terça-feira, março 31, 2015

Alegoria do Património, por Françoise Choay (3/3)


Nós aprendemos a violência destruidora das guerras modernas e dos actos de negócio. Ignoramos que no espaço de algumas décadas a espécie humana chegará, pela sua própria prática conservatória, a conseguir as destruições que teriam em tempos exigido séculos.” (p. 247)


 


E, uma vez mais, paradoxalmente mas com causas identificáveis, o culto do património arquitectónico resulta em degradação e, acima de tudo, esvaziamento de sentido:


O condicionamento sofrido pelo património urbano histórico tendo em vista o seu consumo cultural, bem como a sua disputa pelo mercado imobiliário de prestígio, tende a excluir dele as populações locais ou não privilegiadas e, com elas, as suas actividades tradicionais e modestamente quotidianas.” (p. 241)


Nisto se antevê uma consequência, e que já identificáramos aqui no Georden: 


Os termos cidade, urbano (substantivo e adjectivo) e urbanismo perderam o seu sentido original. Quaisquer que sejam as nostalgias de uns e os álibis de outros, entrámos na «era pós-cidades». A urbanização propaga-se de acordo com as linhas de força traçadas pelas redes de grandes equipamentos. Melhor do que a rurbanização, inventada nos anos setenta para definir a metamorfose da paisagem rural, o termo italiano periferização faz compreender a dinâmica do processo que tende actualmente a desfigurar as cidades e a uniformizar os territórios.” (p. 250)


À medida que o livro se aproxima da conclusão é que ele se torna mais interessante: por um lado, as cidades comunicacionais, são fluidas e reticulares – tal é o imperativo maior em vigor, o económico. A rapidez, a facilidade, a acessibilidade. Dito por outras palavras, a imaterialidade e o desenraizamento, a falta de espaços de pausa, reflexão e diferença são a nova linguagem que emerge e fala nesta nova pobre paisagem urbana, cada vez mais desumana, cada vez mais robótica, binária, desrealizante.


As próteses que nos libertam do domínio local, resgatam-nos simultaneamente da duração para nos instalar na instantaneidade. O tempo orgânico da recordação, do cálculo, do questionar, da espera, da aproximação e do rodeio é recusado. Como também, de outra forma, o tempo cósmico das estações é escarnecido pelo avião dos transportes aéreos, que salta de um hemisfério terrestre para outro, quer se trate de despejar fluxos de turistas em praias ou fluxos de legumes em mercados.” (p. 255)


Como factores desta “liquidez”, as próteses da comunicação descorporizam a nossa relação com o local, tornado assim crescentemente indistinguível de um outro. Uma fábrica de não-lugares e de periferias cada vez maiores e sem centro algum. É essa familiaridade internacionalista que as grandes cadeias adoptam nos seus aspectos, ambientes e apresentação, para que ninguém estranhe e todos se sintam em casa, jamais tendo de recomeçar a estabelecer novas relações com o local. O que sucede, então, é o progressivo afastamento de todos os lugares por parte de quem tem de os usar. E, como canta Raimon, “quem perde as origens, perde identidade.”


O funcionamento em rede e seus fluxos (fluidos, energias, transportes, informação) permite a libertação dos ancestrais constrangimentos espaciais (geológicos, geográficos, topográficos…) que determinavam a localização, a implantação e a forma dos estabelecimentos humanos. Ao promoverem um espaço isótropo, eles [as redes e os fluxos] tanto uma urbanização difusa e a rurbanização, como a formação de áreas metropolitanas indistintas, aglomerações densas, de periferias concêntricas.


Os edifícios e monumentos alvo do nosso culto perdem assim relação de contexto. Vejam o Blow Up (1967), do Antonioni, que, como grande filósofo do olhar, já levantava essa questão. Deixaram eles de portar ou transmitir, espelhar, qualquer ideia de relação e memória. Já pouco podem dizer-nos sobre nós próprios e a nossa história. 

Todos os “testemunhos de um passado recente sempre mais próximo foram integrados”, indistintamente, “no corpo patrimonial. Edifícios-manifesto do movimento modernista (…), realizações espectaculares da engenharia de construção, até aos falhanços da habitação social… estão associados e assimilados aos monumentos e aos tecidos históricos, confundidos com eles. Esta amálgama de objectos ligados a práticas e a lógicas diferentes, e cuja heterogeneidade é camuflada sob a denominação comum e falaciosa de património, dá-nos de nós próprios, sob o aspecto das nossas realizações edificadas, uma imagem global, una e inteira, que oculta a fractura provocada pela mutação em curso e lhe conjura o trauma pela afirmação de uma identidade intacta. (p. 258)


Significa isto que quanto mais destruímos as singularidades, mais nos agarramos à tábua de salvação do passado, que – pensamos – já não muda. Mas que vai perdendo o sentido. As primeiras grandes destruições foram as trazidas pela revolução industrial e as guerras. As modernas destruições são mais subtis, conceptuais, mas nem por isso desprovidas da sua relação com o espaço físico:


Quando não construímos mais tais monumentos [os que são fundados mais na beleza que na funcionalidade] e quando abandonamos os modos articulados tradicionais de edificar, somos confrontados com a perda de poder sobre o tempo orgânico, que esses artefactos nos entregavam por via da mediação do nosso corpo. Esse poder, essa visão ancestral com a duração, é desde então objecto de um desejo feroz e insaciável, vivido como ausência e como falta. Essa ausência e essa falta são intoleráveis e o património pré-industrial designaria a chave perdida, cuja imago patrimonial serviria simbolicamente para combater o vazio.” (p. 261)


À oposição entre construir articulado e contextualizado e construção reticulada das redes técnicas, corresponde a oposição entre as línguas tradicionais da diferença e a língua dos técnicos (…). Assim, a supressão em curso dessa dimensão antropológica que é a competência de edificar é, sem dúvida, o acontecimento traumático de que a cultura do património nos serve para conjurar e ocultar.


Em jeito de conclusão optimista, postulamos que talvez nos reste a hipótese de numa tal homogeneização perdermos por completo o passado e a falácia do culto do património que ajudou a que chegássemos a este sem-sentido. Um bico-de-obra, criar memória a partir do vazio…

terça-feira, março 24, 2015

Alegoria do Património, por Françoise Choay (2/3)



A indústria patrimonial aperfeiçoou os procedimentos de embalagem que permitem entregar, também eles, os centros e bairros antigos, prestes ao consumo cultural. Estados e municipalidades recorrem-lhe, com reserva e discrição, ou liberalmente, em função das suas escolhas sociais e políticas mas, sobretudo de acordo com a natureza (dimensões, carácter, recursos) do produto a lançar e de acordo com a importância relativa das receitas adiantadas. Um arsenal de dispositivos testados permite atrair os amadores, retê-los, organizar a economia do seu tempo, desviá-los para a familiaridade e o conforto: sistemas gráficos de sinalização e de orientação; estereótipos do pitoresco urbano: passeios públicos, pracetas, ruas, passagens de peões, pavimentos ou lajes à antiga, equipados com mobiliários industriais padronizados (candelabros, bancos, caixotes do lixo, telefones públicos) em estilo retro ou não, são animados, de acordo com o espaço disponível, com esculturas contemporâneas, fontes, vasos de flores rústicos e arbustos internacionais. Estereótipos do lazer urbano: cafés ao ar livre com mobiliários adequados, tendas de artesanato, galerias de arte, lojas de bugigangas e ainda, sempre, por todo o lado, sob todas as suas formas, regional, exótica, industrial, o restaurante.” (pp.239-240)


 (continuação da primeira parte)



É precisamente esta revolução urbanística parida com essoutra, a industrial, que vai “aprimorar” o culto do património. Não podemos deixar de citar como já Gustavo Giovannoni prenunciava a evolução das cidades. Se a cidade do futuro será a da “comunicação generalizada”, em movimento, Giovannoni pergunta-se: 

Não é já possível imaginar o «fim do grande desenvolvimento urbano» e mesmo uma verdadeira «anti-urbanização»? (o termo transformar-se-á mais tarde em desurbanização). Quase em primeiro lugar, ele compreende o estiolamento e a desintegração da cidade, em proveito de uma urbanização generalizada e difusa. Com cinquenta anos de avanço, ele vê iniciar-se a nova era a que Melvin Weber chamará the post-city age, «a era pós-cidades»” (p.208)

O advento das indústrias culturais é vórtice que engole tudo o que, sendo cultura, possa ser transformado em produto, objecto de consumo: 

“(…) os monumentos e o património históricos adquirem um duplo estatuto. São obras que facultam saber e prazer, colocadas à disposição de todos, mas também produtos culturais, fabricados, embalados e difundidos tendo em vista o seu consumo. A metamorfose do seu valor de utilização em valor económico é realizada graças à «engenharia cultural», vasta empresa pública e privada, ao serviço da qual trabalha uma multidão de animadores, comunicadores, agentes de desenvolvimento, engenheiros, mediadores culturais. A sua tarefa consiste em explorar os monumentos por todos os meios possíveis, a fim de multiplicar indefinidamente o número de visitantes.” (pp. 225-6)

Para isso, várias técnicas e estratagemas são usados. A autora identifica os mais amplamente usados: 

- encenação (a criação de ambientes místicos, com recurso aos meios audiovisuais: iluminação e som, por exemplo),

- animação (Uma hierarquia complexa conduza da mediação por via dos efeitos especiais aos comentários audiovisuais, passando pela reconstituição de cenas históricas imaginárias com a ajuda de actores, manequins, marionetas ou imagens de síntese. (…) Levada aos seus limites, a animação torna-se no reverso exacto da encenação do monumento que ela transforma em teatro ou em cena. O edifício entra em concorrência com um espectáculo ou um «acontecimento» que lhe é imposto, na sua autonomia. Exposições, concertos, óperas, representações dramáticas, desfiles de moda são associados a um património que os valoriza e que eles podem, por seu lado, no final dessa estranha relação antagónica, potenciar ainda, depreciar ou reduzir a nada” (pp. 231-2)

- modernização (a inserção do presente no passado”, como é o exemplo simples e típico “das portas de vidro que, nos grandes monumentos franceses, substituem muitas vezes as antigas portas cheias de desprezo pela sua função arquitectónica.

- rentabilização (“denominador comum de todas as modalidades de valorização, ela vai do aluguer dos monumentos à sua utilização enquanto suporte publicitário, associando-os à venda de produtos de consumo corrente. Qualquer monumento tem agora por complemento a sua loja, herdeira dos balcões de livros e de postais do século XIX, que debita recordações diversas, vestimentas, objectos domésticos ou produtos alimentares.

e
 - entrega (O monumento deve ser entregue à mão, o mais perto possível dos veículos, privados ou colectivos, que exigem a organização de parques de estacionamento e dos seus complementos.” (p. 233)

quarta-feira, março 18, 2015

Alegoria do Património, por Françoise Choay (1/3)

O ar morno e sufocante
Penetrava pela janela
Toda a estância balnear
Esmagada pela quentura
Parecia estar deserta
Concentrados à beira mar
Muitos corpos escaldados
Estendidos uns sobre os outros
Como nacos de vianda
Nos balcões dos supermercados
Mais um dia sem demanda
Neste enfado

"Estância Balnear", Mão Morta


Título: Alegoria do Património
Edição Original: L'Allégorie do Patrimoine (1982)
Autor: Françoise Choay
Tradução: Teresa Castro
Revisão: Pedro Bernardo
Edição: Junho de 2010
Editora: Edições 70
ISBN: 9789724412740
Paginação: 308 páginas


Neste livro, a autora começa por uma introdução aos conceitos de monumento e património ao longo da história para perceber a sua evolução e como este culto se tornou num dos princípios modeladores, não só das cidades, mas também das mentalidades e da agudização da economia capitalista.

Pelas diversas conquistas, reconquistas e abandonos dos territórios europeus ao longo dos séculos, os edifícios, em ruínas ou não, foram sendo “notados” pelos poderes (eclesiásticos, feudais, políticos…) ou por individualidades (intelectuais, artistas, antiquários (originalmente, aqueles que prezavam as coisas e os conhecimentos dos antigos) e, muito mais tarde, arquitectos e urbanistas). Tal significa que foram sendo tomados como portadores de uma história sobre os povos e as regiões.

Nos começos, como hoje (e esta é uma constante ao longo dos diversos paradigmas civilizacionais ditos “ocidentais”, onde tal culto começou, para depois se expandir, imperialisticamente, pelos “novos” mundos e não tão novos - Choay cita o exemplo do Japão), essa valorização do passado edificado, sob a forma de edifícios e construções do mais diverso tipo, não é necessariamente sinónimo de protecção.

“(…) o desenvolvimento das colecções e a bulimia dos coleccionadores, quer se trate de inscrições ou de esculturas, encontravam um terreno privilegiado nos edifícios aos quais essas pedras erram arrancadas sem pudor. Este tipo de degradação devia crescer com o número dos amadores e com o progresso do comércio da arte.” (p.58)

A negrito, as duas causas principais que se vislumbram como exacerbamento da situação nos tempos actuais. Parêntesis, nosso, para mencionarmos as tão conhecidas visitas a geossítios (como a pedreira das pedras parideiras, na Serra da Freita, ou a pedreira do Galinha, ou outro, onde, mesmo com medidas de salvaguarda como delimitação do “fenómeno a observar”, nos deparamos com pedras arrancadas por aqui e por ali. Se fosse possível, também levaríamos os buracos das pegadas…)

Mas a autora exprime ainda melhor o paradoxo desta “valorização”:

Finalmente, a atitude contraditória dos papas e da sua corte é ditada sobretudo por políticas económicas e técnicas ligadas à necessidade de embelezar e de modernizar a cidade e de a tornar numa grande capital secular. A urgência da acção exige materiais de construção, de que não se dispõe em quantidades suficientes, e espaços livres para se realizar os seus programas e rivalizar com a obra da Antiguidade. Tal como mais tarde, no contexto da modernização do classicismo, ou ainda na sequência da venda dos bens nacionais iniciada em França com a Revolução, ou mesmo como ainda hoje diante dos nossos olhos e pelas mesmas razões, os empreendedores e os promotores dos trabalhos são, muitas vezes, os executantes das rasteiras obras de destruição.” (p.58)

Em tempos de picos de concentração e de desequilíbrios, escasso fica também o espaço, outra das causas para a degradação daquilo este culto do património pretende precisamente defender.

Mais à frente:

A consagração do monumento histórico não mereceria o seu nome se se limitasse ao reconhecimento de novos conteúdos e valores. Ela está, para além disso, fundada sobre um conjunto de práticas cuja institucionalização foi catalisada pelo poder das forças destrutivas – já não deliberadas e ideológicas [“vamos pilhar e destruir esta marca da civilização / ideologia anterior pois a nossa/s é/são moral e esteticamente superior”], mas inerentes à lógica da era industrial – que ameaçam desde então os monumentos históricos. A mutação que transforma simultaneamente os modos de vida e a organização espacial das sociedades europeias torna obsoletos os tecidos urbanos antigos. Os monumentos que aí se inserem aparecem de repente como obstáculos e entraves a derrubar ou a destruir para dar um lugar limpo ao novo modo de urbanização, ao seu sistema e às suas escalas viárias e parcelares. Para além disso, a manutenção dos edifícios antigos é cada vez mais negligenciada e o seu restauro já não obedece a conhecimentos regulamentados. É-se assim confrontado com dois tipos de vandalismo, que foram, na época, designados em França e em Inglaterra pelos mesmos adjectivos: destruidor e restaurador.” (pp. 150-1)

Françoise Choay vai realçando que, para o crescimento dos instintos protectores dos, portanto, monumentos, se foram conceptualizando formas de preservação como a legislação e o restauro (sob diversos tipos de intervenção, assunto em que os primeiros teóricos divergiam radicalmente. Mais tarde, foi achado um ponto de equilíbrio entre o “deixar apodrecer, porque é assim que ele foi feito e nós não podemos tocar-lhe” e as “obras de protecção para a salvaguarda da integridade do edifício”).

Mais, esta perspectiva protectora foi-se alargando até “tomar conta” dos próprios espaços edificados e de cidades inteiras. Porém, a autora refere que se trata de um fenómeno muito recente: “(…) a história da arquitectura ignora a cidade. Sitte nota com pertinência em 1889: «Mesmo a nossa história da arte, que trata dos fragmentos mais insignificantes, não reservou o mais pequeno lugar à construção das cidades.» Entre a Segunda Guerra Mundial e os anos oitenta do século XX, poucos são ainda os historiadores e os historiadores de arte que trabalharam o espaço urbano.” (p.192)

E prossegue:

Hoje em dia, assiste-se, contudo, a um florescimento de trabalhos sobre a forma das cidades pré-industriais e das aglomerações da era industrial. Este movimento foi impulsionado pelos estudos urbanos (…) A conversão da cidade material em objecto do saber foi provocada pela transformação do espaço urbano consecutivo à revolução industrial: abalo traumático do meio tradicional, emergência de outras escalas viárias e parcelares. É então que, por efeito de diferença e, de acordo com a palavra de Pugin, por contraste, a cidade antiga se torna objecto de investigação.” (p. 193)


(continua)