nossa postura de vida:

(porque o espaço e o caminho, tal como a forma e os meios, não são alheios nem indiferentes ao estar-ser e ao como caminhar, nem ao conteúdo ou aos objectivos, respectivamente)

Ou seguimos pelo caminho da esquerda, que poderíamos apelidar de Ecológico (malgrat o cimento, não é?)

- que demora mais tempo e que - para quem reconhece kavafiamente que é mais importante a riqueza que colhes pelo caminho que a que esperas encontrar no destino - te faz viver mais tempo (e tampouco isto é indiferente);

- que nesse tempo a mais ele te oferece uma probabilidade mais alta e uma apetência maior a deteres-te nas coisas que te rodeiam e assim as inspirando seres mais rico e consciente;

(...)

Ou seguimos pelo caminho da direita, que poderíamos apelidar, entre os antónimos existentes e imaginários, de Económico

- que, por oposição - já se percebeu, basta ver - é mais curto e menos demorado face ao destino e te educa para o finalismo e para o desrespeito pelos meios (é isso a primeira consequência visível: voltemos a olhar para o resultado que lá está);

- que nesse tempo a menos ele te permite pensares noutras coisas (foi por exemplo para isso que se criaram os relógios e se aceleraram os processos produtivos, mediante as máquinas e a seriação

(Donde, talvez como lemos do postulado de Jane Jacobs, subscrito por Soja, de que o desenvolvimento intelectual e da técnica é filho do crescimento composto pela economia e a intensificação dos processos...)

(...)

Isto pode ter que ver com tudo, o que sendo impressionante não deve deixar de nos merecer atenção: somos ou não somos homens??

São duas vias: e dizemos que preferimos uma a outra, porque preferimos.
Porque, mesmo sem intelecto, já que somos bebés a pensar com a cabeça estragada dos adultos, salta à vista que um deles estraga o caminho e o outro não estraga o caminho.
Os fins não justificam os meios, e embora os fins sejam um produto dos meios, os meios também podem alterar a natureza dos fins que queremos encontrar.

Eis aqui os caminhos do vive e deixa viver e o do não penses no amanhã, que só tu contas (já se entrevêem mais oposições: colectivo/individual, público/privado, presente-futuro/futuro-e-fim, etc...)

Com base neste exemplo da geografia física (dimensões, pontos, linhas e seus percursos e possibilidades), convidamo-vos a reflectir um bocadinho sobre a forma de fazer geografia humana (filosofia no espaço).


É a entrar, meninos e meninas
a ver o que por aí se lavra.

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Edward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical (I)

O espaço e a organização política do espaço expressam as relações sociais
 mas também influem nelas.
Henri Lefebvre

A rubrica livro do mês regressa ao Georden, desta vez com um dos nomes contemporâneos mais famosos das últimas décadas: Edward William Soja.

Novaiorquino nascido em 1941 (e não "californiano nascido na década de 1950, como aqui se lê), Soja cresceu no Bronx e a sua vivência da rua e do sentido colectivo, a brincar e jogar com os amigos, está na base da sua primeira sensibilidade para a leitura crítica do espaço. O seu espaço vital, diz, resumia-se a uma rua, pelo que um quarteirão mais adiante era considerado espaço estranho. Também o seu gosto por mapas apurou a apetência pela Geografia. O seu primeiro trabalho, sobre o Quénia, levou-o a explorar as realidades coloniais e a interessar-se por outras áreas do saber como a História, a Antropologia, a Arqueologia...

A principal marca de Soja foi e continua a ser - pasmem-se os Geógrafos e analistas das ciências sociais - a luta pela reivindicação da espacialidade como elemento central para a abordagem e leitura da realidade das sociedades humanas. 

A sua obra "Geografias Pós-modernas", de 1989, livro cuja tradução portuguesa disponível continua a ser, nada estranhamente, brasileira, tem, aliás, como subtítulo "A Reafirmação do Espaço na Teoria Social Crítica(em verdade, como se perceberá pela pequena bibliografia em anexo, na quarta parte deste artigo, essa é, tanto quanto sabemos, a sua única obra em Português.) e é dele que extraímos as passagens abaixo. 

(duas edições de "Postmodern Geographies", de Edward William Soja)

Trata-se, obviamente, de uma reivindicação natural do ofício. Mas porquê, então, a pertinência e novidade introduzida por Soja? 

A primeira resposta reside exactamente no espanto que esta assunção representa: será que os geógrafos não tomam o espaço como objecto principal nos seus estudos?

Segundo ele, um veemente não:

“A visão do espaço essencialmente como elemento físico influenciou profundamente todas as formas de análise espacial, seja ela filosófica, teórica ou empírica, aplicada ao movimento dos corpos celestes ou à história e à paisagem da sociedade humana. Também tendeu a imbuir tudo o que é espacial num persistente sentido essencialista e físico, de uma aura de objectividade, inevitabilidade e reificação.
Sob esta forma física abstracta e geral, o espaço foi conceptualmente incorporado na análise materialista da história e da sociedade de uma forma que interfere com a interpretação da organização espacial humana como produto social, que é o primeiro passo fundamental para entender a dialéctica sócio-espacial. O espaço entendido como contexto físico gerou um grande interesse filosófico e longas discussões sobre as suas propriedades absolutas e relativas (um debate longo que é anterior a Leibniz), as suas características como “contentor” ambiental da vida humana, a sua geometria objectivável, e as suas essências fenomenológicas. Mas este espaço físico foi uma base epistemológica desviante para analisar o significado subjectivo e concreto da espacialidade humana. O espaço em si pode estar fisicamente dado, mas a organização e o significado do espaço é um produto da experiência, da transformação e da dinâmica social."

Ou seja, cabe distinguir os conceitos de "espaço", enquanto "cenário" (ou nem isso), com as suas características físicas, e "espacialidade", termo empregue para designar o espaço socialmente construído, percebido e vivido.

O espaço produzido socialmente é uma estrutura produzida comparável a outras construções sociais resultantes da transformação das condições inerentes a estar vivo, tal como a história humana representa uma transformação social do tempo. De igual maneira, Lefebvre distingue entre a Natureza como contexto dado e o que pode chamar-se “segunda Natureza”, a espacialidade transformada e socialmente concretizada surgida da aplicação do trabalho humano intencional. É esta segunda Natureza que se torna sujeito geográfico e objecto da análise materialista histórica, de uma interpretação materialista da espacialidade.

O espaço não é um objecto científico separado da ideologia e da política: sempre foi político e estratégico. Se o espaço tem ar neutro e de indiferença para com o que ele contém e parece assim como puramente formal, o epítome da abstracção racional, é justamente porque foi ocupado e utilizado, e já foi alvo de processos passados cujas pegadas nem sempre são evidentes na paisagem. O espaço foi conformado e moldado a partir de elementos naturais e históricos, mas ele foi um processo político. O espaço é político e ideológico. É um produto literalmente carregado de ideologias.
Henri Lefebvre, Reflexões Sobre a Política do Espaço, 1976

Talvez esta forma de encarar o espaço seja nova, mas a resposta é novamente negativa, como veremos. Mas continuemos com Soja.

A noção-chave que Lefebvre introduz na frase em epígrafe assume-se como a premissa fundamental da dialéctica sócio-espacial: que as relações espaciais e sociais são dialecticamente interactivas, interdependentes; que as relações sociais de produção ao mesmo tempo que conformam o espaço, são condicionadas por este (pelo menos enquanto tivermos uma visão do espaço organizado como socialmente construído).
Dentro de um marco regional em vez de urbano, Ernest Mandel desenvolveu ideias muito parecidas. No seu exame das desigualdades regionais em capitalismo, Mandel afirmou que “o desenvolvimento desigual entre regiões e nações é a essência mesma do capitalismo, ao mesmo nível que a exploração do trabalho pelo capital”. Ao não subordinar a estrutura espacial do desenvolvimento desigual às classes sociais mas, sim, colocando-a “ao mesmo nível”, Mandel identificou uma problemática espacial na escala regional e nacional que se assemelhava muito à interpretação de Lefebvre da espacialidade urbana, ao ponto de sugerir o surgimento de uma poderosa força revolucionária a emergir das desigualdades espaciais que claramente via como necessárias para a acumulação capitalista. No seu trabalho principal, Late Capitalism (1975), Mandel centrava-se na importância histórica crucial do desenvolvimento geográfico desigual no processo do capitalismo. Ao fazê-lo, apresentou uma das análises marxistas mais sistemáticas e rigorosas da economia política do desenvolvimento regional e internacional jamais escritas."

Inspirado pelas leituras de Henri Lefebvre, que já trouxemos aqui com "O Direito À Cidade", de Focault e outros, Edward Soja desconstrói o conceito e procura, dentro do próprio marxismo, enquanto atitude e prática críticas e emancipadoras, as razões para a espacialidade ter sido relegada para o pátio das traseiras epistemológico.

Sem nos alongarmos em grandes explicações, as razões por ele encontradas podem resumir-se a três:

1 – A aparição tardia da obra de Marx “Grundrisse”

Esta obra, a mais eminentemente geográfica do pensador alemão, só começou a difundir-se bem depois da Guerra de 1939-45. “Aliás, como hoje sabemos, Marx nunca concluiu os seus planos para os volumes seguintes a”O Capital”, que deviam abordar o comércio mundial e a expansão geográfica do capitalismo, cujo possível conteúdo só ficou insinuado posteriormente nos “Grundrisse”. Na ausência destas fontes, a ênfase foi colocada na teorização do sistema fechado, sobretudo aespacial, dos volumes publicados d”O Capital” (…) Graças às contribuições de Bukarine, Lenine, Luxemburgo, Trotsky e outros, a teoria do imperialismo e as conceptualizações associadas aos processos de desenvolvimento desigual tornaram-se no principal contexto da análise geográfico dentro do marxismo ocidental. Havia uma problemática espacial implícita nessas teorizações do imperialismo, mas ficavam-se no mero reconhecimento de uma limitação física final para a expansão geográfica do capitalismo.

2 – As tradições anti-espaciais no marxismo ocidental.

Em muitos sentidos, Hegel e o hegelianismo transmitiam uma ontologia poderosa e uma fenomenologia espacializada que reificava e fetichizava o espaço sob a forma física, o locus e o meio da razão completa. (…) O tempo ficava subordinado ao espaço e a própria história era dirigida por um “espírito” territorial, o Estado. O anti-hegelianismo de Marx não se limitava à crítica materialista da do idealismo. Era também uma tentativa de devolver a primazia à historicidade – a temporalidade revolucionária – sobre o espírito da espacialidade. Deste projecto emergiu uma sensibilidade poderosa e uma resistência à afirmação do espaço enquanto determinante histórico e social.
(…)
Menção à parte merece o carácter anti-espacial do dogmatismo marxista saído da Segunda Internacional e que se consolidou sob o estalinismo, tendo sido as questões espaciais tratadas dentro de uma abordagem de um estéril reducionismo económico.

3 – As condições mutáveis da exploração capitalista.

Como as fórmulas da composição orgânica do capital e da taxa de lucro, o seu derivado assume a visão de um sistema fechado das relações de produção capitalistas, desprovidas de diferenciação e desigualdade geográficas significativas. Além disso, dada a urbanização massiva associada à industrialização em expansão, a reprodução da força de trabalho era um assunto muito menos crucial que o processo de exploração directa através de um sistema de salários de subsistência e a dominação do capital sobre o trabalho no lugar da produção. Para a extracção da mais-valia absoluta, a organização social do tempo parecia ter mais importância que a organização social do espaço.

No capitalismo contemporâneo, a exploração do tempo de trabalho continua a ser a fonte principal da mais-valia absoluta mas com uns limites crescentes que surgem da redução do horário de trabalho, dos níveis de salário mínimo, dos acordos laborais e de outras vitórias da organização da classe trabalhadora e dos movimentos sociais urbanos. Para continuar a conseguir essa mais-valia, o capitalismo viu-se forçado a investir na tecnologia, nas modificações na composição orgânica do capital, a reconhecer o papel crescentemente dominante do Estado, e às transferências líquidas do excedente associadas à penetração de capital em esferas de produção não geradoras de lucro (internamente, através da intensificação, bem como externamente, através do desenvolvimento desigual e a “extensificação” geográfica a regiões menos ou nada industrializadas de todo o mundo).


(Continua)

quinta-feira, janeiro 30, 2014

Os Executores

A noite passada um paredão emergiu e eu senti que me afundava.

Afixaram a propaganda em todas as paredes
para dar de comer aos olhos dos papalvos,
que para isso os mandaram ir à escola.

Aos poucos se foram dirigindo para a praça pública.
Estavam lá e estavam espalhados,
desconhecendo os porquês de não estarem sozinhos,
mas assim continuando.

Os caídos paravam pelos cantos
pedindo a moeda dos outros.

O seu maior erro foi acreditar
e isso é algo muito profundo 
com que se brincar.

Aos poucos uma e outra arma
a eles apontada
arma-partida-perdida
de todo o lado erguida pelo pelotão invisível.

E o medo a instalar-se
ergueu paredes por dentro dos corpos
Cada vez mais nítidos, identificáveis, concentrados,
culpados, os caídos juntavam-se mais,
como combatendo um frio que não parava de vir.

A única forma de escaparem era
pagarem para sair daquele buraco,
mas era precisamente a eles a quem isso era negado,
sem moeda para que os entendessem.

E homens chegaram e se puseram 
atrás das armas (por quem?) apontadas.
De olho na mira, tapado.
O outro, fechado
e eram anónimos,
sem identificação
ou apelo possível.

Mas já nada disso interessava.

Armas-pinkerton,
pistolas-panópticas do medo
que petrificam os corpos.

Milhares de armas 
assim apontadas na praça pública
assim transformadas em campo de concentrados.

Os pobres corpos
sem protecção
amalgamavam-se, todos iguais,
numa massa cor-de-creme.

E quando um momento certo 
chegou, alguém deu ordem para abater
e o gado do interior usava os corpos de fora como escudos.

No vórtice do metralhar sem descanso
os golpes perfuravam, certeiros,
Unidos por baionetas sem tempo
eram espetadas no fogo cruzado.

E os que estavam à volta
iam passando, indiferentes,
E cavavam trincheiras 
cada vez mais fundas,
cada vez mais longe do mundo
para se abrigarem
dos estilhaços que choviam.

Num grito de raiva
vociferavam todos os executores
VÓS SOIS O MILAGRE ECONÓMICO!!!
e nos seus esgares riam
como trovões contínuos.

EU SOU O SISTEMA, gritavam, irados,
e assim se sentiam fortalecidos no seu poder.
Prescindiam dos pobres humanos pobres
não prescindindo de os chacinar.

E os caídos nunca chegaram 
a saber dos porquês:
eram o milagre económico.

Nós somos executores, hierarquizados,
cumpridores,
estrategicamente distribuídos.
Em cada cidade uma praça pública.
- Todos os quarteirões foram privatizados,
restam as vias e as praças públicas,
onde podem penar, pernoitar, sangrar livremente, 
a cada dia,
os caídos.

A justiça virada do avesso,
feita crime sob forma de lei a executar
na sociedade fascista.

São perigosos os grupos assassinos
que emergem na sociedade, 
sempre à espreita,
prestes, prontos para atacar,
esquadrões da morte
com as mãos à espera nos coldres
e nos lança-chamas para limparem as cidades.

Já não são perigosos,
já deixaram de ser perigosos
os executores que fazem escola
e são organizados e previsíveis,
para eliminar não a pobreza mas os pobres.

São anónimos
Não lhes vemos os olhos.
Uns não se salvam,
outros, por eles, por isso,
são saneados.

"E tu ficas aqui
e tu morres aqui
e daqui ninguém sai!"

A noite passada foi um sonho mau que não passou.

Somos anónimos
e não nos vemos nos olhos.



Francisco de Goya

terça-feira, janeiro 07, 2014

Boa Educação

O que existe respira connosco e inspira-nos.
Ou, se não nos demover (normalmente comove-nos...), obriga-nos a respirar e a inspirar o seu ar, então, semeado de morte.

O sistema de ensino de que se fala é o do ensino escolar.
Ficam fora de questão todos os outros.

Um, depauperado, falha.
Os restantes, tomados, não têm falhado.
A não ser que.
Hipótese remota, mas, a ser imaginada, é uma hipótese, portanto.

A tal boa educação que nos diz pra lavarmos as mãos antes de irmos prà mesa.
A mesma que nos diz pra não deitarmos lixo prò chão.

Insuficiente, a boa educação da má consciência.
A do pica-o-ponto e prossegue nas práticas dogmáticas: são feitas com boa intenção, com boa educação.
E isso basta-nos.

It's all about the money!
Milhares de seres a explorarem-se uns aos outros, numa rodinha cujo começo não nos questionamos.
E para quê?, não é?

O dinheiro não ensina: impõe-se e, com isso, impõe a não-educação.

É fácil ter filhos, difícil é educá-los; não te ensinam o sexo, mas tens mesmo de aprender a educar.
As infra-estruturas culturais não criam necessariamente cultura: permitem e, em certa medida, fomentam a que ela exista, mas não fazem magia e, plof!, aí tens.

(A cultura já esteve fora do império da mercadoria: quando descobriram que o petróleo ardia, inventaram o carro a combustão.
Temos uma televisão, por favor, arranjem-se os "conteúdozinhos" para ela passar caixa vazia, agora ecrã plano com ligas de metais raros sacados aos habitats longe da tua vista, seu comprador de boa-nenhuma consciência que contribuis alegremente sem esforço para a salvação do planeta, ui!)

Tens o hardware, rico opulento, mas não tens o software e assim revelas o teu atraso mental.
Falámos disto no artigo anterior.

O progresso propagado pelo capital não passa de crescimento económico.
Enquanto os senhores comandantes estiverem de pança inchada, tudo está bem.
Depois vem a tal hipótese remota.

Dizem os sociólogos de boca cheia: as estruturas sociais... blá, blargh!
Mas que estruturas sociais?!?
Como é que funcionam realmente? Materializam-se em quê?
É preciso pensar muito e elaborar teorias complicadas, seus ilegíveis?

Mostrem-se ao mundo, gritai na praça pública, com cartazes iguais aos do 

QUERO COMER.

ou

QUERO SER FELIZ, PORRA!

e denunciai as coisas, seus encafuados e arredados daqueles de quem gostais de falar e estudar!

Assim:

"A obsolescência e o entretenimento planificados são só mais algumas excrescências da moral protestante, inquinada, anacrónica e ruim de ultrapassar do modelo individualista e destruidor do capitalismo.

O relógio foi-te colocado no pulso para andares a toque de caixa.
O desporto educa-te para a concorrência e produz os falhados.
O futebol é espectáculo fálico a sublimar as tuas frustrações de causas identificáveis, normalizando-as, "naturalizando-tas".
A verticalidade dos edifícios urbanos ensina-te para a hierarquia e para a concentração, estruturas basilares do funcionamento capitalista.
(Salvador Dalí)

A tecnocracia invadiu os espaços de potencial reflexão e vende-tos como mercadoria.
E vende-tos com esquemas incompreensíveis que servem para te preencher de vazio o espaço mental, o da liberdade que te restava.

No meio de tudo isto, tu assobias por entre os outros hormens como forma de te sentires contigo.

Desestruturado e desenraizado, individual e socialmente, só um entretenimento cada vez mais viciante consegue ocultar o sem-sentido com que nasceste e que carregas contigo até à morte. 

As crises do capitalismo são estruturais, porque, como qualquer sistema, ele defronta-se com as variáveis que desestabilizam a teoria, secundadas, portanto, pelos teólogos e profetas da beleza e do melhor dos mundos.

As crises do capitalismo são recorrentes, mas a sua recorrência também demonstra a frequência dos obstáculos com que se defronta: sejam eles:

- a finitude dos meios naturais (vulgo recursos) (A teoria diz que o capitalismo tem de crescer sempre. Para onde, depois, ? importa perguntar.)
- a inadequação do que ele quer produzir ao que ele vende para se impor (A criação de empregos numa área não vai afectar muito as pessoas desempregadas da sua região, uma vez que estas são importadas como escravas. Por exemplo.)
- as massas de deserdados (a distribuição incompatível com a concentração.

(Ouvi esta hoje: "se os ricos pudessem pagar aos pobres, só estes iam à retrete da morte."
Com o prejuízo - que pena! - que assim sendo, um dia alguns ricos teriam de ser "despromovidos" a pobres, para os restantes continuarem vivos.)

- a fome e a raiva.

Ou vai o sistema apanagiar-se de todas as causas das suas crises?, como se pretendesse governar sozinho, sistema quase suspenso no ar, como aquela pintura do Dalí, nada querendo ter a ver com a Terra, essa imunda!


Cada um de nós pode enfraquecer o capitalismo.
Impondo fronteiras erguidas em ideias que lhe são contrárias.

Sim, haverá mortes.
Grandes dramas humanos e convulsões sociais.

(Quando as não há, só concebo que tudo esteja mesmo muito bem controladinho. E isso é muito mau sinal, porque é a maioria que está a perder.)

Mas não é isso o que acontece desde que este extra-terrestre veio subjugar a Terra?

quinta-feira, dezembro 26, 2013

Os ermos onde, julgando que nos compramos, nos vendemos.

O crânio é uma carcaça por causa dos abutres. 
Chama-lhes burros!



A Associação Comercial de Braga 
deseja-lhe boas festas e compras felizes. (+*+)


As duas funções primeiras de muitos lugares (a comercial e a religiosa) foram exercidas em espaços contíguos, pois o mercado começou por se realizar no adro da igreja ao domingo, dia em que os camponeses que viviam mais ou menos dispersos nos arredores se dirigiam à povoação central, à sede da freguesia. De igual modo, as grandes feiras e romarias coincidem frequentemente com as festas religiosas importantes. Ao longo dos tempos a Igreja Católica procurou afastar as duas actividades. Um certo desprezo que a sociedade medieval votava à actividade comercial que associava à usura, explica mesmo diversas interdições colocadas à realização de mercados, feiras e outras actividades comerciais ao domingo, restrição que, nos países de cultura católica, foi transposta para o hábito de os estabelecimentos comerciais encerrarem nesse dia.

Teresa Barata Salgueiro, in "A Cidade em Portugal", 1992, p. 299
Edições Afrontamento, 3ª ed. Junho de 1999.

As propagadoras de som (+*+) espalhadas pela parte pedonal da paróquia são as correias de transmissão do poder e das suas linguagens (conducentes à acumulação do capital), para crermos definitivamente que a época festiva é propriedade de estadunidenses (mais que anglófonos).
E se quem assim pensa passar a gostar de tanta americanice, então a época festiva é propriedade dos estadunidenses. E deixaremos definitivamente de notá-lo.
...Mas na verdade é actualmente mais chinesa que outra coisa, embora tal não se reflicta nas musiquinhas-muzaque que insistimos em difundir nos lugares propensos "à servil condição de demanda."

A publicidade coloniza os espaços abertos, até pelas ondas hertzianas!, como o lixo se multiplica e avoluma sob a forma de produto sólido das actividades desperdiçadoras em que vamos empregando o nosso tempo e a nossa energia.

E todo este encarrilar na rodinha do consumo-destruição, com direito a banda-sonora (sobrevive, infantilmente decadente, o Coro de Santo Amaro de Oeiras), reflecte o poder imperante do capital. Aquele em que toda a festa, dos contentinhos do capital, agora equivalentes aos contentinhos da liberdade, serve de pretexto para mais umas negociatas.

Braga, a idólatra, "jubilante por albergar em seus domínios" o tão ilustre fait-divers em que transformámos esta data [basta atender ao conteúdo, vazio, sem notícias, dos... noticiários do dia 25 de Dezembro...], "iniciara preparativos para uma grande festa em sua honra que, a pretexto de o apresentar à sociedade bracarense, se revelava a ocasião propícia para ela própria se mostrar influente e bem relacionada. E ademais, não menosprezando a fama que sempre o acompanhava, o evento até podia proporcionar excelentes deixas à sua carente alcovitice."

"O Divino Marquês", Mão Morta


Quanto à produção material mais ou menos fixa da cultura na cidade de Braga, temos presentemente um panorama confrangedor. Não que andemos em concorrência com outras urbes, a actividade cultural não está ao nível da dimensão física, económica ou demográfica da cidade de Braga. 
O que talvez seja indicativo de que o ar empestado e cheiro a verdete das capelas nunca foi suficientemente "varrido", nesta aldeia da mesquinhez, do isolamento, dos sitiados e do mexerico.
Isto talvez a propósito do senhor Paulo Brandão, que não vai salvar a cidade, ter sido reconduzido a director do Theatro Circo, destronando o rei Rui.

Um pequeno levantamento dos espaços por mim conhecidos, onde já estive (excepto os marcados com asterisco) torna-se útil e pertinente. No total dos abaixo listados (30 espaços), 19 são privados / com fins comerciais. Acontece que, para atrair público, se servem (onde é que já vimos este menosprezo?) da oferta cultural, misturando ou tentando conciliar as actividades.

E também por aí se confunde o carácter: é público ou privado?
O Centro Cultural Braga Viva e o auditório Galécia (em centros comerciais) são públicos?
O auditório Vita e a Velha-a-Branca são privados?

Dos restantes 11 associados ao erário público ou a instituições e associações sem fins lucrativos, esboroam-se no horizonte as aspirações a que tais espaços conseguem responder. Dizemos, e queremos dizê-lo, estão desaproveitados, desocupados, ou usados timidamente. Vazios ou esvaziados da sua razão de ser: as actividades que neles podem / poderiam ter lugar.

A classificação que se segue não é arbitrária: é só uma possível, para começar o desenho. Assim, temos como espaços (sobretudo) fechados que podem albergar actuações musicais em Braga:

Grandes Auditórios (espaço para mais de 50 lugares sentados, com assentos móveis ou fixos):

Auditório do Conservatório Calouste Gulbenkian (R. da Fundação Calouste Goulbenkian)
Audtório Galécia (no C. C. homónimo)
*Auditório Vitta (R. de S. Domingos, 94B)
Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva (R. de S. Paulo, 1)
*Centro Cultural Braga Viva (no Bragashopping, Av. Central)
*Centro Cultural e Social de Santo Adrião (R. do Centro Cultural e Social de Santo Adrião)
GeNeRation (Pç. Coronel Pacheco, 15)
Instituto Português da Juventude (IPJ) (R. Sta. Margarida, 6)
Museu D. Diogo de Sousa (R. dos Bombeiros Voluntários)
Parque de Exposições de Braga (PEB) (Av. Dr. Francisco Pires Gonçalves)
Salão Medieval da Biblioteca Pública de Braga (Largo do Paço)
Salão do Museu Nogueira da Silva (Av. Central, 61)
Theatro Circo (Av. da Liberdade, 697)
Universidade do Minho (Gualtar) (vários anfiteatros)

Pequenos espaços (com ou sem lugares sentados; menos de 50 lugares, normalmente com um pequeno palco que pouco mais dá que para umas actuações de dois / três músicos, sobretudo sem amplificação):

Casa dos Crivos (R. de São Marcos, 94)
*Casa do Professor (Av. Central, 106-110)
Centésima Página (Av. Central, 118-120)
Fnac (no C. C. Braga Parque) (Quinta dos Congregados, S. Vítor)
*Mercado Cultural do Carandá (Rua Dr. Costa Júnior)
*Museu da Imagem (Campo das Hortas, 36-37)
*Posto de Turismo (Av. da Liberdade, 1)
*Torre da Menagem (R. do Castelo)
*TOCA (Av. Central, 33)
Velha-a-Branca - Estaleiro Cultural (Largo Sra. a Branca, 23)

Bares (espaços que vivem sobretudo do consumo de bebidas):

Espaço Quatorze (Rua dos Chãos, 14)
Estúdio 22 (Rossio da Sé, R. Dom Paio Mendes, 22)
Insólito Bar (Av. Central, 47)
Live Rock Bar (agora denominado Barco Negro) (R. do Raio, 6)
Pëste - Espaço Cultural (antigo CUSP) (R. Nova de Santa Cruz, 236)
*Projectil (Travessa do Caires, 39)

Excluímos, por um lado, os salões paroquiais, que bem mereciam maior actividade conhecida. Cada freguesia dispõe deles, pelo que não podemos falar de falta de equipamento, ou de centralização da oferta. Pela frequência de passagem, ou por "tropeçar" na divulgação (daí ter falado em "actividade conhecida", destaco com alguma oferta as sedes das juntas de Freguesia de Panoias (com concertos de metal), e de S. Vítor (conferências, por vezes concertos de fado...)

Por outro lado, por não terem, talvez, ainda rompido muito bem a barreira de círculo em que se encontram, i.e., também as escolas secundárias dispõem de bons auditórios (vide o Auditório Sebastião Alba (na Escola Secundária Alberto Sampaio) (R. Álvaro Carneiro)), mas a sua actividade cultural (no caso, teatro, sobretudo) não atinge grande raio de influência, atraindo sobretudo a população escolar e docente das mesmas.

Por outro lado, se analisarmos outro ramo comercial / cultural (a cultura transformada em mercadoria é discussão aqui apenas pressentida), verifica-se que os valores da lentidão, do auto-recreio, da lucidez e da instrospecção de que o livro permanece paradigma, "vendem" cada vez menos.

Livrarias / Alfarrabistas:
(uma vez fechadas, não há muito, a Braga Books e a Capítulos Soltos, restam, actualmente na cidade, 12): 

Augusto Costa (R. Frei Caetano Brandão, 76)
Bertrand (no C. C. Liberdade Street Fashion, Rua do Raio)
Bracara (R. do Forno, 11)
Bracara Alfarrabium (R. de Janes)
Centésima Página (Av. Central, 118-120)
Culturminho (R. Francisco Duarte, 319)
Fernando Santos (alfarrabista) (R. dos Chãos, 121)
Fnac (no C. C. Braga Parque) (Quinta dos Congregados, S. Vítor)
Librobraga (R. de S. Vítor, 182)
Minho (Largo da Sra.-a-Branca, 66)
Oswaldo Sá (R. 25 de Abril, 435)
Páginas da Sé (R. Frei Caetano Brandão, ?)

Conhecemos ainda uma, na Rua D. Diogo de Sousa, que se dedica apenas a livros infantis; e um alfarrabista na cave do C. C. Santa Cruz, que após algumas visitas...nunca vi aberto, não estão contemplados.


Outro campo, a música: transformada por um lado em mais uma mercadoria, e acessível (com a pirataria), é, por outro, esvaziada das suas capacidades mobilizadora (muitos não concordarão, pois continuam a arrastar multidões para os concertos) e sensibilizadora (basta atender à repetição de refrões e linhas vocais desprovidas da melodia, lugar ocupado pela alienação e pela gritaria).
A paixão desvanece-se e rui, vencida portanto pela mercadoria e pela alienação do seu ouvinte.
Resultado: lívida amostra dos mostruários que em nada se compara à criatividade e produção musical que vamos tendo nos tempos que correm (visitem o sítio A Trompa e vejam quantas edições nacionais saíram a cada ano desde que existe a página... em 2009 foram apenas... 393 (!) lançamentos, entre álbuns e epês...)


Lojas de Discos (são 4, senhor...)
(lojas com alguma amostra onde se pode ainda adquirir música gravada em suporte físico):

Centésima Página (Av. Central, 118-120) (sim, também tem discos)
Fnac (no C. C. Braga Parque) (Quinta dos Congregados, S. Vítor) (a melhor oferta, ainda assim...)
Media Markt (R. da Senra) (coitada...)
Worten (no C. C. Minho Centre) (coitadinha...)

Os espaços que restam, à semelhança das livrarias, são uma pálida amostra do que já existiu, por exemplo na transição das décadas de 80 para a de 90...
A Beat Records, que estava no Bragashopping, está em suspenso, com reabertura, noutro lugar, para este ano que aí vem. A Carbono foi a última a fechar. Antes tinha sido a ex-Grafonola. Antes desta, outras como as Valentins de Carvalho, a Scorpius, a Strauss, uma que havia no C. C. Galécia (clube de vídeo), a Duartes, a Elepê,  e outras que já não são do meu tempo, como a Sonolar...


Outro exemplo é o de uma actividade de interesse público, a Saúde, mas aproveitada pelo esvaziamento das funções do Estado, que gostamos de depauperar. Ah, já agora, acredito que haja muita gente para quem Governo e Estado são a mesma coisa... e é por confusões assim que metemos tudo no mesmo saco do obscurantismo calcinante)
Assim, numa cidade que ostracizou um hospital, e viu ("isto anda tudo ligado") nascer um grande hospital privado e aquele passar a gestão mista (investimento privado e público, lucros para o capital), temos na cidade 25 farmácias 
...(são 25, senhores): 

Alvim (Pç. Conde S. Joaquim,45)
Amado Braga (R. da Lameira, 115)
Beatriz (R. Dr. Francisco Duarte, 192) 
Brito (Av. da Liberdade, 777)
Central (R. dos Capelistas, 34)
Coelho (Pç. do Município, 66)
Cristal (Av. da Liberdade, 571)
Henriquina (R. de S. Víctor, 92)
Instituto Galénico (R. Carlos Lloyd Braga,18)
Lima (R. dos Chãos, 166)
Marques (R. de S. Marcos, 44)
Martins (Av. Central, 20/22)
Misericórdia (Lg. Carlos Amarante)
Nuno Barros (Cç. de Real, 4/6)
Lamaçães (Av. Dr. António Palha, 37)
Peixoto (Pç. Dr. Francisco Malheiro, 36)
Pimentel (R. Dr. Elísio de Moura, 66)
Pinheiro (R. do Caires, 82)
Pipa (Av. D. João II, 394)
Rodrigues (R. D. Diogo de Sousa, 41 )
Roma (R. dos Chãos, 111)
S. João (Av. da Liberdade, 143)
Santos (R. de S. Vicente, 202)
Silva (Lg. Senhora-a-Branca, 27/8)
Sousa Gomes (R. D. Frei Caetano Brandão, 22/40)

Excluímos a da freguesia de Ferreiros, numa listagem constante do último Boletim Cultural de Braga, Dezembro de 2013.


Mas cada coisa é avaliada não pela fachada e sim pelo que nela vai dentro.
Se quisermos enveredar pela di-visão de que falávamos há dias, separando forma e conteúdo.

Se não quisermos, resta-nos perceber que as paredes que circundam espaços servem - têm servido - para embrulhar o vazio.
No império do valor monetário que tudo toma, eis a melhor prenda que o capital vai deixando para nós, a cada dia que passa.

(Talvez voltemos a isto.
Parece-me é que nunca conseguimos abandoná-lo...)