terça-feira, março 30, 2010

Comunicado do MCLT

CIDADÃOS QUEREM CLASSIFICAÇÃO DA LINHA DO TUA COMO PATRIMÓNIO DE INTERESSE NACIONAL

Um conjunto de cidadãos que tem vindo a lutar pela preservação e classificação da Linha do Tua, assim como personalidades do meio cultural, artístico, académico, científico, ambientalista e político, vai entregar no IGESPAR (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico), o requerimento inicial com vista à abertura do processo de classificação da Linha Ferroviária do Tua como Património de Interesse Nacional, sustentado na Lei nº 107/2001de 8 de Setembro (Lei de Bases do Património Cultural).

A Linha do Tua, via métrica com mais de 120 anos, implantada nas arribas do Vale do Tua, merece, segundo os requerentes, a classificação como Património de Interesse Nacional, não só pelo papel histórico que desempenhou e pela obra-prima de engenharia portuguesa que constitui, mas também, e ainda, como exemplar único do património ferroviário e industrial do nosso país. Os requerentes consideram ainda que este património tem elevado potencial para o desenvolvimento turístico para a região.

Os subscritores deste documento convidam os senhores jornalistas para estarem presentes na entrega deste requerimento ao presidente do IGESPAR (Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa), na próxima sexta-feira, dia 26 de Março, pelas 11.00h, momento em que será divulgado o nome dos subscritores.

Lisboa, 24 de Março de 2010

Movimento Cívico pela Linha do Tua

domingo, março 28, 2010

Os ricos fazem isto

E nós fazemos parte dos ricos.

A propósito disto.

quarta-feira, março 24, 2010

Os livros vão morrer - a história repete-se

(
Não nos dão tempo para esquecer a história.
Ei-la novamente:
)



Foram metidos em caixotes.
Apertados até não caberem mais.

As ordens recebidas, foram as ordens cumpridas.
Sem pena, sem ressentimento.

Os capatazes ao serviço sabiam que ia ser a sua última viagem.
Se houve um soldado que tentou salvar algum, ele será condenado, queimado no mesmo fogo.
...

Os livros vão sobreviver.
Mas alguns não, amigo.
Alguns não.


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In the name of...!!!!!!!!!!!!!!!!!!


A história está cheia de biblioclasmos.
O amigo Artur Portela falava-nos das ameaças ao livro. Não referia a reciclagem e transformação do papel em nova pasta de papel. Para novos livros.
Já não pelo fogo, mas novamente a destruição do passado.

Esta empresa transformada em governo e com aspirações a império, que põe e dispõe perante a passividade geral.

Os agentes difusores de cultura não são só empresas ou associações ou conjunções de esforços. Têm responsabilidade social. Deles depende o alicerçamento de um povo.
Assim inacessibilizados, privam esse povo do acesso a si mesmos.
Ao seu passado, à sua memória.
Um povo sem memória é um povo parado na História e sem
futuro.

O que está na ordem do dia.
Por trás, a "sustentabilidade económica".
Pois, pois.
Sabemos bem o que anda a governar e a destruir esta sociedade parida da Revolução Industrial...
O único deus possível: o dinheiro.

Não interessam mortos, estropiados, todas as atrocidades e crimes (virão um dia nos manuais escolares como algo inevitável, até como desejável pela necessidade dos tempos, "naquela altura"...)... o que interessa é que o deus comande.
E que alguém comande esse deus.
Para esse deus continuar a perpetuar-se no tempo.
Para o poder continuar sempre nas mesmas mãos.

Mãos masturbadoras e sujas de sangue saídas do capitalismo industrial, financeiro, de guerra ou o raio que o parta e todas as formas que venha a assumir...

Pois, por mim, eu quero é que esse deus se f...!!!!!!!!!!!!

Os meus valores são outros e incompatíveis com a corrupção do Homem.
Deus (este, pelo menos) é uma excrescência do Homem.

Paremos de adorá-lo!
Digamos NÃO!
Reinventemo-nos.


Imagem extraída daqui à qual justapus um símbolo do pior da História humana.

sexta-feira, março 19, 2010

You've come a long way, baby




Desabafo no domínio do hipotético-filosófico.

A primeira questão para propor o tema pode tão-só traduzir-se nestes moldes:

Qual a relação entre a dimensão de um ser vivo e o número de exemplares de seres vivos dessa mesma espécie?

E estoutra, já centrando-nos mais na coisa:

O que é mais fácil alimentar, um animal grande ou um animal pequeno?

Poderemos argumentar que - mas é apenas nisto que entronca a resposta - o grau dessa facilidade dependerá sempre da disponibilidade de alimento no meio em que esse animal estiver inserido.

Pois, mas contra-argumentando, temos a experiência de que alimentar um doberman é bem mais dispendioso que alimentar um gatinho. Certo? Isto prender-se-á com a dimensão dos dois bichos?

Adiante.
Os seres vivos mais abundantes no planeta são de que dimensão? Grandes ou pequenos?
Bactérias, micróbios e insectos são bem abundantes.
Também há muitos peixes.
E árvores.

Estamos, no fundo, a falar de biomassa.

Será possível contabilizar o número de seres de uma espécie? Talvez apenas em populações já reduzidas. Daí ouvirmos dizer que a perda de um exemplar é uma grande perda. Porque relativamente ao total, representa muito.

Mas andam os cientistas, biólogos e zoólogos a contar tudo o que se mexe por si próprio aí pela Terra?

Por isso, esta é uma crónica hipotético-filosófica.
Assim, continuemos.

Maior esforço tem a baleia para se alimentar e sustentar o seu enorme corpo, apesar de - ou por causa disso mesmo! - se alimentar de seres pequeninos (plâncton e zooplâncton, certo? Esperamos não andar aqui a dar calinadas de todo o tamanho e a comprometer a credibilidade de quem apenas quer propor silogismos...).

Quantas baleias há no oceano?
Quantas restam?

Meus amigos, ouvi um biólogo um dia dizer algo parecido com o seguinte (ou fui eu que assim o retive desde aí):

A história da extinção das espécies é um contínuo decrescer no tamanho dos seres que vão desaparecendo.

Não vamos falar nos dinossauros, cuja extinção ainda se crê não ter sido progressiva (sempre falando numa escala humana) mas súbita.

Os mamutes, os rinocerontes, os leões, os macacos...

Porque é a espécie humana tão abundante no planeta?
A que custo?
Quantas espécies mais pequenas se multiplicam para o sustentar (no caso de haver um equilíbrio na Natureza)?

Quantos animais ainda há maiores que nós?

Não sei se estais a acompanhar o raciocínio que anda por aqui escondido.
Sem saber explicá-lo muito bem, em breve só restarão moscas e outros ínfimos bichos.
E isso não é diversidade sustentável.
Até lá e pelo caminho muitos corpos irão tombar.

O optimista "Hasta aqui hemos llegado."
está a dar lugar ao catastrofista "You've come a long way, baby..."

São os tempos que sopram.
A ventoinha que inventámos para nos dar frescura produz, sem outra hipótese, necessariamente, calor com o consumo de energia.

E pergunta o inteligente:
Não seria melhor suportar a vida sem ventoinha "at all"?



"Que é vai ser hoje?
Acho que vou experimentar tubarão. Nunca comi.
..."

É como termos uma fila de animais e nos perguntarem qual é não merece viver.
"Acho que me apetece matar aquele."

Toneladas de peixe todos os dias, assim o anunciam.
Multiplicado pelo número de estabelecimentos no país.
Multiplicado pela rapidez do consumo.
Subtrai-se a lentidão da recuperação das espécies.

E no fim, o que temos?

Temos apenas um slogan temporário.
Mas numa escala que não assusta o efémero Homem.

Para trás deixou a extinção.
E contente é aquele que se atira, cumprida a sua missão, para a mesma fogueira.

quinta-feira, março 18, 2010

Espólio de Orlando Ribeiro na BNP

Notícia da CiênciaHoje, aqui.

sexta-feira, março 12, 2010

E no entanto ela move-se

Abalar - v. tr. fazer tremer; sacudir agitar; fig. fazer mudar de propósito; demover; impressionar; assustar; inquietar; intr. tremer; aluir; partir com pressa (Lat. advallare, de vallu e valle)
Dicionário da Língua Portuguesa, 5ª ed., Porto Editora*

Precisamos da luz para ver e dissociar as coisas.
Saber discernir, ter clarividência.
Acontecimentos súbitos, extraordinários, impactantes, retiram-nos frequentemente essas capacidades, com a emoção no lugar da consciência.

Aos países ou lugares pobres do mundo dizem que são atrasados.
Mas atrasados em quê?
No tempo? Como, se vivemos todos no Presente (não importam as convenções horárias)?
No espaço? Mas eu não vejo os países a recuar...
Sim, de vez em quando há por aí uns fenómenos, muito estranhos e que ainda não compreendemos muito bem, que deslocam a terra. Olhem por exemplo a falha de Santo André, uma falha transformante que é responsável pela deslocação das placas de uns míseros 33 a 37 milímetros por ano. Coisa pouca, claro está.
Ah, sim, também é verdade, não vamos escamotear os factos. É que a história sísmica da falha já teve umas deslocaçõezitas maiores, na ordem dos quilómetros. Como em 1906, em que foram apenas 477...
OK (não, porque morreram pessoas, pelo que a expressão "zero killed" não cabe aqui tão bem), mas os Estados Unidos continuam paradinhos no mesmo sítio!!

Ah, dizem que o termo "atrasado" se aplica ao desenvolvimento económico. E que umas nações ou regiões são então, relativamente atrasadas. Pela desigualdade, uns, mais à frente, vão mais à frente, simplesmente, porque outros ainda vêm lá atrás. Isto é tão giro!
Podíamos passar a vida nestes jogos de linguagem.

(a menina parece já estar a planear uma nova casa...)
Imagem retirada daqui

Há quem passe a vida a abalar de um lado para o outro, em busca de melhores condições. Económicas. Ou em fuga. Por exemplo de factores geográficos adversos.
E num tempo em que uma parcela cada vez mais substancial dos nossos telejornais é dedicada às notícias relacionadas com o ambiente, com a meteorologia, com catástrofes naturais, degelos, incêndios, derrocadas, secas (bem, as silenciosas secas e desertificações por essas regiões afora até nem são notícia por aí além, que de tão habituados à rapidez, não conseguimos distanciar-nos e ver a sua lentidão progressiva e assustadora), calcula-se para este ano em que estamos que os refugiados ambientais podem ascender aos 50 milhões de pessoas.
Mas que é isso, num mundo com com 7 biliões??
Uma gota no oceano. Salgada e intragável? Mas nós também precisamos de fugir da hipotensão...

Mas os refugiados ambientais, e os outros, que só querem é poder viver, propagar a espécie e deixar descendência (é este o sentido da vida? A avaliar pelo número acima tem sido, pelo menos, a
direcção da espécie humana), vão abalar para onde? Chegam a países que lhes "franqueiam as portas à chegada", que até os levam de volta, "back to where they belong!" (esta expressão soa bem mais arrogante em inglês, não acham?). Chegam a sítios onde estarão, mais cedo ou mais tarde, sujeitos a problemas semelhantes, sem acesso a água [Não posso deixar escapar esta: "É um triste reflexo da nossa sociedade que algo tão básico como a água potável seja, hoje em dia, um produto engarrafado e embalado. Discordo (PPC e PR). Concordo (AB)"**], a casa, novamente sem trabalho ou maneiras de sustentarem as suas vidas.

E isto
abala as consciências?
Faz-me lembrar aqueles que, como em Nápoles, vivem à sombra do Vesúvio. Sobre isto, a Viquipédia diz-nos assim
"
Com 1220 metros de altura, o Vesúvio não entra em erupção desde 1944. Em 1968, chegou a entrar em actividade, mas não expeliu lava. A suspeita levantada por especialistas diz que se ele entrar em actividade novamente mataria milhões de pessoas em apenas alguns minutos."
Mas será que as pessoas deixam de viver ali, à sombra do monstro?
Claro que não.
Para depois os sobreviventes (dali ou doutros lados) poderem chorar e escarnecer das audiências dos telejornais com o sofrimento alheio e com a perseguição a presumíveis responsáveis, alibis e bodes-expiatórios.
...

O maior abalo sísmico do Haiti, no passado dia 12 de Janeiro, foi de 7 graus na escala de Richter (pelos estragos, qual terá sido a de Mercalli?) teve o hipocentro a 13 quilómetros de profundidade e epicentro a escassos quilómetros da capital, Port-au-Prince, que se viu, assim, arrasada.
Num dos dias subsequentes, julgo ter ouvido pelas notícias que o Presidente do país (ou terá sido o Primeiro-Ministro? Bem, esta não é a questão essencial) tenciona
(cito de memória) planear a cidade, distribuindo os seus habitantes pelo resto do país, numa zona menos susceptível. Para evitar tanta concentração populacional.

...

Terei ouvido bem??
Mas este senhor anda a sonhar ou quê? Aonde raios foi ele desenterrar uma ideia destas? Por favor, alguém que explique a este senhor que as coisas não funcionam assim nos países pobres. E ele que retire já o que disse, para não dar maus exemplos ao resto do mundo...

Adiante.
Perdoemos este lapsus linguae e concentremo-nos em questões mais importantes.

Ah... pois...
(que mania de a Terra andar sempre a distrair-nos da nossa vidinha...)
outro abalo destruidor, agora na Turquia, no passado dia 8, atingiu os 5,9 na escala de Richter e teve epicentro em
Basyurt-Karakocan.
E leio na Visão de ontem, 11 de Março, que o Primeiro-Ministro turco anunciou, aliás, uma revisão das políticas de construção na área.

Mas quê? Outro iluminado??? Mas que raio se anda a passar com estas criaturas?
É inadmissível. E o culpado disto só pode ter sido o senhor haitiano que proferiu aquela barbaridade acima... Rais' partam os meios de comunicação, que andam a espalhar ideias perigosas...

...

Claro, nesta enxurrada de desastres naturais (originalmente naturais, amplificados depois pela existência de seres que os sofrem. Daí o conceito de "risco ambiental", pois, e citando Fernando Rebelo, "a noção de risco sem vulnerabilidade nem sequer é considerada por grande parte dos autores que se debruçam sobre esta temática." (Rebelo, p. 252)***), não podemos esquecer-nos do que aconteceu na Madeira, e cuja fotografia do mês nos deixa sem palavras.


João Jardim, uma mente muito mais capaz, modesta e senhora de si, refractária a emoções e mortos, não se deixa abalar (e também não abala) e diz que voltará a construir tudo no mesmo sítio. Isto, sim, já é mais consentâneo com os nossos hábitos de país atrasado.

Uma citação engraçada, de mais um desses fundamentalistas reza assim:

Como foi possível construir em leito de cheia e em locais de risco de derrocadas sem violar as directivas europeias?
Muitas das obras de canalização das ribeiras foram feitas em pleno Terceiro Quadro Comunitário de Apoio (com o apoio do Feder - Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional) e ao abrigo dos programas de defesa do Ambiente. Algumas dessas obras foram bem feitas, foram importantes para defender localidades, tanto no Funchal como fora do Funchal.

Mas outras não. As obras foram autorizadas e financiadas e passaram no Tribunal de Contas e tudo foi feito de forma legal. Mas possivelmente o conceito de leito de cheia varia consoante os técnicos que dão os pareceres. E sabe bem que os estudos de impacto ambiental são encomendados pelos promotores das obras, é assim em todo o país...

Retirado daqui.

O tempo é de reconstrução. E se a destruição é sempre uma perda, a reconstrução, assim, à nossa maneira pequenina de ser, parece soar a uma grande festa.

"Em 1999, quando o povo timorense estava a ser massacrado pelas milícias indonésias, criou-se uma onde de solidariedade a favor de Timor-Leste. Nessa altura, o presidente do GR da Madeira negou-se a ofertar qualquer verba, admoestando até o governo de Guterres. Hoje, porque o povo da Madeira necessita de ajuda, Timor-Leste resolveu contribuir com 550 mil euros. Porque os seus dirigentes sabem o que é a solidariedade. E os madeirenses merecem, apesar dos seus dirigentes."
Ramiro Rio Novo (Correio do Leitor, na mesma Visão, p.12)


A vida é o que se move e altera.
E mesmo as pedras mais duras, antigas e de alho-chocho transformar-se-ão um dia, erodidas, esmagadas ou liquefeitas pelas forças da Natureza.
Se calhar, o tarde ou o cedo é que definem, por sua vez e humanamente, uma sociedade atrasada.
Em que o nosso corpo vai todo inclinado e todo futurista, precipitado, agora mais rapidamente, para o abismo, mas em que a nossa cabeça parece ter ficado ali algures atrás da Revolução Industrial e das suas consequências ambiental, urbanística, demográfica e economicamente perversas...

E, no fim, o suicídio vai abalar quem?


* Este dicionário, velhinho, cujo ano de edição desconheço (mas anterior a 1970), foi impresso na Rua da Fábrica, no Porto. Hoje, ao passarmos por lá, é como ignorarmos a História, indiferentes somos às ruínas dos edifícios em pé.
** PPC, PR e AB são as iniciais, respectivamente, de Pedro Passos Coelho, Paulo Rangel e Aguiar Branco. A citação refere-se a um teste feito a pessoas para avaliar o seu posicionamento no espectro político. Vem na Visão de ontem, p.54)
*** REBELO, Fernando (2003) - Riscos Naturais e Acção Antrópica - Estudos e Reflexões, 2ª Ed. Revista e Aumentada, Imprensa da Universidade de Coimbra, 286 pp.
Imagem do sismo na Turquia retirada daqui.
Imagem de João Jardim retirada daqui.