quarta-feira, agosto 26, 2015

Maravilhar-se, por Rachel Carson

Título: Maravilhar-se - Reaproximar a Criança da Natureza
Edição Original: The Sense of Wonder (1956)
Autor: Rachel Carson
Tradução: J. C. Costa Marques
Edição: Novembro de 2012
Editora: Campo Aberto / Edições Sempre-em-Pé
ISBN: 9789728870362
Paginação: 104 páginas

Esta é uma co-edição da associação de defesa do ambiente Campo Aberto e das Edições Sempre-em-Pé e, para além daquele belo texto de Rachel Carson, contém fotos ilustrativas, uma análise da actualidade do legado e uma pequena biografia sobre a escritora bióloga estadunidense. O que, face à extrema dificuldade de encontrar o seu seminal "Primavera Silenciosa" - sim, houve uma edição por cá, na editora Pórtico, em 1964 - constitui um acrescento valioso, face à singeleza e pequenez do texto originalmente publicado num jornal.

Inspirada pelo seu sobrinho-neto, com quem passava os dias a descobrir a natureza em torno do local onde morava, no Maine (costa este, junto ao Canadá), descreve as razões e as maneiras do porquê empreender tal tarefa, pedagógica, se assim podemos dizer.

Em primeiro, trata-se de redescobrir - mesmo que em tenras idades - os sentidos, exercitando-os com detenção e paixão. Isto implica arrancar da anestesia geral o sentido do olfacto, reaprender a escutar atentamente para discernir os pequenos sons do espaço à nossa volta. A visão será talvez aquele, hegemónico, que a sociedade do espectáculo nos ensina a usar mais vezes. O que não quer dizer usar necessariamente bem. A cada realidade suas necessidades.

Em segundo lugar, e o mais importante doravante, não será tanto inundar-nos de informações ligadas àquilo que vemos, ouvimos e cheiramos, mas sim respeitar, junto dos seres vivos (fauna e flora) e dos restantes elementos da natureza, os ritmos da contemplação e da fruição. O mistério e o descobrimento serão os pêndulos donde nascerá a paixão e o sentimento que, estes sim, ficam gravados desde cedo e não cessarão de dar frutos pelo futuro.
No futuro, então, sim, os nomes e a compreensão, científica ou de senso comum, que ligamos àquilo que presenciamos e vivemos ajudarão a completar o gosto e o respeito pela natureza.


Numa análise crítica - sendo uma auto-crítica, antes de mais - devemos dizer que este ensinamento ficará cerceado se não pudermos conviver com a natureza. Ela está por todo o lado, argumenta Rachel Carson: nos jardins, no vento, nas estrelas, na chuva, nos pequenos animais.
Sendo isto certo e ela passível de fruição, todos conhecemos quantos obstáculos o homem citadino que maioritariamente somos sentiu necessidade de criar para assim - diz, sussurrando - se sentir mais seguro: dentro de paredes (casa, supermercado, centro comercial genericamente falando, que só parecemos saber consumir...) não chove, impedimos o vento de nos bater na cara e à chuva de nos molhar; as luzes que iluminam as cidades poluem a escuridão do universo estelar e impedem-nos de vislumbrar as bolas de fogo.
Resta pouco, sóis e luas para os que não inventámos ainda fuga eficaz.

Ah, também há admiráveis mundos novos que nos transformam em robôs (é para isso que serve o trabalho, que em várias línguas eslavas é o que quer dizer) e em pessoas desprovidas de sentimento. O que é a ocultação da morte senão uma tentativa de anestesia mental e psicossomática profunda? Vai na mesma linha da destruição do que é ser-se Homem. Começa por coagir e limitar as manifestações animais que há em nós. A ver se nos "civilizam" por inteiro...

E, como capitel, a rarefacção do silêncio impede-nos da intimidade connosco mesmos. Mesmo se tiveres tempo, a ausência do silêncio manter-te-á distraído de ti mesmo até ao fim dos teus tempos.

A desumanização que a nossa domesticação proporcionou ao Homem (os animais e as plantas não no-lo pediram, mas também não interessa...) deveria dar lugar a uma selvajaria que não se sentisse tão bem com as sombras dos cemitérios do cimento.

Já seria um começo de algo diferente.


Terminámos com duas últimas notas, imprescindíveis a pretexto: 

- os tóxicos bioacumuláveis que "semeamos" com os pesticidas lembram-nos que a única dose segura é a dose zero. Pois - se é necessário explicá-lo - ao longo da cadeia alimentar, se eles não são elimináveis... é uma questão de tempo. As bombas relógio das doenças inexplicáveis como o cancro já têm explodido há alguns anos, mas isso é porque as bombas, essas, começámos a produzi-las há muito mais tempo atrás. É disto que fala o livro Primavera Silenciosa, das primaveras em que não haverá pássaros.
E numa sociedade sacarínea, sacana e gordurosa (é nos tecidos gordos que se acumulam os metais pesados) é por aí que continuamos a trilhar o rastro de destruição.
Ah, como nota ou curiosidade para os mais distraídos, refira-se que um dos grandes produtores de pesticidas é também um dos papás-papões dos transgénicos. Sim, a fantástica, tentacular e calcinante Monsanto.
- Rachel Carson viu também o que amiúde esquecemos, de tão óbvio:
"As criaturas selvagens, como os seres humanos, precisam de um lugar para viver. À medida que a civilização cria cidades, constrói estradas e seca pântanos, ela ocupa, pouco a pouco, a terra favorável à vida selvagem. E à medida que diminui os seus espaços de vida, as próprias populações da vida selvagem declinam."

E isto já foi dito há muito tempo...

sexta-feira, agosto 14, 2015

Dentro e fora, dentro e fora

"Era todo o dia
Sempre dentro e fora
E o Conan dizia 
- "Crise.. Qual crise?""

"Conan, o Homem-Rã", Irmãos Catita

Qualquer velha questão começa com antinomias.
O homem questiona sobre as coisas até questionar a sua rês, aquilo que é, como é e porque é que é.

Fora da sua cabeça as diferenças existem.
Só dentro da sua cabeça elas podem ser apreendidas como luz ou breu, caloroso ou frialdade, dentro e fora e por aí fora.

Os aguadeiros pertencem à profissão de um tempo em que as casas eram desprovidas de instalações de água canalizada.
Os namoros e as pedrinhas nos cântaros que obrigavam as moçoilas a voltar à fonte, descalças e não seguras, para os reencherem.
- Vai prà fila, sua megera! - podiam dizer. 
Mas onde, a compra e a venda?
Da água pública, da água ali, à mão de todos para a maré cheia...


Tenho um amigo cuja casa terá um espaço útil (belo conceito moderno) será pouco maior que a sala do tecto em que me vou abrigando.
Um casebre não é um tugúrio.
"A louse is not a home", né, Pedro?
Mas, cabe perguntar?

Seríamos assim tão pobres?
Seremos assim tão ricos?

Porque seria um espaço tão pequeno suficiente...
(O homem habitua-se a tudo, mesmo que o hábito possa fazer o monstro)
... para viver / sobreviver / ter sobrevivido até hoje?

E porque parece hoje ter deixado de ser suficiente?


Gosto das casas com a porta aberta. Com porta, mas aberta.
Em que a rua e o interior se interpenetra.
E clamam que isso é que é pornográfico, nos tempos que correm.
Ninguém os mandou correr...

Ah, mas uma grande casa, carro à porta, jardim, quiçá piscina, um cão a ladrar a quem queira meter o bedelho para cá do muro, um ladrão a infalivelmente mandar o seu cãozar para o lado de lá do muro.

A separação.
A separação que nos rasga o corpo e alma, vivências, paixões e memórias e as erode para longe, até onde nos faça menos dano.
A separação.

Dentro e fora.

O espaço pequeno, comido, sob formas antigas de edificação, desapropriado para os moldes da desconstrução urbana vigente. Apropriado.

Propriedade somada.

Resultado:
Mais dentro e menos fora.
Pornografia espacial no comboio descendente e excitante mais das terminações nervosas que da base, cerebral.

Imagem e o seu efeito nefasto e implacável, estatuto para quem o suga dos seus adoradores-por-isso-súbditos, poder, ostentação, riqueza, ambição, a distinção
...

a distinção assenta muito bem para engavetar cada um no seu devido compartimento, para que cada um, isolado no seus altares imaginários, não repare que todos vivemos em caixotes betonizados de que alguém se vai aproveitando...

competição... privacidade.
(Dentro e fora)

- Não, não! Alto lá, privacidade é um direito.
Consagrado na constituição consentânea com o parasita vira-casacas do capital. 
Faz parte da liberdade, a privacidade.

Cremos que a privacidade não se teria tornado, não a teríamos tornado, num valor tão extremo, tão democrático, portanto, se o terrorismo da voragem do espaço tivesse conhecido obstáculos e valores que não se comprassem.

Mas quem não tem privacidade, então, ó tu que tanto gostas do racionalismo lógico, concluo que não é livre.
- Exacto, é correcto.
- Ai sim? Então quero:

a) que me devolvas o tecto que pagaste para demolir,
b) que me ressarças do silêncio de que me tens privado quando sais à minha rua,
c) que não ter de comprar direitos, incluindo esse.

E quero muito mais coisas, agora.
Quero o mundo de que tenho sido espoliado, não quero que me dês, nem muito menos que me vendas mais, o teu mundo que me espolia.

Passámos a ter a água dentro, à nossa mão.
Passámos a viver dentro, entre muros fechados, porque o espaço exterior tem vindo a ser comprado, degradado, apropriado, traído e subtraído reduzido, pois claro. 

Nas ruas esconsas e que os privados deixaram para a "liberdade" dos planos urbanísticos, quais relvados atrás dos blocos de apartamentos e sob linhas de alta tensão, vão passando os deserdados, os humilhados e ofendidos do mundo que já não é deles, que já não é nosso. Foi vendido aos "livres" do mundo livre, o mundo capitalista. Não há outro, sussurrantemente nos apregoam por todos filmes, publicidades, musiquinhas da treta nas rádios da treta, nos intervalos imensos dos telejornais esguios.

 Dizemos tudos juntos
Pim, pam, pum,
que cada nota pra cá
mata muitos.
Lá.


O paradigma mudou com a colonização imperialista, expansionista do capital.
Quando passámos a fazer cada vez mais coisas com o fito no guito, mesmo as colectivas, que das egoístas já se perderam as palavras.
Algo mudou:

--- Por fora, na forma como vivemos - mais dentro que fora (futebol de rua é brincadeira de crianças. Vejam o espaço de que precisam para fazer um estádio de futebol - símbolo moderno do poder disfarçado de apenas entretenimento). 
Com medo do outro, que está fora de nós, que não somos nós, que estamos sós.

--- Por dentro, na forma de pensar, que estamos menos solidários, menos activos, menos interventivos, menos curiosos, menos reflexivos, menos atentos (ao que se passa fora de nós, que estamos demasiado preocupados a tentar compreender as nossas histerias e psicoses - sinal do isolamento e da fragmentação do indivíduo social). 
Com medo de nós, na vertigem auto-enganadora dos telemóveis no vai-vem da mão para o bolso de trás, a pensar que quebramos o isolamento com uma comunicação depauperada e de cará-cá-cá; que estamos fora de nós.

Que somos nós?

Estamos sós.
Por dentro e por fora.

 Os serões habituais
As conversas sempre iguais
Os horóscopos, os signos e ascendentes
Mais a vida da outra sussurrada entre os dentes
Os convites nos olhos embriagados
Os encontros de novo adiados
Nos ouvidos cansados ecoa
A canção de Lisboa

Não está só a solidão
Há tristeza e compaixão
Quando o sono acalma os corpos agitados
Pela noite atirados contra colchões errados
Há o silêncio de quem não ri nem chora
Há divórcio entre o dentro e o fora
E há quem diga que nunca foi boa
A canção de Lisboa

"A Canção de Lisboa", Jorge Palma