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quarta-feira, abril 27, 2016

"A Rua - Espaço, Tempo, Sociabilidade"

Título: A Rua - Espaço, Tempo, Sociabilidade
Organizadores: Graça Índias Cordeiro e Frédéric Vidal
Edição: 2008
Editora: Livros Horizonte
ISBN: 9789722416085
Paginação: 172 páginas


Tinha este livro há anos na prateleira...

Oscilando entre a sociologia, o urbanismo, a história e a antropologia, trata-se de um conjunto de textos (a maioria, resumos de teses) que procuram perceber como é que a rua (conceito, palco de eventos, conjugação de vontades, objecto estruturador do urbanismo...) acaba por influenciar a vida dos citadinos.
Isto inclui a forma como a vivemos, convivemos e como sentimos e idealizamos o que vemos através dela, como criamos laços com os outros e com os espaços à nossa volta entre outras implicações.

Alguns textos são bem pertinentes, problematizando concepções e questionando os valores que estão por trás delas e dos actores-autores políticos. 

No primeiro, "O «Acampamento», a Cidade e o Começo da Política", Michel Agier dá-nos o exemplo dos acampamentos de refugiados, traçados ortogonalmente (é uma regra?) e colocados, como pára-quedas, no meio de nada (como as lixeiras, que não queremos nem ver...):

Actualmente, coloca-se questão de pensar o lugar como espaço considerado como "liminar, entre-dois, provisórios, transitórios, incertos, intermediários, associados a circulações" necessárias ou forçadas. "Estes espaços formam-se, então, como etapas nessas circulações, ou como refúgios (...).
Que espaços são esses? São de vários tipos: de acampamento de trabalhadores itinerantes, precários; centros de trânsito para agrupamentos de longa duração de estrangeiros com pedidos de asilo; hotéis que são prisões ao mesmo tempo e campos de detenção para imigrantes que esperam regularização ou expulsão perto dos portos ou dos aeroportos; prédios abandonados; antigos espaços industriais abandonados; ruínas vazias que são invadidas; terrenos de acampamento que são ocupados por pessoas que se instalam na periferia das cidades e cujos espaços vazios de acampamento podem ser lugares de moradia duradoura; campos de refugiados; aldeias de refugiados ou sítios em geral das organizações humanitárias, ou do ACNUR, por exemplo, onde as pessoas vivem sob a assistência e controlo humanitário e das organizações internacionais. (...)
Eu tenho pesquisado durante 20 anos em lugares que parece que não são cidades, são lugares de barracas, lugares de acampamentos, lugares onde há um mínimo de materialidade; às vezes não têm materialidade, e são as próprias pessoas que fazem essa materialidade, e ao mesmo tempo elas fazem as relações que vão com a materialidade. E então a gente encontra-se em zonas onde, de forma muito concreta, material, e de forma muito social, as pessoas fazem a cidade. São citadinos sem a cidade." (...)

Onde as pessoas são ajudadas mas também controladas, emergem líderes ou porta-vozes cujas capacidades e estatuto (cultural e educativo), fazem com que as Organizações não os reconheçam como representativos dos pobres refugiados. E eles emergem para reivindicar melhores condições materiais na cidade das tendas... Esta emergência de líderes é já, em si, o início de processo de criação de cidade e identidade, porque configura a convivência entre estranhos que compartem situações.

No segundo texto, "Vestígios de uma Modernidade Apagada: A Paris Popular da Primeira Metade do Século XIX", de Maurizio Gribaudi, o autor desmonta a ideia que perdurou e sobreviveu pelo tempo da Paris que então emergia: a cidade das luzes e dos boulevards.
Acontece, diz o autor, que os espaços esconsos, bairros sujos, mal-frequentados, com população pobre e doente, eram espaços de legibilidade difícil para a nova concepção de cidade (pós-haussmaniana, etc.) e cujos planeadores, políticos, arquitectos e estrategas não se preocupavam realmente em tentar compreender.
Gribaudi fez análise de uma dessas ruas e zonas e demonstra claramente que as funções e profissões que nele se encontram são, além de diversas e numerosas (pequenos artífices e fabricantes de tudo. Mas realmente de tudo, desde relojoeiros, a chapeiros, alfaiates, fabricantes de espelhos, torneiras, envernizadores, e até um médico, um dentista, um farmacêutico ervanário...), um substrato representativo das várias camadas sociais e que, criando uma verdadeira interdependência e organização de necessidades, são a "fábrica das traseiras", a "cloaca a céu aberto" que os habitantes das classes aristocratas e liberais dos boulevards precisam para manter os seus fatos e hábitos imaculados...

Já em "Ruas da Cidade e Sociabilidade Pública: Um Olhar a Partir de Lisboa", de Tim Sieber, temos um autêntico regalo.
Como antropólogo urbano estado-unidense que veio viver para Lisboa custava-lhe perceber a importância que a rua adquire para os povos mediterrânicos, uma vez que a tradição anglo-saxónica "instituiu" o conceito de rua como associado à marginalidade, à classe dos negros, os loosers, os vadios, os falhados e desenraizados, por oposição à classe-média, à gente "decente" que, "cuidando da família e com trabalho, não tem tempo para estar à porta de casa e andar metida em bares ou a deambular pelas ruas". E este conceito vigora e envenena outras formas de ver as relações dos urbanitas com a urbe.
O turista parece andar preocupado em admirar mais as fachadas, monumentos e arquitecturas do que contemplar, viver a rua e contactar com as pessoas que ali vivem. "Parece ser irrelevante quem são as pessoas e quem está na rua - desde que as ruas estejam apinhadas de gente."

O autor viveu largos anos por trás da Casa dos Bicos, na Rua Afonso de Albuquerque, "uma rua popular, de classe operária, com oito prédios, uma residencial de cinco andares que hospedava sobretudo imigrantes das ex-colónias em busca de uma vida melhor, bem como migrantes internos. A rua "Tem apenas 75 metros de comprimento e é bastante estreita..."
"Um dia em que regressei tarde a casa - aí por volta das 4 da manhã - apanhei os padeiros, os almeidas e os lavadores de rua todos em amena cavaqueira, em frente à padaria, cada um envergando o respectivo uniforme de trabalho. Tratava-se de um ajuntamento informal, de conversa espontânea, entre pessoas que nem sequer viviam na rua, sendo na sua maioria simples transeuntes nocturnos, visitantes de passagem. Passageiros do escuro que se apoderam momentaneamente  da rua, enquanto os residentes dormem despreocupados, ou até mesmo satisfeitos por estes trabalhadores aparecerem à noite, sem causar qualquer perturbação às rotinas diárias na vizinhança".

Depois fala como na Expo 98 não houve verdadeira representatividade da cultura portuguesa a exibir, tendo considerado, por exemplo, a música pimba e os desfiles das marchas de Lisboa como cultura menor. Por insistência, as associações de marchas impuseram a sua força e desfilaram na avenida central do espaço do Parque das Nações, mas à margem da programação. Isto é, se a rua nos está vedada, somos nós que fazemos uma nova.

Outros textos interessantes, um mais sobre arquitectura e como ela condiciona a convivência dos moradores, outro mais sobre o lugar da rua nas manifestações e encenações do Poder no século XIX português, outro ainda sobre as práticas religiosas colectivas num bairro perto da Bela Vista... fazem deste livro uma boa e interessante paragem para reflectirmos sobre a Geografia.

Boas leituras geográficas.

Envie a sua sugestão de leitura para
georden@gmail.com que posteriormente publicaremos neste mesmo espaço.

quinta-feira, abril 07, 2016

O oportunismo dos "PRA"

"O Vale de Santo António, onde irão nascer centenas de habitações, será uma das maiores áreas de intervenção do programa", in publico.pt

Na sequência deste artigo no público...

É o momento certo para lançar este programa. As rendas em Lisboa estão elevadíssimas, o senhor Presidente da Câmara de Lisboa arranja um bom motivo para desbloquear e promover o seu investimento imobiliário...

Bota construção!
E depois falam em reabilitação e construção. Agora está na moda usar estes dois termos para falar de construção!
E a CMLisboa não foge a isto.
Do que vejo no infográfico, dos 15 projetos, 12 são para CONSTRUÇÃO e apenas 3 para REABILITAÇÃO.
E depois anda um Governo (o de Portugal? ou de Alguns...) a dizer que prioridade nesta área é a reabilitação (se é prioridade, o rácio deve ser invertido!)
Muda-se o discurso mantêm-se as políticas.
Estou mesmo a ver o Bairro das Laranjeiras, perto do Parque das Nações a rendas baixas para a classe média.
O que realmente acontecerá?
"Rendas baixas para a classe Alta, não é o mesmo que renda baixa para a classe média."

"Este programa dirige-se às verdadeiras classes médias"

Ainda estou para perceber o que são as verdadeiras classes médias? Aqueles que recebem 650€ mensais e pagam 400€ de renda são classe média para muitos...

"Dar-lhes oportunidades para que possam viver na cidade de Lisboa"

É este o objetivo principal?

Temos um presidente... "O salvador" ou será "O oportunista"?

Surge a oportunidade... logo é "O oportunista"...

Finalmente ele vai dar a mão a todos aqueles que querem viver em Lisboa.

Finalmente ele resolverá os problemas de Lisboa.
Pontes, viadutos e estações de metro Lisboa tem muitos e pelo que vejo a sua taxa de ocupação está aumentar.
Vamos lá acordar para a vida... deixem-se de papos!
É uma vergonha fazerem a vossa promoção imobiliária desta forma...

segunda-feira, março 14, 2016

FOTO DO MÊS: "Clipes Urbanos"


Foto de Rogério Madeira. Palmela, 21.02.2016.

sexta-feira, agosto 14, 2015

Dentro e fora, dentro e fora

"Era todo o dia
Sempre dentro e fora
E o Conan dizia 
- "Crise.. Qual crise?""

"Conan, o Homem-Rã", Irmãos Catita

Qualquer velha questão começa com antinomias.
O homem questiona sobre as coisas até questionar a sua rês, aquilo que é, como é e porque é que é.

Fora da sua cabeça as diferenças existem.
Só dentro da sua cabeça elas podem ser apreendidas como luz ou breu, caloroso ou frialdade, dentro e fora e por aí fora.

Os aguadeiros pertencem à profissão de um tempo em que as casas eram desprovidas de instalações de água canalizada.
Os namoros e as pedrinhas nos cântaros que obrigavam as moçoilas a voltar à fonte, descalças e não seguras, para os reencherem.
- Vai prà fila, sua megera! - podiam dizer. 
Mas onde, a compra e a venda?
Da água pública, da água ali, à mão de todos para a maré cheia...


Tenho um amigo cuja casa terá um espaço útil (belo conceito moderno) será pouco maior que a sala do tecto em que me vou abrigando.
Um casebre não é um tugúrio.
"A louse is not a home", né, Pedro?
Mas, cabe perguntar?

Seríamos assim tão pobres?
Seremos assim tão ricos?

Porque seria um espaço tão pequeno suficiente...
(O homem habitua-se a tudo, mesmo que o hábito possa fazer o monstro)
... para viver / sobreviver / ter sobrevivido até hoje?

E porque parece hoje ter deixado de ser suficiente?


Gosto das casas com a porta aberta. Com porta, mas aberta.
Em que a rua e o interior se interpenetra.
E clamam que isso é que é pornográfico, nos tempos que correm.
Ninguém os mandou correr...

Ah, mas uma grande casa, carro à porta, jardim, quiçá piscina, um cão a ladrar a quem queira meter o bedelho para cá do muro, um ladrão a infalivelmente mandar o seu cãozar para o lado de lá do muro.

A separação.
A separação que nos rasga o corpo e alma, vivências, paixões e memórias e as erode para longe, até onde nos faça menos dano.
A separação.

Dentro e fora.

O espaço pequeno, comido, sob formas antigas de edificação, desapropriado para os moldes da desconstrução urbana vigente. Apropriado.

Propriedade somada.

Resultado:
Mais dentro e menos fora.
Pornografia espacial no comboio descendente e excitante mais das terminações nervosas que da base, cerebral.

Imagem e o seu efeito nefasto e implacável, estatuto para quem o suga dos seus adoradores-por-isso-súbditos, poder, ostentação, riqueza, ambição, a distinção
...

a distinção assenta muito bem para engavetar cada um no seu devido compartimento, para que cada um, isolado no seus altares imaginários, não repare que todos vivemos em caixotes betonizados de que alguém se vai aproveitando...

competição... privacidade.
(Dentro e fora)

- Não, não! Alto lá, privacidade é um direito.
Consagrado na constituição consentânea com o parasita vira-casacas do capital. 
Faz parte da liberdade, a privacidade.

Cremos que a privacidade não se teria tornado, não a teríamos tornado, num valor tão extremo, tão democrático, portanto, se o terrorismo da voragem do espaço tivesse conhecido obstáculos e valores que não se comprassem.

Mas quem não tem privacidade, então, ó tu que tanto gostas do racionalismo lógico, concluo que não é livre.
- Exacto, é correcto.
- Ai sim? Então quero:

a) que me devolvas o tecto que pagaste para demolir,
b) que me ressarças do silêncio de que me tens privado quando sais à minha rua,
c) que não ter de comprar direitos, incluindo esse.

E quero muito mais coisas, agora.
Quero o mundo de que tenho sido espoliado, não quero que me dês, nem muito menos que me vendas mais, o teu mundo que me espolia.

Passámos a ter a água dentro, à nossa mão.
Passámos a viver dentro, entre muros fechados, porque o espaço exterior tem vindo a ser comprado, degradado, apropriado, traído e subtraído reduzido, pois claro. 

Nas ruas esconsas e que os privados deixaram para a "liberdade" dos planos urbanísticos, quais relvados atrás dos blocos de apartamentos e sob linhas de alta tensão, vão passando os deserdados, os humilhados e ofendidos do mundo que já não é deles, que já não é nosso. Foi vendido aos "livres" do mundo livre, o mundo capitalista. Não há outro, sussurrantemente nos apregoam por todos filmes, publicidades, musiquinhas da treta nas rádios da treta, nos intervalos imensos dos telejornais esguios.

 Dizemos tudos juntos
Pim, pam, pum,
que cada nota pra cá
mata muitos.
Lá.


O paradigma mudou com a colonização imperialista, expansionista do capital.
Quando passámos a fazer cada vez mais coisas com o fito no guito, mesmo as colectivas, que das egoístas já se perderam as palavras.
Algo mudou:

--- Por fora, na forma como vivemos - mais dentro que fora (futebol de rua é brincadeira de crianças. Vejam o espaço de que precisam para fazer um estádio de futebol - símbolo moderno do poder disfarçado de apenas entretenimento). 
Com medo do outro, que está fora de nós, que não somos nós, que estamos sós.

--- Por dentro, na forma de pensar, que estamos menos solidários, menos activos, menos interventivos, menos curiosos, menos reflexivos, menos atentos (ao que se passa fora de nós, que estamos demasiado preocupados a tentar compreender as nossas histerias e psicoses - sinal do isolamento e da fragmentação do indivíduo social). 
Com medo de nós, na vertigem auto-enganadora dos telemóveis no vai-vem da mão para o bolso de trás, a pensar que quebramos o isolamento com uma comunicação depauperada e de cará-cá-cá; que estamos fora de nós.

Que somos nós?

Estamos sós.
Por dentro e por fora.

 Os serões habituais
As conversas sempre iguais
Os horóscopos, os signos e ascendentes
Mais a vida da outra sussurrada entre os dentes
Os convites nos olhos embriagados
Os encontros de novo adiados
Nos ouvidos cansados ecoa
A canção de Lisboa

Não está só a solidão
Há tristeza e compaixão
Quando o sono acalma os corpos agitados
Pela noite atirados contra colchões errados
Há o silêncio de quem não ri nem chora
Há divórcio entre o dentro e o fora
E há quem diga que nunca foi boa
A canção de Lisboa

"A Canção de Lisboa", Jorge Palma

terça-feira, março 31, 2015

Alegoria do Património, por Françoise Choay (3/3)


Nós aprendemos a violência destruidora das guerras modernas e dos actos de negócio. Ignoramos que no espaço de algumas décadas a espécie humana chegará, pela sua própria prática conservatória, a conseguir as destruições que teriam em tempos exigido séculos.” (p. 247)


 


E, uma vez mais, paradoxalmente mas com causas identificáveis, o culto do património arquitectónico resulta em degradação e, acima de tudo, esvaziamento de sentido:


O condicionamento sofrido pelo património urbano histórico tendo em vista o seu consumo cultural, bem como a sua disputa pelo mercado imobiliário de prestígio, tende a excluir dele as populações locais ou não privilegiadas e, com elas, as suas actividades tradicionais e modestamente quotidianas.” (p. 241)


Nisto se antevê uma consequência, e que já identificáramos aqui no Georden: 


Os termos cidade, urbano (substantivo e adjectivo) e urbanismo perderam o seu sentido original. Quaisquer que sejam as nostalgias de uns e os álibis de outros, entrámos na «era pós-cidades». A urbanização propaga-se de acordo com as linhas de força traçadas pelas redes de grandes equipamentos. Melhor do que a rurbanização, inventada nos anos setenta para definir a metamorfose da paisagem rural, o termo italiano periferização faz compreender a dinâmica do processo que tende actualmente a desfigurar as cidades e a uniformizar os territórios.” (p. 250)


À medida que o livro se aproxima da conclusão é que ele se torna mais interessante: por um lado, as cidades comunicacionais, são fluidas e reticulares – tal é o imperativo maior em vigor, o económico. A rapidez, a facilidade, a acessibilidade. Dito por outras palavras, a imaterialidade e o desenraizamento, a falta de espaços de pausa, reflexão e diferença são a nova linguagem que emerge e fala nesta nova pobre paisagem urbana, cada vez mais desumana, cada vez mais robótica, binária, desrealizante.


As próteses que nos libertam do domínio local, resgatam-nos simultaneamente da duração para nos instalar na instantaneidade. O tempo orgânico da recordação, do cálculo, do questionar, da espera, da aproximação e do rodeio é recusado. Como também, de outra forma, o tempo cósmico das estações é escarnecido pelo avião dos transportes aéreos, que salta de um hemisfério terrestre para outro, quer se trate de despejar fluxos de turistas em praias ou fluxos de legumes em mercados.” (p. 255)


Como factores desta “liquidez”, as próteses da comunicação descorporizam a nossa relação com o local, tornado assim crescentemente indistinguível de um outro. Uma fábrica de não-lugares e de periferias cada vez maiores e sem centro algum. É essa familiaridade internacionalista que as grandes cadeias adoptam nos seus aspectos, ambientes e apresentação, para que ninguém estranhe e todos se sintam em casa, jamais tendo de recomeçar a estabelecer novas relações com o local. O que sucede, então, é o progressivo afastamento de todos os lugares por parte de quem tem de os usar. E, como canta Raimon, “quem perde as origens, perde identidade.”


O funcionamento em rede e seus fluxos (fluidos, energias, transportes, informação) permite a libertação dos ancestrais constrangimentos espaciais (geológicos, geográficos, topográficos…) que determinavam a localização, a implantação e a forma dos estabelecimentos humanos. Ao promoverem um espaço isótropo, eles [as redes e os fluxos] tanto uma urbanização difusa e a rurbanização, como a formação de áreas metropolitanas indistintas, aglomerações densas, de periferias concêntricas.


Os edifícios e monumentos alvo do nosso culto perdem assim relação de contexto. Vejam o Blow Up (1967), do Antonioni, que, como grande filósofo do olhar, já levantava essa questão. Deixaram eles de portar ou transmitir, espelhar, qualquer ideia de relação e memória. Já pouco podem dizer-nos sobre nós próprios e a nossa história. 

Todos os “testemunhos de um passado recente sempre mais próximo foram integrados”, indistintamente, “no corpo patrimonial. Edifícios-manifesto do movimento modernista (…), realizações espectaculares da engenharia de construção, até aos falhanços da habitação social… estão associados e assimilados aos monumentos e aos tecidos históricos, confundidos com eles. Esta amálgama de objectos ligados a práticas e a lógicas diferentes, e cuja heterogeneidade é camuflada sob a denominação comum e falaciosa de património, dá-nos de nós próprios, sob o aspecto das nossas realizações edificadas, uma imagem global, una e inteira, que oculta a fractura provocada pela mutação em curso e lhe conjura o trauma pela afirmação de uma identidade intacta. (p. 258)


Significa isto que quanto mais destruímos as singularidades, mais nos agarramos à tábua de salvação do passado, que – pensamos – já não muda. Mas que vai perdendo o sentido. As primeiras grandes destruições foram as trazidas pela revolução industrial e as guerras. As modernas destruições são mais subtis, conceptuais, mas nem por isso desprovidas da sua relação com o espaço físico:


Quando não construímos mais tais monumentos [os que são fundados mais na beleza que na funcionalidade] e quando abandonamos os modos articulados tradicionais de edificar, somos confrontados com a perda de poder sobre o tempo orgânico, que esses artefactos nos entregavam por via da mediação do nosso corpo. Esse poder, essa visão ancestral com a duração, é desde então objecto de um desejo feroz e insaciável, vivido como ausência e como falta. Essa ausência e essa falta são intoleráveis e o património pré-industrial designaria a chave perdida, cuja imago patrimonial serviria simbolicamente para combater o vazio.” (p. 261)


À oposição entre construir articulado e contextualizado e construção reticulada das redes técnicas, corresponde a oposição entre as línguas tradicionais da diferença e a língua dos técnicos (…). Assim, a supressão em curso dessa dimensão antropológica que é a competência de edificar é, sem dúvida, o acontecimento traumático de que a cultura do património nos serve para conjurar e ocultar.


Em jeito de conclusão optimista, postulamos que talvez nos reste a hipótese de numa tal homogeneização perdermos por completo o passado e a falácia do culto do património que ajudou a que chegássemos a este sem-sentido. Um bico-de-obra, criar memória a partir do vazio…

terça-feira, março 24, 2015

Alegoria do Património, por Françoise Choay (2/3)



A indústria patrimonial aperfeiçoou os procedimentos de embalagem que permitem entregar, também eles, os centros e bairros antigos, prestes ao consumo cultural. Estados e municipalidades recorrem-lhe, com reserva e discrição, ou liberalmente, em função das suas escolhas sociais e políticas mas, sobretudo de acordo com a natureza (dimensões, carácter, recursos) do produto a lançar e de acordo com a importância relativa das receitas adiantadas. Um arsenal de dispositivos testados permite atrair os amadores, retê-los, organizar a economia do seu tempo, desviá-los para a familiaridade e o conforto: sistemas gráficos de sinalização e de orientação; estereótipos do pitoresco urbano: passeios públicos, pracetas, ruas, passagens de peões, pavimentos ou lajes à antiga, equipados com mobiliários industriais padronizados (candelabros, bancos, caixotes do lixo, telefones públicos) em estilo retro ou não, são animados, de acordo com o espaço disponível, com esculturas contemporâneas, fontes, vasos de flores rústicos e arbustos internacionais. Estereótipos do lazer urbano: cafés ao ar livre com mobiliários adequados, tendas de artesanato, galerias de arte, lojas de bugigangas e ainda, sempre, por todo o lado, sob todas as suas formas, regional, exótica, industrial, o restaurante.” (pp.239-240)


 (continuação da primeira parte)



É precisamente esta revolução urbanística parida com essoutra, a industrial, que vai “aprimorar” o culto do património. Não podemos deixar de citar como já Gustavo Giovannoni prenunciava a evolução das cidades. Se a cidade do futuro será a da “comunicação generalizada”, em movimento, Giovannoni pergunta-se: 

Não é já possível imaginar o «fim do grande desenvolvimento urbano» e mesmo uma verdadeira «anti-urbanização»? (o termo transformar-se-á mais tarde em desurbanização). Quase em primeiro lugar, ele compreende o estiolamento e a desintegração da cidade, em proveito de uma urbanização generalizada e difusa. Com cinquenta anos de avanço, ele vê iniciar-se a nova era a que Melvin Weber chamará the post-city age, «a era pós-cidades»” (p.208)

O advento das indústrias culturais é vórtice que engole tudo o que, sendo cultura, possa ser transformado em produto, objecto de consumo: 

“(…) os monumentos e o património históricos adquirem um duplo estatuto. São obras que facultam saber e prazer, colocadas à disposição de todos, mas também produtos culturais, fabricados, embalados e difundidos tendo em vista o seu consumo. A metamorfose do seu valor de utilização em valor económico é realizada graças à «engenharia cultural», vasta empresa pública e privada, ao serviço da qual trabalha uma multidão de animadores, comunicadores, agentes de desenvolvimento, engenheiros, mediadores culturais. A sua tarefa consiste em explorar os monumentos por todos os meios possíveis, a fim de multiplicar indefinidamente o número de visitantes.” (pp. 225-6)

Para isso, várias técnicas e estratagemas são usados. A autora identifica os mais amplamente usados: 

- encenação (a criação de ambientes místicos, com recurso aos meios audiovisuais: iluminação e som, por exemplo),

- animação (Uma hierarquia complexa conduza da mediação por via dos efeitos especiais aos comentários audiovisuais, passando pela reconstituição de cenas históricas imaginárias com a ajuda de actores, manequins, marionetas ou imagens de síntese. (…) Levada aos seus limites, a animação torna-se no reverso exacto da encenação do monumento que ela transforma em teatro ou em cena. O edifício entra em concorrência com um espectáculo ou um «acontecimento» que lhe é imposto, na sua autonomia. Exposições, concertos, óperas, representações dramáticas, desfiles de moda são associados a um património que os valoriza e que eles podem, por seu lado, no final dessa estranha relação antagónica, potenciar ainda, depreciar ou reduzir a nada” (pp. 231-2)

- modernização (a inserção do presente no passado”, como é o exemplo simples e típico “das portas de vidro que, nos grandes monumentos franceses, substituem muitas vezes as antigas portas cheias de desprezo pela sua função arquitectónica.

- rentabilização (“denominador comum de todas as modalidades de valorização, ela vai do aluguer dos monumentos à sua utilização enquanto suporte publicitário, associando-os à venda de produtos de consumo corrente. Qualquer monumento tem agora por complemento a sua loja, herdeira dos balcões de livros e de postais do século XIX, que debita recordações diversas, vestimentas, objectos domésticos ou produtos alimentares.

e
 - entrega (O monumento deve ser entregue à mão, o mais perto possível dos veículos, privados ou colectivos, que exigem a organização de parques de estacionamento e dos seus complementos.” (p. 233)