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quarta-feira, abril 06, 2016

"E se fosse eu?", por Rogério Madeira

Tive conhecimento deste desafio #esefosseeu através da Associação dos Escoteiros de Portugal #esefosseeuaep e achei na hora um desafio interessante e com uma questão pertinente: “E se fosse eu?” Realmente só nos colocando no lugar dos outros, poderemos tentar responder a tal questão. E hoje, por vezes, tenho assistido a cada comentário infeliz de muitas pessoas que parecem que não conseguem colocar esta mesma questão: “E se fosse eu?” Em tempo de paz, muito dificilmente sentiremos e saberemos como será partir da nossa terra, por esta se encontrar em guerra, em total colapso.

Ter que partir e deixar tudo para trás, com apenas uma mochila?

Ao tentar pensar nisso, não cheguei a nenhuma conclusão a não ser pegar nas minhas duas mochilas que estão sempre prontas para mochilar, por motivos da minha vida pessoal atualmente.

Felizmente, a minha Terra ainda é o meu País e o meu País ainda é a minha Terra...


... e como tal percorro-o de Norte a Sul com regularidade. Fico em casa de família, de amigos, em hostels, na sede dos escoteiros, em parques de campismo e até em praias, em jardins, em pinhais, etc. Tudo em tempo de paz. Com conforto ou desconforto... tudo em tempo de paz! A minha cama e almofada começam a ser uns estranhos para mim. Sendo assim, se tivesse que partir iria provavelmente pegar nas minhas duas mochilas que se convertem numa, quando meto a pequena dentro da grande. A pequena está preparada para 24 horas. É uma mochila que está pronta para as minhas caminhadas e retiros de fim de semana, para me orientar pessoalmente e ao mesmo tempo para dar apoio à formação no Grupo 250 de Mafra.


Que contém (no sentido dos ponteiros do relógio):
  • Mochila com elásticos/mosquetões e com a minha identificação com grupo sanguíneo;
  • Marmita com talheres de campanha.
  • Enlatados e bolachas/barritas energéticas (normalmente tenho apenas 1 ou 2);
  • Telemóvel não iria na mochila, provavelmente no bolso, mas quando ficasse sem rede ou sem bateria iria para a mochila. Também não é fundamental numa situação de refugiado, mas hoje não consigo viver sem ele. Até consigo! Mas quando não o tenho, sinto falta...
  • Carteira com todos os meus documentos e algum dinheiro (tenho fotos da família e também selos postais, para quando quiser matar saudades e enviar notícias à família);
  • Relógio também não iria na mochila, iria no pulso;
  • Panamá. Sempre me acompanha quando prevejo uma jornada de caminhada.
  • Água (ando com água e quando termina serve sempre de recipiente para voltar e encher de água de uma fonte, torneira ou até ribeiro desde com água límpida);
  • Abafo. Serve para proteger o pescoço, boca e nariz do vento e frio. Para mim é útil;
  • Apito com conta passos. Poderá servir para muita coisa: Chamar atenção! Alertar perigo! Informar localização! E quem sabe arbitrar um jogo… :P
  • Caneta e bloco de apontamentos. Sempre andam comigo, para apontar tudo o que achar necessário e/ou partilhar info escrita com alguém;
  • Aspirinas. As que estão na foto eram 4, só foi usada uma porque dei ao meu pai. Podem ajudar-nos a nós próprios e aliviar a quem nos solicita ajuda.
  • Canivete multifunções tipo Suiço. Para tudo e mais alguma coisa.
  • Isqueiro. Para fazer fogo;
  • Produtos de higiene (normalmente apenas escova e pasta dentes pequena e papel higiénico);
  • kit 1.º socorros (que neste momento até está incompleto).

Caso soubesse que teria que partir por muito mais tempo, como é o caso que se verifica neste desafio. Levaria então também a mochila grande.


E esta contém:
  • Tenda. Não é importante, mas em tempo de chuva e frio, pode dar jeito;
  • Esteira de campismo. Coloquei na foto, mas nunca vai nas minhas viagens!
  • Saco-cama. Um bem quentinho é fundamental!
  • Camisola e roupa interior. Normalmente só levo uma muda. Quando tenho que mudar, lavo e vai a secar na mochila.
  • Toalha. Não é fundamental, mas serve como toalha de praia, de toalha de banho, de toalha de mesa, de saia, de cachecol, de chapéu/gorro viking e aconchegar um bébé, etc.



Esta seria a minha mochila!

Normalmente pesa até 10kg. Ficaria a faltar muita coisa... roupa, calçado e comida... Ficaria a faltar provavelmente objetos de valor sentimental e material... mas que não são importantes nestas situações...

Provavelmente esperaria que poderia contar com ajuda de outras pessoas... voluntárias e anónimas... que me dariam a mão... e eu em jeito de gratidão aceitaria sem hesitar...

Gostaria de enaltecer a organização deste desafio #esefosseeu, à Plataforma de Apoio aos Refugiados. Que pelo que vejo nos OCS e acompanho na internet têm feito um trabalho imenso/enorme, mesmo contra a hipocrisia que se ouve nas nossas praças e ruas. Têm sempre feito um papel de educação/sensibilização da nossa Comunidade. Um bem haja a todos vós. Força nisso! Sustentem sempre o Sustentável. À Associação dos Escoteiros de Portugal #esefosseuaep, por se ter associado a este projeto, muito bem. Sempre prontos! A nossa missão também é esta mesmo... Canhota!


quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Edward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical (II)

Redefinindo a problemática espacial

O desenvolvimento de uma análise espacial marxista sistemática coincidiu em boa parte com a intensificação das contradições sociais e espaciais tanto nos países centrais como nos periféricos devido à crise geral do capitalismo que se inicia nos anos 60. Mas já antes houvera precursores importantes dentro da tradição marxista ocidental que não deviam ser descurados.

Por exemplo, entre 1917 e 1925, na URSS, um movimento de vanguarda de planeadores urbanos, geógrafos e arquitectos trabalharam para conseguir “uma nova organização espacial socialista”, correspondendo a outros movimentos revolucionários na sociedade soviética. Não se encarava a transformação espacial como um subproduto automático da mudança social revolucionária mas, sim, que ele implicava também luta e a formação de uma consciência colectiva. Sem esse esforço, a organização pré-revolucionária do espaço teria continuado a reproduzir a desigualdade e as estruturas de exploração. Tais actividades inovadoras deste grupo de pensadores espaciais radicais nunca foram aceites e a sua experimentação revolucionária na reconstrução socialista do espaço acabou por ficar pelo caminho da industrialização e da segurança militar estalinista. O produtivismo e a estratégia militar dominaram a política espacial da União Soviética, quase enterrando por completo o significado de uma problemática espacial mais profunda na transformação socialista.


Esta planificação, das grandes praças, feitas para ou depois utilizadas (cada um apropria-se do espaço como puder...) para, por exemplo, concentrações, manifestações, demonstrações de poder ou fruição da vista aberta, implica a pré-noção, clara, de que não há neutralidade possível no "contentor" que é o espaço. O espaço ensina, permite umas coisas, impede outras. É, aliás, interessante uma das passagens de Soja, referindo-se ao seu estudo sobre Los Angeles, que, paradigma, segundo o autor, das grandes metrópoles (tal é o objecto do seu livro de 1996), contém em si a arquitectura da opressão. Não falando necessariamente no securitarismo da vigilância, nem das cidades-prisão, aponta alguns aspectos, citando Mike Davis e o seu livro "City of Quartz", como: bancos anti-mendigos, ausência de casas-de-banho públicas (humm, onde é que eu já ouvi isto?...), contentores do lixo protegidos e sistemas de rega que se ligam aleatoriamente durante a noite para dissuadir as pessoas de dormir na rua...

E se a organização urbana de estilo soviético faz isso, ela foi construída para inculcar valores e concepções que se insurgem contra aquelas, mais ou menos inconscientemente, instituídas pelo espaço urbano capitalista.

Mas continuando.

O capitalismo foi capaz de atenuar (senão resolver) as suas contradições internas durante um século e, consequentemente, nos cem anos decorridos desde a edição d”O Capital”, conseguiu alcançar o “crescimento”. Não podemos calcular a que preço, mas sabemos os meios: ocupando espaço, produzindo espaço.


Henri Lefebvre, A Sobrevivência do Capitalismo, 1976


Lefebvre relaciona este espaço capitalista avançado directamente com a reprodução das relações sociais de produção, ou seja, os processos pelos quais o sistema capitalista em conjunto pode expandir-se mantendo as suas estruturas definidoras. Ele define três níveis de reprodução e argumenta que a capacidade do capital para intervir directamente e afectar estes três níveis se incrementou com o tempo, com o desenvolvimento das forças produtivas. Em primeiro lugar, existe a reprodução bio-fisiológica, essencialmente no contexto da família e das relações de parentesco; em segundo lugar, a reprodução da força de trabalho (a classe trabalhadora) e dos meios de produção; e em terceiro, a reprodução ainda maior das relações sociais de produção. Sob o capitalismo avançado a organização do espaço passa a estar predominantemente relacionada com a reprodução do sistema dominante das relações sociais.


Vejam-se as cidades em que os espaços verdes, públicos, e os equipamentos colectivos são "des-alvo" de investimento e cuidado, sendo reduzidos e depauperados a cada novo censo que constitui um PDM. Já repararam que as árvores que temos, por exemplo, em Braga, são árvores que herdamos? E que herdámos de um passado já remoto: não tem havido expansão de área verde nem plantação de novas árvores com carácter duradouro em Braga. Tal traduz uns valores e, a nosso ver, trata-se de uma colonização dos espaços privados e das actividades económicas a substituírem a fruição livre da sociedade. Nada de novo, mas é também este o "direito à cidade" de que nos fala Lefebvre.

O espaço construído, sim, esse mesmo, fisicamente, a sua disposição, o que podemos fazer com ele, como nos movemos e o que realmente fazemos nele... ensina, transmite valores. E não é de admirar que seja uma corrente muito presente na sociedade portuguesa o pensamento único, separatista, xenófobo e fascista. Os ciganos, atirados para um canto. Os velhos, a ruírem por dentro da decadência, central ou periférica, da cidade. As crianças só vão ao centro para as creches, infantários e escolas: nada mais há lá para eles, já que os grandes centros comerciais, grande chamariz hipnotizadora, só podem expandir-se fora dos "cascos" ou das "cidades velhas". Há no centro de Braga uma praça, dita da República, e é sintomático como ela tem vindo a ser esvaziada: de pessoas, de actividades, de sentido. Isto, ironia, apesar de ser centralíssima para as actividades económicas... É estranho, não é?


Tais condições reproduzem-se no espaço produzido socialmente (tanto o urbano como o rural), numa espacialidade produzida e que foi sendo crescentemente “ocupada” por um capitalismo expansivo, fragmentado em pedaços, homogeneizado através de mercadorias diferenciadas, organizado através de localizações de controlo, e estendido à escala global. A sobrevivência do capitalismo dependeu desta produção e ocupação diferencial de um espaço fragmentado, homogeneizado e hierarquicamente estruturado, alcançado em grande medida por um consumo colectivo controlado burocraticamente (isto é, pelo Estado), pela diferenciação de centros e periferias a várias escalas, e pela penetração do poder do Estado na vida quotidiana. A crise final do capitalismo só poderá dar-se quando as relações de produção já não puderem reproduzir-se mais, e não só porque se pare a produção (estratégia permanente do operariado).

Assim, a luta de classes (sim, ainda há luta de classes) deve incluir e focar-se no ponto vulnerável: a produção do espaço, a estrutura territorial de exploração e dominação, a reprodução, espacialmente controlada, do sistema como conjunto. E deve incluir também todos os que são explorados, dominados e “periferizados” pela organização social imposta pelo capitalismo avançado: camponeses sem terras, pequenos burgueses proletarizados, mulheres, estudantes, minorias raciais, bem como a própria classe trabalhadora. Nos países capitalistas centrais, a luta, argumenta Lefebvre, assumira a forma de “revolução urbana”, lutando pelo direito à cidade e pelo controlo da vida quotidiana dentro do contexto territorial do Estado capitalista. Nos países menos industrializados, também se centrará na libertação e na reconstrução territorial, na tomada de controlo da produção do espaço e do seu sistema polarizado de centros dominantes de periferias dependentes dentro da estrutura global do capitalismo.


Com esta argumentação, Lefebvre define uma problemática espacial no capitalismo e eleva-a a uma posição central dentro da luta de classes ao colocar as relações de classe dentro das condições que configuram o espaço socialmente organizado. Não defende que a problemática espacial tenha sido sempre tão central. Nem apresenta a luta pelo espaço como substituta ou alternativa à luta de classes. Argumenta sim que nenhuma revolução social pode triunfar sem ser também simultaneamente uma revolução conscientemente espacial.” 

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Edward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical (I)

O espaço e a organização política do espaço expressam as relações sociais
 mas também influem nelas.
Henri Lefebvre

A rubrica livro do mês regressa ao Georden, desta vez com um dos nomes contemporâneos mais famosos das últimas décadas: Edward William Soja.

Novaiorquino nascido em 1941 (e não "californiano nascido na década de 1950, como aqui se lê), Soja cresceu no Bronx e a sua vivência da rua e do sentido colectivo, a brincar e jogar com os amigos, está na base da sua primeira sensibilidade para a leitura crítica do espaço. O seu espaço vital, diz, resumia-se a uma rua, pelo que um quarteirão mais adiante era considerado espaço estranho. Também o seu gosto por mapas apurou a apetência pela Geografia. O seu primeiro trabalho, sobre o Quénia, levou-o a explorar as realidades coloniais e a interessar-se por outras áreas do saber como a História, a Antropologia, a Arqueologia...

A principal marca de Soja foi e continua a ser - pasmem-se os Geógrafos e analistas das ciências sociais - a luta pela reivindicação da espacialidade como elemento central para a abordagem e leitura da realidade das sociedades humanas. 

A sua obra "Geografias Pós-modernas", de 1989, livro cuja tradução portuguesa disponível continua a ser, nada estranhamente, brasileira, tem, aliás, como subtítulo "A Reafirmação do Espaço na Teoria Social Crítica(em verdade, como se perceberá pela pequena bibliografia em anexo, na quarta parte deste artigo, essa é, tanto quanto sabemos, a sua única obra em Português.) e é dele que extraímos as passagens abaixo. 

(duas edições de "Postmodern Geographies", de Edward William Soja)

Trata-se, obviamente, de uma reivindicação natural do ofício. Mas porquê, então, a pertinência e novidade introduzida por Soja? 

A primeira resposta reside exactamente no espanto que esta assunção representa: será que os geógrafos não tomam o espaço como objecto principal nos seus estudos?

Segundo ele, um veemente não:

“A visão do espaço essencialmente como elemento físico influenciou profundamente todas as formas de análise espacial, seja ela filosófica, teórica ou empírica, aplicada ao movimento dos corpos celestes ou à história e à paisagem da sociedade humana. Também tendeu a imbuir tudo o que é espacial num persistente sentido essencialista e físico, de uma aura de objectividade, inevitabilidade e reificação.
Sob esta forma física abstracta e geral, o espaço foi conceptualmente incorporado na análise materialista da história e da sociedade de uma forma que interfere com a interpretação da organização espacial humana como produto social, que é o primeiro passo fundamental para entender a dialéctica sócio-espacial. O espaço entendido como contexto físico gerou um grande interesse filosófico e longas discussões sobre as suas propriedades absolutas e relativas (um debate longo que é anterior a Leibniz), as suas características como “contentor” ambiental da vida humana, a sua geometria objectivável, e as suas essências fenomenológicas. Mas este espaço físico foi uma base epistemológica desviante para analisar o significado subjectivo e concreto da espacialidade humana. O espaço em si pode estar fisicamente dado, mas a organização e o significado do espaço é um produto da experiência, da transformação e da dinâmica social."

Ou seja, cabe distinguir os conceitos de "espaço", enquanto "cenário" (ou nem isso), com as suas características físicas, e "espacialidade", termo empregue para designar o espaço socialmente construído, percebido e vivido.

O espaço produzido socialmente é uma estrutura produzida comparável a outras construções sociais resultantes da transformação das condições inerentes a estar vivo, tal como a história humana representa uma transformação social do tempo. De igual maneira, Lefebvre distingue entre a Natureza como contexto dado e o que pode chamar-se “segunda Natureza”, a espacialidade transformada e socialmente concretizada surgida da aplicação do trabalho humano intencional. É esta segunda Natureza que se torna sujeito geográfico e objecto da análise materialista histórica, de uma interpretação materialista da espacialidade.

O espaço não é um objecto científico separado da ideologia e da política: sempre foi político e estratégico. Se o espaço tem ar neutro e de indiferença para com o que ele contém e parece assim como puramente formal, o epítome da abstracção racional, é justamente porque foi ocupado e utilizado, e já foi alvo de processos passados cujas pegadas nem sempre são evidentes na paisagem. O espaço foi conformado e moldado a partir de elementos naturais e históricos, mas ele foi um processo político. O espaço é político e ideológico. É um produto literalmente carregado de ideologias.
Henri Lefebvre, Reflexões Sobre a Política do Espaço, 1976

Talvez esta forma de encarar o espaço seja nova, mas a resposta é novamente negativa, como veremos. Mas continuemos com Soja.

A noção-chave que Lefebvre introduz na frase em epígrafe assume-se como a premissa fundamental da dialéctica sócio-espacial: que as relações espaciais e sociais são dialecticamente interactivas, interdependentes; que as relações sociais de produção ao mesmo tempo que conformam o espaço, são condicionadas por este (pelo menos enquanto tivermos uma visão do espaço organizado como socialmente construído).
Dentro de um marco regional em vez de urbano, Ernest Mandel desenvolveu ideias muito parecidas. No seu exame das desigualdades regionais em capitalismo, Mandel afirmou que “o desenvolvimento desigual entre regiões e nações é a essência mesma do capitalismo, ao mesmo nível que a exploração do trabalho pelo capital”. Ao não subordinar a estrutura espacial do desenvolvimento desigual às classes sociais mas, sim, colocando-a “ao mesmo nível”, Mandel identificou uma problemática espacial na escala regional e nacional que se assemelhava muito à interpretação de Lefebvre da espacialidade urbana, ao ponto de sugerir o surgimento de uma poderosa força revolucionária a emergir das desigualdades espaciais que claramente via como necessárias para a acumulação capitalista. No seu trabalho principal, Late Capitalism (1975), Mandel centrava-se na importância histórica crucial do desenvolvimento geográfico desigual no processo do capitalismo. Ao fazê-lo, apresentou uma das análises marxistas mais sistemáticas e rigorosas da economia política do desenvolvimento regional e internacional jamais escritas."

Inspirado pelas leituras de Henri Lefebvre, que já trouxemos aqui com "O Direito À Cidade", de Focault e outros, Edward Soja desconstrói o conceito e procura, dentro do próprio marxismo, enquanto atitude e prática críticas e emancipadoras, as razões para a espacialidade ter sido relegada para o pátio das traseiras epistemológico.

Sem nos alongarmos em grandes explicações, as razões por ele encontradas podem resumir-se a três:

1 – A aparição tardia da obra de Marx “Grundrisse”

Esta obra, a mais eminentemente geográfica do pensador alemão, só começou a difundir-se bem depois da Guerra de 1939-45. “Aliás, como hoje sabemos, Marx nunca concluiu os seus planos para os volumes seguintes a”O Capital”, que deviam abordar o comércio mundial e a expansão geográfica do capitalismo, cujo possível conteúdo só ficou insinuado posteriormente nos “Grundrisse”. Na ausência destas fontes, a ênfase foi colocada na teorização do sistema fechado, sobretudo aespacial, dos volumes publicados d”O Capital” (…) Graças às contribuições de Bukarine, Lenine, Luxemburgo, Trotsky e outros, a teoria do imperialismo e as conceptualizações associadas aos processos de desenvolvimento desigual tornaram-se no principal contexto da análise geográfico dentro do marxismo ocidental. Havia uma problemática espacial implícita nessas teorizações do imperialismo, mas ficavam-se no mero reconhecimento de uma limitação física final para a expansão geográfica do capitalismo.

2 – As tradições anti-espaciais no marxismo ocidental.

Em muitos sentidos, Hegel e o hegelianismo transmitiam uma ontologia poderosa e uma fenomenologia espacializada que reificava e fetichizava o espaço sob a forma física, o locus e o meio da razão completa. (…) O tempo ficava subordinado ao espaço e a própria história era dirigida por um “espírito” territorial, o Estado. O anti-hegelianismo de Marx não se limitava à crítica materialista da do idealismo. Era também uma tentativa de devolver a primazia à historicidade – a temporalidade revolucionária – sobre o espírito da espacialidade. Deste projecto emergiu uma sensibilidade poderosa e uma resistência à afirmação do espaço enquanto determinante histórico e social.
(…)
Menção à parte merece o carácter anti-espacial do dogmatismo marxista saído da Segunda Internacional e que se consolidou sob o estalinismo, tendo sido as questões espaciais tratadas dentro de uma abordagem de um estéril reducionismo económico.

3 – As condições mutáveis da exploração capitalista.

Como as fórmulas da composição orgânica do capital e da taxa de lucro, o seu derivado assume a visão de um sistema fechado das relações de produção capitalistas, desprovidas de diferenciação e desigualdade geográficas significativas. Além disso, dada a urbanização massiva associada à industrialização em expansão, a reprodução da força de trabalho era um assunto muito menos crucial que o processo de exploração directa através de um sistema de salários de subsistência e a dominação do capital sobre o trabalho no lugar da produção. Para a extracção da mais-valia absoluta, a organização social do tempo parecia ter mais importância que a organização social do espaço.

No capitalismo contemporâneo, a exploração do tempo de trabalho continua a ser a fonte principal da mais-valia absoluta mas com uns limites crescentes que surgem da redução do horário de trabalho, dos níveis de salário mínimo, dos acordos laborais e de outras vitórias da organização da classe trabalhadora e dos movimentos sociais urbanos. Para continuar a conseguir essa mais-valia, o capitalismo viu-se forçado a investir na tecnologia, nas modificações na composição orgânica do capital, a reconhecer o papel crescentemente dominante do Estado, e às transferências líquidas do excedente associadas à penetração de capital em esferas de produção não geradoras de lucro (internamente, através da intensificação, bem como externamente, através do desenvolvimento desigual e a “extensificação” geográfica a regiões menos ou nada industrializadas de todo o mundo).


(Continua)

segunda-feira, outubro 28, 2013

Um hostel onde podes dormir numa caravana vintage


"Este não é um hostel comum. Situado em Bona, na Alemanha, o BaseCamp Bonn é um armazém transformado para albergar 15 caravanas de campismo “vintage”, duas carruagens ferroviárias e quatro caravanas Airstream dos EUA. Para além disso, estão ainda disponíveis autocarros VW e os míticos Trabant, da ex-RDA. Ao todo, o hostel é composto por 120 camas e as casas de banho são partilhadas. O conceito foi criado pelo hoteleiro Michael Schlosser e é único. As caravanas foram projectadas pela designer de televisão e cinema, a alemã Marion Seul. Cada uma tem um tema diferente e os preços variam dos 22 aos 72 euros por noite."

Ler mais aqui.

domingo, outubro 27, 2013

Há mãos portuguesas em projeto que transformou prédio devoluto em arte

"O dono de uma galeria de arte em Paris viu num prédio devoluto de 10 andares uma enorme tela em branco. Há 11 portugueses entre os 105 artistas de todo o mundo convidados a dar uma nova e temporária vida à Torre 13."

Ler mais aqui.

ACONSELHO A VISUALIZAREM AS FOTOS que se encontram no artigo...
FABULOSAS!

sábado, outubro 26, 2013

Bolsa de terrenos para cultivo disponível online

"As terras abandonadas em Portugal podem agora ganhar uma nova vida com o projeto “Bolsa de Terras” que disponibiliza, online, uma lista de terrenos abandonados para quem quiser fazer negócio ou ter a sua horta familiar.
O projeto desenvolvido pela Agroconceito, empresa de apoio e consultoria na actividade agrícola, pretende concretizar o sonho de muitas pessoas que desejam cultivar um pouco de terra e, ao mesmo tempo, dar utilidade às terras que se encontram abandonadas por Portugal."

Ler mais aqui.

domingo, março 17, 2013

Reflexos e Reflexões


Ao começar, o milénio convida-nos a reflectir sobre a própria reflexão que sobre ele poderá vir a ser feita. O verbo reflectir é semanticamente muito ambíguo pois que conota dois fenómenos contraditórios: reflexo e reflexão. Reflectir enquanto produção de reflexos é um fenómeno passivo, não criativo, que assume como só existindo aquilo que lhe é dado reflectir. É assim que a lua reflecte a luz do sol. Ao contrário, reflectir enquanto produção de reflexão é um fenómeno activo, criativo, mobilizado pela identificação de uma falta ou de uma ausência naquilo que existe. É assim que reflectimos sobre as nossas vidas ou sobre a sociedade e o tempo em que vivemos. Claro que a contraposição entre reflexo e reflexão não é total. Há sempre algo de criativo no reflexo: o espelho não reflecte exactamente o nosso rosto; tal como a reflexão tem sempre algo de passivo: as reflexões que fazemos sobre a nossa vida são reflexos da vida que temos. Mas a contraposição é essencial, pois é através dela que medimos o grau de autonomia (ou de alienação) com que vivemos as nossas vidas: dominamos melhor o mundo sobre o qual reflectimos do que o mundo de que somos mero reflexo.

Vivemos o século XX sob a égide de três mestres: um mestre do reflexo: Freud; um mestre da reflexão: Nietzsche; e um mestre da mediação entre reflexo e reflexão: Marx. Foram eles que escreveram o guião da nossa relação com o mundo - mais ou menos activa, mais ou menos conformista - nos últimos cem anos. Ao entrarmos no novo milénio, verificamos que as lições destes mestres têm vindo a perder poder de convicção sem que, no entanto, estejam a ser substituídas por outras lições de outros mestres. Somos hoje mais exigentes ou apenas menos educáveis? Penso que a questão é outra. Só são precisos mestres quando há tensão entre reflexo e reflexão e essa tensão está a desaparecer nas sociedades mais desenvolvidas. Nestas sociedades é cada vez mais fácil passar por reflexão o que é apenas reflexo, passar por actividade o que é apenas passividade, passar por plenitude o que é uma inominável carência. Por isso, nestas sociedades o que está fora da consciência é sobretudo a consciência de que algo está fora dela.



Três exemplos, que são três ângulos sobre o mesmo síndroma. Os consumidores simbolizam hoje o paroxismo de uma actividade que se agita freneticamente no interior de um círculo de escolhas ante as quais é totalmente passiva. O crédito ao consumo permite transformar a carência em plenitude antecipada. O segundo exemplo é a classe política, sobretudo a que está no poder. Como o seu poder é cada vez mais reflexo de outros poderes (capitalismo global, União Europeia), a sua capacidade de reflexão é medida pela sua disponibilidade para ser reflexo. Quem, no interior dessa classe, quiser fazer reflexão, é posto na ordem do reflexo. O terceiro exemplo diz respeito aos criadores de opinião, entre os quais me incluo. Dominados pela vertigem da autonomia e, portanto, da reflexão, ignoram as filiações de que são reflexo. Tendo perdido a mediação entre reflexo e reflexão, quando concordam entre si, ignoram-se porque se repetem, e quando discordam, ignoram-se porque as suas diferenças são incomensuráveis. Nestas condições não é possível nem o consenso nem a polémica. Por isso, nem os educadores educam nem ninguém educa os educadores.


Boaventura Sousa Santos
Publicado na Visão em 28 de Dezembro de 2000
Última crónica, também, da compilação "A Cor do Tempo Quando Foge", Ed. Afrontamento.


Este texto é das coisas mais geniais que alguma vez li.
Para renovar por todas as vezes em que lhe reconheçamos validade.

quarta-feira, março 06, 2013

Coisas para que queremos chamar a vossa atenção*

* isto é, se ainda tendes atenção ao que se passa à vossa volta.



Começo logo a matar, e quem quiser que saia.


Nada de substancial ou útil se pode dizer se não tiver cabeça - sobretudo cabeça -, tronco e membros.
Por isso, a atenção costuma ficar a rastejar pelo caminho da lucidez e morre logo após o local de partida.
Assim não é que não valha a pena.
Do que se trata é de mais um desperdício de energia, da energia que todos despendemos a cada dia que passa, e que é bem útil para ir construindo caminho.



Feito este aviso, podemos prosseguir.





Gosto muito de livros.


Não gosto de ver os livros tratados como os óculos e os sapatos dos judeus que se preparam ou já foram enviados para os fornos do nazismo censório actual: chama-se democracia elitista.
Sim, um contra-senso, já sabemos. Pois se "demos" é o povo, como pode ser "elitista"?
Lá chegarei.



Estamos em 2013. Portugal.


Em altura de irmos buscar substrato para sustentar os altos castelos que hoje  estão ruídos e estilhaçados, e sem entrarmos em revisionismos ou vontades conducentes a emperros - ainda mais? - da evolução, relembramos que este povo (o que é um povo?) teve, para não ir muito atrás, que perdemos a "emocionalidade" (emoção+racionalidade) que devemos ter para com algo que nos devia ser próximo, 



Monarquia, República aos sobressaltos, uma ditadura fascista de 48 (!) anos e uma revolução, pacífica, organizada, sabedora e segura, que lhe pôs fim.


Tivemos o PREC - Processo Revolucionário Em Curso, ao qual puseram termo, apontam essa a data fulcral para tal, a 25 de Novembro de 1975.
Ou, se quisermos mesmo o carimbo, nas eleições de 25 de Abril de 1976.



E estamos neste sistema há 37 (!) anos.



Terminada a revisão, é nesta relação de 48 anos de uma coisa, 2 anos de outra e 37 desta que quero começar esta crónica crítica.



Portanto,


Eu gosto de livros.
Costumo, sempre que posso, passar o corpo e os olhos por alfarrábios.
Não sei se os caros leitores fazem gosto de fazer o mesmo.
Bem.
Sobretudo nestes e em feiras de venda de livros usados, que é como irmos a museus por explorar, não sei se já repararam que há, por vezes (e quando há, poucos não são), livros sobre política.
Para o leigo, diremos que costumam ter capas vermelhas (isto tem explicação) e versar sobre Marxismo, o salazarismo, o capitalismo, o golpe de Abril, a organização do MFA, a revolução do proletariado, a reforma agrária, a constituição revolucionária, sobre situações políticas na União Soviética, no Chile, em Espanha (sim, ainda tivemos cerca de 3 anos para falar do franquismo), no Biafra, na Grécia, na Checoslováquia, na RDA e na RFA, entrevistas a capitães de Abril, as incongruências destes ou daqueles episódios, etc.



Já nos perguntámos, se já reparámos nisto, como é que estes livros foram ali parar? Porque é que estes livros estão ali à venda, a maior parte deles bem acessíveis (preço),?




Eu tenho uma teoria.


Sim, tem que ver com aqueles anos que relacionei acima.
E, sim, a teoria não está desligada nem da observação da natureza, nem, se assim o quisermos, de uma formulação freudiana do comportamento. Que neste caso, do comportamento humano.



Tivemos um regime opressivo, cerceador das liberdades de escolha e decisão (é por aqui que se afere da democracia, quanto a mim, em primeiro lugar), que nos manteve arrebanhados no atraso material (calma...) e mental de que ainda não só padecemos como parecemos nunca ter deixado de padecer.


Estas dificuldades e estreitamentos aguçaram o espírito, a criatividade e desenvolveram o músculo de combate.
Durante os 48 anos as coisas foram-se acumulando.
A sageza e os entraves funcionam como a água que quer chegar, custe o que custar, ao mar.
E um dia, "a horas certas", a tampa saltou e a panela explodiu.



A ditadura não caiu de podre.


Tivemos de a fazer cair.
Talvez por isso o caso português se diferencie do espanhol, que teve aquilo a que chamaram "transição". 
Não, aqui houve, aqui fizemos uma "Revolução".



É certo e sabido que, se bem que fosse a maioria da população que sofria com a ditadura (escapavam-lhes os seus "instituidores" políticos, económicos e religiosos... e mais os acomodados ou conformados), a revolução foi feita por uma minoria.


Raios!
Quero com isto dizer que os organizados, além da vantagem de terem um instrumento, a instituição militar e seus meios, representando aquela que - veio não a descobri-la mas a formulá-la - era a vontade popular, não eram representativos no número.



E assim partimos para o PREC.


Foram dois anos de conquistas, "as conquistas de Abril!", de muitas alterações estruturais na organização social, política, económica, agrícola, produtiva, demográfica e geográfica e mental de um povo.
Um povo que foi arredado da cultura e da política ("basta-lhe que saiba ler e escrever" e "um copo de vinho alimenta muitos portugueses" e "Fadai-vos, que nos Fartamo-nos de vos Foder", vulgo política dos três FF's, com os instrumentos de manipulação, esvaziamento, desinteresse e amesquinhamento que constituem a religião, o futebol e o fado institucionalizado, autorizado, oco e bacoco) durante 48 anos (mais os que vinham de trás) teve, em 2 anos, de aprender tudo sobre marxismo, comunismo, de saber o que é a democracia, de se organizar em comissões de trabalhadores, de moradores, em sindicatos, em cooperativas...



Ou seja, já estamos a chegar lá, ...toca a instruir-se.


Claro, antes disso ainda tiveram, muitos, de aprender a ler.



Foram 2 anos (não sabíamos que iam ser dois anos) de aprendizagem à pressa, para estar por dentro das mudanças.


A questão não se trata tanto de "depressa e bem não haver quem".
A questão é que o 25 de Novembro pôs fim a essa continuidade revolucionária necessária para consolidar a mentalidade que é o fogo da democracia.
Em 1976, então, entregamos tudo, novamente, com toda a confiança - o povo assim o quis!, dirão uns, talvez a maioria - a uns quantos.



Nós, que nos organizáramos em comissões disto e daquilo para que as decisões fossem tomadas pelos envolvidos, que lutáramos pelo seu esclarecimento para tomarmos nas nossas mãos aquilo que era nosso e que trabalhávamos, que construímos, durante dois anos, uma pirâmide mais equitativa e representativa do poder, fomos, passados esses dois anos, entregar, novamente e confiantes, tudo a uns poucos.




E, confiantes, deitámos aqueles livros fora.


"Já não preciso disto" e "Já li" e ainda "eles agora tratam de tudo, por nós".
Confiantes, enchemos os alfarrabistas com os livros, agora lixo, que deixaram de fazer sentido termos lá por casa a apanhar pó e aliás a ocupar o espaço necessário para as revistas da moda.



E fomos adormecendo.


Esquecendo a história, as nossas capacidades.
Destruindo a criatividade e a força de intervenção.
Esvaziando e substituindo os valores democráticos pelos do umbigo.



E estamos nisto há 37 anos.


37 anos de alternância bipartidária, sempre a insistir, confiantes a cada 4 anos, no mesmo. Ora num, ora noutro.



E a democracia foi tomada de assalto.


Aliás, os partidos, os detentores e organizadores deste país, tiveram, até ao momento, 37 anos para o fazerem.



E nós deixámos.


Porque, adormecidos, confiámos.
Pois é, estar atento e ser lúcido dá trabalho, não é?
Pois, eles que decidam!



Pois, eles decidiram que tu deixaste de decidir.


Que tu deixaste de contar.
Agora só te contam contos e fábulas.



A teoria - não nos perdemos na meada - é a de que o excesso de uma coisa leva ao excesso do seu contrário.


Aos 48 anos de modorra e anti-vida corresponderam 2 anos de força e ter a história na mão.



Freudianamente, podemos dizer que o que é recalcado mais cedo que tarde virá ao de cima. E mais violentamente quanto mais tarde vier.




Gaiamente, diremos que a após à calma sucede a tempestade, o frio ao calor, a chuva ao tempo sem chuva, a dormência do vulcão à - conforme a sua natureza - sua erupção.




Livrescamente, a abundância daqueles livros por ler e à espera de serem lidos em alfarrabistas corresponde a indecência, a nulidade e a estupidez das escolhas que temos vindo a fazer, a cada 4 anos, e a cada 5 (veja-se o maior bacoco desde Amércio Thomaz que fomos eleger, de seu nome Aníbal Cavaco Silva...), durante estes 37 anos, nas eleições.




Ora bem, parece que já temos uns anitos, 37, para andarmos a fartar-nos disto, não acham?




Não se pode enganar um bébé com a mesma brincadeira durante 37 anos!!!, diria o nosso amigo Bradbury.






Pois, mas



Vamos supor que havia eleições em Portugal amanhã. Os eleitores poderiam escolher entre: 
a) uma opção de primeiro-ministro que foi durante muito tempo líder de uma juventude partidária, escreveu um manifesto chamado “Portugal Primeiro” e governaria, naturalmente, de acordo com as indicações da troika; 
e, 
b) uma opção de primeiro-ministro que foi durante muito tempo líder de uma juventude partidária, escreveu um manifesto chamado “Portugal Primeiro” e governaria, naturalmente, de acordo com as indicações da troika.
(Sim, é verdade, copiei e voltei a colar a última frase.)
Evidentemente, isto não é tudo. Os portugueses escolheriam um pouco mais de duzentos deputados, que por sua vez já teriam sido escolhidos por outros cinco portugueses, dois dos quais são os descritos acima na alínea a) e b). Dos cinco partidos a que pertencem estes deputados, sabemos que dois se colocariam imediatamente de fora de qualquer governo — apesar competirem entre si pela intenção de formarem “um governo de esquerda”, num caso, e “um governo de esquerda e patriótico”, no segundo. Se houvesse eleições amanhã, em suma, a grande surpresa consistiria em saber-se com qual dos portugal-primeiristas, ex-jotinhas e atuais troikistas iria Paulo Portas fazer um governo de coligação e, subsidiariamente, em saber quem seria o Miguel Relvas do PS.

(desculpem, mas não consigo senão citar todo o artigo de Rui Tavares.)


Por isso, o cronista ateu e de esquerda acaba por ter de resignar-se à realidade de que, após 700 anos, o cardeal Ratzinger acabou de provar que é hoje mais imprevisível seguir a política do Vaticano do que a portuguesa.
Não é para admirar que, estudo após estudo, os portugueses sejam dados como os europeus que menos acreditam na democracia, menos participam na vida política ou partidária, e em que a degradação desta crença cívica vai avançando mais rapidamente. No Barómetro da Qualidade da Democracia do ano passado só 55% dos portugueses consideravam a democracia superior a outros regimes. Mas somente 15% dos portugueses se diziam favoráveis a um regime autoritário. Que se passa aqui? Muito simples: os portugueses não têm nada contra a democracia em geral, mas contra a forma como esta democracia em particular está a ficar.
A reflexão crucial é a que apareceu numa opinião publicada recentemente neste jornal por João Nogueira Santos e Carlos Macedo e Cunha, segundo os quais 99% dos portugueses nunca votou numa eleição para candidato a primeiro-ministro. Ao contrário dos italianos, dos franceses, e dos cidadãos de muitos outros países onde já se escolhem os candidatos a chefe de executivo em primárias abertas a vários partidos todos os cidadãos.
Em Portugal há alguns alvores de esperança, como agora o movimento de cidadãos de esquerda que, cansados de esperar pelos respetivos partidos, pretende discutir as eleições em Coimbra. No dia em que um destes movimentos decidir escolher os seus candidatos por primárias abertas aos cidadãos, ou em que apareça um partido (existente ou novo) com coragem para fazer o mesmo, estarão abertas novas portas à participação política no país, e as pessoas voltarão a encontrar um sentido para as escolhas em democracia.
Até, e tal como nos EUA o movimento do Occupy Wall Street propôs fazer dos 99% o símbolo da exclusão económica, defendo que deveria fazer-se deste 99% que nunca votaram para escolher os candidatos a primeiro-ministro, ou os candidatos a deputados, o símbolo da exclusão política a que quase todos os portugueses estão sujeitos.

E há uma questão fundamental que era ter a ousadia de fazer um último teste. 
Um último teste ao que nos resta, que é - já repararam, sequer? - estas mesmas eleições que nos dizem ser o tudo e o nada, conforme os apologistas, da democracia que temos.
Esse último teste por fazer - continua por fazer! - já vinha narrado, em tentativa, no "Ensaio Sobre a Lucidez".
Esse teste consiste em votar diferente, mas completamente!, do que temos vindo a fazer nestes 37 anos.

E aqui saltamos para outro exemplo.
Enquanto milhares de milhões de nós andamos, por todo o mundo e  à trela dos média, entretidos com uma mudança que apenas pode ser decidida por menos que os países que esse mundo conhece e em que esse mundo tem de viver, não sei se repararam que houve eleições ali ao lado, a toda a volta do Vaticano, esse estado absolutista criado pelo mui democrático Mussolini.

Vistes quais foram os resultados?
Vá, todos tivestes de ser metralhados com a propaganda!...
E vistes quais foram as consequências / reacções a esses resultados?

Eu vou explicar e chamar-vos à atenção, para o caso de não terdes tido a lucidez de análise.
O candidato que resignou, o mandatado do FMI para aquele país, Monti, teve uns 10% dos votos. O palhaço Berlusconi teve 29%, o outro, Bersani, teve também 29% e a personagem, populista, não tardaram logo os média em fazer-nos cabeça, Beppe Grillo teve uns assombrosos, perigosos 25%.
Populista? Ok, mas não será o único, e não ouvi os "imparciais" jornalistas a usarem dessa palavra para falarem do imperialista palhaço corrupto Berlusconi.

A organização do poder deu num impasse, pois houve maioria de um dos candidatos num sítio e maioria do outro noutro sítio, i.e., Câmara de Deputados e Assembleia.

O país ficou num impasse.
Talvez tenha sido isto o foco principal das notícias.
Mas não descuremos o comediante Grillo.

Agora reparai nesta anedota.
Mal se souberam os resultados, primeira notícia que ouvi:
Os mercados reagiram em baixa.

Os mercados???
Mas o que é que os mercados têm que ver com umas eleições?
Mas porque é que...

No livro do Saramago, a escolha do voto em branco deu prò torto e os instalados do sistema partidário e do poder logo trataram de arranjar um bode expiatório para sanear o problema e repor a "normalidade democrática".

Por cá, sempre que se vota diferente, os mercados reagem.
Assim, diriam eles se fossem entidades concretas e humanas, não vale a pena continuarmos com eleições!
Como se a Democracia não passasse da melhor invenção do Poder oligárquico (que instituiu a Escravatura, o Absolutismo, e todas as demais Idades Médias por todos os tempos) para atravessar e sobreviver aos tempos e aos lugares.

Nós damo-vos a liberdade de elegerdes, mas só se aqueles que elegerdes forem do nosso agrado e confiança!
Tudo o que sair fora desse espectro não conta.

Esta é a última dúvida que temos de tirar. De uma vez por todas.
E era essa, quanto a mim, a reflexão última do livro "Ensaio Sobre a Lucidez".
Temos, para ter a certeza absoluta (para não virem depois acusar-nos que não tentámos...), de tirar essa última prova dos nove: votar, ou na extrema direita, ou na extrema esquerda e não reservar um voto que seja para os partidos siameses do centro estagnado, instalado e manipulado.

Aí veremos o poder que o Poder nos reserva ou realmente nos concedeu para tratarmos da nossa vida.

E, sabeis de uma coisa, acredito há muito tempo que a consequência imediata será uma intervenção militar eivada de libertação. Os poderes que realmente nos governam, se estrangeiros são, logo tratarão de mobilizar os exércitos para intervirem nesta porcaria de jardim à beira-mar podado.
Claro, que, antes, tratam de mobilizar os embaixadores, quais Carluccis renovados, e de pôr, tal como põem os mandatados do FMI, peças fundamentais para que as coisas não saiam do sítio.
As chamadas forças de bloqueio.
A reacção e os "insiders".

Na Grécia, antes das eleições de 1967, houve um golpe militar que pôs o país a ferro e fogo, de que aliás já por cá falámos.
Não deixaram que houvesse eleições.
E sabeis porquê?
Porque de antemão sabiam que a vontade da maioria era um governo de orientação socialista. A história do povo levou a que ele se organizasse e assim pensasse. E portanto, as eleições já não serviriam para a fachada para que servem por cá. Por cá e por muitos desses países que se dizem democráticos.

Os coronéis é que trataram, evitando as eleições, de nos dar, há muitos anos, a razão que teimámos em adiar conhecer: a de que estas não servem para mudar o essencial - só servem para dar continuidade.
Isto pode parecer um raciocínio circular, mas é assim que compreendemos as alternâncias entre os partidos do centro, que não distinguimos os democratas dos republicanos: os interesses que realmente governam e que nós não elegemos estão instalados, legislam e mexem os cordelinhos para que o poder nunca seja repartido ou transferido.

Ui, o poder cair na rua seria o desastre!
(Ouvimos esta de um comentador, depois do sábado passado)
Seria, não seria?
A que desastre estarão eles a referir-se mesmo?
À desacreditação final do sistema?
Ou será à "rebaldaria" e ao "perigo" do populismo e da deriva do poder?

O problema posterior vai ter àqueles livros a ganhar pó.

"It's a large nation, but still very weak", 
acertava o Leonard Cohen no Festival da Ilha de Wight

Mesmo se isto se desse por uma revolta de lucidez (votar só e apenas nos extremos, ou num ou noutro) faltar-nos-ia depois a capacidade de nos organizarmos para podermos tomar conta do nosso destino.
Sem patrões nem senhorios.

E a falta de criatividade e de inteligência que perpassou na manifestação de sábado passado é o mais preocupante de tudo isto.
O poder não é nada sem controlo, dizia um anúncio de pneus de que alguns se lembrarão. Se o viveram e se o guardam na memória (a possível...).
O poder cair na rua será o desastre se se tratar de força bruta, esta força bruta que é sempre tão maleável que basta um qualquer charlatão que cante melhor que o Relvas para a mobilizar a seu favor, crendo, crentes, os indignados ter ali, perante, eles, mais um salvador da pátria saído do nevoeiro que criámos por desleixo.
Tal como Salazar.

A qualidade da democracia está intimamente com a capacidade do seu povo.
E se quiserdes prova cabal disto, FODA-SE, fiquemos e aprendamos com isto:


Porque tiveram um presidente da república que, ao contrário dos fantoches e sucedâneos de Kissingers, preferiu sacrificar a economia em vez da democracia e porque o povo se organizou para decidir o que fazer com o que lhe diz respeito.

As bases da estupidez grassam, alimentadas por quem quer manter as coisas tal como estão. E assim, toda a mudança se vê dificultada ou mesmo impossibilitada.

Lá está, os tais 37 anitos.
Continuamos uns bébés...