quarta-feira, dezembro 30, 2009

A Geografia da Porta ao Lado

Tudo dentro da lei.
Mas fora do eticamente aceitável.
Do democraticamente desejável.
Da Democracia que (quereremos? Alguns não querem. Quantos serão?) temos de construir.

Portanto, a lei falha.
A lei foi feita por quem?
Quem pensámos que nos representava?
Por quantas mais eleições erraremos?

Uma história do Portugal provisório, que narramos da seguinte forma:

Certa pessoa tinha uma consulta no médico de família.
Dirigiu-se ao posto médico:

- Boa tarde, tenho uma consulta para a Dra. ...
- Você não sabe? A Dra. ... reformou-se há dois meses. Ninguém a avisou?
- Como??? Reformou-se?
- Sim, a Dra. ... e o Dr... [casados]
- E porque é que não me avisaram? Tenho contacto, telefone, telemóvel, estou sempre disponível, conhecem-me há anos, têm a minha morada...

---

O diálogo terá sido mais ou menos assim, segundo o que me foi contado.

Médico de família há mais de duas décadas.
Aldeia a poucos quilómetros de uma cidade que é também sede de distrito.
Região de Saúde da zona norte.

Saúde pública, vilipendiada, ostracizada por quem a faz.
Ah, sim, claro que têm todo o direito à reforma: trabalharam os anos previstos na lei, merecem o descanso.

A lei apenas tem que fazer o seguinte:
abrir concurso, prover as faltas (e no caso da Saúde, com carácter de urgência), e, deixando-se de burocracias (mas com a ajuda delas), respeitando as pessoas e os utentes (que têm direito a cuidados de saúde - está em qualquer Constituição democrática!!) e avisando que tal e tal.
Muito bem.
Passo seguinte.

O passo seguinte é sair pela porta. Sempre aberta. No horário de expediente, claro.
(Para outros casos é favor dirigir-se ao Centro de Saúde mais próximo, quando não ao Hospital. Mas se tal se justificar. Vamos lá ter calminha, sim?)

Na porta ao lado, há uma clínica privada.
Essa pessoa, essa utente, que tinha uma consulta, vá lá saber-se porquê, talvez seja uma questão mesquinha (raio de pessoa!) não quis lá ir. Ah, e pagar uns míseros 40 euros por consulta. Ou o raio que o valha.
Porque a porta ao lado é um mundo completamente diferente.
(Onde é que ja vimos este filme? Alice no País das Maravilhas? Humm... Quem é que está a ficar pequeno com estes comprimidos?)

Na clínica privada, a Dra. ... , a mesma Dra. ... dá consultas.

Pois claro.
A título privado, as pessoas têm todo o direito de continuar a trabalhar.
(Dizem até que adia a morte...)
Terão?

Ao fim de tantos anos de serviço, cai por terra toda a imagem de amor ao serviço público que, porventura, possamos ter construído sobre estas pessoas. Sobre estes Drs.


Quanto descaramento!
Estas pessoas não têm a mínima vergonha?

Estas pessoas (médicos ou o que sejam), o mínimo que mereciam, era que lhes fosse retirada a reforma.

Mas não podemos ir pedir a leis destas que sejam nem justas, nem justas a esse ponto.
Ponto.

Isto não vai ficar assim...

domingo, dezembro 27, 2009

Istmânia - O Mar

A História da Istmânia está escrita na, e pela, sua configuração, empurrada para o Mar pelas Montanhas. Montanhas que aos istmanianos parecem gigantescas vagas sólidas, apenas percorridas por rios incertos que para o Mar fogem sem olhar para trás. Fugirão do Mar. Pelo menos do fantasma do Mar. O Mar que, durante séculos, até à construção da Barreira, não os deixou chegar até si. Retirou-lhes a possibilidade e a dignidade de terem foz e subiu por eles acima, indo apanhá-los antes da curva, passada a qual os rios julgariam poder finalmente avistá-lo. É por isso que neste País, culturalmente, a água doce é ou salgada ou meia salgada. É o destino deste povo que sobre as arribas se acumula desde há séculos.
(...)

Daí que o Mar seja o destino da Istmânia, e, se também a desgraça, também a única glória. Daí que o Mar seja erigido em monumento nacional istmaniano. (...)

A síntese dos trabalhos do seminário irá porventura num sentido mais limitado: o de que a Istmânia é justamente um istmo que, perseguido pelas suas próprias Montanhas, vai em fuga até à ponta mas nela se imobiliza (no terror suscitado pelo Mar) e nessa ponta se esgota (Tese Geocultural). Embora também seja, para alguns, uma concepção maníaca da Pátria (Tese do Prémio Báltico).

Artur Portela, "A Guerra da Meseta", pp. 361-362
Ed. D. Quixote, 2009

terça-feira, dezembro 22, 2009

Não me consumas (com perguntas)

(ou "Pergunta filosófica em dias muito pouco filosóficos")

Falácia do Rentável, Mão Morta


Observo que por estes dias,

- qualquer coisa material,
- qualquer artefacto,
- qualquer pechisbeque,
- qualquer ninharia e
- qualquer objecto chorudo

serve como prenda.

Montagem de Eduardo F.


E pergunto-me

Que valor terão esses objectos?

Que valor afectivo terão esses objectos, uma vez que até os chorudos são levados?

Que valor terão esses objectos, se durante o resto do ano ficam na prateleira?


E assim sendo,

Que valor terão realmente as pessoas a quem são oferecidas esses objectos?

Que valor terão realmente essas pessoas, se durante o resto do ano não lhes dão prendas?



O que me faz perguntar então:

Será que essas pessoas,
Será que esses objectos...
... terão valor?

E...

Essas pessoas e esses objectos apenas têm valor por estes dias?

(Já não me atrevo a perguntar
Qual o real valor das pessoas que dão prendas apenas por estes dias?)


(Oferecendo assim continuam as pessoas a ignorar-se)

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Subsolo

Aprendemos em Geologia (ou em Recursos e Materiais Geológicos) que na definição de solo deve constar matéria orgânica. É a ela que distingue o solo da mera rocha.
Mas vale a pena ler o que vamos escrevendo na Wikipédia sobre o termo.

Depois surge o termo subsolo. Subsolo, disse-nos o estimado professor José Brilha, é uma coisa que... simplesmente não existe. É apenas um termo usado para "dar a ideia de", "designar"... - se bem entendo - a porção de terra abaixo da superfície (sim, eu sei que soa a truísmo, ou a cega-rega, petição de princípio...).

Imagem retirada do blogue Denúncia Coimbrã


Estava há dias a pensar,
"Hum, em Braga, as empresas foram convidadas (sim, concursos públicos, claro e tudo o mais... até.) a tratar das ideias de planeamento e gestão do trânsito. Sob a forma de túneis (aí está ele, o "subsolo"), passagens inferiores (espécie de "subsolo" sem tecto), passagens superiores (não dá vontade de dar a mão ao Santos da Cunha, ali em Maximinos,?) e, não esquecer, os estacionamentos subterrâneos."

Com a vulgarização do "baixo" e do "cima", tapado, destapado, entre paredes ou mais ou menos aberto, os bracarenses reconstruíram a imagem da cidade. Aceitando mais facilmente a coisa singular, ou mesmo única no mundo (ouvi alguém comentar...) de fazer do "subsolo" (lá está ele outra vez) também propriedade privada, pagável, utilizável mediante preço.

Empresa com tentáculos, em polvo cogumelizante, que se foi espalhando pelas urbes com muitos clientes (Lisboa, por exemplo)

---

Não sei aonde podemos chegar a partir daqui.
Talvez problematizar reflectindo e questionando:
A esconder o excesso de viaturas para baixo do tapete, como as más empregadas de limpeza que temos sido, não corremos o risco de saturar o espaço?

Quantos mais cabem neste espaço?
Sim, lavoisiers, tudo se transforma e tudo se expande.
Como o lixo, nas cidades invisíveis que, invisível mas realmente, se expandem.

Como o lixo.
E o lixo que vamos escondendo, sabemos, apodrece.
Em cima estamos nós.

domingo, dezembro 20, 2009

Hasta aquí hemos llegado!

Terminou sem qualquer acordo a 23ª conferência das nações.
Reunida com o objectivo de discutir um limite para o número de vítimas de atentados causados pela concorrência empresarial, sobre a mesa estava uma proposta das organizações não governamentais para reduzir, até 2010, o número global de vítimas em 20%, menos um milhão do que as actualmente verificadas.
A União dos Estados Avançados, responsável por mais de 50% dos números existentes, considerou a proposta irrealista, com consequências catastróficas para a economia da união e economia mundial. No que apelidou um gesto de boa vontade, a U.E.A. propôs um compasso de espera para a reconversão da indústria, através da manutenção do actual número de vítimas até 2010. A Comunidade de Estados concorda em reduzir o número de vítimas mas defende uma calendarização diferente: propõe menos 5% até 2001, 10% até 2010 e 20% até 2015. O escalonamento é justificado com os custos de adapatação que a redução implica.
Por sua vez, a Federação dos Estados do Sul, defensora da redução global proposta, reivindica um aumento de 40% da sua quota de vítimas, de forma a atingir o nível da União dos Estados Avançados. Face ao impasse das negociações foi marcada nova conferência das nações para 2001. Até lá, estima-se que o número de vítimas ultrapasse os seis milhões por ano.

Conferência das Nações, in
"Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável", por Mão Morta, 1997



Ah, já agora, essoutra muito na berra.

Pensam que subscrever uma catrefada de papéis vai resolver os problemas.
Por coisas, primeiro como esta e depois como esta, que se inscrevem no normal, mas ultrapassado (que queremos ultrapassar...), modelo de crescimento das empresas, não daremos passos reais.

Pensam que assinar um protocolo (mais um...), sem mudar o modelo económico que temos tido, vai resolver os problemas.

"
Esta m**** não anda, pá, porque a gente não quer qu'esta m**** ande. Tenho dito!"

Porque, no fundo, o que está em causa é invertermos e mudarmos o sistema de desenvolvimento que nos trouxe até aqui. Até esta catrefada de problemas ambientais e sociais.
Até esta crise, para alguns mascarada, para outros gritantemente urgente e sem tempo a perder.
Que nos trouxe até estas cimeiras perfeitamente escusadas.
Até estas cimeiras feitas pelos
representantes dos que nos trouxeram até aqui.

sábado, dezembro 19, 2009

Olha!, Não me apetece gritar, mas...

King Crimson - In the Court of the Crimson King
1969

Se há discos revolucionários na história do rock este é um deles.

Cabe recordar as últimas linhas da primeira faixa, verdadeira pedrada no charco do rock.
Então como hoje.

Então como hoje, 21st Century Schizoid Man
(até tem entrada na Wikipédia e tudo...):


Death seed blind man's greed
Poets' starving children bleed
Nothing he's got he really needs
Twenty first century schizoid man.


sexta-feira, dezembro 18, 2009

0,07% - O colapso da economia

"Vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e polícias e generais prò raio que vos parta!"


Venham lá com os não sei quantos manifestantes na rua presos e agredidos (Génova reeditado) e com a descrença e o preço cada vez maior que temos de pagar pela desconcertação ambiental e política de uns quantos senhores manietados por tiranos e que nem precisam de pôr os seus suaves pézinhos nessas terras frias de Copenhaga (mandam emissários, claro está).

É que, dentro de portas, outros valores mais altos se alevantam.

As coisas começam a acontecer.
As coisas começam a acontecer quando as coisas se atropelam e deixamos de dar resposta.

É que, dentro de portas, outros valores mais altos se alevantam.

O colapso da economia portuguesa.
O colapso da economia baseia-se na propaganda dos tiranos, chamem-se eles patrões ou FMI.

Digam lá, se são coisas que se defendam?
Os tiranos, se calhar, somos nós.

:

"Há 3 anos o Conselho de Concertação Social aprovou, com o acordo do Patronato, que o Salário Mínimo Nacional deveria evoluir todos os anos de forma a atingir os 500 euros em 2011 e é nessa perspectiva que o Governo, este ano, colocou de um aumento de mais 25 euros.

O SMN hoje, no nosso país, vale, em termos reais, menos 15% que o Salário Mínimo estabelecido em 1974. Aliás, na linha do que tem vindo a verificar-se com a massa salarial total. Hoje o peso da massa salarial total é inferior ao peso que tinha em 1973 (...)

O argumento de que as empresas não podem suportar o aumento de 25 é falso:
De facto, para o conjunto das empresas que vivem à custa do salário mínimo, os estudos oficiais mostram que esse aumento significaria que os custos totais aumentariam uns irrisórios 0,07%.

Se uma empresa não pode suportar o aumento de custos de 0,07%, essa empresa não tem razão para existir, é uma ficção, não está cá a fazer nada."


Ouvir o podcast completo.
(Antena1, programa Conselho Superior de 17-12-2009)

Digam lá
-
(é óbvio que isto é política! Como é que podia não ser?? É claro que o Georden é um blogue político! A defesa de valores é sempre um acto político.)
-

... será realmente suportável que isto continue assim?
Porque é que vemos tanto desequilíbrio nas remunerações e nas posses?
Porquê esta perda do poder real de compra da maioria dos portugueses?

Achais mesmo que esta recusa é defensável, seus tiranos?
Achais mesmo que isto vai continuar suportável?
Por quanto tempo?

Definitivamente, não, não é sustentável.


"Tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas dez horas"
(FMI, JMB)

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Vamos todos oferecer um títere.

Cada vez mais as pessoas compram presentes para pessoas que conhecem cada vez menos.
Não seria uma excelente prenda conhecer melhor essa pessoa a quem vamos dar um objecto?

Como é isto possível?

Conta-se que quando os Beatles apareceram no famoso Ed Sullivan Show a América quase parou em frente à televisão. Conta-se que o número de crimes baixou consideravelmente.

Cito de cor, sem poder já mencionar de onde, um estudo que diz ter o consumo descido também considerável, ou pelo menos notoriamente, quando, por um breve tempo (já não sei o motivo) as pessoas se viram privadas de publicidade.

É esta musiquinha, esta rodinha sempre a girar que possibilita actos a que diríamos "não", "não vale a pena".

Não vale a pena lutar contra a irracionalidade.
Não?

Até este dia - quanto desprezo por parte dessas mesmas pessoas!... - toneladas e toneladas de foram já compradas. E falo apenas do lixo que, uma vez aberta a pretensa prenda, irá parar ao mini-caixotinho. Depois para o contentor. Depois para o camião do lixo. Depois para uma lixeira. Quando muito, para um aterro, depois de - com sorte, organização e sentido democrático, ter sido triado.
Reciclado, desfeito, os fins, em percentagem, são desiguais, daí a crise e a insustentabilidade: é mais o lixo criado que o aproveitado. Pelo que este ciclo não se pode manter indefinidamente.

Quanto desprezo no acto de uma compra...
Quanto desprezo por essas pessoas que nem conhecemos.
Quanto desprezo pelo lixo...
Se lhe déssemos mais valor, talvez pensássemos mais nele.

E nas pessoas.
Que por esta data, em massa, se oferecem.
Títeres e cada vez menos pessoas.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

As cidades são de quem, afinal?

Já o tínhamos perguntado aqui.

E enquanto vemos atropelos (Em nome de quem? Em nome de quê? Algo de longínquo, que nunca perceberemos e que sempre se sobrepõe), a pergunta prossegue na sua solidão.

Perante a nossa perda de poder de compra e de poder puro e simples.
Perante nós, enquanto cidadãos, cujos direitos levaram litros e litros de sangue derramado para serem conquistados.

Nós, anjos de pureza, cujos únicos haveres que trazemos são os que levamos nos sacos das compras.

Haveres perecíveis, desprezíveis, descartáveis, recicláveis e substituíveis por outro lixo qualquer.


terça-feira, dezembro 15, 2009

That's the question. Answer: both (17 de Dezembro, em Serralves)

Rumo a Aveiro

Mais um pólo atractivo para quem quer seguir Medicina

Protocolo assinado hoje para a criação do novo curso de Medicina na Universidade de Aveiro.

Ler mais em CiênciaHoje.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Entrevista interessante

Entrevista esclarecedora dada pelo meteorologista Luiz Carlos Molion, da Universidade Federal de Alagoas, ao portal UOL:

UOL: O que a convenção de Copenhague poderia discutir de útil para o meio ambiente?

Os livros vão morrer - 43 anos depois

A propósito das nossas recentes homenagens ao escritor Artur Portela (filho), mediante a publicação de dois textos sobre livros (A Ameaça dos Livros e Os Livros Vão Morrer), tivemos o privilégio de ser contactados pelo próprio.
Que nos pediu para acrescentar, sobre o último destes textos, o seguinte comentário:


Grato pela reprodução deste velho texto.
Que não rasgo.
Mas com o qual, hoje, só me identifico parcialmente.
Na parte em que é desejável a abertura do livro a formas novas de comunicação.
Mas o livro, o escritor e o editor estão aí cheios de força.
E assumindo ou usando cada vez mais essas novas formas de comunicação.
Ainda bem que é assim.

Saudações.

Artur Portela


Em nome da Georden, o nosso muito obrigado pela lucidez dos seus textos e da sua intervenção na sociedade portuguesa dos últimos 50 anos.


Saber mais sobre o escritor:
http://www.arturportela.com

domingo, dezembro 13, 2009

Os Livros Vão Morrer

Setembro de 1966

Todos os autores de ficção científica condenam, no futuro, o livro.
Desde a gravação à leitura telepática - são diversos os processos de superação previstos. Esta coincidência na condenação do livro, ele próprio - cadernos de papel impressos e cosidos - é, desde logo, impressionante. Júlio Verne, esse, acertava sempre. Nem é necessária muita imaginação para compreender que o livro, tal como é, neste momento, não terá um século de vida. Porque há uma desconexão entre a sua estrutura física e o progresso técnico geral. Porque há uma dilatação e uma ofensiva eficaz por parte de outros meios de comunicação - o cinema, a televisão.

A morte do livro não será, naturalmente, a morte do escritor. Melhor, do criador que há nele. Ele será, ainda o autor da gravação, o narrador telepático. Mas, ainda que assim seja, a morte do livro deve ser encarada, não somente do ponto de vista técnico, industrial, comercial, editorial, mas também do ponto de vista criativo.

Por este aniquilamento são e não são responsáveis os escritores. São responsáveis pela rapidez da morte do livro - porque não souberam ampliar, nem sequer manter, o interesse dos leitores. Se é verdade que esse interesse foi captado por outras solicitações, suportado por meios económicos extremamente poderosos, se é verdade que a liberdade do livro está, em algumas áreas, condicionada - também é verdade que o escritor não soube adaptar-se, em clareza, em velocidade, em maleabilidade, às novas condições.

O livro tem os dias contados. Já não se trata de fazer subsistir o livro, mas de estabelecer, através dele, uma ponte, uma preparação, um treino, para outras formas de comunicação e divulgação cultural. O escritor, antes de o ser, é fautor de cultura. Ver-se-á, depois, a diferença entre os literatos e os homens cultos. O livro, com um passado tão ilustre, e, ao que parece, com um futuro tão precário, será, se insistirem nele, elemento anti-cultural. E se o escritor não o admitir e não se preparar a tempo, começando a alterar o livro na sua estrutura física, na sua linguagem, estabelecendo a ponte, a sobrevivência da cultura será muito mais penosa.

Os jornais, as revistas, as foto-novelas, os "comics", na sua dilatação e na sua eficácia, apontam um caminho. Esse caminho está já a ser trilhado pela pedagogia mais progressiva: os livros de ensino são, cada vez mais, colecções de imagens legendadas, os cursos são, cada vez mais, a análise de filmes, a audição de discos.

Desde logo, e isto seguramente, a imagem vai invadir o livro. Por exemplo, o romance poderá converter-se em foto-novela. Aliás, para as camadas de público cada vez mais largas, já se converteu. A baixa qualidade geral das foto-novelas actuais não nega a potencialidade do género, assim como a baixa qualidade dos romances não nega a ficção.

Naturalmente, o livro vai resistir mais tempo nas estruturas sócio-económicas regressivas. Isto será assim, embora o livro, fautor de progresso, inteligência, cultura, tenha, nessas estruturas regressivas, provado, mais do que em quaisquer outras, a sua ineficácia. Para tornar activa e funcional a sua inteligência, o livro deveria realizar, precisamente nessas estruturas regressivas, um supremo esforço de superação.

De maneira que, segundo parece, por exigência do futuro, e por necessidade do próprio presente, o livro tem de enxertar, em si, o futuro.

A morte do livro não é a morte da inteligância. Em "Farenheit", Bradbury identifica o livro com cultura. Mas se o fundamental é preservar, e dilatar, essa inteligência, essa cultura, e se o livro se revela ineficaz, há que substituí-lo. A televisão ou os "comics" não são, em si, regressivos. Eles devem ser considerados, e usados, como meios de comunicação e tanto mais valiosos quanto mais servirem a cultura. Se o fazem, de uma forma mais funda, mais estética, mais eficaz - têm direito à sobrevivência, ao nosso apoio. E, assim, o livro não merecerá a nossa saudade.

O livro não vai ser eliminado amanhã. A evolução será acidentada. O livro ilustrado, a foto-novela, o livro com gravações, o livro com slides, o livro com filmes, e, daí, a passagem ao cinema e à televisão a cores, em relevo, até à palavra visível - serão, possivelmente, algumas das etapas.

Para já, e para cá, seria necessário que os escritores tomassem consciência de quanto estão a ser inúteis, na generalidade, e que os editores tivessem conhecimento de que a mediocridade da sua indústria e do seu comércio se deve, na generalidade, à sua incompetência e à sua absoluta falta de visão.


Artur Portela (filho)
in "A Funda - 1º Volume"
Moraes Editores, 1ª edição, 1972, Lisboa, pp.211-213

quarta-feira, dezembro 09, 2009

"A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém"

"Não é isto verdade?
Há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular"


Uma estrada com o alcatrão abatido;
uma estrada com uma tampa de saneamento partida;
um animal morto no meio de uma estrada;
ou
um bloco de cimento no meio da estrada;
ou
um triângulo esquecido após o encosto da viatura e após o reboque da mesma.


Coloca-se a pergunta:

Todos usamos a estrada, mas quem se sente responsável por ela?


Do alcatrão abatido e da tampa de saneamento partida dizemos:
- Nunca mais resolvem isto! Isto é um perigo. Pode causar acidentes...
e giramos o volante para não meter lá a roda.


Do animal morto pensamos
- Não é meu. Não vou agora conspurcar-me. Até poderia apanhar doenças...
e
... até pode provocar acidentes
ou
pode causar umas boas amaçadelas nos carros..."


Do bloco de cimento dizemos:
- As autoridades têm de intervir: eu não posso com este bloco...
e
até posso ser atropelado.
E abrandando e fazendo sinais de perigo giramos o volante.


Do triângulo esquecido poderemos dizer
- Olha, esqueceram-se do triângulo. Pudera, naquele sítio seria um suicídio ir recolhê-lo.
E lá continua ele.


Era a JAE, agora a IEP (aquela que tem um gestor que saiu de uma empresa de comunicação do Estado.... gerir um organismo que se ocupa de estradas é obviamente igual a gerir sacos de batatas...)
que trata disso, que nos representa e nos salvaguarda a segurança (fora a que nos incumbe, enquanto automobilistas)... mas... em que medida cada um de nós contribui para estes institutos?

Em que medida é que os sentimos nossos?

São privados? porque defendem os nossos interesses.
Mas, são públicos? porque, da mesma forma, defendem os nossos interesses (a segurança das estradas).

Serão as estradas públicas?
Privadas?
Não se sabe?

O inquérito continua aberto a votos.
Participem!

terça-feira, dezembro 08, 2009

Ide plantar eucaliptais "para o raio que vos parta!"

É também disto que estamos a falar quando falamos em alterações climáticas.

As alterações climáticas - e referimo-nos, não importa qual o grau, nem entramos em querelas sobre como prová-las, às alterações que derivam de acção antrópica - são um somatório, um fim na cadeia, um impacto. Ou seja, são um resultado.

A alteração do que se passa na atmosfera (que, sim, sabemos, não é um sistema fechado) está (no entanto) intimamente relacionada com o que se passa aqui em baixo. E o ordenamento do território e, em suma, os usos que fazemos do território para elas contribuem, de uma forma ou de outra.

As respostas, as causas, estão cá em baixo, aqui, ao nosso lado.

Ao mesmo tempo que andamos a "pregar aos peixinhos" e a advertir para o que estamos a causar, no mesmo jornal, mas em páginas diferentes, lemos esta noticiazinha. Mas que a cimeira de Copenhaga isto, e mais aquilo...

BLÁ
BLÁ
BLÁ...


Que autoridade temos nós, ou - lá está! - uma empresa, para irmos alterar o uso de não sei quantos hectares numa terra? Ainda por cima nem é nossa... As traseiras da aldeia global, para onde estamos a exportar os erros que tão sabiamente cometemos dentro de portas...

Moçambique tem eucaliptos como espécie autóctone?
(se alguém souber que nos informe, por favor)


Não vale a pena querermos a dar um passo em frente se continuam a dizer-nos para, antes, darmos dois atrás.

(Semelhante - e isto nem devia estar entre parêntesis! - a isso é a construção de mais e mais grandes barragens, para, dizem - e dizem muito bem - produção de energia eléctrica.

Mas - ainda não percebemos? - querer fugir aos combustíveis fósseis e matar a biodiversidade que se perde com as albufeiras é:

dar dois passos atrás nas traseiras da nossa cabecinha.

Para depois virem enfiar-nos pelos olhos, com grande alarido, o passo que demos em frente...
Ahah!, que bons que eles são, os justos, os amigos do ambiente...)

Não vale a pena estarmos com fingimentos.
As decisões têm de ser tomadas.

E temos de ser nós, informados.
Uma Democracia de participantes que não estejam nem informados nem conscientes não é uma Democracia que se recomende.

Talvez os pequenos salazares que abundam aí nas nossas praças estejam a gostar da óptima saúde desta, recomendando até melhorias.
Sabemos bem que melhorias...

O jogo da destruição do mundo está intimamente com o joguinho do consumo.
E nós não podemos continuar a ser só espectadores.
Lembremo-nos: nós é que somos os jogadores, os consumidores.

Estamos fartos de hipocrisias e de jogo escondido, de actores maldosos que vão fazer asneiras para onde não possamos alcançá-los - "That's what globalization is all about".


É esta a lição que nos abstemos de aprender?
Está mais que na hora...
Estamos a perder há muito.

PIM!

segunda-feira, dezembro 07, 2009

"A Invenção da Paisagem", de Anne Cauquelin


Título: A Invenção da Paisagem
Autora: Anne Cauquelin
Edição: Lisboa, Maio de 2008 (2ª ed.)
Colecção: Arte & Comunicação, n.93
Editora: Edições 70
ISBN: 978-972-44-1404-1
Paginação: 147 páginas

"Aquilo que é dado a ver, a paisagem pintada, é a concretização do elo entre os diferentes elementos e valores de uma cultura, ligação essa que oferece uma disposição, uma ordenação e, por fim, uma "ordem" para a percepção do mundo." (p.12)

Na ilusão da transparência é a suposta identificação do representado com o objecto da representação que é capaz de nos satisfazer. Como quando vemos uma fotografia de um espaço natural amplo:

"A referida natureza compunha-se à nossa frente numa série de quadros, imagens artificiais, colocadas diante da confusão das coisas, organizava a matéria diversa e mutável de acordo com uma lei implícita, e quando pensávamos deleitar-nos na verdade do mundo tal como ele se nos apresentava, apenas reproduzíamos esquemas mentais, plenos de uma evidência longínqua, e de milhares de projecções anteriores (...) A natureza dava-se apenas através de um projecto de quadro, e nós desenhávamos o visível com o auxílio de formas e de cores retiradas do nosso arsenal cultural."
(p.20)

Há uma assunção que importa analisar, que não é de todo inata, e que nos força a vermos as coisas como as vemos e, em última instância, a identificarmos a paisagem com a própria natureza. É sobre essa desconstrução que Anne Cauquelin disserta neste pequeno mas interessante livro, originalmente publicado há 20 anos.




Ficou famosa esta obra de Magritte. Isto não é um cachimbo: isto é uma representação de um cachimbo. Relativamente à paisagem, a invenção da perspectiva, no século XV, mudou desde então a nossa visão do mundo:

"De facto, parece um pouco surpreendente que uma simples técnica - é certo que foi durante muito tempo aperfeiçoada - possa transformar a visão global que temos das coisas." (p.29)
"De Grécia a Roma, de Roma a Bizâncio, de Bizâncio à Renascença, foram produzidas certas formas que regem a percepção, orientam as avaliações, instauram práticas. Estes perfis perspectivistas passam de um para o outro, desenhando "mundos" que, para aqueles que os habitam, têm a evidência de um dado." (p.32)

Sendo uma construção, a paisagem é uma expressão da Retórica. E é sobre essa relação indesligável do mundo com a sua representação conceptual, e as linguagens que no-la permitem, que Cauquelin nos faz recorrentemente voltar.
Seguem-se algumas sugestivas passagens, soltas, com um fio condutor que não se vê, mas que está lá:

"Mesmo que saibamos que o sol não se põe, dizemos pôr-se, e não nos poderíamos afastar daquilo que a linguagem afirma com a exactidão do sentimento." (p.32)

"Pela janela pintada sobre a tela ilusionista vemos aquilo que se deve ver - a natureza das coisas mostradas na sua ligação. Então, aquilo que vemos não são as coisas, isoladas, mas a ligação entre elas, ou seja, uma paisagem." (p.64)

"A forma de dispor as coisas, o elo que as une, depende então de uma retórica. O que existe de «natural» na Natureza, a sua sensualidade imediata, só é entendido enquanto enigma pelo artifício de uma construção mental." (p.65)

"A perspectiva preenche, com efeito, a condição que exige a Retórica. (...) A perspectiva configura a realidade e faz dela uma imagem que tomaremos como real. (...) acreditamos firmemente percepcionar de acordo com a natureza aquilo que configuramos por um «hábito perceptual», implicitamente. A própria dificuldade em tomar consciência desta «evidência» implícita que é a percepção em perspectiva mostra bem a profundidade da nossa cegueira - não podemos ver o órgão que nos serve para ver, nem o filtro nem a cortina através da qual e com a qual nós vemos. E, do mesmo modo que não podemos colocar-nos fora da linguagem para falar dela, não conseguiríamos pôr-nos fora da perspectiva para percepcionar... mácula obstinada do olho, da linguagem, macula." (p.84)

"Todos, quem quer que sejamos, usamos utensílios que mal conhecemos. Nós «fazemos» paisagem. Somos retóricos sem o saber." (p.95).

"(...) entre estas figuras da artificialidade, existem aquelas que são mais fundamentais do que outras e detêm o segredo.
Trata-se de duas operações, indispensáveis ao acesso a uma paisagem:
- o enquadramento, em primeiro lugar, pelo qual nós subtraímos ao olhar uma parte da visão. (...) (Pensem no que fazem quando tiram uma fotografia; ao excluir cuidadosamente esse poste do primeiro plano, ao procurar o ponto de vista...).
- um jogo de transporte (...) (p.99)


"O jardim edénico atravessou séculos pela mão dos poetas." (p.114)

"Um local é sempre um local «dito»." (p.39)

"Esta figura da reminiscência, na medida em que articula as nossas percepções na recordação de hábitos que nós não conhecemos, nem temos consciência, gera a nossa relação com os modelos culturais; aqui está exactamente um transporte, e já uma estilística." (p.116)


Boas leituras geográficas.

Nota: Envie a sua sugestão de leitura para georden@gmail.com que posteriormente publicaremos neste mesmo espaço.

domingo, dezembro 06, 2009

A Ameaça dos Livros

Setembro de 1966

Porquê ler este livro e não outro?
Porquê ler Namora e não Pratolini? Porquê ler Cesariny e não Breton? Porquê ler Margarido e não Robbe-Grillet?

A solução parece fácil. É lê-los a todos. E, depois, recusá-los ou aceitá-los. Só que - há muitos livros e pouco tempo para os ler.
E se ler é essencial, se ler os livros-chave é indispensável - a escolha pode ser, muitas vezes é, dramática.

O livro é elemento-base da cultura. A cultura estrutura e dinamiza o indivíduo. Logo, a escolha de um livro, de um autor, pode estabelecer a trajectória desse indivíduo, marcar-lhe o carácter, pautar-lhe o comportamento. Somos, também, os livros que lemos.

O livro que se lê é aquilo que é e, também, a recusa de outro livro. Lemos este e não aquele livro. Não aquele. A leitura de Faulkner pode eliminar a possibilidade da leitura de Steinbeck. Possivelmente, lê-se Durrell e não se lê Cholokov. Por se ler Thomas Mann não se lê Régio. E quem leu, ou viu, Beckett, não leu, nem viu, Santareno. Ou vice-versa. Porque não pôde. Porque não quis.

Ler este livro é recusar aquele livro. Aceita-se este livro e recusa-se aquele livro. Provisoriamente. Às vezes, definitivamente. Aceita-se este livro, considera-se este livro. Porque, se ler um livro não representa adesão à sua estética, à sua ética, à sua filosofia - é, ao menos, promoção desse livro, desse título, desse autor, inserção desse livro no nosso tempo, na área da nossa atenção, no âmbito da nossa crítica.

Ler, com certeza, sempre - mas ler com uma exigência cada vez maior. Ter respeito pelo livro, só porque é livro, é pura ingenuidade. Há muito mais livros maus que livros bons. É necessário ao livro, ele próprio, ter um prestígio fabuloso para suportar a mediocridade da maioria dos escritores. A generosidade e a complacência do leitor que lê tudo quanto lhe cai, composto e brochado, debaixo dos olhos, são verdadeiramente suicidas. A cultura de um indivíduo mede-se, também, pela lista dos livros que se recusou a ler.

A dificuldade da escolha não se resolve, é claro, na leitura da badana. Nem na leitura da coluna de crítica. A badana é publicitária - logo, profissionalmente entusiasta. A coluna de crítica é impressionista - logo, profissionalmente inepta.

Acrescenta-se que a edição está organizada para nos provar, a nós, ao mercado, a alta qualidade de todo e qualquer livro. É um complot. Um complot destinado a vender-nos os livros - todos. Os que queremos e os que não queremos. Daí a necessidade da resistência. Resistência feita de critério, de lucidez.

É urgente especializar a leitura. Se não temos, sequer, tempo para ler os livros-base - não faz sentido a curiosidade e a tolerância. Temos tudo a perder. Escrever um livro, ocupar trezentas páginas de corpo sete, é, talvez, um trabalho esgotante. Mas esse esforço pode não merecer o nosso interesse. Ponson du Terrail, por exemplo, deve ter passado anos a produzir o seu Rocambole. O escritor é raro. Isso, porém, não chega. Se há muito mais leitores que escritores, também há muito mais escritores maus do que escritores bons. A condição do escritor não é, por si só, imunidade. Não é o acto de escrever mas o acto de produzir qualidade que privilegia.

Um bom leitor é, sempre, melhor que um mau escritor. E a verdade é que, enquanto aumenta o número de bons leitores - está a aumentar o número de maus escritores.

Ler é uma actividade criativa. Há livros que, lidos, são melhores do que são - escritos. De qualquer maneira, são sempre diferentes, são outros. Fechado, o livro não é - completamente. É, potencialmente. É, em suspenso. A leitura dinamiza-o. O leitor põe o livro a funcionar. A responsabilidade do leitor é enorme. Pode acontecer que "Guerra e Paz" seja, lida por este leitor, um mau livro. Há bons livros que, lidos nos momentos errados, são péssimos. Se ler um livro é, também, escrevê-lo, o livro que se lê, como se lê, pertence-nos, e os livros que se lêem, como se lêem, são - a nossa obra. Assim, também, assume-se a responsabilidade pelo livro que se lê.

Como o escritor, o leitor projecta-se, define-se nas leituras que faz. É-se a leitura que se faz, da maneira como se faz. Ler um mau livro é, em parte, sê-lo. Ler ou não ler este ou aquele livro é extremamente importante. O escritor é responsável pelo livro - e o leitor também. Daí a gravidade da aceitação e da recusa. É dizer não. É dizer não, quase sempre. E, às vezes, sim. Submeter o livro é exigência da qualidade, da necessidade, da modernidade. Só podemos ler os livros de que temos necessidade absoluta. É ler, primeiro, já, Kafka, Joyce, Faulkner, Henry Miller, Durrell, Genet. Quanto tempo demora ler Faulkner? Um tempo confortavelmente longo.

Os livros bons são a nossa muralha contra os livros maus. Esses estão a cercar-nos. Estão a ameaçar-nos. Estão a destruir a própria cultura.


Artur Portela (filho)
in "A Funda - 1º Volume"
Moraes Editores, 1ª edição, 1972, Lisboa, pp.205-207

XVII Jornadas Pedagógicas de Educação Ambiental

A ASPEA - Associação Portuguesa de Educação Ambiental, está a organizar as XVII Jornadas Pedagógicas de Educação Ambiental que decorrerão de 28 a 31 de Janeiro de 2010 em Ponta Delgada, Açores.

Tendo por tema geral "Alterações Climáticas - Aprender para Agir", as Jornadas incluirão a apresentação de comunicações técnicas, a realização de oficinas e grupos de trabalho, de visitas de estudo, e de jogos cooperativos e ambientais.
São destinatários deste evento Educadores/Professores de todas as áreas e níveis de ensino, Técnicos de Educação Ambiental, NGO, Autarquias, Estudantes, representantes de Empresas.

Os principais objectivos das Jornadas são os seguintes:
- Alargar o conhecimento sobre questões sócio-ambientais actuais.
- Promover a divulgação de estudos e investigações sobre os novos desenvolvimentos da Educação Ambiental.
- Realçar o papel das instituições, empresas, NGO e a sociedade civil nas preocupações ambientais actuais.
- Participar na formação de educadores em Educação Ambiental.
- Promover experiências de aprendizagem activa em temas transversais.
- Reflectir sobre as implicações das Alterações Climáticas na Biodiversidade

Os interessados neste importante encontro nacional de Educação Ambiental poderão aceder ao seu programa, a informação adicional e à respectiva ficha de inscrição através do site da ASPEA http://www.aspea.org .

Cordialmente
Rui Borralho


Rui Borralho
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Portugal
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sexta-feira, dezembro 04, 2009

Crónica rente à estrada

Dizem que a chuva quando cai é para todos.
Só que.
Dizem que o sol quando nasce é para todos.
Só que.

(Artur Portela (filho), falta-me o teu engenho, mas a forma destas quatro frases é uma homenagem que aqui te presto).

Onde é que existe realmente Democracia?
Ou seja, um sistema onde todos sejam tratados por igual?

Vem isto a propósito das desigualdades que, mesmo na estrada, se verificam.
É que há regras para se andar na estrada e conviver com os seus utilizadores.
Para o fim último do código da estrada que é, no fundo, a fluidez de trânsito.

Mas também nas estradas, mesmo com regras a serem cumpridas, existem desigualdades de base. Porque uns, pela desigualdade económica, podem poluir mais e ter os seus pópós a arranhar o asfalto com a sua borracha vulcanizada. De modo que uns chegam primeiro que outros ao destino.

Sim, e depois?

Nada.
Era só uma contestação.
E uma constatação.


Mas afinal, quantos lugares onde jogávamos à bola quando éramos pequenos se perderam nesta terra?

"A estrada é nossa!"

- teríamos dito nós, armados já de liberdade precoce e ingénua.
E diríamos também, apequenando-nos imediatamente a seguir:

"Rua daqui!"

A vulgarização do automóvel (a vulgarização é como o lixo: acompanha-a a desvalorização) por publicidades, impingimentos societais e pretensos modos de vida modernos (claro que são modernos, mas, a questão é, até quando ainda fará sentido falar em moderno? Não temos já anos suficientes de modernidade para que o termo tenha perdido o sentido?) veio roubar-nos os pés descalços que pisavam a areia ou um asfalto manhoso que dava para a encomenda de então.

Se queres lá pôr o pézinho, fá-lo rápido, e de preferência, na perpendicular (a recta que te exigem). Por uma passadeira, se possível. Que fora dela o infractor és sempre tu.
Pois já se avizinham os velozes carros que sempre chegam primeiro ao destino. Com esses, o susto do perigo nos estuga o passo. Dos outros, que como as velhas Famel parecem fazer um ruído desproporcional ao andamento, até podemos troçar, como quem vai de muletas, para impaciência do automobilista, parado à nossa frente, de motor ligado e em suspenso.

(Acabo de ver na TVI que os carros eléctricos estarão, em Portugal, e se bem o entendi, isentos de imposto automóvel. E que a frota do Estado terá, até 2012, 20% de veículos assim movidos. E que o Estado vai financiar os primeiros 5 mil veículos, ou todos os veículos vendidos até ao fim de 2012. Isto, mais a poupança no combustível, mais o dinheiro ganho no abate do veículo antigo.... humm... não é estímulo suficiente? A generalização de painéis solares também teve que ter um início...).

Quando dormíamos,
no horário da merenda,
ou quando estávamos na escola,
ou quando íamos passear,
ou tomar banho no rio,
...
os carros podiam passar à vontade.
Fossem eles carros de bois ou carros motorizados.


Agora as estradas são só dos "corpos" com capacidade de atropelar e provocar acidentes que às vezes são mortais.
Como numa questão de décadas se alterou o uso da estrada.
Como numa questão de décadas mudaram os seus frequentadores.

(Quando o uso é mais "local" as estradas ainda não têm o estatuto "internacional": correm o risco de se manterem na "classe inferior" que é dada pela designação "Rua".*
Tal como o cartaz da foto de Outubro no-lo indica.
Pior que isso só ruela, cangosta, carreiro.
Às A-E's, IPs, Circulares, internas e externas, ninguém lhes chega.

Outra forma de despromoção, ou de desfavorecimento, é o piso: alcatrão, macadame, areia, terra batida, empedrado ou "paralelipípedado", quando não, como em muitas das grandes cicatrizes da Amazónia, estradas de lama... a água mal distribuída e fora da vegetação que vamos rarefazendo...)









Sabugal - Eduardo F. 25.04.2008

Como dantes usávamos ruas como hoje alguns rios que atravessam cidades: como escoadouros das nossas águas mal-sãs, vulgo esgotos.
Como hoje eles vão tapados e os pézinhos "embotados" podem voltar limpos para casa.
(É tão grande a solidão de um asfalto, que tão mal conhece a pele de uma gata borralheira...)

...
Como numa questão décadas desta tão temporã industrializo-europeização esses utentes, em número crescente, fizeram multiplicar a cobertura negra e suja (e pensar que há sabonetes de petróleo... Uma poça de água da chuva estagnada numa estrada mal nivelada tem água envenenada. Que depois vai pelo escoadouro. Sem separação necessária, sem discernimento, misturar-se com todas as outras águas, sãs ou menos sãs.) neste país.
Nesta Terra.

Nesta terra impermeabilizada e à sede.
Nesta terra a afogar-se lentamente e em água imprópria.
(água a mais mata na mesma...)

(E de quem é esta terra? De quem é a cidade? Há dias pensei que a cidade voltará, paradoxalmente, a ser nossa quando deixarmos de viver nela. Não tenho explicação para este pensamento. Nem ma peçam. O que me parece é que a cidade tem sido muito pouco de quem nela habita.)

Assim sendo, com mais este trilho aberto, continuamos a fazer-nos a pergunta:

De quem são estradas?
São públicas?
São privadas?
Não sabemos?


(Para "des-sabermos menos" participem no inquérito ali ao lado esquerdo.
Comentários, aqui ou ali, são ainda mais bem-vindos.)


*Sobre estas questões de rua um dia voltaremos cá para vos trazer um livrito.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Comunidades para sustentar... a sustentabilidade

É um bocado longo, este vídeo. Mas nele se põe a tónica na criação de comunidades locais que se libertem do jugo da insustentabilidade e dessa força que (a fase de transição de que fala Rob Hopkins) é o paradigma de um modelo que teremos de ultrapassar.

Ideias em movimento.
Se alguma autoridade incompetente vier ameaçar-nos de que não, que o que queremos é proibido, que vai contra a lei (que vai contra a lei, sabemo-lo bem, que é precisamente isso que queremos mudar) e tal, aí perceberemos de vez quão livres somos e nos perguntaremos, afinal, o que é que andamos aqui a fazer.
Qual é o fim do Homem;
que caminho queremos percorrer;
quais os valores por que vale a pena lutar;
etc. etc.

Na base de todas estas questões, impreterivelmente, as pessoas, que - só elas - são o garante da sustentabilidade.



Curso Integrado de QGIS/GRASS - Software SIG Open Source

A Faunalia.pt está a organizar uma nova edição do curso integrado de QGIS/GRASS - software SIG Open Source, desta vez com o apoio da Associação Leonel Trindade - Sociedade de História Natural.

A acção de formação terá lugar nos dias 19, 20, 26 e 27 de Fevereiro (28 horas) nas instalações da ALT - Sociedade de História Natural, em Torres Vedras.

O curso permite aprender o funcionamento de base de dois software, de forma a unir as potencialidades avançadas de GRASS à estabilidade e simplicidade do uso do Quantum GIS.
Pretende-se que no final do curso o formando tenha aprendido a mover-se com agilidade dentro do ambiente de trabalho do QGIS e a efectuar análises de modo simples e intuitivo.

Esta formação destina-se a quem pretende ganhar competências de utilização de SIG, tendo como pré-requisito ter noções básicas relativas aos Sistemas Informativos Territoriais.

Clica para aumentar
Outras informações podem ser encontradas na brochura da actividade. Consulte também o programa detalhado do curso.

As inscrições deverão ser feitas através da seguinte ficha de inscrição

Para mais informações contacte:

FAUNALIA, LDA
Telfs. 266 429 139 / 93 932 01 04 / 96 705 82 16

Consulte o calendário de formações em http://www.faunalia.pt/formacao