domingo, dezembro 26, 2010

Geografias do divórcio

(Imagem retirada daqui)

Se o amor entre as pessoas é uma relação, o divórcio não deixa de ser também uma relação.
A relação que, por isolamento, alienação ou pela diferença, uma pessoa mantém com o que está à volta do seu corpo.

A diferença pode ser sinónimo de aproximação ou então de afastamento: quando as diferenças são tais que a comunicação se vê dificultada ou mesmo impossibilitada.
A alienação não estará tanto, como sugere a palavra, no "para além de", mas talvez mais no "aquém de".
Na incompreensão e / ou não aprendizagem de que o ser singular o é pelo plural.
Que um ponto no mapa precisa de outros pontos para fazer o mapa, para se fazer ponto e para se fazer ponto no mapa.

Um miúdo a brincar com o seu mini e novo brinquedo-lixo (ou lixo-brinquedo) do ovo "quinder" num chão lajeado de um centro comercial é um exemplo de divórcio. Divórcio entre a prática e o espaço apto para a prática. Entre a necessidade do ludismo e da brincadeira (normais não só na infância) e a possibilidade de a satisfazer, é-nos oferecido, cada vez mais, um espaço impróprio. Com ruído, cores apenas da sobrestimulação do consumo (não da natureza), e centenas de pessoas transformadas em lixo e máquinas, que, pelo lado, ao lado, longe, passam indiferentes.

Outro exemplo de divórcio é traduzido por restos de lixo instantâneo que ficam na berma de uma estrada: que relação de afectividade ou de pertença pode um transeunte (e ainda mais se o é de automóvel - é de mais longe e anda mais depressa...) estabelecer com o lugar onde pára?
Uma relação de desinteresse, meramente funcional: aquele lugar, que não chega a ser lugar, é um depositório do lixo que a sociedade de consumo imediato nos pede para aprovar (na servil condição da compra).


"Manter a distância entre a vida privada e a vida pública."

Que merecem os outros de nós?
Da dor que somos e nos acontece, como ocultar isso àqueles com que queremos relacionar-nos?
Que relação queremos estabelecer com essas pessoas?
Que compromisso e que investimento nos merecem aqueles que mais amamos?
Se somos inteiros, como sermos apenas uma parte para com os outros sem nos trairmos a nós mesmos?
Quanto de nós não estamos a ser numa relação de divórcio?

De onde vêm as diferenças que nos separam e nos exilam do mundo?
- da cultura, que nos singulariza ou nos uniformiza;
- da economia, que nos classifica ou desclassifica.

A biologia, essa, devia unir-nos, contrair uns corpos contra os outros,
Mas é a própria biologia que nos separa, se as necessidades são distintas ou entendidas como tal.
E se entramos em competição de uns contra os outros e recusamos a partilha.
Normal é ao indivíduo cansar-se, num ciclo de períodos mais ou menos duradouros.

A este respeito, cabia verificar onde se dão mais divórcios (i.e., fim dessa "instituição" que é o "casamento", seja ele religioso ou civil - porque apenas nos referimos ao que fica "no papel", alvo de estudos) e, também - por causa desse cansaço do próprio cansaço biológico (logo, da necessidade irreprimível de afecto e sociabilidade) - quantos desses divórcios chegam ao fim (i.e., "casamentos" reatados).

A este respeito, também, por causa da partilha, importa questionarmo-nos, de uma vez por todas (não, de uma vez por todas, darmos a resposta - isso é diferente) se amarmos uma pessoa (ou vivermos com uma pessoa) é realmente suficiente.
Há povos em que 1 (um) homem é casado com mais que 1 (uma) mulher.
Haverá povos em que 1 (uma) mulher é casada com mais que 1 (um) homem?
Haverá identificação nalgum desses povos?
Há alguma coacção sentida por algum desses homens ou por alguma dessas mulheres?


Aquilo que está dentro de nós é comunicável:
- metamorfosea-se em actos e posturas;
- edifica-se em instituições e relações.
(sendo uma dessas "instituições", precisamente, a lei do casamento; outra, a da poligamia, que não sei se é realmente a mesma coisa - nem estamos a querer dizer que são a mesma coisa)


A comunicação requer capacidade de expressão e capacidade de entendimento. De ambas as partes.
A interpretação varia com a cultura e com a biologia.

Há um divórcio entre:
o "Norte" e o "Sul";
o "Litoral" e o "interior";
os "ricos" e os "pobres";
o homem e os "outros" animais;
o homem e a Terra;
o "global" o "local";
os "cidadãos" e os "seus" "representantes";
os que gostam de ver notícias sobre o último "aifone" e os que não querem saber do que se passa no "Darfur" (- O que é que se passa no Darfur?)
...

Porque cada um está entretido e ocupado, ou preocupado, com o "que lhe diz respeito".

Mas não poderá haver justiça se não houver diálogo entre as partes.
Porque a maior justiça é a identificação, a adequação e a partilha das partes.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Voltei a acordar com o capitalismo

Imagem retirada daqui

Em cada história que vamos ouvindo, o traço da competição e do individualismo.
- Ah, mas essas características não são apanágio do sistema que tanto criticas...
- Pronto, foi esse o teu "argumento final"? (aquele que termina com os diálogos? ou... com os monólogos...).

O senhor Carlos Malainho, vereador da Câmara Municipal de Braga e Presidente do Conselho de Administração dos TUB (Transportes Urbanos de Braga) anuncia que para o ano talvez haja novas carreiras (percursos) para cobrir as necessidades da população.
A linguagem do politicamente correcto e dos aplausos num político ainda inexperiente, pois lá deixou escapar algumas palavras que mancham o discurso.

Primeiro diz que essas novas carreiras se centrarão sobretudo "no casco urbano".
MAS QUAL CASCO??
De que é que este homem está a falar? Braga tem casco? Onde fica e onde termina? Poderia, mais correctamente, ter usado a expressão "cidade".
Em Braga, não há casco. Um casco, mesmo que usado em termos aproximativos, está muito longe de dar a ideia do que é esta cidade: um contínuo não pensado de cimento e betão quadrado, mal construído e em zonas impróprias. Isso, sim, é a cidade Braga.
Casco têm, mais evidentemente, as cidades e vilas limitadas por uma muralha, por exemplo.
Braga tem (ou tinha...) muralha, mas penso que o vereador não se estaria a referir a espaço tão pequeno para "servir a população"... Que população haverá ali, até?

Servir quem mais precisa?
Nesta cidade a apodrecer por dentro, o ideal típico da cidade desequilibrada do capitalismo...


Depois diz que a Câmara Muncipal de Braga é o principal accionista da empresa.
Pois claro.

Porque o que as empresas fazem, fazem-no em nome dos accionistas: é a esses que elas servem, é para esses que elas servem, é para isso que elas servem.
Pensávamos nós que era para servir as populações...
Somos tão virgens...

Isto é só um comentário de pacotilha.

Mas amanhã, em cada narrativa do quotidiano, voltaremos a acordar com conversas de transeuntes que falam do que compraram e usam, do que vão comprar e usar, do que vão deixar de usar e substituir, da melhor forma de colher dividendos, fugir aos impostos e negar o serviço e o dever públicos.
Em nome de deus e do lixo!, amén.
Porque amanhã voltaremos a acordar em capitalismo.

E eu já não sei onde o sonho, onde o sono...

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Eu continuo a achar isto impressionante...


A fotografia é pública, mas esse carácter não a torna imediatamente reconhecível, coisa que depende do conhecimento de cada um.


A questão não está no "objecto" (então) principal, mas sim no que está à volta "dele"...

Alguém quer dar palpites?


Podem ver melhor (maior) aqui.

sábado, dezembro 11, 2010

Um sítio fabuloso

http://www.pordata.pt/azap_runtime/# base de dados de Portugal Contemporâneo. Não é que interesse muito, mas o presidente do conselho de administração é o senhor António Barreto. Mais que tudo é útil e existe.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

As crises económicas - mais um inquérito

Olá, amigos.

Andamos numa de depressão abrupta. Como as que se sucedem às euforias contínuas, cilcotímicos que somos às vezes...

Em tempos de crise(s), que nos fazem os sentimentos que sentimos em nós e nos outros? :

- Permitirão uma aproximação, uma maior compreensão e compaixão?

Ou, pelo contrário,

- Aumentarão as distâncias entre as pessoas, trazendo ao de cima o sentimento, básico e primário (animal, portanto), da luta pela sobrevivência individual?


Aguardamos pareceres vossos.


Sustentemos o Sustentável (façamos por ser possível - está apenas na nossa vontade -) riscando mais que cruzes em papéis caídos no esquecimento.

terça-feira, dezembro 07, 2010

"A Corrosão do Carácter", de Richard Sennett


Título: A Corrosão do Carácter - As Consequências Pessoais do Trabalho no Novo Capitalismo

Edição Original: The Corrosion of Character - The Personal Consequences of Work in the New Capitalism (1998)
Autor: Richard Sennett
Tradução: Freitas e Silva
Edição: Fevereiro de 2007 (2ª ed.)*
Editora: Terramar
ISBN: 972-710-9287-5
Paginação: 259 páginas


Na verdade, ao partir para a leitura deste livro, esperava algo ainda mais próximo de nós, ou algo em que melhor revíssemos a realidade que nos afecta. Aquilo que sentimos e que esperávamos ver igualmente reflectido neste livro foi mais ou menos esboçado no artigo anterior.

Esta -de certa forma- "decepção" (ou não correspondência) prende-se, cremos, com a objectividade necessária (necessária para a credibilidade) à análise sociológica. Aquela "frieza" do analista social, que se mantém à parte, apenas como observador. Postura que erradamente tendemos a considerar como neutra ou apolítica.

Sabemos que não é o caso de Richard Sennett. Quanto mais não seja porque, à partida, todos somos seres humanos. Mas mais que isso: como pode ficar indiferente alguém que contactou com pessoas que sentiram, na pele, efeitos económicos, familiares e psicológicos causados pelo "novo capitalismo"?
O autor apelida-o assim para o distinguir de um outro (menos selvagem e destruidor?), anterior à "economia global" proporcionada pela revolução nas comunicações e telecomunicações.


Através da análise
a) da despromoção (descida nos quadros da empresa);
b) da desvalorização (não reconhecimento pelo trabalho prestado);
c) do desenraizamento (quando os trabalhadores são obrigados a ir trabalhar para outra região);
d) da redução dos efectivos (nem vamos reproduzir mais um anglicismo desnecessário por que é apelidado);
e) do abaixamento salarial e da perda dos direitos sociais associados;
f) da "flexibilidade" (flexibilidade para quem?, importa sempre perguntar);
...
Sennett está, portanto, a descrever as consequências que derivam da perda e/ou desvalorização do factor trabalho e do trabalhador de que o capitalismo precisa para funcionar.

Não obstante nos parecer ainda pouco violento e denunciador (estaremos nós noutro patamar de sensibilidade?), trata-se de um trabalho importante para melhor compreendermos "as traseiras" da "aldeia global" em que cada vez mais somos obrigados a viver.



"Mesmo assim, tive uma revelação em Davos, ao ouvir os que mandam no reino do flexível. «Nós» também é um pronome perigoso para eles. Eles vivem confortavelmente na desordem empresarial, mas receiam a confrontação organizada. Claro que receiam o ressurgimento dos sindicatos, mas ficam pessoalmente muito pouco à vontade, mexendo-se, desviando o olhar ou refugiando-se a tirar apontamentos, se forem obrigados a discutir as pessoas que, na sua gíria, «ficam para trás». Sabem que a grande maioria dos que trabalham no regime flexível ficam para trás, e, obviamente, lamentam. Mas a flexibilidade que celebram não dá, não pode dar, qualquer orientação para a condução duma vida vulgar. Os novos senhores rejeitaram carreiras no velho sentido da palavra, de caminhos que as pessoas podem percorrer; ritmos duradouros e sustentáveis de acção são territórios estranhos.



Pareceu-me, por isso, quando andava a entrar e sair das salas de conferência, dispostas num emaranhado de limusinas e de polícias nas ruas da aldeia montanhosa, que esse regime podia, pelo menos, perder o seu actual controlo da imaginação e dos sentimentos dos que estão por baixo. Aprendi com o amargo passado radical da minha família; se ocorrer mudança, acontece na base, entre pessoas que falam por necessidade íntima, e não através de levantamentos de massas. O que os programas políticos retêm dessas necessidades íntimas, pura e simplesmente não sei. Mas sei que um regime que não dá aos seres humanos razões profundas para cuidarem uns dos outros não pode manter por muito tempo a sua legitimidade."

(pp.224-225)


Até quando?


* - até haver reedição, o livro encontra-se esgotado na editora.
(pedimos desculpa pela publicidade na capa do livro do mês, mas falta-nos a forma habitual de a conseguirmos)

Nota: Envie a sua sugestão de leitura para georden@gmail.com que posteriormente publicaremos neste mesmo espaço.

quinta-feira, novembro 25, 2010

A Destruição da Pólis (Sociologia da Intimidade)

"A maioria das pessoas crê que as representações, ideias, sentimentos e conceitos saem do interior das suas cabeças. Ignora que percorrem, na realidade, o caminho inverso, de fora para dentro."


Longe estão os tempos e os lugares de rebentos numerosos. Tectos de abrigo para as confrontações dos iguais, em casas de muita discussão por um pedaço de pão.
E com razão.

Os ganhões encosta(va)m-se à parede da praça pública, como à espera do fuzilamento:
- Tu, tu, tu,... tu... (o matraquear dos senhores: cada bala mata o outro, o que fica) e tu. Os outros, toca a dispersar! (Lá vem o bastão, a acenar desde o fundo da história, transversal ao silêncio opressivo.)


"A simplificação da expressão pressupõe a simplificação dos processos mentais e dos conceitos."


Para lá da biologia, a visão instrumental: filhos como fonte de riqueza: mais mãos para trabalhar, para sustentar os tijolos de uma casa, projecto comum para a vida.
Um sentido para a roda do tempo:
1) Os mais novos, entregues aos mais velhos;
2) Os adultos, quando órfãos, privados dos laços mais fundos, agarram tudo o que restou, nos filhos que chegaram a ter;
3) Os novos velhos entregues aos novos adultos.
E um novo ciclo, uma nova geração, recomeçam: a permanência da vida.

(Emanações de pétalas ao vento, hoje sem ter onde cair... mortas.)


A Geografia da Saúde escreve-se aqui e agora noutras linhas, aos sobressaltos, em garatujos, projectos de caracteres:
A mulher entrou também para a trituradora do "mercado" de trabalho, o sítio sem lugar onde somos comprados por inteiro, que não podem esquartejar-nos para ficarem apenas com a gordura que produz a energia deles...
Acoplados a essa gordura estão... seres humanos.

"Também nós somos vida."
(canta Raimon)

("Eles não desistirão enquanto não nos destruírem completamente." - Brecht)

No primado da sociedade da manipulação, palavras meigas como manteiga, escorregadias e insípidas:
Aligeiram o sentido das coisas que nomeiam a realidade, até ao ponto em que não saibamos orientar-nos, tudo feito símbolos sob a cor da propaganda e da publicidade para o hiperconsumo.
A sociedade fragmentada, descontextualizada, sem hipótese de relacionarmos umas coisas com as outras e, possivelmente, extrairmos sentidos.
Instigando a divisão ("di"+"visão"), a confusão e a concorrência.


"Ao longo da História, a retórica da liberdade foi utilizada para justificar a repressão das liberdades."


A velha regra: dividir para reinar.


"Tal como quando a Igreja continua a dizer que toda a autoridade dimana de Deus, quando a verdade é que todo o Deus dimana da autoridade."


A velha regra: dividir para reinar.
- Como impedir a aglutinação se a maior parte dos seres humanos têm vindo a concentrar-se nas cidades?
Fazendo de cada um, dentre esses milhões, o seu próprio campo de concentração, em que todos têm motivos muito fortes para desconfiar de todos, na luta pela sobrevivência... do seu umbigo.
Um umbigo não é uma praça pública: é o domínio do privado.
- Como impedir o conhecimento se os grandes avanços da técnica disponibilizam a informação a cada vez mais e mais pessoas?
Fazendo dessa mesma informação uma doença, polida e despolitizada (mas o fim das ideologias é, ela própria, uma ideologia....!!) que "empate", distraia o pensamento, que emocione, para cima ou para baixo, os corações e extraia deles a capacidade de aprendizagem, (porque de) memória (porque tudo é fluído e excessivo) e lucidez (porque sobre-estimulante, logo adormecedor da nossa atenção: o mesmo mecanismo que, por contraste, nos impede de ver algum interesse na movimentação do que é demasiado lento, como por exemplo filmes que não sigam os cânones da Madeira Sagrada).


Assim, vidas fragmentadas esboroam projectos comuns, esboroam projectos ponto final parágrafo.
Apenas para continuarem a extorsão, para nos roubarem o mundo e as coisas que sempre nos têm negado.

O que é o ser humano?
O que é a sociedade?
Para que serve a sociedade?
Ao serviço de quê, ou de quem, está a sociedade e o ser humano?
Que projecto?
Que, ou quem, impõe, impôs, está a impor, decide, decidiu ou está a decidir, o projecto das sociedades humanas?


"Se os trabalhadores entregam continuamente mais trabalho do que aquele que consomem, deve ser possível seguir o rasto a esse excedente. Este "mais" tem de se encontrar em algum sítio, teve de ter-se materializado em saldo bancário, avião privado, nova fábrica, etc.
A distribuição da riqueza entre a população é o indicador que nos mostra para onde foram os valores produzidos pelos trabalhadores."


Vidas fragmentárias materializam, produzem espaços fragmentados, desconexos?

A Demografia do Tempo vê as gerações a reduzirem-se, a porem em causa a própria continuidade do tempo.

Pois, que condições nos dá este cenário para nos reproduzirmos em dignidade e liberdade?
Em dignidade e liberdade?
O cenário não é um adorno.
As palavras não podem continuar imaculadas, vazias, brancas, abstinentes e estéreis!


"Pela sua natureza, a técnica da informação simplifica a linguagem, inclusivamente até ao limite do sistema binário, o que facilita, enormemente, o transporte e reduz os gastos. Assim, aplica-se pois à vida quotidiana a linguagem estereotipada, imperativa, espartana, própria do meio militar. Trata-se de uma linguagem que exclui a dúvida, a interpretação. Porém, reprimir a dúvida e emprestar a certas palavras e frases um significado apriorístico é algo de muito natural quando se abandonou consciente ou inconscientemente o conhecimento da possibilidade ambígua, polissémica, da linguagem e do conhecimento."


Não responderemos com a violência, nem física, nem simbólica.
A violência contra o pensamento e o corpo é o que nos tem destruído por completo.


A actual Geografia da Saúde dos países capitalistas dá-nos a liberdade de escolher, como quem vai à feira (metáforas mercantis gritantemente entranhadas na linguagem), entre as doenças cárdio-vasculares, os cancros e as doenças de foro digestivo.
1) A tensão quotidiana, as pressões de ambientes malsãos, a caminho do trabalho, no trabalho e no caminho de retorno para sabemos cada vez menos onde. O tabaco e o fumo dos escapes, na rarefação dos espaços verdes públicos e privados.
2) O modo de vida sedentário, inflado, desequilibrado, da saúde publicada e da saúde privada. O contraste entre aquilo que propelam ser o bom e as condições que nos dão para o seguirmos e praticarmos.
3) O aperto da barriga, naquilo que comemos e digerimos, mal. A ansiedade daquilo que fazemos. Sobretudo naquilo que deixamos de fazer. Naquilo que não cumprimos, que não podemos cumprir, que não se concretiza, gerador de angústias e úlceras: podes fugir, mas não te podes esconder. Podes fugir, mas levarás sempre contigo a ferida que tens por dentro. O esquecimento ajuda. Mas como o esquecimento, se está dentro de nós, se somos nós mesmos? Uma ferida aberta.

Nós não esquecemos.

Nós jamais esqueceremos a nossa vida.


"O capitalismo, e ainda mais na sua actual fase imperialista, é, na sua essência, um sistema gerador de angústias, incertezas e medos. Sobretudo o medo de perder o emprego ou de não o encontrar, para poder aceder a uma vida digna."


Como quereis que tenhamos filhos?
COMO quereis que se propicie o amor?
Como amar em tempo de precariedade?
O amor é um projecto: requer tempo e investimento.
O amor não é uma pastilha elástica!

Na liquidez (Z. Bauman) da sociedade contemporânea, os vínculos são um despropósito. Mas... que segurança é que isso nos dá?
Empresas a soltar amarras e a deixarem vidas destruídas para trás, ou empresas a descartarem pessoas como números... pessoas reduzidas a números ou a nomes, como lixo.
Assim, face à instabilidade programada, que sentimento de segurança? De um e do outro lado, como nos diz Richard Sennett, "o medo de se tornar dependente de alguém é o fracasso da confiança nessa pessoa".

Onde está o tempo fora do lugar de trabalho?
Onde o tempo, fora do local de trabalho, que não ao serviço do trabalho?


A fragilidade, a liquidez, as pessoas como fantasmas, intocáveis, não palpáveis...
Perda das relações, no trabalho e fora do trabalho, nos trabalhos de que nos obrigam a saltar, quais sapos de nenúfar em nenúfar com moscas como prato diário...
Que tipo de relações temos criado (sob o primado do tempo economicista...)?
Solidões multimultiplicadas, solidões inúteis, nunca encontradas, nunca confrontadas nem anuladas, nem produtivas.

Onde a felicidade? A felicidade não é um projecto meramente individual.
Mas como a sociedade sem sequer a individualidade? (sem as partes se aborta o todo)
Onde o projecto, a tentativa, sequer, de um projecto de felicidade?


Cacofonias de Escher, sem princípio nem fim, balões a murchar, papel de parede a morrer, sombras do que somos, violentados simbólica e fisicamente. Na sociedade que tanto exige de nós, tantos apelos, tantas ordens, tanta m...., tanta prostituição em cada esquina que nos tornámos.
Somos o que se compra, o que se vende.
Descansamos oito horas para continuarmos na pele do trabalhador para um outro que desconhecemos. A sociedade cujo projecto desconhecemos, suposta construção para a qual não sentimos a nossa parte contributiva, perdida no além que nunca temos visto.

Que tem ela para nos dar?
Para quê esta sociedade?
Sociedade?
Porquê tanta divisão?
Tanta solidão...

O espaço público morreu: assassinámo-lo.
O espaço público, do confronto dialogante, onde possamos ouvir-nos, a nós, àquilo que temos e àquilo que somos, os nossos desejos mais íntimos, as nossas aspirações mais fundas.

Onde o amor?
Onde esse espaço onde podemos descansar a cabeça?
Como, esse lugar?

No meio de tanta separação dolorosa, quando vamos empreender a construção de um espaço vivo, revolucionário?
Contra o fim da história que estamos a ser, eternos presentes sem futuro nem passado, como poderemos, desinteressados (interesse: "inter"+"est", estar entre), desvinculados, atópicos, esvaziados de nós mesmos, apropriar-nos de algo que reclamemos:

ISTO É NOSSO! ISTO SOU EU E TU!
?

Em busca de um pedaço de vida. Uma vida dizível, sem manteiga, com as mãos abertas e calosas das feridas deste tempo de mentiras.
Onde, quando, como, porquê?

A primeira resposta, a partir da qual podemos começar por responder a todas as que se lhe seguem, está, ela própria, esquecida:

Pergunta: POR QUEM?
Resposta: POR NÓS.

O espaço público é a participação, a conjunção de esforços e das partes que somos.
Onde estamos nós no espaço?
No espaço privado.
Para servir quem?
A nós?
A sociedade é uma propriedade privada? Não me f.... o juízo! Isso não é a sociedade. Inventemos outra!

A simplificação é rentável, mas é um vazio que nos esvazia.
Vamos discutir. Vamos dialogar. Cara a cara!
Não somos televisões! Somos bem mais que papagaios do consumo.

Nós não vamos estar à venda para sempre.

Vamos empreender a afectividade, a amizade, vamos compreender que tudo pode ser a escola do humanismo. Contra a imbelicidade e a besta.
Por mais divisão a que qualquer sistema político-económico nos force, vamos recentrar-nos, vamos redescobrir-nos ("re"+"des"+"cobrir"+"nos") da poeira que nos atiram para os olhos,
vamos redefinir os conceitos essenciais, vamos discutir sobre este assunto!
Se o silêncio é sinónimo de ignorância, então é contra nós!
A vida não é sempre a perder!
A cidade não pode ser para sempre o lugar onde morremos todos os dias!

Vamos encontrar-nos.
Para podermos descobrir que... afinal, temos necessidades comuns, desejos comuns, aspirações nada conflituantes que justifiquem seja que guerra for.
Vamos empreendê-lo juntos!


Não queremos viver a medo.
QUEREMOS AFIRMAR O QUE SOMOS.
NÓS NÃO EXIGIMOS MENOS QUE A VIDA!


"É no debate e na troca, na dicção e na contradição que podemos descobrir que outros também pensam como nós e que temos os mesmos interesses."


Vamos empreendê-lo juntos!


"O ensino da solidariedade realiza-se a partir da coexistência, da horizontalidade, e não da verticalidade dos valores. O primeiro princípio de uma tal educação deveria ser o reconhecimento de que cada pessoa vê as coisas de uma maneira diferente. Reduzir a desigualdade significa, pois, desmontar a violência simbólica que se exerce sobre nós."

...


- Obrigado, capitalismo.
- Passe bem, e até breve.
Volte sempre.
-Voltarei.

(...voltarei, mas munido de poesia contra o inominável que és.

Só depois - perdida de vez a nossa inocência, como cantam os International Noise Conspiracy, "Capitalism stole my virginity!" -, só aí, utilizados todos os outros meios, sem obtenção de mudança, só aí voltaremos... com bombas.)




Queremos que Sociologia da Intimidade seja /
Cremos que a Sociologia da Intimidade é, afinal, radical (indo às raízes), a sociologia da emancipação colectiva. A Sociologia, ponto final parágrafo.



Quando não mencionadas, as citações em itálico são extraídas do livro A Intoxicação Linguística, de Vicente Romano, 2008, Ed. Deriva.