quarta-feira, fevereiro 19, 2014

domingo, fevereiro 16, 2014

Não propriamente a discussão sobre o sexo dos anjos...

La distincion... 
(Ou la la!... ma ouais!)




Retomamos a foto do mês de Setembro passado para frisar duas coisas.

Primeira, que entre uma coisa e outra existe ainda uma terceira (a síntese, a contradição, a soma, a anulação, e ainda, importante, o desconhecido, com o qual devemos contar sempre em cada equação). Mas esta, no presente caso, não será definitivamente uma seta que esteja entre as duas representadas...

Segundo, que, levando-nos ambos os caminhos ao mesmo ponto do percurso (e já dissemos que cada ponto de chegada é mais um ponto numa recta, que continuaremos nós ou nós-outros, parafraseando, vá, talvez, o eterno retorno nietzschiano) temos uma escolha fulcral a fazer na nossa postura de vida:

(porque o espaço e o caminho, tal como a forma e os meios, não são alheios nem indiferentes ao estar-ser e ao como caminhar, nem ao conteúdo ou aos objectivos, respectivamente)

Ou seguimos pelo caminho da esquerda, que poderíamos apelidar de Ecológico (malgrat o cimento, não é?)

- que demora mais tempo e que - para quem reconhece kavafiamente que é mais importante a riqueza que colhes pelo caminho que a que esperas encontrar no destino - te faz viver mais tempo (e tampouco isto é indiferente);

- que nesse tempo a mais ele te oferece uma probabilidade mais alta e uma apetência maior a deteres-te nas coisas que te rodeiam e assim as inspirando seres mais rico e consciente;

(...)

Ou seguimos pelo caminho da direita, que poderíamos apelidar, entre os antónimos existentes e imaginários, de Económico

- que, por oposição - já se percebeu, basta ver - é mais curto e menos demorado face ao destino e te educa para o finalismo e para o desrespeito pelos meios (é isso a primeira consequência visível: voltemos a olhar para o resultado que lá está);

- que nesse tempo a menos ele te permite pensares noutras coisas (foi por exemplo para isso que se criaram os relógios e se aceleraram os processos produtivos, mediante as máquinas e a seriação

(Donde, talvez como lemos do postulado de Jane Jacobs, subscrito por Soja, de que o desenvolvimento intelectual e da técnica é filho do crescimento composto pela economia e a intensificação dos processos...)

(...)

Isto pode ter que ver com tudo, o que sendo impressionante não deve deixar de nos merecer atenção: somos ou não somos homens??

São duas vias: e dizemos que preferimos uma a outra, porque preferimos.
Porque, mesmo sem intelecto, já que somos bebés a pensar com a cabeça estragada dos adultos, salta à vista que um deles estraga o caminho e o outro não estraga o caminho.
Os fins não justificam os meios, e embora os fins sejam um produto dos meios, os meios também podem alterar a natureza dos fins que queremos encontrar.

Eis aqui os caminhos do vive e deixa viver e o do não penses no amanhã, que só tu contas (já se entrevêem mais oposições: colectivo/individual, público/privado, presente-futuro/futuro-e-fim, etc...)

Com base neste exemplo da geografia física (dimensões, pontos, linhas e seus percursos e possibilidades), convidamo-vos a reflectir um bocadinho sobre a forma de fazer geografia humana (filosofia no espaço).


É a entrar, meninos e meninas
a ver o que por aí se lavra.

sábado, fevereiro 15, 2014

Edward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical (IV)

Estivemos com o geógrafo estadunidense Edward Soja, por nós conhecido através do delicioso livro:

TítuloEdward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical
Autores: Núria Benach e Abel Albet
Edição: 2010 (Junho)
EditoraIcaria
ISBN: 978-84-9888-243-8
Paginação: 285 páginas



Para terminar, resumindo o mais relevante nas palavras de Benach e Albet:

"A dialéctica da espacialidade-historicidade-socialidade (ou “trialéctica do ser”, segundo Soja), juntamente com o reconhecimento implícito da causalidade urbana, leva Soja a enfatizar nos apelos que Lefebvre, e em menor medida, Foucault, tinham feito na década de 60 quando reclamavam a centralidade do espaço e a espacialidade como elementos constitutivos fundamentais da quotidianidade da vida social. Impunha-se uma reteorização transformadora das relações “triplamente dialécticas” existentes entre a história, a geografia e a sociedade, como única garantia para um modo de pensar espacializado.
Para combater a distorção ontológica espácio-temporal criada no século XIX, as persistentes forças do historicismo social, e para introduzir um modo diferente de pensamento e de práxis críticas espaciais, é necessário que o espaço se situe estrategicamente em primeiro lugar enquanto marco interpretativo da realidade.
A formulação desta trialéctica e a denúncia da persistente priorização concedida ao tandem sócio-histórico face ao sócio-espacial e ao espácio-temporal, dá a Soja uma nova abordagem interpretativa sobre o porquê de a Geografia, e em concreto, da reflexão espacial crítica, ter sido tão menosprezada sob o ponto de vista relativo e tão secundarizada no meio académico e intelectual durante, pelo menos, o último século. O pensamento espacial, a imaginação geográfica, e a geografia como disciplina, foram enterradas de uma forma muito eficaz sob o dogma do historicismo social; trata-se de uma oclusão epistemológica activada pela priorização do social e do histórico face ao espacial, que continua a configurar o pensamento social contemporâneo. A crítica também se dirige à geografia contemporânea, uma vez que falhou redondamente na hora de perceber as suas limitações internas, ignorando as fortes críticas de, por exemplo e mais uma vez, Foucault e Lefebvre."

(pp.35-36) 

(todas as traduções que temos estado a ler, do Castelhano, são nossas)

A introdução a Edward Soja, feita pelos geógrafos barceloninos Núria Benach e Abel Albet, é exemplar. 


Nesta síntese, traça-se um breve percurso pessoal e académico, inclui-se uma entrevista, realizada pelos próprios e feita e amadurecida por várias horas e encontros ao longo de anos, uma antologia de textos com passagens centrais dos seus três livros mais relevantes (pelo menos, até à data, pois o mais recente "Seeking Social Justice"  deve andar a dar que falar...por cá, não temos ecos...), um texto inédito, "Mesogeografias: sobre os efeitos geradores das Aglomerações Urbanas", e uma bibliografia possível (mais completa e actualizada na página da editora, aqui). 

É o primeiro número da série "Espacios Críticos", da editora Icaria. Outros títulos "Franco Farinelli: Del mapa al laberinto" ou "Richard Peet: Geografía contra el neoliberalismo". Devem ser também muito bons livros...

Fica a inspiração para ideias editoriais.


Bibliografia seleccionada:

(1983) - "Uma interpretação materialista da espacialidade" in Bertha Becker, R. da Costa & C. Silveira (eds.). Abordagens Políticas da Espacialidade. Río de Janeiro: Universidade Federal de Rio de Janeiro, Departamento de Geociências; pp. 22-74

(1989). Postmodern Geographies. The Reassertion of Space in Critical Social Theory, Londres, Verso.
tradução portuguesa:
(1993) - Geografias Pós-modernas. A Reafirmação do Espaço na Teoria Social Crítica, Rio de Janeiro, Zahar editora, 324 pp.

(1996) - Thirdspace. Journeys to Los Angeles and Other Real-and-Imagined Places. Oxford: Blackwell.

(2000) - Postmetropolis: Critical Studies of Cities and Regions. Oxford: Blackwell.
tradução castelhana: 
(2008) - Postmetrópolis. Estudios Críticos Sobre las Ciudades y las Regiones, Madrid: Traficantes de Sueños

(2010). Seeking Spatial Justice. Minneapolis: Minnesota University Press.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Edward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical (III)

"Com alguma surpresa da sua parte, Soja redescobre, já nos anos 90, que Jane Jacobs também menciona Çatalhüyük no seu texto seminal “A Economia das Cidades” (de 1969), de onde extrai o seu postulado de que as cidades e os processos de urbanização podem ter sido a fonte primária geradora de criatividade, de inovação e desenvolvimento social desde Çatalhüyük e durante os últimos 12 mil anos. Segundo Jacobs, a faísca inicial da vida económica urbana foi a causa primária de todo o crescimento e mudança económicos, incluindo o pleno desenvolvimento da agricultura e da pastorícia, além de muitas outras actividades produtivas especializadas. E não o inverso. É, portanto, o factor urbano, a existência do urbano, o que gera a mudança e o desenvolvimento económico (e a implantação da agricultura e da pastorícia) e não o contrário, se bem que o desenvolvimento da agricultura permitirá a consolidação de uma população sedentária e de uma economia excedentária tipicamente urbana. Ou seja, e segundo as palavras de Jacobs: sem as cidades seríamos pobres, já que não se teriam desenvolvido novas formas de economia e de relação social. Este impulso economicista de Jacobs que era uma resposta à abordagem historicista e passiva (fatalista) de Lewis Munford em “A Cidade na História” (1961) cairia durante anos no desprestígio e na marginalidade (que Soja paraleliza com o menosprezo das propostas de Foucault e Lefebvre) até ser recuperada muito recentemente pela teoria económica, embora já sob uma óptica economicista e percebida como uma “externalidade”. Só muito recentemente as economias da urbanização, entendidas como evocações de causalidade espacial urbana, começaram a ser aceites como a causa primária do desenvolvimento económico."


(pp.39-40)


Como pudemos deixar que o espaço socialmente construído não fosse considerado central na leitura das sociedades capitalistas, economicistas, desequilibradas, transformadas e urbanizadas contemporâneas?

Soja já o disse, mas outro argumento, também por ele aduzido, faz todo o sentido:

é que uma das características vitais, inerentes, ao funcionamento do capitalismo 

- e todos vivemos afectados por ele, uns em cima, a rirem-se de cachimbo, outros em baixo, a chafurdar no lixo em busca de comida; uns no dito centro, com tempo para os lazeres e o pensamento intelectual e o ócio, outros na por conseguinte periferia a trabalhar (alguns bem-) mais de quarenta horas por semana para continuar a levar pra casa os salários de miséria que nos mantêm coarctados para viver outra realidade que não a de pagar dívidas e sobreviver - 

é o direito de propriedade.

Ora, como pudemos descurar que a propriedade é, inicial e essencialmente, espacial, territorial?

Este carácter da propriedade é a primeira forma do exercício do poder.

Imaginem um Banco, uma sede daquelas, central, com edifício de pedra, protegida 24 horas por dia por sentinelas policiais que se revezam na sua mui nobre função... humm... "pública". De proteger os cidadãos, claro está: proteger o poder é essencial, senão ele logo vem com ameaças. Da mesma forma que a crise económica - acusam-nos, a nós consumidores, culpados - é a de temos baixado o consumo... Há que seguir no caminho errado, pois parar faz pensar e isso nunca!

Imaginem um banco desses. Bem, eu já disse para o imaginarem de pedra... mas estão a imaginá-lo do tamanho de um quiosque?
Porque será que não?

Porque o Banco é uma das instituições capitais que regem a forma como vivemos e a de como sobrevivemos, logo, tem de se impor à vista, demonstrar o seu poder, ser credível e respeitado, instituir, portanto, e fazer escola no pensamento das baratinhas tontas (o diminutivo é polissemântico) que somos nós.

Os mendigos são pequenos, não têm poder, não têm voz, passamos por eles a dizer não, a baixar os olhos, a desolhar, a recear caírmos no seu buraco irmão. Vem um polícia manter a ordem e dizer que o senhor cidadão não deve permanecer naquele lugar, que afasta a clientela e um rol de etcetras que evidenciam os valores que lhes disseram para seguir e proteger.

Mas não há polícias, militares, blackwaters ou canhões de água ainda que varram os Bancos: são seus filhos-acólitos e temos de inventar formas outras de contra-opressão e contrapoder.

Olhemos à nossa volta e vejamos onde estão (a palavra-chave é sempre e em primeiríssimo lugar o onde) os poderes. O económico à cabeça, mas o político, que é o seu cão de trela. Vejamos onde estão as pessoas com vencimentos acima de x e onde vivem as pessoas sem vencimentos ou com salário mínimo ou de reinserção:
CARAMBA, será que isso não nos diz nada sobre a centralidade do espaço para uma leitura possível da realidade?

Está claro que não é a única: mas também não podemos ver tudo pela óptica só da economia, nem das classes sociais, nem da história, nem da organização social.

É isso que Soja reitera: ter o espaço ao mesmo nível de importância que a história e os factos sociais.

Esta abordagem integrada acrescenta a tal "terceira dimensão", necessária por exemplo ao pensamento geométrico, que expande as capacidades do intelecto e nos permite, no fundo, uma leitura mais ampla e relacional do caos bruto que se nos apresenta a cada dia.

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Edward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical (II)

Redefinindo a problemática espacial

O desenvolvimento de uma análise espacial marxista sistemática coincidiu em boa parte com a intensificação das contradições sociais e espaciais tanto nos países centrais como nos periféricos devido à crise geral do capitalismo que se inicia nos anos 60. Mas já antes houvera precursores importantes dentro da tradição marxista ocidental que não deviam ser descurados.

Por exemplo, entre 1917 e 1925, na URSS, um movimento de vanguarda de planeadores urbanos, geógrafos e arquitectos trabalharam para conseguir “uma nova organização espacial socialista”, correspondendo a outros movimentos revolucionários na sociedade soviética. Não se encarava a transformação espacial como um subproduto automático da mudança social revolucionária mas, sim, que ele implicava também luta e a formação de uma consciência colectiva. Sem esse esforço, a organização pré-revolucionária do espaço teria continuado a reproduzir a desigualdade e as estruturas de exploração. Tais actividades inovadoras deste grupo de pensadores espaciais radicais nunca foram aceites e a sua experimentação revolucionária na reconstrução socialista do espaço acabou por ficar pelo caminho da industrialização e da segurança militar estalinista. O produtivismo e a estratégia militar dominaram a política espacial da União Soviética, quase enterrando por completo o significado de uma problemática espacial mais profunda na transformação socialista.


Esta planificação, das grandes praças, feitas para ou depois utilizadas (cada um apropria-se do espaço como puder...) para, por exemplo, concentrações, manifestações, demonstrações de poder ou fruição da vista aberta, implica a pré-noção, clara, de que não há neutralidade possível no "contentor" que é o espaço. O espaço ensina, permite umas coisas, impede outras. É, aliás, interessante uma das passagens de Soja, referindo-se ao seu estudo sobre Los Angeles, que, paradigma, segundo o autor, das grandes metrópoles (tal é o objecto do seu livro de 1996), contém em si a arquitectura da opressão. Não falando necessariamente no securitarismo da vigilância, nem das cidades-prisão, aponta alguns aspectos, citando Mike Davis e o seu livro "City of Quartz", como: bancos anti-mendigos, ausência de casas-de-banho públicas (humm, onde é que eu já ouvi isto?...), contentores do lixo protegidos e sistemas de rega que se ligam aleatoriamente durante a noite para dissuadir as pessoas de dormir na rua...

E se a organização urbana de estilo soviético faz isso, ela foi construída para inculcar valores e concepções que se insurgem contra aquelas, mais ou menos inconscientemente, instituídas pelo espaço urbano capitalista.

Mas continuando.

O capitalismo foi capaz de atenuar (senão resolver) as suas contradições internas durante um século e, consequentemente, nos cem anos decorridos desde a edição d”O Capital”, conseguiu alcançar o “crescimento”. Não podemos calcular a que preço, mas sabemos os meios: ocupando espaço, produzindo espaço.


Henri Lefebvre, A Sobrevivência do Capitalismo, 1976


Lefebvre relaciona este espaço capitalista avançado directamente com a reprodução das relações sociais de produção, ou seja, os processos pelos quais o sistema capitalista em conjunto pode expandir-se mantendo as suas estruturas definidoras. Ele define três níveis de reprodução e argumenta que a capacidade do capital para intervir directamente e afectar estes três níveis se incrementou com o tempo, com o desenvolvimento das forças produtivas. Em primeiro lugar, existe a reprodução bio-fisiológica, essencialmente no contexto da família e das relações de parentesco; em segundo lugar, a reprodução da força de trabalho (a classe trabalhadora) e dos meios de produção; e em terceiro, a reprodução ainda maior das relações sociais de produção. Sob o capitalismo avançado a organização do espaço passa a estar predominantemente relacionada com a reprodução do sistema dominante das relações sociais.


Vejam-se as cidades em que os espaços verdes, públicos, e os equipamentos colectivos são "des-alvo" de investimento e cuidado, sendo reduzidos e depauperados a cada novo censo que constitui um PDM. Já repararam que as árvores que temos, por exemplo, em Braga, são árvores que herdamos? E que herdámos de um passado já remoto: não tem havido expansão de área verde nem plantação de novas árvores com carácter duradouro em Braga. Tal traduz uns valores e, a nosso ver, trata-se de uma colonização dos espaços privados e das actividades económicas a substituírem a fruição livre da sociedade. Nada de novo, mas é também este o "direito à cidade" de que nos fala Lefebvre.

O espaço construído, sim, esse mesmo, fisicamente, a sua disposição, o que podemos fazer com ele, como nos movemos e o que realmente fazemos nele... ensina, transmite valores. E não é de admirar que seja uma corrente muito presente na sociedade portuguesa o pensamento único, separatista, xenófobo e fascista. Os ciganos, atirados para um canto. Os velhos, a ruírem por dentro da decadência, central ou periférica, da cidade. As crianças só vão ao centro para as creches, infantários e escolas: nada mais há lá para eles, já que os grandes centros comerciais, grande chamariz hipnotizadora, só podem expandir-se fora dos "cascos" ou das "cidades velhas". Há no centro de Braga uma praça, dita da República, e é sintomático como ela tem vindo a ser esvaziada: de pessoas, de actividades, de sentido. Isto, ironia, apesar de ser centralíssima para as actividades económicas... É estranho, não é?


Tais condições reproduzem-se no espaço produzido socialmente (tanto o urbano como o rural), numa espacialidade produzida e que foi sendo crescentemente “ocupada” por um capitalismo expansivo, fragmentado em pedaços, homogeneizado através de mercadorias diferenciadas, organizado através de localizações de controlo, e estendido à escala global. A sobrevivência do capitalismo dependeu desta produção e ocupação diferencial de um espaço fragmentado, homogeneizado e hierarquicamente estruturado, alcançado em grande medida por um consumo colectivo controlado burocraticamente (isto é, pelo Estado), pela diferenciação de centros e periferias a várias escalas, e pela penetração do poder do Estado na vida quotidiana. A crise final do capitalismo só poderá dar-se quando as relações de produção já não puderem reproduzir-se mais, e não só porque se pare a produção (estratégia permanente do operariado).

Assim, a luta de classes (sim, ainda há luta de classes) deve incluir e focar-se no ponto vulnerável: a produção do espaço, a estrutura territorial de exploração e dominação, a reprodução, espacialmente controlada, do sistema como conjunto. E deve incluir também todos os que são explorados, dominados e “periferizados” pela organização social imposta pelo capitalismo avançado: camponeses sem terras, pequenos burgueses proletarizados, mulheres, estudantes, minorias raciais, bem como a própria classe trabalhadora. Nos países capitalistas centrais, a luta, argumenta Lefebvre, assumira a forma de “revolução urbana”, lutando pelo direito à cidade e pelo controlo da vida quotidiana dentro do contexto territorial do Estado capitalista. Nos países menos industrializados, também se centrará na libertação e na reconstrução territorial, na tomada de controlo da produção do espaço e do seu sistema polarizado de centros dominantes de periferias dependentes dentro da estrutura global do capitalismo.


Com esta argumentação, Lefebvre define uma problemática espacial no capitalismo e eleva-a a uma posição central dentro da luta de classes ao colocar as relações de classe dentro das condições que configuram o espaço socialmente organizado. Não defende que a problemática espacial tenha sido sempre tão central. Nem apresenta a luta pelo espaço como substituta ou alternativa à luta de classes. Argumenta sim que nenhuma revolução social pode triunfar sem ser também simultaneamente uma revolução conscientemente espacial.” 

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Edward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical (I)

O espaço e a organização política do espaço expressam as relações sociais
 mas também influem nelas.
Henri Lefebvre

A rubrica livro do mês regressa ao Georden, desta vez com um dos nomes contemporâneos mais famosos das últimas décadas: Edward William Soja.

Novaiorquino nascido em 1941 (e não "californiano nascido na década de 1950, como aqui se lê), Soja cresceu no Bronx e a sua vivência da rua e do sentido colectivo, a brincar e jogar com os amigos, está na base da sua primeira sensibilidade para a leitura crítica do espaço. O seu espaço vital, diz, resumia-se a uma rua, pelo que um quarteirão mais adiante era considerado espaço estranho. Também o seu gosto por mapas apurou a apetência pela Geografia. O seu primeiro trabalho, sobre o Quénia, levou-o a explorar as realidades coloniais e a interessar-se por outras áreas do saber como a História, a Antropologia, a Arqueologia...

A principal marca de Soja foi e continua a ser - pasmem-se os Geógrafos e analistas das ciências sociais - a luta pela reivindicação da espacialidade como elemento central para a abordagem e leitura da realidade das sociedades humanas. 

A sua obra "Geografias Pós-modernas", de 1989, livro cuja tradução portuguesa disponível continua a ser, nada estranhamente, brasileira, tem, aliás, como subtítulo "A Reafirmação do Espaço na Teoria Social Crítica(em verdade, como se perceberá pela pequena bibliografia em anexo, na quarta parte deste artigo, essa é, tanto quanto sabemos, a sua única obra em Português.) e é dele que extraímos as passagens abaixo. 

(duas edições de "Postmodern Geographies", de Edward William Soja)

Trata-se, obviamente, de uma reivindicação natural do ofício. Mas porquê, então, a pertinência e novidade introduzida por Soja? 

A primeira resposta reside exactamente no espanto que esta assunção representa: será que os geógrafos não tomam o espaço como objecto principal nos seus estudos?

Segundo ele, um veemente não:

“A visão do espaço essencialmente como elemento físico influenciou profundamente todas as formas de análise espacial, seja ela filosófica, teórica ou empírica, aplicada ao movimento dos corpos celestes ou à história e à paisagem da sociedade humana. Também tendeu a imbuir tudo o que é espacial num persistente sentido essencialista e físico, de uma aura de objectividade, inevitabilidade e reificação.
Sob esta forma física abstracta e geral, o espaço foi conceptualmente incorporado na análise materialista da história e da sociedade de uma forma que interfere com a interpretação da organização espacial humana como produto social, que é o primeiro passo fundamental para entender a dialéctica sócio-espacial. O espaço entendido como contexto físico gerou um grande interesse filosófico e longas discussões sobre as suas propriedades absolutas e relativas (um debate longo que é anterior a Leibniz), as suas características como “contentor” ambiental da vida humana, a sua geometria objectivável, e as suas essências fenomenológicas. Mas este espaço físico foi uma base epistemológica desviante para analisar o significado subjectivo e concreto da espacialidade humana. O espaço em si pode estar fisicamente dado, mas a organização e o significado do espaço é um produto da experiência, da transformação e da dinâmica social."

Ou seja, cabe distinguir os conceitos de "espaço", enquanto "cenário" (ou nem isso), com as suas características físicas, e "espacialidade", termo empregue para designar o espaço socialmente construído, percebido e vivido.

O espaço produzido socialmente é uma estrutura produzida comparável a outras construções sociais resultantes da transformação das condições inerentes a estar vivo, tal como a história humana representa uma transformação social do tempo. De igual maneira, Lefebvre distingue entre a Natureza como contexto dado e o que pode chamar-se “segunda Natureza”, a espacialidade transformada e socialmente concretizada surgida da aplicação do trabalho humano intencional. É esta segunda Natureza que se torna sujeito geográfico e objecto da análise materialista histórica, de uma interpretação materialista da espacialidade.

O espaço não é um objecto científico separado da ideologia e da política: sempre foi político e estratégico. Se o espaço tem ar neutro e de indiferença para com o que ele contém e parece assim como puramente formal, o epítome da abstracção racional, é justamente porque foi ocupado e utilizado, e já foi alvo de processos passados cujas pegadas nem sempre são evidentes na paisagem. O espaço foi conformado e moldado a partir de elementos naturais e históricos, mas ele foi um processo político. O espaço é político e ideológico. É um produto literalmente carregado de ideologias.
Henri Lefebvre, Reflexões Sobre a Política do Espaço, 1976

Talvez esta forma de encarar o espaço seja nova, mas a resposta é novamente negativa, como veremos. Mas continuemos com Soja.

A noção-chave que Lefebvre introduz na frase em epígrafe assume-se como a premissa fundamental da dialéctica sócio-espacial: que as relações espaciais e sociais são dialecticamente interactivas, interdependentes; que as relações sociais de produção ao mesmo tempo que conformam o espaço, são condicionadas por este (pelo menos enquanto tivermos uma visão do espaço organizado como socialmente construído).
Dentro de um marco regional em vez de urbano, Ernest Mandel desenvolveu ideias muito parecidas. No seu exame das desigualdades regionais em capitalismo, Mandel afirmou que “o desenvolvimento desigual entre regiões e nações é a essência mesma do capitalismo, ao mesmo nível que a exploração do trabalho pelo capital”. Ao não subordinar a estrutura espacial do desenvolvimento desigual às classes sociais mas, sim, colocando-a “ao mesmo nível”, Mandel identificou uma problemática espacial na escala regional e nacional que se assemelhava muito à interpretação de Lefebvre da espacialidade urbana, ao ponto de sugerir o surgimento de uma poderosa força revolucionária a emergir das desigualdades espaciais que claramente via como necessárias para a acumulação capitalista. No seu trabalho principal, Late Capitalism (1975), Mandel centrava-se na importância histórica crucial do desenvolvimento geográfico desigual no processo do capitalismo. Ao fazê-lo, apresentou uma das análises marxistas mais sistemáticas e rigorosas da economia política do desenvolvimento regional e internacional jamais escritas."

Inspirado pelas leituras de Henri Lefebvre, que já trouxemos aqui com "O Direito À Cidade", de Focault e outros, Edward Soja desconstrói o conceito e procura, dentro do próprio marxismo, enquanto atitude e prática críticas e emancipadoras, as razões para a espacialidade ter sido relegada para o pátio das traseiras epistemológico.

Sem nos alongarmos em grandes explicações, as razões por ele encontradas podem resumir-se a três:

1 – A aparição tardia da obra de Marx “Grundrisse”

Esta obra, a mais eminentemente geográfica do pensador alemão, só começou a difundir-se bem depois da Guerra de 1939-45. “Aliás, como hoje sabemos, Marx nunca concluiu os seus planos para os volumes seguintes a”O Capital”, que deviam abordar o comércio mundial e a expansão geográfica do capitalismo, cujo possível conteúdo só ficou insinuado posteriormente nos “Grundrisse”. Na ausência destas fontes, a ênfase foi colocada na teorização do sistema fechado, sobretudo aespacial, dos volumes publicados d”O Capital” (…) Graças às contribuições de Bukarine, Lenine, Luxemburgo, Trotsky e outros, a teoria do imperialismo e as conceptualizações associadas aos processos de desenvolvimento desigual tornaram-se no principal contexto da análise geográfico dentro do marxismo ocidental. Havia uma problemática espacial implícita nessas teorizações do imperialismo, mas ficavam-se no mero reconhecimento de uma limitação física final para a expansão geográfica do capitalismo.

2 – As tradições anti-espaciais no marxismo ocidental.

Em muitos sentidos, Hegel e o hegelianismo transmitiam uma ontologia poderosa e uma fenomenologia espacializada que reificava e fetichizava o espaço sob a forma física, o locus e o meio da razão completa. (…) O tempo ficava subordinado ao espaço e a própria história era dirigida por um “espírito” territorial, o Estado. O anti-hegelianismo de Marx não se limitava à crítica materialista da do idealismo. Era também uma tentativa de devolver a primazia à historicidade – a temporalidade revolucionária – sobre o espírito da espacialidade. Deste projecto emergiu uma sensibilidade poderosa e uma resistência à afirmação do espaço enquanto determinante histórico e social.
(…)
Menção à parte merece o carácter anti-espacial do dogmatismo marxista saído da Segunda Internacional e que se consolidou sob o estalinismo, tendo sido as questões espaciais tratadas dentro de uma abordagem de um estéril reducionismo económico.

3 – As condições mutáveis da exploração capitalista.

Como as fórmulas da composição orgânica do capital e da taxa de lucro, o seu derivado assume a visão de um sistema fechado das relações de produção capitalistas, desprovidas de diferenciação e desigualdade geográficas significativas. Além disso, dada a urbanização massiva associada à industrialização em expansão, a reprodução da força de trabalho era um assunto muito menos crucial que o processo de exploração directa através de um sistema de salários de subsistência e a dominação do capital sobre o trabalho no lugar da produção. Para a extracção da mais-valia absoluta, a organização social do tempo parecia ter mais importância que a organização social do espaço.

No capitalismo contemporâneo, a exploração do tempo de trabalho continua a ser a fonte principal da mais-valia absoluta mas com uns limites crescentes que surgem da redução do horário de trabalho, dos níveis de salário mínimo, dos acordos laborais e de outras vitórias da organização da classe trabalhadora e dos movimentos sociais urbanos. Para continuar a conseguir essa mais-valia, o capitalismo viu-se forçado a investir na tecnologia, nas modificações na composição orgânica do capital, a reconhecer o papel crescentemente dominante do Estado, e às transferências líquidas do excedente associadas à penetração de capital em esferas de produção não geradoras de lucro (internamente, através da intensificação, bem como externamente, através do desenvolvimento desigual e a “extensificação” geográfica a regiões menos ou nada industrializadas de todo o mundo).


(Continua)