quinta-feira, julho 28, 2011

A quente

...Pessoas que nós não vemos há anos, até.

Um incêndio não é um bom motivo para nos reunirmos todos. Mas é quase necessário. E também isto me preocupa. Onde temos andado, e tal, ? porque e mas quando é preciso estamos cá todos. Prontos para a batalha fatal.


Éramos talvez mais de dez. E enquanto o fogo ardia, crepitando a poucos metros e nas alturas das árvores, houve um espesso silêncio. Ninguém dizia nada. Observávamos.
Impotentes e deixando arder o que lenta e silenciosamente fomos perdendo até chegarmos a esta hora...

E lembro-me de tudo quanto foi e continuará a ser.

Dos eucaliptais, dos madeireiros, dos bombeiros, dos farenheits451, dos cortes do governo, do desinteresse, do mero-pano-de-fundo-para-as-nossas-vidas, da falta de ordenamento, do abandono, das cabras que já não pastam porque já não há cabras....

(...e penso que incêndios assim estão para o ordenamento como as crises, a inflação e a deflação estão para o sistema monetário e o capitalismo....)

Lembro-me de todos pressentirmos entre nós a busca de um culpado, sempre a nossa sanha secular de um bode expiatório, de perseguirmos alguém e, se preciso, merecer o fogo que nos vai queimando o olhar e enegrecendo a vida...

(... mas "más allá de mis penas personales, me ensancho, me ensancho...")

Lembro-me das perdas pessoais e colectivas, acauteladas?, não acauteladas?, do espaço dito privado e da falta de zelo, porque "isso é lá com eles e não tens nada que meter o bedelho"...

Sei dos criminosos que já partiram com a sua maquia e deixaram mais uma mais valia para o fogo, parece que cuidadosamente espalhada pelo chão.
E sei que, como diz a canção dos Moody Blues, quem transforma a terra em deserto continua sem ser considerado criminoso...

(Ah, a nossa bela capacidade de julgar e do silêncio compadecido ou cúmplice...)


Enquanto me lembro de todas estas coisas e muitas mais, num ápice tudo isso desvale a pena.
No vórtice dos ventos, todos estes pensamentos são consumidos pelas chamas às nossas frentes. Pelo fogo à nossa frente e lá por cima.

Espectadores durante todo o espectáculo, observadores até ao desfecho.

Neste momento, a zona de batalha é um lugar destroçado e negro, os lutadores continuam a pairar sobre as nossas cabeças enquanto o ruído dos helicópteros entra nas nossas cabeças e o cheiro de cinza continua nos nossos narizes.

Pensei,
vamos dar o nosso testemunho disto. Desta noite longa e rápida de 28 de Julho de 2011.
Cada um que diga o que pensa, viu e sentiu.
Reuniremos tudo e assim será a história desta terra queimando-se que nos aflige.

"Na Alemanha, se queres cortar árvores, não é assim. Vai lá o técnico da Câmara, pergunta ao interessado na madeira
Quantos quilos queres?
Ok, podes cortar aquela, aquela e aquela."
Não é assim. [deitar abaixo todas as que nos apetece e deixar as cascas, belo material combustível...]. Tiras a madeira, mas não podes deixar cascas, nem o serrim... Não podes deixar nada...
Vivi lá 17 anos e nunca vi um incêndio. E há florestas por todo o lado.
E em Maio as pessoas vão todas fazer churrascos."

(Algo como isto, espero não estar a deturpar a memória, à soma do fumo e do sono...).

Este é um testemunho.
Apenas.

É hora de chorar sobre o desfeito e o incendiado.
De chorar esta terra e este país.

É hora de uma vez mais (dez anos depois?) olhar a terra queimada e a cinza fria e sentir "que amor não se entrega na noite vazia?"

A vingança vai-se servindo.
A quente.

Disse a Mãe, chateada até aos ossos.

domingo, julho 17, 2011

Portugal - Estudo de Geografia Regional, por Pierre Birot

Título: Portugal - Estudo de Geografia Regional
Edição original: Portugal - Étude de Géographie Régionel (1950)
Autor: Pierre Birot
Tradução: Evaristo Vieira
Edição: 2ª ed., Abril de 2004
Editora: Livros Horizonte
Colecção: Horizonte Histórico
ISBN: 972-24-129-14
Paginação: 152


É interessante descobrir como era visto Portugal há mais de 6 décadas. E ter a sensação de ser quase como um destapar de todas as coisas, e imensas, com que fomos "tapando" e "alterando" o solo e os usos que lhes fomos e vamos dando.
Os modos de vida agrícola, as linhas do relevo, a constituição geológica, as principais características da vegetação, algumas indicações do então novo crescimento económico e urbano...
No que respeita às práticas mais rurais, talvez ainda algo desse mundo de então reste ainda, escondido algures. Onde a "civilização" - seja ela o que for - não a tenha apagado por completo.
No que respeita aos desenvolvimentos das zonas urbanas, tanto já mudou que apenas poderemos achar indicações ultrapassadas. Mas que fazem parte da história de terras e de (cada vez menos) gente.

Mesmo que problematize - questão sempre presente e exercício sempre necessário (as divisões no mapa são meras linhas que não são assim tão detectáveis como um muro berlinense ou israelita) - e analise o que distingue umas regiões de outras (daí a sua individualização e nomeação), o autor não se deteve nas ilhas. Ficaram à margem. Tal como, geograficamente - face à parte continental-, não deixam de estar. O que acaba por ser uma pena, pois poderíamos ter um breve testemunho de como eram e se regiam. Um breve estudo é um estudo breve, iniciático, introdutório e sujeito a posteriores aprofundamentos.

Surpresa foi "desencantar" ainda este livro, que não é frequente vermos nas livrarias. Sim, as tais que têm cada vez menos para nos oferecer e mais com que nos encher o olho impressionável e susceptível às cores e às dimensões. Tampouco sabia da sua existência.
Pensamos que, por isso, pode ser uma boa leitura para iniciados.
Esta é a nossa proposta de Julho.

Leitores, ávidos, de todo o mundo, cultivai-vos!

Nota: Envie a sua sugestão de leitura para georden@gmail.com que posteriormente publicaremos neste mesmo espaço.

domingo, julho 10, 2011

Os bancos...

Quando, o Ministério das Finanças anunciou que o Governo vai prestar uma garantia de 20 mil milhões de euros aos bancos até ao fim do ano, respirei de alívio. Em tempos de gravíssima crise mundial, devemos ajudar quem mais precisa. E se há alguém que precisa de ajuda são os banqueiros.

De acordo com notícias de Agosto deste ano, Portugal foi o país da Zona Euro em que as margens de lucro dos bancos mais aumentaram desde o início da crise. Segundo notícias de Agosto de 2007, os lucros dos quatro maiores bancos privados atingiram 1,137 mil milhões de euros, só no primeiro semestre desse ano, o que representava um aumento de 23% relativamente aos lucros dos mesmos bancos em igual período do ano anterior. Como é que esta gente estava a conseguir fazer face à crise sem a ajuda do Estado é, para mim, um mistério.

A partir de agora, porém, o Governo disponibiliza aos bancos dinheiro dos nossos impostos.

Significa isto que eu, como contribuinte, sou fiador do banco que é meu credor. Financio o banco que me financia a mim. Não sei se o leitor está a conseguir captar toda a profundidade deste raciocínio. Eu consegui, mas tive de pensar muito e fiquei com dor de cabeça. Ou muito me engano ou o que se passa é o seguinte: os contribuintes emprestam o seu dinheiro aos bancos sem cobrar nada, e depois os bancos emprestam o mesmo dinheiro aos contribuintes, mas cobrando simpáticas taxas de juro. A troco de apenas algum dinheiro, os bancos emprestam-nos o nosso próprio dinheiro para que possamos fazer com ele o que quisermos. A nobreza desta atitude dos bancos deve ser sublinhada.

Tendo em conta que, depois de anos de lucros colossais, a banca precisa de ajuda, há quem receie que os bancos voltem a não saber gerir este dinheiro garantido pelo Estado. Mas eu sei que as instituições bancárias aprenderam a sua lição e vão aplicar ajuizadamente a ajuda do Governo.

Tenho a certeza de que os bancos vão usar pelo menos parte desse dinheiro para devolver aos clientes aqueles arredondamentos que foram fazendo indevidamente no crédito à habitação, por exemplo, e que ascendem a vários milhares de euros no final de cada empréstimo. Essa será, sem dúvida nenhuma, uma prioridade.

Vivemos tempos difíceis, e julgo que todos, sem excepção, temos de dar as mãos. Por mim, dou as mãos aos bancos. Assim que eles tirarem as mãos do meu bolso, dou mesmo.


Ricardo Araújo Pereira, Outubro de 2008
(Crónica "Boca do Inferno", publicada na revista Visão)

Tão actual, não é?

quinta-feira, julho 07, 2011

Do nada nada vem

Do nada nada vem.


Esta máxima, antiquíssima, demora a ser apreendida, aprendida, concretizada, imaginada... na nossa forma de entendermos o mundo.

Como se despolui uma água poluída?
É fácil: retiram-se-lhes os poluentes.

E, assim, sem esses poluentes, a água despoluída já pode ser consumida?
(Depende da finalidade, é certo: mesmo poluída pode ser consumida...)
Por exemplo, para beber?

Talvez ainda não.
Então, o que falta?
É preciso que a água readquira as características que a fazem potável, bebível.

A um líquido nada de especial acontece se mais líquido lhe for acrescentado.
De cada vez que defecamos ou urinamos na água, nas nossas casas-de-banho muito bem apresentáveis e perfumadinhas e cor-de-rosinhas, estamos a tornar essa água imprópria para beber.

(Não sei onde está o choque...
Quê, vão dizer-me que nunca pensaram nisso?...
Então?! não vemos que se não fôssemos nós as ETARs não tinham lá muita piada?
Pois, nós fazemos a porcaria para elas a desfazerem.
À porcaria...)

Como se limpam essas águas?
Acrescentando-as a outras águas?

Não estou a conseguir chegar lá....

Ah, já sei. Pensemos no seguinte:
Como proteges uma coisa?

Constróis um muro à volta.
Mas assim essa coisa morre lá dentro.
Ah...

Bem...

Se queremos proteger um elemento de vida, temos de proteger e cuidar do meio onde esse elemento É.
Onde esse elemento vive.
Onde esse elemento é vida.

É assim que fazem para preservar as espécies (porque já vamos tarde e a más horas)... em vias de extinção: protegem os habitats.
- ESTA É A VISÃO POSITIVA, AO SERVIÇO DA VIDA.

É assim que fazem para exterminar as populações - privam-nas dos alimentos e de um lugar para viver. Sim, tal como os Israéis deste mundo fazem aos que moram nas Faixas de Gaza deste mundo.
- ESTA É A VISÃO NEGATIVA, AO SERVIÇO DA MORTE.


Mas onde é que íamos?
Ah...

Esqueçam tudo o que está para cima: era só um pretexto / contexto / subtexto.


"O tratamento de águas residuais através de sistemas que utilizam vegetação e microrganismos é uma alternativa que tem vindo a ser implementada em Portugal ao longo dos últimos anos.

Mas agora, através de um projecto da Escola Superior de Biotecnologia (ESB) da Universidade Católica no Porto (UCP), este tipo de solução ganhou uma nova abordagem ao ser aplicado numa unidade de turismo localizada em Ponte de Lima, devido às características típicas destas instalações, como a sazonalidade dos resíduos.

Este sistema, denominado de fito-etar, é uma alternativa ecológica às etares convencionais e caracteriza-se por recorrer ao leitos de plantas e a microrganismos como meio de tratamento de águas residuais, recriando assim as condições depurativas encontradas nas zonas húmidas naturais.

“É um tratamento biológico feito através de plantas e de microorganismos que as colonizam e que promove a degradação natural dos poluentes", explicou ao «Ciência Hoje», Paula Castro, investigadora da ESB-UCP, destacando que esta alternativa promove a biodiversidade e também tem uma boa integração na paisagem."


Notícia CiênciaHoje

quarta-feira, julho 06, 2011

O Atlântico vai acabar...

Imagem via Wikipédia

O Atlântico vai acabar... MAS essa não é a questão essencial.

A questão é que o BPA - Banco Português do Atlântico já nem existe...


....


É óbvio que estamos a brincar.
Bancos há-os aos montes: proliferam e prosperam com as crises...
São os primeiros ladrões a aparecer com cara de vítimas...

A notícia é esta, avançada pelo CiênciaHoje, aqui.


Mas o mais relevante nisto tudo, a questão verdadeiramente essencial, é a supressão daquela letrinha, via NAO (não, não estamos a referir-nos à Oscilação do Atlântico Norte, mas, sim, ao Novo Acordo Ortográfico...), que faz com que a "zona de subducção" agora tenha virado "zona de SUBDUÇÃO...!

(
Não, também não é no texto da notícia que assim aparece, mas, sim, nos manuais escolares:

a doença espalha-se de uma forma muito mais eficaz!

Que a internete é para ver umas gaijas e mandar uns meiles... não para aprender ciência... isso é coisa de cotas que ainda escrevem as palavras como antigamente... Do género, 'tás a ver?, aquela... ai, como é que era?...

Olha, agora não me lembra, mas era mesmo muita curtida, iá...
)


Esta é a questão essencial do fim dos oceanos.
Sem aquele QS... aquele KC, como em "Que se lixe!", subducção passa a ser algo bem mais suave, sem quaisquer violência capaz de gerar sismos...
Onde é que a subdução assusta quem quer que seja?

Coitadinha da moça...

A espoliação continua...

O Georden não é indiferente à supressão da ligação ferroviária Porto-Vigo.

É um absurdo pegado.
Mas, infelizmente, dentro da lógica a que nos têm vindo a habituar.
Sem confrontarem os interessados.
De cima pra baixo, que é como sempre se fez e fará através dos meios de comunicação de massas. Sem qualquer respeito.
Aliás, nem sei porque ainda se dão ao trabalho de o anunciar...


O Portugal do cada vez mais "orgulhosamente sós".
Cada vez mais isolados e estranhos a nós mesmos.

Irmãos galegos, ajudai-nos!



Tudo perdido em favor das grandes rodas...
Rui Pires Cabral

terça-feira, julho 05, 2011

Mais um fora-da-lei: Suíça

Quando há dois anos me encontrei em Bilbau com um companheiro da associação Slow Food Suíça, à alturas presidente deste movimento no seu país, assegurou-me que se a Suíça ainda não fazia parte da UE, não era por renunciar ao sigilo bancário: era por algo bem mais importante.

A condição que impunham à Suíça para integrar a União Europeia era a de que previamente tinham de renunciar às Consultas Populares Vinculativas.

Nesta ligação podeis ver como a Suíça é o Estado do mundo onde o seu povo mais participa:

À máfia política europeia não interessa a fraude fiscal, porque esta máfia sobrevive a especular e a acumular fortunas não só na Suíça, mas também noutros paraísos fiscais europeus: Luxemburgo, Liechtenstein, Mónaco, Vaticano, Malta, Chipre, Gibraltar, Andorra, Ilhas de Man, Jersey, Guernesey, Sark, Aldemey.

A única coisa que preocupa à nossa querida Europa, é que os cidadãos não tenham acesso à democracia directa.

E dificilmente a Suíça cederá a estas pressões, porque o povo suíço tem bem enraizada esta profunda tradição democrática.

A Suíça tem 7 milhões de habitantes, mais ou menos como a Catalunha e com apenas a assinatura de 100.000 cidadãos, eles próprios têm o direito de convocar um referendo cujo resultado será vinculativo para o Governo e as outras instituições.

Foi assim que o fizeram em mais de 300 ocasiões, quando os políticos profissionais legislam ou governam de costas para o povo suíço.

Uma das últimas foi quando o Parlamento não proibiu o cultivo de transgénicos no seu país. O povo indignado fez uma Consulta Popular, vencendo-a por um resultado inverso ao que tinham perdido na discussão parlamentar.

Com certeza que vos lembrais do que fez o Parlamento Catalán com a Iniciativa Legislativa Popular contra os transgénicos, que com 106.000 assinaturas de apoio, tiveram a ousadia de se aliar o PSC-PSOE, o PP e a CiU para evitar o debate parlamentar de um tema de tanto interesse para a sociedade catalã.

Umas semanas mais tarde, pelo contrário, autorizaram o debate da Iniciativa Legislativa Popular contra as touradas, porque era um tema folclórico, em que não se discutia nem a saúde das pessoas nem a dependência vil das nossas Instituições, das multinacionais farmacêuticas proprietárias das sementes transgénicas.

Na Suiza, em Espanha e no resto da Europa a maioria da classe política está lá para servir os grandes interesses económicos, mas ao menos na Suíça têm um mecanismo de participação que corrige os excessos desta maioria corrupta.

Decidi-me a escrever este artigo, quando li as declarações de Felipe González (Ex Presidente do Governo de Espanha), desprestigiando a democracia directa que o movimento 15M propõe, como se o exemplo californiano fosse o que inspira os Indignados.

Na seguinte ligação podem ver como um político evolui na sua ideologia, a partir da altura em que alcança o poder e por outro lado outros se mantêm fiéis aos seus princípios:


Penso que doravante um dos objectivos da cidadania terá que ser o de conseguir o direito a votar directamente, referendos vinculativos tal como os suíços fazem, para corrigir os abusos de tanto político corrupto e votar apenas em partidos ou plataformas que defendam esta opção.

O movimento dos indignados não pode perder-se em dezenas de notáveis propostas. Todas elas se conseguirão muito mais facilmente se o povo puder legislar directamente através das Consultas Populares Vinculativas.
Centremos os esforços neste tema - penso que é vital.


Josep Pamies


Texto publicado aqui.
Tradução de Eduardo F.

Capitalismo, essa arma de destruição massiva...*


A população de Detroit tem vindo a decrescer desde os tempos áureos da indústria automóvel [por que é conhecida] nos anos 1950, em que rondava os 2 milhões, para pouco mais de 700 mil pessoas.

Os escassos empregos e as crescentes hipotecas levaram mesmo as estáveis famílias da classe média para os subúrbios, deixando para trás centenas e centenas de casas e propriedades. Abandonadas. Segundo as estatísticas, o número de casas vazias duplicou na última década para 80 mil, mais que um quinto da totalidade da cidade. Mesmo que tenham vindo a demoli-las, à razão de 1000 casas por ano, não conseguem cobrir a percentagem a que as famílias estão a deixá-las.


Tradução por Eduardo F.
Fonte: Amusing Planet



* - e este caso é até bem asséptico: não mostra pessoas a matar para comer, por exemplo.
Ou os recursos naturais destruídos, poluídos, impróprios para manter a vida às pessoas que, do lado de fora do arame farpado (da propriedade), a eles querem chegar...

segunda-feira, julho 04, 2011

DESTRUIR, de cima a baixo, a cadeira que nos vai derrubar


Me llamarán, nos llamarán a todos.
Tú, y tú, y yo, nos turnaremos,
en tornos de cristal, ante la muerte.
Y te expondrán, nos expondremos todos
a ser trizados ¡zas! por una bala.

Bien lo sabéis. Vendrán
por ti, por mí, por todos.
Y también
por ti.

(Aquí no se salva ni dios, lo asesinaron.)

Escrito está. Tu nombre está ya listo,
temblando en un papel. Aquél que dice:
Abel, Abel, Abel...o yo, tú, él...


Blas de Otero,
"Me llamarán", 1955



Comunidades inteiras estão a ser expulsas das suas terras no delta do Tana, no Quénia, para permitir investimentos da canadiana Bedford Biofuels e da britânica G4 Industries Ltd em culturas de cana do açúcar e de jatrofa para produzir biocombustíveis. The Guardian.

Notícia via Ondas3


E assim vamos, cúmplices da destruição que dizemos ser nefasta para o ambiente e para as pessoas.

A economia... sempre aquela máquina bem oleadinha que nos troca as voltas, nos dá o que nos tira, baralhado e revirado, nos tira o que nos dá, sempre em prejuízo da sustentabilidade.

Quando não sabemos o que as nossas simples acções de consumo implicam:

- de quem é a culpa?
- porque continuamos?
- face ao desconhecimento, porque não evitamos?

Mais uma vez, o dizemos:

no ciclo do consumo (extracção dos recursos, produção / transformação, distribuição, consumo propriamente dito e deposição das "externalidades"...), ao consumidor que queremos cada vez menos ignorante, apenas costuma ser mostrada a parte da venda.

Não nos questionamos:

De onde vem?
Quem produziu?
Como produziu?
O que implicou essa produção / transformação?
Quem trouxe?

Nós, os consumidores, temos duas fases, de todo este processo, que conhecemos bem.
TODAVIA....!!!
... ainda a última ali mencionada (deposição das "externalidades", vulgo "lixo", que não tem de ser o fim em si: é, e pode ser, o recomeço de outros ciclos de consumo...) costuma ser depreciada, desprezada, ocultada, esquecida, desvalorizada...

E porquê?

- Porque o "lixo" cheira mal.
Porque é desagradável, insustentável e eticamente reprovável.

blá blá blá....

Ai é?

Se cheira mal e é desagradável... não te sentes mal e desagradável por teres de o fazer?
Se te sentes mal e desagradável por teres de o fazer, porque não tentas reduzi-lo?

- Ah, porque quero continuar a ... ah... eh... ah,.. produzi-lo... Não, espera, não é bem isto: porque quero - é isso! - porque quero continuar a consumir o que produz o "lixo" que eu não quero produzir com o que consumo... Ui...
Que é que eu disse?

...

E há forma de reduzir o "lixo"?
Primeira forma: reduzir o consumo.
Segunda forma: escolher o que consumimos.

Sabendo mais, mesmo que as escolhas não aumentem com isso, aumentam as formas de sabermos escolher.
Em vez de paparmos qualquer porcaria que nos ponham na prateleira.
Qualquer prateleira.

Quereis mais uma?
Olhemos, então:

Dois estudantes do Scripps Institution of Oceanography da Universidade de San Diego encontraram resíduos de plástico em mais de 9% dos estômagos dos peixes capturados durante a sua viagem ao Giro Subtropical do Pacífico Norte. Science Daily.


Quantas pessoas estão a ler isto e a pensar?

sábado, julho 02, 2011

PPP? PQP!!!


"A EDP quer garantir o máximo de incorporação de mão de obra local nas obras de Foz Tua, estando já a desenvolver planos com o consórcio construtor Mota-Engil/Somague/MSF, a Direção Norte do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) e o Centro de Formação Profissional da Indústria da Construção Civil Norte."

Via EDP (imagem e excerto)


Blá blá blá...
Querem envolver as pessoas locais no projecto?
Gostam muito de criar postos de trabalho, não é?

Adoram é comprar os locais para que aceitem roubar-lhes o pouco que lhes resta.
Adoram é passar os bens que são de todos para as mãos de alguns.


É urgente rever as concessões e parcerias público privadas, tal como exige a `troika´ e como anunciado pelo novo Governo, sendo as barragens a 3ª Parceria Público Privada (PPP) mais cara para o país. E estimado que o custo total das novas barragens (durante a vida da concessão) seria cerca de 15 000 milhões Euros = 4600 € por família [1].

O que ganha um país quando destrói uma linha-férrea centenária que atravessa toda a região uma região interior que não tem outra alternativa que não uma futura auto-estrada com portagens?

A Linha do Tua percorre Trás-os-Montes, lado a lado com um dos últimos rios livres de Portugal, serve as gentes locais, transporta milhares de turistas de todos os cantos do mundo e, com a sua ligação a Puebla de Sanabria e à Alta velocidade Espanhola, poderia trazer a casa, pelo Verão e pelo Natal, milhares de emigrantes transmontanos.

O que ganha um país quando destrói um vale milenar único como o vale do Tua, para aumentar a sua produção energética em algo tão insignificante como 0,7% [2]?

Os impactos da construção desta barragem são irreversíveis e hipotecam para sempre o futuro de Trás-os-Montes. É urgente um novo olhar para Trás-os-Montes e para o desenvolvimento transmontano, em particular, para o Vale do Tua.


Comunicado da Quercus (excerto) pela revisão das Parcerias Público-Privadas (parecem-me depravadamente bem mais privadas que públicas...) no que diz respeito à construção de paredões, produção de energia, projectos e a delapidação da paisagem...


Soa a muitos pês?
Soa a pês a mais para a nossa vidinha cheia de ésses e dês?

Olhem,


«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo… e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»

José Saramago – Cadernos de Lanzarote - Diário III – pag. 148