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quarta-feira, agosto 26, 2015

Maravilhar-se, por Rachel Carson

Título: Maravilhar-se - Reaproximar a Criança da Natureza
Edição Original: The Sense of Wonder (1956)
Autor: Rachel Carson
Tradução: J. C. Costa Marques
Edição: Novembro de 2012
Editora: Campo Aberto / Edições Sempre-em-Pé
ISBN: 9789728870362
Paginação: 104 páginas

Esta é uma co-edição da associação de defesa do ambiente Campo Aberto e das Edições Sempre-em-Pé e, para além daquele belo texto de Rachel Carson, contém fotos ilustrativas, uma análise da actualidade do legado e uma pequena biografia sobre a escritora bióloga estadunidense. O que, face à extrema dificuldade de encontrar o seu seminal "Primavera Silenciosa" - sim, houve uma edição por cá, na editora Pórtico, em 1964 - constitui um acrescento valioso, face à singeleza e pequenez do texto originalmente publicado num jornal.

Inspirada pelo seu sobrinho-neto, com quem passava os dias a descobrir a natureza em torno do local onde morava, no Maine (costa este, junto ao Canadá), descreve as razões e as maneiras do porquê empreender tal tarefa, pedagógica, se assim podemos dizer.

Em primeiro, trata-se de redescobrir - mesmo que em tenras idades - os sentidos, exercitando-os com detenção e paixão. Isto implica arrancar da anestesia geral o sentido do olfacto, reaprender a escutar atentamente para discernir os pequenos sons do espaço à nossa volta. A visão será talvez aquele, hegemónico, que a sociedade do espectáculo nos ensina a usar mais vezes. O que não quer dizer usar necessariamente bem. A cada realidade suas necessidades.

Em segundo lugar, e o mais importante doravante, não será tanto inundar-nos de informações ligadas àquilo que vemos, ouvimos e cheiramos, mas sim respeitar, junto dos seres vivos (fauna e flora) e dos restantes elementos da natureza, os ritmos da contemplação e da fruição. O mistério e o descobrimento serão os pêndulos donde nascerá a paixão e o sentimento que, estes sim, ficam gravados desde cedo e não cessarão de dar frutos pelo futuro.
No futuro, então, sim, os nomes e a compreensão, científica ou de senso comum, que ligamos àquilo que presenciamos e vivemos ajudarão a completar o gosto e o respeito pela natureza.


Numa análise crítica - sendo uma auto-crítica, antes de mais - devemos dizer que este ensinamento ficará cerceado se não pudermos conviver com a natureza. Ela está por todo o lado, argumenta Rachel Carson: nos jardins, no vento, nas estrelas, na chuva, nos pequenos animais.
Sendo isto certo e ela passível de fruição, todos conhecemos quantos obstáculos o homem citadino que maioritariamente somos sentiu necessidade de criar para assim - diz, sussurrando - se sentir mais seguro: dentro de paredes (casa, supermercado, centro comercial genericamente falando, que só parecemos saber consumir...) não chove, impedimos o vento de nos bater na cara e à chuva de nos molhar; as luzes que iluminam as cidades poluem a escuridão do universo estelar e impedem-nos de vislumbrar as bolas de fogo.
Resta pouco, sóis e luas para os que não inventámos ainda fuga eficaz.

Ah, também há admiráveis mundos novos que nos transformam em robôs (é para isso que serve o trabalho, que em várias línguas eslavas é o que quer dizer) e em pessoas desprovidas de sentimento. O que é a ocultação da morte senão uma tentativa de anestesia mental e psicossomática profunda? Vai na mesma linha da destruição do que é ser-se Homem. Começa por coagir e limitar as manifestações animais que há em nós. A ver se nos "civilizam" por inteiro...

E, como capitel, a rarefacção do silêncio impede-nos da intimidade connosco mesmos. Mesmo se tiveres tempo, a ausência do silêncio manter-te-á distraído de ti mesmo até ao fim dos teus tempos.

A desumanização que a nossa domesticação proporcionou ao Homem (os animais e as plantas não no-lo pediram, mas também não interessa...) deveria dar lugar a uma selvajaria que não se sentisse tão bem com as sombras dos cemitérios do cimento.

Já seria um começo de algo diferente.


Terminámos com duas últimas notas, imprescindíveis a pretexto: 

- os tóxicos bioacumuláveis que "semeamos" com os pesticidas lembram-nos que a única dose segura é a dose zero. Pois - se é necessário explicá-lo - ao longo da cadeia alimentar, se eles não são elimináveis... é uma questão de tempo. As bombas relógio das doenças inexplicáveis como o cancro já têm explodido há alguns anos, mas isso é porque as bombas, essas, começámos a produzi-las há muito mais tempo atrás. É disto que fala o livro Primavera Silenciosa, das primaveras em que não haverá pássaros.
E numa sociedade sacarínea, sacana e gordurosa (é nos tecidos gordos que se acumulam os metais pesados) é por aí que continuamos a trilhar o rastro de destruição.
Ah, como nota ou curiosidade para os mais distraídos, refira-se que um dos grandes produtores de pesticidas é também um dos papás-papões dos transgénicos. Sim, a fantástica, tentacular e calcinante Monsanto.
- Rachel Carson viu também o que amiúde esquecemos, de tão óbvio:
"As criaturas selvagens, como os seres humanos, precisam de um lugar para viver. À medida que a civilização cria cidades, constrói estradas e seca pântanos, ela ocupa, pouco a pouco, a terra favorável à vida selvagem. E à medida que diminui os seus espaços de vida, as próprias populações da vida selvagem declinam."

E isto já foi dito há muito tempo...

quarta-feira, março 18, 2015

Alegoria do Património, por Françoise Choay (1/3)

O ar morno e sufocante
Penetrava pela janela
Toda a estância balnear
Esmagada pela quentura
Parecia estar deserta
Concentrados à beira mar
Muitos corpos escaldados
Estendidos uns sobre os outros
Como nacos de vianda
Nos balcões dos supermercados
Mais um dia sem demanda
Neste enfado

"Estância Balnear", Mão Morta


Título: Alegoria do Património
Edição Original: L'Allégorie do Patrimoine (1982)
Autor: Françoise Choay
Tradução: Teresa Castro
Revisão: Pedro Bernardo
Edição: Junho de 2010
Editora: Edições 70
ISBN: 9789724412740
Paginação: 308 páginas


Neste livro, a autora começa por uma introdução aos conceitos de monumento e património ao longo da história para perceber a sua evolução e como este culto se tornou num dos princípios modeladores, não só das cidades, mas também das mentalidades e da agudização da economia capitalista.

Pelas diversas conquistas, reconquistas e abandonos dos territórios europeus ao longo dos séculos, os edifícios, em ruínas ou não, foram sendo “notados” pelos poderes (eclesiásticos, feudais, políticos…) ou por individualidades (intelectuais, artistas, antiquários (originalmente, aqueles que prezavam as coisas e os conhecimentos dos antigos) e, muito mais tarde, arquitectos e urbanistas). Tal significa que foram sendo tomados como portadores de uma história sobre os povos e as regiões.

Nos começos, como hoje (e esta é uma constante ao longo dos diversos paradigmas civilizacionais ditos “ocidentais”, onde tal culto começou, para depois se expandir, imperialisticamente, pelos “novos” mundos e não tão novos - Choay cita o exemplo do Japão), essa valorização do passado edificado, sob a forma de edifícios e construções do mais diverso tipo, não é necessariamente sinónimo de protecção.

“(…) o desenvolvimento das colecções e a bulimia dos coleccionadores, quer se trate de inscrições ou de esculturas, encontravam um terreno privilegiado nos edifícios aos quais essas pedras erram arrancadas sem pudor. Este tipo de degradação devia crescer com o número dos amadores e com o progresso do comércio da arte.” (p.58)

A negrito, as duas causas principais que se vislumbram como exacerbamento da situação nos tempos actuais. Parêntesis, nosso, para mencionarmos as tão conhecidas visitas a geossítios (como a pedreira das pedras parideiras, na Serra da Freita, ou a pedreira do Galinha, ou outro, onde, mesmo com medidas de salvaguarda como delimitação do “fenómeno a observar”, nos deparamos com pedras arrancadas por aqui e por ali. Se fosse possível, também levaríamos os buracos das pegadas…)

Mas a autora exprime ainda melhor o paradoxo desta “valorização”:

Finalmente, a atitude contraditória dos papas e da sua corte é ditada sobretudo por políticas económicas e técnicas ligadas à necessidade de embelezar e de modernizar a cidade e de a tornar numa grande capital secular. A urgência da acção exige materiais de construção, de que não se dispõe em quantidades suficientes, e espaços livres para se realizar os seus programas e rivalizar com a obra da Antiguidade. Tal como mais tarde, no contexto da modernização do classicismo, ou ainda na sequência da venda dos bens nacionais iniciada em França com a Revolução, ou mesmo como ainda hoje diante dos nossos olhos e pelas mesmas razões, os empreendedores e os promotores dos trabalhos são, muitas vezes, os executantes das rasteiras obras de destruição.” (p.58)

Em tempos de picos de concentração e de desequilíbrios, escasso fica também o espaço, outra das causas para a degradação daquilo este culto do património pretende precisamente defender.

Mais à frente:

A consagração do monumento histórico não mereceria o seu nome se se limitasse ao reconhecimento de novos conteúdos e valores. Ela está, para além disso, fundada sobre um conjunto de práticas cuja institucionalização foi catalisada pelo poder das forças destrutivas – já não deliberadas e ideológicas [“vamos pilhar e destruir esta marca da civilização / ideologia anterior pois a nossa/s é/são moral e esteticamente superior”], mas inerentes à lógica da era industrial – que ameaçam desde então os monumentos históricos. A mutação que transforma simultaneamente os modos de vida e a organização espacial das sociedades europeias torna obsoletos os tecidos urbanos antigos. Os monumentos que aí se inserem aparecem de repente como obstáculos e entraves a derrubar ou a destruir para dar um lugar limpo ao novo modo de urbanização, ao seu sistema e às suas escalas viárias e parcelares. Para além disso, a manutenção dos edifícios antigos é cada vez mais negligenciada e o seu restauro já não obedece a conhecimentos regulamentados. É-se assim confrontado com dois tipos de vandalismo, que foram, na época, designados em França e em Inglaterra pelos mesmos adjectivos: destruidor e restaurador.” (pp. 150-1)

Françoise Choay vai realçando que, para o crescimento dos instintos protectores dos, portanto, monumentos, se foram conceptualizando formas de preservação como a legislação e o restauro (sob diversos tipos de intervenção, assunto em que os primeiros teóricos divergiam radicalmente. Mais tarde, foi achado um ponto de equilíbrio entre o “deixar apodrecer, porque é assim que ele foi feito e nós não podemos tocar-lhe” e as “obras de protecção para a salvaguarda da integridade do edifício”).

Mais, esta perspectiva protectora foi-se alargando até “tomar conta” dos próprios espaços edificados e de cidades inteiras. Porém, a autora refere que se trata de um fenómeno muito recente: “(…) a história da arquitectura ignora a cidade. Sitte nota com pertinência em 1889: «Mesmo a nossa história da arte, que trata dos fragmentos mais insignificantes, não reservou o mais pequeno lugar à construção das cidades.» Entre a Segunda Guerra Mundial e os anos oitenta do século XX, poucos são ainda os historiadores e os historiadores de arte que trabalharam o espaço urbano.” (p.192)

E prossegue:

Hoje em dia, assiste-se, contudo, a um florescimento de trabalhos sobre a forma das cidades pré-industriais e das aglomerações da era industrial. Este movimento foi impulsionado pelos estudos urbanos (…) A conversão da cidade material em objecto do saber foi provocada pela transformação do espaço urbano consecutivo à revolução industrial: abalo traumático do meio tradicional, emergência de outras escalas viárias e parcelares. É então que, por efeito de diferença e, de acordo com a palavra de Pugin, por contraste, a cidade antiga se torna objecto de investigação.” (p. 193)


(continua)

segunda-feira, janeiro 26, 2015

Os Mapas Possíveis


O RSOE EDIS, serviço de informação de situações de emergência, apresenta, numa representação mapeada legível e simples, as situações de risco que estão a ocorrer (quando noticiadas, obviamente).

Como riscos são contemplados os naturais e antropogénicos. Isto é, não só sismos, tufões, cheias, deslizamento de terras, mas também riscos biológicos, radioactividade, desastres industriais.

Outros mapas haverá de conflitos militares, económicos e religiosos.
E hoje, alguns, receosos - quais guardiões da democracia - deverão estar a imaginar o alastramento da esquerda nos países com eleições vindouras.

Como outrora o perigo vermelho.
Ou a ameaça imperialista nazi.

Desculpem lá a mençãozita mas, só para quem não souber:
aquando das primeiras eleições livres por cá, em 1976, se o Partido Comunista tivesse tido a maioria, os EUA estavam prontos para entrar no país com uma intervenção militar. Frank Carlucci, o tal embaixador que negava sempre ser da CIA (mas que era), dixit. Está nos livros. Procurem.

Ah, os tempos eram outros, quando havia a divisão mundial em dois blocos ideológicos.
Ainda bem que isso pertence ao passado.
Hoje só pode haver um bloco.
E se só há um, não há bloco.
Somos um todo.

Cuidado com as ovelhas tresmalhadas.
Logo os mercados e suas regulações-estrangulações se põem em marcha.
Para as pôr na fila.

Arbeit macht frei, diz a nossa divina austeritária providência financeira mundial sem rosto e de braço armado.

Que pobreza andarmos ainda a viver na pegada destruidora do século XX.
A evolução e o modernismo são meramente tecnológicos.
Pois miséria real, a da fome, do ambiente, da economia e a da mente aí persistem, sussurrantemente anacrónicas.

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Edward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical (II)

Redefinindo a problemática espacial

O desenvolvimento de uma análise espacial marxista sistemática coincidiu em boa parte com a intensificação das contradições sociais e espaciais tanto nos países centrais como nos periféricos devido à crise geral do capitalismo que se inicia nos anos 60. Mas já antes houvera precursores importantes dentro da tradição marxista ocidental que não deviam ser descurados.

Por exemplo, entre 1917 e 1925, na URSS, um movimento de vanguarda de planeadores urbanos, geógrafos e arquitectos trabalharam para conseguir “uma nova organização espacial socialista”, correspondendo a outros movimentos revolucionários na sociedade soviética. Não se encarava a transformação espacial como um subproduto automático da mudança social revolucionária mas, sim, que ele implicava também luta e a formação de uma consciência colectiva. Sem esse esforço, a organização pré-revolucionária do espaço teria continuado a reproduzir a desigualdade e as estruturas de exploração. Tais actividades inovadoras deste grupo de pensadores espaciais radicais nunca foram aceites e a sua experimentação revolucionária na reconstrução socialista do espaço acabou por ficar pelo caminho da industrialização e da segurança militar estalinista. O produtivismo e a estratégia militar dominaram a política espacial da União Soviética, quase enterrando por completo o significado de uma problemática espacial mais profunda na transformação socialista.


Esta planificação, das grandes praças, feitas para ou depois utilizadas (cada um apropria-se do espaço como puder...) para, por exemplo, concentrações, manifestações, demonstrações de poder ou fruição da vista aberta, implica a pré-noção, clara, de que não há neutralidade possível no "contentor" que é o espaço. O espaço ensina, permite umas coisas, impede outras. É, aliás, interessante uma das passagens de Soja, referindo-se ao seu estudo sobre Los Angeles, que, paradigma, segundo o autor, das grandes metrópoles (tal é o objecto do seu livro de 1996), contém em si a arquitectura da opressão. Não falando necessariamente no securitarismo da vigilância, nem das cidades-prisão, aponta alguns aspectos, citando Mike Davis e o seu livro "City of Quartz", como: bancos anti-mendigos, ausência de casas-de-banho públicas (humm, onde é que eu já ouvi isto?...), contentores do lixo protegidos e sistemas de rega que se ligam aleatoriamente durante a noite para dissuadir as pessoas de dormir na rua...

E se a organização urbana de estilo soviético faz isso, ela foi construída para inculcar valores e concepções que se insurgem contra aquelas, mais ou menos inconscientemente, instituídas pelo espaço urbano capitalista.

Mas continuando.

O capitalismo foi capaz de atenuar (senão resolver) as suas contradições internas durante um século e, consequentemente, nos cem anos decorridos desde a edição d”O Capital”, conseguiu alcançar o “crescimento”. Não podemos calcular a que preço, mas sabemos os meios: ocupando espaço, produzindo espaço.


Henri Lefebvre, A Sobrevivência do Capitalismo, 1976


Lefebvre relaciona este espaço capitalista avançado directamente com a reprodução das relações sociais de produção, ou seja, os processos pelos quais o sistema capitalista em conjunto pode expandir-se mantendo as suas estruturas definidoras. Ele define três níveis de reprodução e argumenta que a capacidade do capital para intervir directamente e afectar estes três níveis se incrementou com o tempo, com o desenvolvimento das forças produtivas. Em primeiro lugar, existe a reprodução bio-fisiológica, essencialmente no contexto da família e das relações de parentesco; em segundo lugar, a reprodução da força de trabalho (a classe trabalhadora) e dos meios de produção; e em terceiro, a reprodução ainda maior das relações sociais de produção. Sob o capitalismo avançado a organização do espaço passa a estar predominantemente relacionada com a reprodução do sistema dominante das relações sociais.


Vejam-se as cidades em que os espaços verdes, públicos, e os equipamentos colectivos são "des-alvo" de investimento e cuidado, sendo reduzidos e depauperados a cada novo censo que constitui um PDM. Já repararam que as árvores que temos, por exemplo, em Braga, são árvores que herdamos? E que herdámos de um passado já remoto: não tem havido expansão de área verde nem plantação de novas árvores com carácter duradouro em Braga. Tal traduz uns valores e, a nosso ver, trata-se de uma colonização dos espaços privados e das actividades económicas a substituírem a fruição livre da sociedade. Nada de novo, mas é também este o "direito à cidade" de que nos fala Lefebvre.

O espaço construído, sim, esse mesmo, fisicamente, a sua disposição, o que podemos fazer com ele, como nos movemos e o que realmente fazemos nele... ensina, transmite valores. E não é de admirar que seja uma corrente muito presente na sociedade portuguesa o pensamento único, separatista, xenófobo e fascista. Os ciganos, atirados para um canto. Os velhos, a ruírem por dentro da decadência, central ou periférica, da cidade. As crianças só vão ao centro para as creches, infantários e escolas: nada mais há lá para eles, já que os grandes centros comerciais, grande chamariz hipnotizadora, só podem expandir-se fora dos "cascos" ou das "cidades velhas". Há no centro de Braga uma praça, dita da República, e é sintomático como ela tem vindo a ser esvaziada: de pessoas, de actividades, de sentido. Isto, ironia, apesar de ser centralíssima para as actividades económicas... É estranho, não é?


Tais condições reproduzem-se no espaço produzido socialmente (tanto o urbano como o rural), numa espacialidade produzida e que foi sendo crescentemente “ocupada” por um capitalismo expansivo, fragmentado em pedaços, homogeneizado através de mercadorias diferenciadas, organizado através de localizações de controlo, e estendido à escala global. A sobrevivência do capitalismo dependeu desta produção e ocupação diferencial de um espaço fragmentado, homogeneizado e hierarquicamente estruturado, alcançado em grande medida por um consumo colectivo controlado burocraticamente (isto é, pelo Estado), pela diferenciação de centros e periferias a várias escalas, e pela penetração do poder do Estado na vida quotidiana. A crise final do capitalismo só poderá dar-se quando as relações de produção já não puderem reproduzir-se mais, e não só porque se pare a produção (estratégia permanente do operariado).

Assim, a luta de classes (sim, ainda há luta de classes) deve incluir e focar-se no ponto vulnerável: a produção do espaço, a estrutura territorial de exploração e dominação, a reprodução, espacialmente controlada, do sistema como conjunto. E deve incluir também todos os que são explorados, dominados e “periferizados” pela organização social imposta pelo capitalismo avançado: camponeses sem terras, pequenos burgueses proletarizados, mulheres, estudantes, minorias raciais, bem como a própria classe trabalhadora. Nos países capitalistas centrais, a luta, argumenta Lefebvre, assumira a forma de “revolução urbana”, lutando pelo direito à cidade e pelo controlo da vida quotidiana dentro do contexto territorial do Estado capitalista. Nos países menos industrializados, também se centrará na libertação e na reconstrução territorial, na tomada de controlo da produção do espaço e do seu sistema polarizado de centros dominantes de periferias dependentes dentro da estrutura global do capitalismo.


Com esta argumentação, Lefebvre define uma problemática espacial no capitalismo e eleva-a a uma posição central dentro da luta de classes ao colocar as relações de classe dentro das condições que configuram o espaço socialmente organizado. Não defende que a problemática espacial tenha sido sempre tão central. Nem apresenta a luta pelo espaço como substituta ou alternativa à luta de classes. Argumenta sim que nenhuma revolução social pode triunfar sem ser também simultaneamente uma revolução conscientemente espacial.” 

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Edward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical (I)

O espaço e a organização política do espaço expressam as relações sociais
 mas também influem nelas.
Henri Lefebvre

A rubrica livro do mês regressa ao Georden, desta vez com um dos nomes contemporâneos mais famosos das últimas décadas: Edward William Soja.

Novaiorquino nascido em 1941 (e não "californiano nascido na década de 1950, como aqui se lê), Soja cresceu no Bronx e a sua vivência da rua e do sentido colectivo, a brincar e jogar com os amigos, está na base da sua primeira sensibilidade para a leitura crítica do espaço. O seu espaço vital, diz, resumia-se a uma rua, pelo que um quarteirão mais adiante era considerado espaço estranho. Também o seu gosto por mapas apurou a apetência pela Geografia. O seu primeiro trabalho, sobre o Quénia, levou-o a explorar as realidades coloniais e a interessar-se por outras áreas do saber como a História, a Antropologia, a Arqueologia...

A principal marca de Soja foi e continua a ser - pasmem-se os Geógrafos e analistas das ciências sociais - a luta pela reivindicação da espacialidade como elemento central para a abordagem e leitura da realidade das sociedades humanas. 

A sua obra "Geografias Pós-modernas", de 1989, livro cuja tradução portuguesa disponível continua a ser, nada estranhamente, brasileira, tem, aliás, como subtítulo "A Reafirmação do Espaço na Teoria Social Crítica(em verdade, como se perceberá pela pequena bibliografia em anexo, na quarta parte deste artigo, essa é, tanto quanto sabemos, a sua única obra em Português.) e é dele que extraímos as passagens abaixo. 

(duas edições de "Postmodern Geographies", de Edward William Soja)

Trata-se, obviamente, de uma reivindicação natural do ofício. Mas porquê, então, a pertinência e novidade introduzida por Soja? 

A primeira resposta reside exactamente no espanto que esta assunção representa: será que os geógrafos não tomam o espaço como objecto principal nos seus estudos?

Segundo ele, um veemente não:

“A visão do espaço essencialmente como elemento físico influenciou profundamente todas as formas de análise espacial, seja ela filosófica, teórica ou empírica, aplicada ao movimento dos corpos celestes ou à história e à paisagem da sociedade humana. Também tendeu a imbuir tudo o que é espacial num persistente sentido essencialista e físico, de uma aura de objectividade, inevitabilidade e reificação.
Sob esta forma física abstracta e geral, o espaço foi conceptualmente incorporado na análise materialista da história e da sociedade de uma forma que interfere com a interpretação da organização espacial humana como produto social, que é o primeiro passo fundamental para entender a dialéctica sócio-espacial. O espaço entendido como contexto físico gerou um grande interesse filosófico e longas discussões sobre as suas propriedades absolutas e relativas (um debate longo que é anterior a Leibniz), as suas características como “contentor” ambiental da vida humana, a sua geometria objectivável, e as suas essências fenomenológicas. Mas este espaço físico foi uma base epistemológica desviante para analisar o significado subjectivo e concreto da espacialidade humana. O espaço em si pode estar fisicamente dado, mas a organização e o significado do espaço é um produto da experiência, da transformação e da dinâmica social."

Ou seja, cabe distinguir os conceitos de "espaço", enquanto "cenário" (ou nem isso), com as suas características físicas, e "espacialidade", termo empregue para designar o espaço socialmente construído, percebido e vivido.

O espaço produzido socialmente é uma estrutura produzida comparável a outras construções sociais resultantes da transformação das condições inerentes a estar vivo, tal como a história humana representa uma transformação social do tempo. De igual maneira, Lefebvre distingue entre a Natureza como contexto dado e o que pode chamar-se “segunda Natureza”, a espacialidade transformada e socialmente concretizada surgida da aplicação do trabalho humano intencional. É esta segunda Natureza que se torna sujeito geográfico e objecto da análise materialista histórica, de uma interpretação materialista da espacialidade.

O espaço não é um objecto científico separado da ideologia e da política: sempre foi político e estratégico. Se o espaço tem ar neutro e de indiferença para com o que ele contém e parece assim como puramente formal, o epítome da abstracção racional, é justamente porque foi ocupado e utilizado, e já foi alvo de processos passados cujas pegadas nem sempre são evidentes na paisagem. O espaço foi conformado e moldado a partir de elementos naturais e históricos, mas ele foi um processo político. O espaço é político e ideológico. É um produto literalmente carregado de ideologias.
Henri Lefebvre, Reflexões Sobre a Política do Espaço, 1976

Talvez esta forma de encarar o espaço seja nova, mas a resposta é novamente negativa, como veremos. Mas continuemos com Soja.

A noção-chave que Lefebvre introduz na frase em epígrafe assume-se como a premissa fundamental da dialéctica sócio-espacial: que as relações espaciais e sociais são dialecticamente interactivas, interdependentes; que as relações sociais de produção ao mesmo tempo que conformam o espaço, são condicionadas por este (pelo menos enquanto tivermos uma visão do espaço organizado como socialmente construído).
Dentro de um marco regional em vez de urbano, Ernest Mandel desenvolveu ideias muito parecidas. No seu exame das desigualdades regionais em capitalismo, Mandel afirmou que “o desenvolvimento desigual entre regiões e nações é a essência mesma do capitalismo, ao mesmo nível que a exploração do trabalho pelo capital”. Ao não subordinar a estrutura espacial do desenvolvimento desigual às classes sociais mas, sim, colocando-a “ao mesmo nível”, Mandel identificou uma problemática espacial na escala regional e nacional que se assemelhava muito à interpretação de Lefebvre da espacialidade urbana, ao ponto de sugerir o surgimento de uma poderosa força revolucionária a emergir das desigualdades espaciais que claramente via como necessárias para a acumulação capitalista. No seu trabalho principal, Late Capitalism (1975), Mandel centrava-se na importância histórica crucial do desenvolvimento geográfico desigual no processo do capitalismo. Ao fazê-lo, apresentou uma das análises marxistas mais sistemáticas e rigorosas da economia política do desenvolvimento regional e internacional jamais escritas."

Inspirado pelas leituras de Henri Lefebvre, que já trouxemos aqui com "O Direito À Cidade", de Focault e outros, Edward Soja desconstrói o conceito e procura, dentro do próprio marxismo, enquanto atitude e prática críticas e emancipadoras, as razões para a espacialidade ter sido relegada para o pátio das traseiras epistemológico.

Sem nos alongarmos em grandes explicações, as razões por ele encontradas podem resumir-se a três:

1 – A aparição tardia da obra de Marx “Grundrisse”

Esta obra, a mais eminentemente geográfica do pensador alemão, só começou a difundir-se bem depois da Guerra de 1939-45. “Aliás, como hoje sabemos, Marx nunca concluiu os seus planos para os volumes seguintes a”O Capital”, que deviam abordar o comércio mundial e a expansão geográfica do capitalismo, cujo possível conteúdo só ficou insinuado posteriormente nos “Grundrisse”. Na ausência destas fontes, a ênfase foi colocada na teorização do sistema fechado, sobretudo aespacial, dos volumes publicados d”O Capital” (…) Graças às contribuições de Bukarine, Lenine, Luxemburgo, Trotsky e outros, a teoria do imperialismo e as conceptualizações associadas aos processos de desenvolvimento desigual tornaram-se no principal contexto da análise geográfico dentro do marxismo ocidental. Havia uma problemática espacial implícita nessas teorizações do imperialismo, mas ficavam-se no mero reconhecimento de uma limitação física final para a expansão geográfica do capitalismo.

2 – As tradições anti-espaciais no marxismo ocidental.

Em muitos sentidos, Hegel e o hegelianismo transmitiam uma ontologia poderosa e uma fenomenologia espacializada que reificava e fetichizava o espaço sob a forma física, o locus e o meio da razão completa. (…) O tempo ficava subordinado ao espaço e a própria história era dirigida por um “espírito” territorial, o Estado. O anti-hegelianismo de Marx não se limitava à crítica materialista da do idealismo. Era também uma tentativa de devolver a primazia à historicidade – a temporalidade revolucionária – sobre o espírito da espacialidade. Deste projecto emergiu uma sensibilidade poderosa e uma resistência à afirmação do espaço enquanto determinante histórico e social.
(…)
Menção à parte merece o carácter anti-espacial do dogmatismo marxista saído da Segunda Internacional e que se consolidou sob o estalinismo, tendo sido as questões espaciais tratadas dentro de uma abordagem de um estéril reducionismo económico.

3 – As condições mutáveis da exploração capitalista.

Como as fórmulas da composição orgânica do capital e da taxa de lucro, o seu derivado assume a visão de um sistema fechado das relações de produção capitalistas, desprovidas de diferenciação e desigualdade geográficas significativas. Além disso, dada a urbanização massiva associada à industrialização em expansão, a reprodução da força de trabalho era um assunto muito menos crucial que o processo de exploração directa através de um sistema de salários de subsistência e a dominação do capital sobre o trabalho no lugar da produção. Para a extracção da mais-valia absoluta, a organização social do tempo parecia ter mais importância que a organização social do espaço.

No capitalismo contemporâneo, a exploração do tempo de trabalho continua a ser a fonte principal da mais-valia absoluta mas com uns limites crescentes que surgem da redução do horário de trabalho, dos níveis de salário mínimo, dos acordos laborais e de outras vitórias da organização da classe trabalhadora e dos movimentos sociais urbanos. Para continuar a conseguir essa mais-valia, o capitalismo viu-se forçado a investir na tecnologia, nas modificações na composição orgânica do capital, a reconhecer o papel crescentemente dominante do Estado, e às transferências líquidas do excedente associadas à penetração de capital em esferas de produção não geradoras de lucro (internamente, através da intensificação, bem como externamente, através do desenvolvimento desigual e a “extensificação” geográfica a regiões menos ou nada industrializadas de todo o mundo).


(Continua)

sexta-feira, julho 12, 2013

Ó Mái Góde (OMG - Organismos Manipulados Geneticamente)

Como congrega muitos crentes, os lóbis dos trangénicos já trataram de fazer a cabeça (para não empregarmos outro verbo) à Igreja Católica. Alega a santa instituição, a parte espiritual imperante do sistema materialista imperante, vejam lá, que as culturas transgénicas podem ajudar a acabar com a fome no mundo.
Ler mais aqui.

Contradição implícita, não na frase (e por isso, de bem estão com o seu argumentário), mas no que um mínimo de atenção nos demonstra: o que as empresas precisam é de lucro. E a julgar pelos dados que não param de nos conspurcar (a nós também) é de que o sistema está a funcionar muito bem (acumulação de capital nunca visto na História).

Se realmente quisessem acabar com a fome, já o teriam praticado.
Ao invés, os organismos geneticamente modificados são mais um teste, levado à escala global, e em humanos, para a erradicação dos "não economicamente viáveis", os "subalternos", os "desprotegidos, frágeis e pobrezinhos" do mundo, os "excluídos do bem-estar" dos países "desenvolvidos".

Não é que tanto se lhes dê que, durante os testes, morram milhares pelo mundo fora (desde que não morram onde está o poder que controla o mundo), em testes não controlados, forjados, com corrupção como prática efectiva ou regulamentar. O que se lhes dá é isso mesmo: que morram os que não têm direito a consumir mediante pagamento. A redução da população mundial está silenciosamente em curso. Pois os efeitos, sem poderem ser directamente associados, estão pulverizados pelo espaço e pelo tempo.

Vá, ainda abrem excepções para açambarcarem mais propriedade, corpos e almas pelo mundo que, coitado, não se regula pelos mais altos padrões de legalidade internacional (o dinheiro e o capitalismo).

Mas são os ratinhos de laboratório.
A terem tomado todos os recantos da Terra.

Gostava que analisassem connosco o seguinte gráfico
(quadro adaptado e traduzido por E. Soja e publicado originalmente aqui)
(clicai para aumentar)

Mesmo leigos em química, sabemos distinguir números. E os números são muito diferentes entre um milho manipulado e outro não manipulado geneticamente.

Este gráfico é gritante e o que nos espeta na cara é demasiado grave para passar despercebido.

Vede por exemplo o teor em cálcio (ai a osteoporosezinha que afecta os habitantes do mundo rico...), em sódio (ai a hipertensãozita que afecta os habitantes do mundo rico...), o ferro, o zinco, o cobre...

E vêde também a nota número 6, referente à presença de formaldeído (o milho GM tem, o milho normal não tem). O formaldeído é, se bem se lembram e puderam ver na trapaça gigante que foi a introdução do aspartamo nos alimentos processados (tudo porque vamos todos atrás dos produtos "light", sem açúcar...) (vêde este documentário e não passareis mais a olhar os produtos da prateleira com olhos tão desatentos)

Tirai as vossas conclusões.

Uma delas, que vamos nós tirar, é que a comer daquela porcaria andamos, nutricionalmente, a fingir que comemos. É o simulacro braudillardiano ou o fingimento de vida débordiano na sua base: a alimentação.

Sobre a Capacidade de Troca Catiónica, podemos ler mais, por exemplo, aqui, mas parece-nos (alguém pode ajudar-nos?) que, aplicado à alimentação, tal CTC estará ligada à capacidade de absorção dos nutrientes por parte do organismo.

Andam, portanto, a mangar co' a tropa.

E concluímos, no final, que os Organismos Manipulados Geneticamente...
... somos nós.

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Ces gens la! *

Moscovo, 10 de Outubro de 1944.

Conferência no Kremlin.

"O momento era favorável para agir, e por isso declarei: 

- Solucionemos os nossos problemas nos Balcãs. Os vossos exércitos encontram-se na Roménia e na Bulgária. Nós temos interesses, missões e agentes nesses países. Evitemos, pois, entrar em choque por questões que não valem a pena. No que respeita à Grâ-Bretanha e à Rússia, que diríeis de uma predominância de 90% na Roménia para vós, de uma predominância de 90% na Grécia para nós, e da igualdade de 50-50 na Jugoslávia?

Enquanto traduziam as minhas palavras, escrevi numa meia folha de papel:


Roménia:

        Rússia..................................................................90
        Os outros.............................................................10

Grécia:

        Grâ-Bretanha 
        (de acordo com os Estados Unidos)................... 90
        Rússia..................................................................10

Jugoslávia..............................................................50-50

Hungria..................................................................50-50

Bulgária:

       Rússia...................................................................75
       Os outros..............................................................25

Empurrei o papel para a frente de Estaline, a quem já fora feita a tradução. Teve um leve tempo de espera. Depois pegou no seu lápis azul, traçou um grande risco à maneira de aprovação e devolveu-o. Tudo ficou resolvido em menos tempo do que o necessário para o escrever... Houve em seguida um longo silêncio. O papel, riscado de azul, conservava-se no centro da mesa. Eu disse, finalmente:

- Não acha um pouco cínico parecermos ter traçado a sorte de milhões de seres de uma maneira tão cavalheiresca? Rasguemos este papel.
- Não, guarde-o. - disse Estaline.



Este excerto das Memórias sobre a Segunda Guerra Mundial de Winston Churchill, citado por Mikis Theodorakis no seu Cultura e Dimensões Políticas (Ed. Europa-América, 1975, p.93-93) é eloquente sobre a gente com que temos de trabalhar.

O poder concentrado.
E as ovelhas circunscritas, leão domesticado.

Imagem daqui


É com esta gente que temos de trabalhar.
É esta gente que temos de trabalhar.

E assim se traçam os mapas e as culturas e as influências, armadas ou colonialistas, em territórios a explorar ou a manter sob jugo.

No tempo dos dois blocos, ainda podíamos tentar descortinar as diferenças que os opunham. Um desses blocos ruíu e já nada há a comparar. E o que ficou a mandar propagandeia, aos sete ventos e em tudo por quanto é ecrã e média, por si controlado, a noção - até ficarmos convencidos de que não há alternativas.

Pois bem, mas tal como está, está mal. Muita coisa.
E se o sabemos, trata-se de irmos no sentido oposto.
Tal como o faziam.



* Canção, magistral, de Jacques Brel.

sexta-feira, dezembro 07, 2012

Fabuloso: territórios e fronteiras da Europa desde o Séc. XI ao XXI




Muito mais em  The Centennia Historical Atlas: AQUI

(sacado daqui)

sexta-feira, setembro 07, 2012

Descobertas

Para mim novidade, e que novidade, o sítio do Património de Influência Portuguesa: HPIP. Fabuloso. Em construção e actualização, está aberto a colaborações.


Traçado aproximado da muralha

Kochi [Cochim/Cochin/Santa Cruz de Cochim], Kerala, Índia

Lat. 9.967083, Long. 76.244017

quinta-feira, agosto 23, 2012

Vomitivo, o Poder

Em Novembro do ano passado, o furacão Michelle açoitou as Caraíbas e assanhou-se com Cuba. Segundo Ben Wisner, do Instituto de Desenvolvimento da London School of Economics, o furacao que afectou quase 25 mil habitações, destruiu totalmente 2800, causou apenas cinco mortos entre a população cubana. O governo cubano evacuou 700 mil pessoas, 6,36% da sua população, em apenas 24 horas. As Forças Armadas Revolucionárias de Cuba foram para o sul da ilha ajudar a população, e fizeram-no. Não levaram ordens de disparar a matar para «manter a ordem».

Imagem via Wikipédia

Há uma semana, o furacão Katrina assolou o Estado do Louisiana e os mortos contam-se aos milhares. A maior parte são negros e latinos, e os seus corpos flutuam nas ruas inundadas de Nova Orleães, muito perto do Superdome, o gigantesco estádio que viria a servir de centro de refúgio e evacuação. O presidente Bush estava de férias. Condoleeza Rice comprava sapatos numa loja exclusiva para mulheres como ela.

Era uma tragédia previsível. No ano 2001, a revista Scientific American chamou a atenção para o estado lastimável dos diques que continham as águas do rio Mississipi, para a obsolescência dos sistemas de bombeamento em caso de inundação, para o crescimento sem controlo de habitações em zonas de alto risco e para a insuficiência das vias de evacuação. Nesse mesmo ano, a Agência Federal de Controlo de Emergências avisou o governo de que, a não serem tomadas medidas imediatas, um furacão traria consequências catastróficas para Nova Orleães. Os engenheiros militares dos Estados Unidos recomendaram a aprovação urgente de um orçamento de 27,1 milhões de dólares para reparar os diques. O governo de Bush aprovou-o, mas, na hora de enviar o dinheiro, decidiu desviar 80 por cento para solver as despesas da ocupação do Iraque, maiores a cada dia que passa. Assim se planificam as catástrofes imperiais. Assim se condenam centenas de milhares de pessoas a morrerem de sede, por falta de assistência médica, esmagadas debaixo dos escombros, afogadas debaixo das águas, ou devoradas pelos jacarés do Mississipi. Vomitivo.

As televisões do mundo inteiro mostravam náufragos em cima dos telhados das suas casas, alguns  deles - nunca faltam - mostrando a bandeira das riscas e estrelas que nem sequer lhes serviu de toalha. Vomitivo.

Quando o Estado nos abandona, quando a necessidade se impõe, quando a sede e a fome ameaçam de morte, o instinto de sobrevivência manda violar as leis que não servem. É legítimo saquear um supermercado se a ajuda não chega. E a governadora do Estado do Louisiana, Kathleen Blanco, em vez de acelerar a ajuda humanitária, armou com espingardas M16 três mil soldados da guarda estadual. «Sabem como disparar, estão mais do que desejosos por fazê-lo e espero que o façam.» As suas palavras fazem parte da história norte-americana. Essa mulher é uma republicana de pura cepa. Vomitivo.

E o preço do petróleo sobe e volta a subir. Alguns governos, entre eles o espanhol, decidem ajudar, não os Norte-Americanos, mas Rumsfeld, Dick Cheney, a Shell, a Texaco, a Halliburton, ao enviarem milhões de barris para que a minoria opulenta dos Estados Unidos não veja alterada a american way of life. Vomitivo.


Carne de blog (1), pp. 31-37, por Luís Sepúlveda, incluído em Crónicas do Sul (Ed. Asa, 2008).
Tradução de Henriques Tavares e Castro.


O artigo foi publicado originalmente aqui (em Castelhano, do Chile, claro está), a 4 de Setembro de 2005.

Hoje passam 7 anos que alguns ficaram com o Katrina nos ouvidos e demasiados com o seu desastre nos pulmões.