terça-feira, junho 29, 2010

Geografia do Quotidiano

Vejo carros a passar,
uma parede de prédios ao sol,
um homem a limpar um vidro,
uma mulher que vem à janela,
(aquele leva película aderente),
bandeiras de Portugal penduradas,
sacos plásticos,
um carro de instrução,
uma cortina ao vento,
o primeiro fumador do dia,
(aquele leva leite),
(aquele leva minis),
um sorriso brando,
colegas de branco a discutir.

Caio em perguntas: porque há-de a realidade ser mais rica que a ficção? E esta que o sonho?
(aquela leva vegetais e papel higiénico)
(aquela croissants e uma garrafa de água bebida).
Sou um escrutinador? Um observador? Observado?

Um olá é maneira que encontrámos para dizer que estamos cá.
No pequeno intervalo, a fumadora não obtém qualquer prazer e só satisfaz o vício.
Segunda-feira, 10 e 44 da manhã e eu tenho de estar aqui. Não leio e observo. Com ar sonhador enquanto o tempo passa.

Cara linda e tímida.
Que públicos atrai este centro? Categorizá-los por género? Porquê logo isso? Quantas vezes por dia têm de se abrir estas portas automáticas?
"500 anos" inscrito nos sacos plásticos não intimida ninguém, porquê?
Não é agradável caminhar junto ao movimento ruidoso e perigoso dos carros, sob o sol cada vez mais agressivo.
Há duas portas que se abrem e a tendência das pessoas é irem para o meio, esperando que seja lá onde elas se abram.
Miúdo de braço engessado.
Homem que só veio pagar as contas.

Ao longo dos anos o meio moldará o nosso linguajar.
O auto-isolamento é a esperança de ainda termos controlo sobre a violência a que estamos sujeitos.
Para quê as estatísticas?

O que abranda um andar? Que valores? Atractivos, repulsivos, quais? Visíveis? Alguns invisíveis?
Fila para o multibanco. Dia 28 de Junho de 2010.
Uma bengala.
Porque somos tão hostis com quem é ávido por descobrir o mundo? A reprodução da educação acumulada. Que forças da violência nos esmagam a sensibilidade? Tenho que me desviar num súbito porque vou desatento.
As férias não-laborais e o tempo dos desempregados, desvalorizado num espaço tomado ao domínio público e privado. Água que não tem vontade de contrariar a sua direcção, lenta ou rápida, para o buraco escoador das nossas energias legais e reconhecidas.

Um camião enganado? E todos os amigos que por aqui não passam. Gostava de saber tocar guitarra. Acto individual partilhável, forma de comunicação encantadora.
O mero entretenimento televisivo é deformativo para os que não agarram as suas estruturas.
Camião do lixo.
Contas para pagar.
Uma viúva da ruralidade, vestida no negro habitual, poderia ser considerada ofensiva para o bem-estar colorido do centro de comércio da moda.
(Aquele leva fruta e pão).

À vista do sorriso de uma criança tudo desaparece, desimportante.
(Aquele leva moedas a tilintar no bolso).
Coacção do meio contra a liberdade e paz interpretativas, sob um suposto agradável que inunda toda a praça.
As mesmas ideias de sempre ditas sempre doutras maneiras.
As mesas do consumo não estão feitas para a tua altura, miúdo.
(Aquele leva fraldas de bébé).

Estarão de baixa, ou desempregados, os que têm problemas locomotivos que aparecem por aqui?

Malabarismos com o maço de tabaco.
Pelo menos nesta data, um público jovem e maioritariamente feminino.
As pessoas que fumam não são mais feias que as que não. As pessoas que fumam podiam ser mais bonitas se não.

Motivos de alegria que passam, porque nalguma altura os prendemos ou nos prenderam a eles. Ou nos prenderam a nós.
Preferimos a cor ao cinzento. Que a vida não é neutra.

A inspiração é o que vem de fora.
"Quantos pobres são precisos para manter um rico?"
Quanto lixo para manter um corpo?

Por quanto tempo é possível manter o entendimento? O desentendimento é o afastamento dos corpos, a aproximação e o entendimento com outros corpos. Um entendimento de cada vez? Só?

O meu templo é o tempo da contemplação do mundo
(aquela leva uma barra de chocolate).
Usamos o chapéu dos outros porque não conseguimos fazê-lo nosso.
(Aquele leva três pacotes de tostas).


Normal é que a precariedade nos leve à demissão.
Queremos uma vida inteira, digna e justa. Aquilo que nos é devido e negado. Muito para lá daquilo por que temos de lutar e por que outros nós lutaram antes de nós.
O homem bidimensional, anti-quadrado, encaixável, interactivo, contra-demissionário.

Preponderância dos olhinhos azuis, sociedade arianizada.
Em Roma sê romano. Para não destabilizares muito.
As pessoas que adequam o seu andar ao andar de quem acompanham. Para o acompanhar.
Os médicos não deviam fumar. Mas a racionalidade é limitada e as necessidades apreendidas.

Sorrisos do passado no presente. Sorrisos retroactivos?
Miúdo com pai na Alemanha prestes a ir de férias para o Canadá.

Não é que o espaço privado se tenha tornado público. Essencialmente prossegue nos seus intuitos definidos, lucrativos. Face à retracção do espaço público, o privado tornou-se mais "publicável".

Pensamentos ociosos, que direito? Contornáveis?
"A produtividade, ora aí está, quer dizer, há tanto nesta terra que ainda está por fazer."
Pensamentos julgamentos. Censuradores tanto como a si mesmos. Questionadores, instead.
Grandes solas de sapato popularizadas pelas raparigas picantes.
Uma travagem brusca, quase acidente.
Ser leve não implica só ver leveza. Talvez implique mesmo sentir o peso à nossa volta.

Como envelhecemos... A noção da intermitência dá-nos a noção do tempo contínuo.
Comunicar continua a ser uma das maiores necessidades do Homem. Onde pára ela na pirâmide, Maslow?

"Keep metal heavy" Bota o Emo no lixo.
Almas sonhadoras. Sonhar, que direito? São 13:18 e o meu estômago existe.

Se os olhos se vendessem teríamos marcas e logotipos nos olhos. Mas os olhos só consomem, devoram, penetram, descobrem, inquirem, procuram, encontram. São quase quatro horas de tempo para escrever. Uma folha em branco a rasurar-se e a inutilizar-se.

Estar no centro das atenções, mas ser atencioso e atento. Centros dos mundos. Estímulos e respostas. Os gostos a delinearem-se no menino e na menina. Crianças-brinquedo que ainda não entendem nem controlam o mecanismo que nos conduz.


Cada um só consome por si, abandonado cada um para seu lado. O consumo de massas será menos individualizante?

Os químicos estão a tomar conta da sociedade e a capacidade da lucidez a ceder-lhe espaço. Efeitos cumulativos que não controlamos por retro-ciência.
Agir é agora.
Se pudermos.
Se quisermos.

Hoje o Georden completa 5 aninhos.

quinta-feira, junho 24, 2010

Guia dos Contratos para Planeamento

GUIA DOS CONTRATOS PARA PLANEAMENTO



A introdução da figura dos contratos para planeamento, na revisão do Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial de 2007, foi um passo muito importante no sentido de dotar os municípios de instrumentos actualizados e adequados às actuais necessidades de promoção de um desenvolvimento territorial sustentável, suportado em mecanismos eficazes de governação multi-níveis e na mobilização ampla, responsável e mais eficiente dos recursos públicos e privados. Foi também o reconhecimento do importante papel que a negociação urbanística tem hoje na promoção de soluções urbanas inovadoras, mais adequadas do ponto de vista da valorização do potencial territorial e mais sustentadas, tanto do ponto de vista técnico como do ponto de vista económico e social.

Embora a negociação urbanística já existisse na prática dos nossos municípios antes da consagração legal da figura dos contratos para planeamento, esta veio conferir a esses processos de desenvolvimento urbano maior segurança jurídica, maior eficiência técnica e maior transparência. Se os dois primeiros aspectos são determinantes para a qualidade final das transformações territoriais que são realizadas e das novas realidades urbanas que delas resultam, a transparência dos processos territoriais é essencial à sua legitimação.

Com a publicação deste Guia dos Contratos para Planeamento, a DGOTDU dá continuidade à orientação de fazer acompanhar as principais alterações que são introduzidas no nosso quadro legal e regulamentar do ordenamento do território e do urbanismo da publicação de documentos de orientação doutrinária e metodológica que contribuam para um entendimento uniforme e para uma aplicação esclarecida dos textos legais.

A DGOTDU dá assim cumprimento a uma das suas principais responsabilidades enquanto autoridade nacional de ordenamento do território e de urbanismo, que consiste em apoiar quem está no terreno com informação de referência, contribuindo para a melhoria das práticas de gestão territorial e a capacitação dos seus principais agentes.

O Guia dos Contratos para Planeamento é disponibilizado nesta página web em versão para consulta, até dia 30 de Junho de 2010, após o que será revista em função das observações recebidas e publicado em versão impressa.
A DGOTDU convida os destinatários deste Guia a colocarem as suas dúvidas e a enviarem observações, até à data acima indicada, para contratosplaneamento@dgotdu.pt

CONSULTE O DOCUMENTO AQUI


Difundido via correio-e.

sexta-feira, junho 18, 2010

"Amor Líquido", de Zygmunt Bauman

Acende mais um cigarro, irmão
inventa alguma paz interior
esconde essas sombras no teu olhar
tenta mexer-te com mais vigor
abre o teu saco de recordações
e guarda só o essencial
o mundo nunca deixou de mudar
mas lá no fundo é sempre igual.


D. Quixote Foi-se Embora, Jorge Palma


Em breve, no dia 29, estarão completos 5 anos que o Georden leva a tentar sustentar o sustentável.

Chegámos ao fim de mais um ciclo.
Ao fim de um ciclo que se fecha.


Nos últimos artigos (mais concretamente nos últimos 3 meses) temos vindo a deter-nos na e sobre a incomunicação, "sobre a fragilidade dos laços humanos", sobre a dificuldade de entendermos o outro e de nos entendermos. Sobre a luta constante e constantemente renovada que é chegarmos ao outro, alcançarmos paz com o outro.

Somos sempre verdes.

Quem diria que isto tinha a ver com a cidade?
Sim, tem.

Porque somos cada vez mais urbanos?
Porque somos cada vez mais conscientemente urbanos (com as nossas diferenças, divisões, contradições, aspirações, limitações, inquietações (isto lembra novamente uma canção do Variações...) e com as nossas tendências para a igualdade, para a tranquilidade,... para aprendermos a conviver connosco mesmos...)?

Não sabemos responder acertadamente. As respostas lançam sempre perguntas. As perguntas lançam sempre respostas. Sempre incompletas e questionadoras.

No fim deste processo, sentirmos alguma espécie de superação da violência com que o mundo está sempre a pôr-nos à prova. A sensação de alguma espécie de crescimento interior. E, sensíveis ao relativismo das coisas, sermos maiores com os dois lados de nós mesmos.

Sentir que sabemos cada vez menos.
Mas sentir que nesse menos saber, podermos ser melhores para com os outros.
E nisso, o princípio - ou - uma oportunidade mais de um diálogo mais franco, mais justo, mais ajustado, mais sincero com os que nos rodeiam.

Que a bom entendedor
meia palavra basta
é só
adivinhar o que há mais,
os segredos dos locais
que no fundo são iguais
em todos nós.

Espalhem a Notícia, Sérgio Godinho



Título: Amor Líquido - Sobre a fragilidade dos laços humanos
Edição Original: Liquid love - on the frailty on the human bonds (2003)
Autor: Zygmunt Bauman
Tradução: Carlos Alberto Medeiros
Edição: Setembro de 2006
Editora: Relógio d'Água
ISBN: 972-708-901-1
Paginação: 196 páginas


Os que podem, vivem em "condomínios", planeados como se fosse uma ermida: fisicamente dentro, mas social e espiritualmente fora da cidade. «Supõe-se que as comunidades fechadas sejam mundos distintos. Nos panfletos que os anunciam propõe-se um "modo de vida completo" que representaria uma alternativa à qualidade de vida oferecida pela cidade e pelo seu espaço público deteriorado.» Um traço muito importante do condomínio é o seu «isolamento e distância da cidade... Isolamento significa separação daqueles considerados socialmente inferiores» e, como insistem os construtores e os seus agentes imobiliários, «o factor-chave para o garantir é a segurança (...)

Como todos sabemos, as cercas têm necessariamente dois lados. Dividem espaços, que sob outros aspectos seriam uniformes, em «dentro» e «fora»; mas
o que é «dentro» para os que estão de um lado é «fora» para os que estão do outro. Os moradores dos condomínios cercam-se para ficar «fora» da excludente, desconfortável, vagamente ameaçadora e dura vida da cidade - e «dentro» do oásis da calma e da segurança. Pelo mesmo viés, contudo, cercam todos os outros fora dos lugares decentes e seguros (...).

A cerca separa o «
gueto voluntário» dos ricos e poderosos dos muitos guetos forçados que os que não têm posses habitam. Para estes, a área a que estão confinados (por serem excluídos de todas as outras) é o espaço do qual «não têm permissão para sair».

Explicitamente, o propósito dos «espaços interditos» é dividir, segregar e excluir - e não construir pontes, passagens acessíveis e locais de encontro, facilitar a comunicação ou, de alguma outra forma, aproximar os habitantes da cidade.
(...) em vez de defender a cidade e todos os seus habitantes do inimigo exterior, foram erigidas para os separar e defender uns dos outros, agora na condição de adversários.

Na paisagem urbana, os «espaços interditos» tornam-se marcos de desintegração da vida comunal compartilhada e localmente ancorada.


Concomitante às condições físicas da cidade, assim as relações entre as pessoas. Fragmentadas umas e outras. Era também isso que queríamos dizer quando dissemos que "A cidade está a matar-nos". A explicação para isto é bem elucidada nas seguintes palavras:


«O sentimento "nós", que expressa um desejo de ser semelhante, é uma forma de os homens evitarem a necessidade de se examinarem uns aos outros com maior profundidade». Promete, pode dizer-se, algum conforto espiritual: a perspectiva de tornar o convívio algo mais fácil de suportar, cortando-se o esforço de compreender, negociar, comprometer-se, exigido quando se vive com a diferença e no meio dela.

O impulso na direcção de uma «comunidade de semelhança» é um sinal de recuo não apenas em relação à alteridade externa, mas também ao compromisso com a interacção interna (...) A atracção de uma «comunidade da mesmidade» é a da segurança contra os riscos de que está repleta a vida quotidiana num mundo polifónico.

Quanto mais as pessoas permanecem num ambiente uniforme (...), mais se tornam propensas a «desaprender» a arte de negociar um modus covivendi e significados compartilhados.

Já que se esqueceram ou não se preocuparam em adquirir as habilidades necessárias para viver com a diferença (...), [os "estranhos"] tendem a parecer cada vez mais assustadores, na medida em que se tornam cada vez mais diferentes, exóticos e incompreensíveis, e em que o diálogo e a interacção que poderiam acabar assimilando a sua «alteridade» se diluem ou nem chegam a ter lugar.

pp. 137-141


Quando não há espaços íntimos - que são proporcionados pela comunicação, pela identificação, pela inclusão ou pelo desejo destas três necessidades humanas - não pode haver paixões.
Viver sem paixão é "Não estar, não estar a ser, não ser".

Então,
pergunta outra, agora:
E como, a VIDA?


Ser ou não ser gente
ter ou não ter sonhos
mais exactamente
vir
à tona dos sonhos
Ter sempre a certeza das dúvidas
por via das dúvidas saber o que achar

Dobradores do ferro
sopradores do vidro
na margem do erro
ser
claro como o vidro
Ter sempre a destreza da prática
por via da prática saber o que achar

Ah, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão?
Morrendo, vivendo, dormindo
talvez que sonhando…

Ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar

Sedutores da musa
amadores da alma
mesmo que difusa
ser
a imagem da alma
Ter sempre a clareza da fábula
por via da fábula saber o que achar

Dedos semelhantes
às velozes aves
mesmo que distante ouvir
o chamar das aves
Ter sempre a afoiteza do pássaro
por via do pássaro subir e pousar

Ah, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão?
Morrendo, vivendo, dormindo
talvez que sonhando…


Ser ou não ser, Sérgio Godinho

Mesmo com a certeza das dúvidas,
Ter sempre a certeza da música.
Obrigado à pessoa que escreveu este livro.
Obrigado à pessoa que me deu a ler e me possibilitou compreender (melhor) este livro.


Este livro continua...

quinta-feira, junho 17, 2010

Quando "estar lá" não é um pormenor

Temos andado a reflectir sobre as relações que estabelecemos entre nós e os outros.
Mais um exemplo, fresquinho.

Quem não estava lá, não importou.
"Se for preciso, para que não importem, até os expulsámos de lá."
Traduzido:
"Se for preciso, para que não interfiram, fazemos tudo para os tirar de lá.
"


É nisto que reside a violência e a violentação das nossas vontades, dos nossos interesses.

Dizer
NÃO!
Dizer
BASTA!

é expressão de recusa da parte de quem sofre algum tipo de violência.
Violência por parte do meio ou dos que se querem apoderar do nosso meio.
Desconformidade para com o meio ou para com as desigualdades.
E contra isso. Contra estas, sobretudo.




Visão de 17 de Junho de 2010, p.76


Quem está fora, racha lenha.
Quem está fora, não vê, não sabe, tem as costas voltadas.
Quem está dentro também pode rachar lenha, ou tocar viola.
Mas há uma altura em que a luta pelo pouco que nos resta é mais forte.

Reinterpretando o poeta,

Mesmo na noite mais triste
Em tempo de solidão,
Há sempre alguém que resiste,
Há sempre alguma superação.


Gratos devemos estar,
nós, a maioria,
não os vilipendiadores dos nossos interesses,
nós, mesmo que os "outros" também beneficiem por igual (queriam mais, outros valores, menos mediatos e mais visíveis)

para com os que recusaram este episódio de virtualidade,

Liga de Amigos do Jamor.


Mas ficai de atalaia, amigos,
que os vampiros / patos bravos continuam à espreita.
E a sua fome só morre quando morrer a sua natureza de vampiros.

Excrementos de cachalote eliminam toneladas de CO2

Excrementos de cachalote eliminam toneladas de CO2

Virtual e Real - III: Análise

"Não sabendo a verdade do problema colocado
Não se pode definir a estratégia a seguir."
O Fim da História, Mão Morta


Para esta 3ª incursão sobre a "virtualidade" e "realidade" do mundo contemporâneo, optámos por atribuir-lhe o termo "Análise". Carece de uma explicação. Talvez não queira dizer o que se pretende. Mas o seguinte "estrato" do livro "Amor Líquido" demonstra a desorientação que estas duas esferas estão a causar na percepção do cidadão dito "do mundo".


Em recente viagem a Copenhaga, Michael Peter Smith registou que, em apenas uma hora de caminhada, passou "por pequenos grupos de imigrantes turcos, africanos e do Médio Oriente", observou "diversas mulheres árabes com e sem véu", leu "anúncios em várias línguas não europeias" e teve "uma conversa interessante com um barman irlandês, num pub inglês, em frente ao jardim Tivoli". Essas experiências de campo mostraram-se valiosas, diz Smith, na palestra sobre conexões transnacionais que apresentou naquela cidade na mesma semana, "quando um participante insistiu em afirmar que o transnacionalismo era um fenómeno que podia ser aplicado a «cidades globais», como Nova Iorque ou Londres, mas tinha pouca importância em lugares mais isolados como Copenhaga".

Zygmunt Bauman,
p.132


Não há acção com direcção sem uma prévia capacidade de discernimento. A acção contra as forças globais está cerceada pela ausência das fontes das consequências que cada um, localmente, sente. Mas, por algum estranho fenómeno ainda não identificado, também a nossa capacidade de análise parece estar a ser abortada.

Por omissão, por demissão, inconsciente ou não, vamos sendo levados. Para onde? Não sabemos, mas não parece que a cidadania global, os valores de liberdade, solidariedade, igualdade e justiça estejam a ser uma realidade efectiva e local.

Falar de "globalidade" é bem distinto de falar de "globalização".
Tal é quase tão paralelo como falar de "realidade" e de "virtualidade". Por exemplo, a globalização da comunicação não é para todos, pois os povos sem aqueles meios de se ligarem ao mundo, estão excluídos dele. Um outro exemplo é que, através deles, uma mesma distância física - entre dois países com diferente poder económico - pode ser muito fácil numa direcção e muito difícil na outra direcção (um exemplo? a capacidade de penetração da língua inglesa em Portugal e a capacidade de penetração da língua portuguesa nos Estados Unidos...)

Delimitação da REN de Cascais

Portaria n.º 337/2010. D.R. n.º 115, Série I de 2010-06-16

Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território

Aprova a alteração à delimitação da Reserva Ecológica Nacional do município de Cascais

quarta-feira, junho 16, 2010

Virtual e Real - II: Poder

Continuamos com mais um "estrato" do livro Amor Líquido, de Zygmunt Bauman.


Os verdadeiros poderes que moldam as condições sob as quais todos nós agimos hoje em dia fluem num espaço global, enquanto as nossas instituições de acção política permanecem, no seu conjunto, presas ao chão; elas são, tal como antes, locais.
Por continuarem principalmente locais, as agências políticas que operam no espaço urbano tendem, fatalmente, a ser atormentadas por uma insuficiência de poder de acção (...)

Expulsa do ciberespaço, ou tendo o acesso a ele negado, a política recua e reflecte sobre os assuntos que estão "ao alcance", sobre questões locais e relações de vizinhança.

É somente nas questões locais que a nossa acção ou inacção "faz diferença" enquanto nas outras, reconhecidamente supralocais, "não há alternativa" (ou, pelo menos, é o que repetem os nossos líderes políticos e todas "as pessoas que estão «por dentro»").

As cidades tornaram-se depósitos de lixo para problemas gerados globalmente. Os moradores das cidades e os seus representantes eleitos tendem a ser confrontados com uma tarefa que nem por exagero de imaginação seriam capazes de cumprir: a de encontrar soluções locais para contradições globais.

Como Castells insinua (...), a criação do espaço dos fluxos estabelece uma hierarquia (global) de dominação mediante a ameaça de desengajamento. O espaço dos fluxos pode escapar ao controlo de qualquer localidade, enquanto (e porque!) o espaço dos lugares é fragmentado, localizado e, portanto, crescentemente destituído de poder diante da versatilidade do espaço dos fluxos. A única hipótese de resistência das localidades consiste em recusar direitos de propriedade a esses fluxos esmagadores... - apenas para os ver atracar na localidade vizinha, provocando o desvio e a marginalização de comunidades rebeldes.

A política local - e em particular a política urbana - tornou-se desesperadamente sobrecarregada, muito além da sua capacidade de carga / desempenho. Agora espera-se que alivie as consequências da globalização descontrolada usando meios e recursos que essa mesmíssima globalização tornou lamentavelmente inadequados.

pp.129-131

terça-feira, junho 15, 2010

Pum! Mais um...

Diz-nos este blogue que "pela primeira vez São Tomé e Príncipe vai colocar no mercado 19 blocos de petróleo da sua zona económica exclusiva."


Mais uma vez, a cereja em cima do bolo disto - coisa que abordaremos em breve -é que o leilão da coisa sem importância (e com consequências e impactos... é só aguardarmos quietinhos e mudinhos...) decide-se noutro lugar, com outros actores...

Nada de novo em tempos virtualidade.
Demitamo-nos.
Mas demitamo-nos sempre. Nós por aqui e vós por aí.
Para, de vez, fazermos do mundo real algo que não seja de ninguém.
O mundo privatizado numa sociedade completamente anónima.

Virtual e Real - I: Espaço

Realidade e virtualidade, uma questão que começámos por mencionar aqui, a propósito das relações humanas. Prosseguimos na sua abordagem, agora sobre um objecto que é caro à Geografia - o espaço.
(A continuar, nos próximos dias.)


À medida que os moradores ampliam os seus espaços de comunicação para a esfera internacional, conduzem simultaneamente as suas casas para longe da vida pública.

Virtualmente, todas as cidades do mundo começam a apresentar espaços e zonas poderosamente conectadas a outros espaços "valorizados", cruzando a paisagem urbana e as distâncias nacionais, internacionais e até mesmo globais. Ao mesmo tempo, porém, há muitas vezes em tais lugares um palpável e crescente sentido de desconexão local em relação a áreas e pessoas fisicamente próximas mas social e economicamente distantes.
O produto excedente da nova extraterritorialidade-mediante-a-conectividade dos espaços urbanos privilegiados, habitados e usados pela elite global, são as áreas desconectadas e abandonadas.

Tal como sugerido pela primeira vez por Manuel Castells, há uma crescente polarização e uma ruptura de comunicação ainda mais completa entre os mundos em que vivem as duas categorias de residentes urbanos:

O espaço da camada superior é geralmente conectado à comunicação global e a uma ampla rede de intercâmbio, aberta a mensagens e experiências que abrangem o mundo inteiro. Na outra extremidade do espectro, redes locais segmentadas, frequentemente de base étnica, apoiam-se na sua identidade como o mais valioso recurso para defender os seus interesses e, em última instância, o seu ser.

A imagem que emerge desta descrição é a de dois mundos segregados e distintos. Só o segundo deles é territorialmente circunscrito e pode ser capturado nas malhas das noções geográficas ortodoxas, mundanas e terra a terra. Os que vivem no primeiro deste dois mundos podem estar, como os outros, «no lugar», mas não são «do lugar» - decerto não espiritualmente, mas com muita frequência tão-pouco fisicamente, quanto é seu desejo.

Imagem retirada daqui

As pessoas da "camada superior" não pertencem ao lugar que habitam, já que as suas preocupações se situam (ou melhor, flutuam) alhures.

O mundo em que vive a outra camada de moradores da cidade, "inferior", é o exacto oposto do primeiro. Define-se sobretudo por ser isolado daquela rede mundial de comunicação através da qual as pessoas da "camada superior" se conectam e com a qual as suas vidas se sintonizam. Os habitantes urbanos da camada inferior estão «condenados a permanecerem locais» - e, portanto, espera-se, e deve-se esperar, que a sua atenção, repleta de descontentamentos, sonhos e esperanças, se concentre nos "assuntos locais". Para eles, é dentro da cidade que habitam que a batalha pela sobrevivência e por um lugar decente no mundo é desencadeada, travada, por vezes ganha, mas geralmente perdida.

O afastamento da nova elite global em relação aos seus antigos engajamentos com o populus local e o crescente hiato entre os espaços vivos / vividos dos que se separaram e os espaços dos que foram deixados para trás é comprovadamente o mais seminal de todos os afastamentos sociais, culturais e políticos associados à passagem do estado "sólido" para o estado "líquido" da modernidade.


Zygmunt Bauman,
in, Amor Líquido,
pp. 125-127

segunda-feira, junho 14, 2010

PDM de Lisboa




A Proposta de Revisão do PDM de Lisboa

A Câmara Municipal de Lisboa promove, no dia 16 de Junho, uma sessão com vista à apresentação/debate da Proposta de Revisão do PDM de Lisboa.

A iniciativa irá ter lugar no ISCTE – Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (Auditório B 203 – Av. das Forças Armadas), pelas 9h30.

A entrada é livre, mas os lugares limitados, pelo que é solicitada confirmação de presença até ao dia 15 de Junho.




Humm... que bom...

Que delicioso que é o Decreto-Lei n.º 67/2010. D.R. n.º 113, de 2010-06-14...

...cuja descrição é a seguinte:

"Modifica os limites máximos aplicáveis ao arsénio, teobromina, Datura sp., Ricinus communis L., Croton tiglium L. e Abrus precatorius L. em alimentos para animais, altera o anexo I ao Decreto-Lei n.º 193/2007, de 14 de Maio, e transpõe a Directiva n.º 2009/141/CE, da Comissão, de 23 de Novembro"


O engraçado não está na modificação em si.
Está no facto de, por esta transposição, ficarmos a saber que - não vá o diabo descair-se... - costuma haver arsénio em alimentos para animais...

Sabor agridoce...

quinta-feira, junho 10, 2010

Andanças na minha terra 6: Agricultura e pouca fancaria

Vidal: Junho, FNAGRI, Santarém

Ainda vai muito a tempo de visitar a Feira Nacional de Agricultura a ter lugar em Santarém até dia 13 do corrente. Vá com disponibilidade total e leve tempo. Eles agradecem. [Provavelmente o seu estômago também]

quarta-feira, junho 09, 2010

Aos pontapés

Num estudo recente, a ACAP - Associação Automóvel de Portugal, concluiu que existem no país 5,9 milhões de veículos. O concelho de Lisboa encontra-se no topo, com 7,7% dos automóveis, seguido de Sintra (3,7%), Oeiras (3,5%), Gaia (2,9%) e Porto (2,6%). Quanto a combustíveis, o gasóleo sai largamente vencedor: só em 31 dos 308 concelhos portugueses a gasolina é maioritariamente usada.

in Visão, 3 de Junho de 2010, p.94



E quem for à página da ACAP será confrontado com um gráfico das vendas de veículos ligeiros de passageiros e verificará como, até ao momento, 2010 tem registado mais vendas que 2009.

Curioso...

Dizem que o ano de 2009 foi péssimo em termos de vendas, mas isto pode lançar pistas sobre os desequilíbrios económicos entre as "classes" e sobre quais é que sofrem com as crises.... as tais crises que tocam a todos...
Pois.

O argumento pode ser simples e/mas pode ser este:
Quer dizer, o ano passado estávamos em crise e as vendas foram o que foram. Agora, que supostamente estamos pior, as vendas estão a ser estas...
Hum... hum...

terça-feira, junho 08, 2010

Inferir através dos pormenores

De pormenores sem importância parecemos estar sempre a falar.

Quantos mundos não há para além do buraco da agulha?
Para lá da janela suja ou baça do conhecimento...

O que vem até nós é, por vezes (são as vezes em que algo vem até nós), apenas uma nesga da imensidão do mundo. Através da qual inferimos esse mesmo mundo.
Ou, pelo menos, que nos faz inferir que o mundo deve existir.
E só então e depois a pergunta
"Quantos mundos devem existir?".

Não passa nos grandes média, porque não interessa a muita gente.
(Quantas vezes o que passa nos grandes média interessa a muita gente?)
Não passa nos rodapés, mas não passa de uma nota de rodapé. Ou é, pelo menos, assim considerada, desconsiderada. Como algo de somenos importância, coisa desprezível, mas "vá lá, o nosso dever é informar".

Ou, pelo contrário, sabem bem a quem se dirige um "nota de rodapé" assim. E sabem do poder que tem, do impacto que pode ter junto desses alvos.

Deixando-nos de mais prolegómenos, rotundas e considerações: eis aquilo de que falamos: uma pequena notícia (5 linhas e - nós contámo-las... - pouco mais de 150 caracteres, isto é, uma coisa mínima... que, como o buraco da fechadura, esconde muito mais, imensamente mais, que o que mostra...) que nos deixa tantas perguntas no ar como aquelas que formos capazes de fazer.
Porque só pensamos com o que tivermos para pensar.
E, sendo o pensamento um processo contínuo, que se vai construindo, só pensamos com o que tivemos adquirido para pensar, para formular juízos e inquietações.

Extraída da Visão de 27 de Maio passado (p.34), diz o seguinte... Diz muito mais... em poucas palavras, diz tanta coisa que nenhuma palavra parece desimportante...
:


AFASTADO
O arq. Siza Vieira, 76 anos, do projecto da transformação do Forte de Peniche em pousada, por discordar da criação de mais dois pisos e do apagamento da memória histórica da prisão política.


Meditemos.

segunda-feira, junho 07, 2010

Andanças na minha terra 5 : Batalha

Vidal: um aspecto da nave do mosteiro da Batalha. Maio 2010

Um sítio com história é diferente de um sítio histórico. Inclino-me, no caso da Batalha para a segunda opção, sem dúvida, porque é aquilo que eu sinto quando lá estou. O mosteiro é magnífico, e a nave principal escorre uma luz que nos envolve como um manto diáfano. Os arredores do mosteiro são, para o bem e para o mal, turísticos (paguei numa pastelaria um balúrdio por um bolo de feijão).
Desta última vez que lá passei de fugida almocei perto do Exposalão da Batalha. Por oito Euros, meus amigos, deliciem-se com o repasto, generoso e equilibrado. A escolha afigura-se variada, e o pão e as azeitonas inesquecíveis.


Vidal: Zona envolvente do mosteiro, Maio 2010

A Cidade, por Jaime Lerner

sexta-feira, junho 04, 2010

Primeiras Jornadas Técnicas de SIG

O Departamento de Território, Arqueologia e Património do Instituto Politécnico de Tomar, está a organizar as 1as Jornadas SIG, que decorrerão no próximo dia 25 de Junho de 2010 em Tomar, com o tema:

SIG em prospectiva no Distrito de Santarém

Pretende-se que este evento constitua um encontro de técnicos e utilizadores de Sistemas de Informação Geográfica, com o objectivo de apresentar casos de sucesso do distrito de Santarém e debater estratégias futuras no âmbito da aplicação de Sistemas de Informação Geográfica na gestão integrada do território.

+ Infos em http://www.jornadas-sig.ipt.pt

quinta-feira, junho 03, 2010

O turismo como solução para todos os problemas 1: não tarda nada vou a Barcelona ler o Baudrillard

“Sei que o fim da jujuba, do cedro e da palmeira não é o fim do mundo, mas com estes pequenos mal-estares graves vai-se forjando um grande mal-estar grave e germinando esse boato que muitos já ouvimos e que diz que, com a cidade vendida à especulação imobiliária e a um turismo indiscriminado e a indústria cultural oferecida a Madrid, estamos perante o fim de Barcelona. Já não se trata apenas da barbárie que numa só manhã me atingiu em três frentes distintas (uma prova de que o termo médio da selvajaria tem de ser grande), mas também essa crescente incomodidade por notar que a cidade já não é nossa, que é um grande parque temático para estrangeiros e que, na realidade, com tanta estupidez já se verificou – nos próximos anos confirmar-se-á, simplesmente – o fim de Barcelona”.

Enrique Vila-Matas in Diário Volúvel, Teorema. Tradução de Jorge Fallorca.