sexta-feira, junho 29, 2012

Imagem emprestada daqui

A elevada pressão construtiva a que o concelho de Braga foi sujeito ao longo da década de 2001 a 2010 não pode ser desligada do forte crescimento da população residente e do número de famílias na capital minhota. Esta é uma das principais conclusões de um estudo do Instituto Nacional de Estatística (INE) intitulado "Pressão Construtiva 2001-2010".
O trabalho elaborado na sequência do Census 2011 coloca a capital minhota entre os concelhos do país que mais foram sujeitos à pressão da construção e apresenta o município sede do distrito como o líder do ranking da pressão construtiva na sub-região do Cávado.
Os valores avançados pelo INE atribuem ao concelho de Braga uma pressão construtiva de 17,35 % (percentagem de novos fogos licenciados face aos existentes no ano 2000), valor que supera em 5 pontos a média nacional, já que o país registou uma pressão da construção na ordem dos 12,5 pontos percentuais. Mas enquanto a população portuguesa cresceu 1,9% na década e o número de famílias aumentou 11,6%, Braga viu a sua população crescer 10,7% e o número de famílias residentes disparar 26,5 pontos percentuais no mesmo período de tempo.
Descendo à escala da sub-região, o estudo do INE faz saber que "o município de Braga apresenta o indicador de pressão construtiva mais elevado, quer em área quer em altura, situando-se em primeiro lugar no ranking dos municípios mais dinâmicos, no que respeita ao número de fogos licenciados face ao stock existente.

A atracção do litoral

O trabalho recentemente publicado pelo INE coloca Esposende em segundo lugar na lista sub-regional da pressão construtiva, com uma taxa de 16,9%, seguindo-se o município de Amares, onde a construção de novas habitações e demais edifícios foi de quase 16% face ao existente no final de 2000.
Embora salientando "a dinâmica construtiva, avaliada pela taxa de crescimento do número de fogos licenciados, foi expressiva em todos os municípios do Cávado", o estudo sublinha que o maior crescimento verificado em Braga e Esposende "seguiu a evolução populacional" ocorrida entre 2001 e 2010. Concretiza o trabalho que, ao longo desses 10 anos, tanto Braga como Esposende "registaram um elevado crescimento não só da população residente como do número de famílias, aumento esse que tem reflexo directo ao nível da procura e da construção de novos fogos."
Estas alterações demográficas explicam em parte que, por oposição, o município de Terras de Bouro tenha registado o menor dinamismo nesta variável, dado que nesse período viu a sua população e o número de famílias diminuírem 12,8% e 4,9%, respectivamente, continua o estudo, fazendo saber que Terras de Bouro "apresenta os mais baixos indicadores de pressão construtiva em ambas as vertentes (área e altura), o que se traduz no seu posicionamento como município menos dinâmico em termos de fogos licenciados, na região do Cávado.
Ainda no âmbito da pressão construtiva confirmada para a sub-região do Cávado, o trabalho do INE dá conta de que o concelho de Vila Verde "apresenta o segundo maior indicador em altura", enquanto que o município de Barcelos se posicionou no segundo lugar no item da pressão construtiva em área.

Cávado supera média nacional

À semelhança do que aconteceu com Braga, também o valor médio da pressão construtiva da sub-região do Cávado ficou acima da média nacional. Mas o estudo do INE não desliga a pressão de 16,04% - o valor do país foi de 12,5% - do acréscimo populacional de 4,5%, valor que o INE considera "significativamente mais elevado" que o total da região Norte, que cresceu 0,1% e que o crescimento do território nacional, que registou um aumento populacional inferior a 2%.
"O município que mais contribui para esse aumento foi Braga (10,7%)", revela o INE, fazendo saber que "todos os municípios, com excepção de Terras de Bouro, viram o número de famílias aumentar de forma expressiva, entre 2001 e 2011".
Neste particular, a capital minhota destacou-se novamente da média da sub-região, da região Norte e do país, ao registar uma subida dos agregados familiares próxima dos 27 por cento.
Esposende e Vila Verde foram os outros concelhos onde as famílias mais aumentaram, registando taxas de crescimento de 17,7% e 14,3%, respectivamente.

Notícia da p.2 do Diário do Minho de 20.06.2012.



A tira do El Roto encaixa bem aqui.

Aqui há uns anos, quando a RTP dava documentários sobre o país e as regiões (será que as pessoas que os não viram acreditam nisto?) ouvimos uma frase que, desde então (talvez princípios dos anos 90), vai e volta. Um certo espírito crítico, ou melhor, analista, que expõe as coisas vistas de outro prisma, disse, além de que a EDP estava a privatizar os rios, que as vias de comunicação (estradas) com as quais se pretendia romper o isolamento das municípios do "interior" eram, melhor dizendo, uma forma de as populações desses mesmos municípios mais facilmente virem / fugirem para o litoral.

Neste mesmo encalço,


A elevada pressão construtiva a que o concelho de Braga foi sujeito ao longo da década de 2001 a 2010 não pode ser desligada do forte crescimento da população residente e do número de famílias na capital minhota. 

os analistas já parecem, um bocado timidamente, querer sugerir que é o crescimento populacional que impulsiona o construtivo. Não será mentira, mas  a realidade palpável nestas redondezas é a de que, primeiro constrói-se e depois vê-se, há-de alguém ir para lá morar.

Obras em que os chacais do betão investem e com as quais almejam, sem mais nem menos - expropriados já os terrenos, muitas vezes mais aptos para a produção agrícola, e destruídas áreas húmidas - reaver o seu dinheirinho...

- Pois é, sabes, ninguém anda aqui a brincar

(a fazer dinheiro a destruir... com que direito??)

Vêde, se puderdes, em que estado (de conservação?, sim, também) de OCUPAÇÃO estão aqueles três prédios junto à av. Padre Júlio Fragata e à av. João Paulo II (junto a umas bombas da gasolina que apelidamos de portuguesa, mais concretamente estes aqui).

Isto deriva de maus estudos de mercado?
Nem nos passa pelas ideias que não se precavejam com eles.
Mas se nem os fizeram, como é que é?

(Pois, são caros... Os estudos? ou os apartamentos? 
Olha!, deixai-vos de vos armardes em lambões, e em vez de os venderdes, arrendai-os.)

Assim é que concluímos. Dizei-nos do contrário, mas achamos que ninguém quer perder dinheiro (ter edifícios às moscas e sem compradores). Daí que... "primeiro constrói-se e depois se verá.

Pelo caminho, lá deixaram a porcaria feita, acabada e a cair ou, em certos casos que também conhecemos, por acabar ou por começar.

E por todo o lado por que vamos passando onde ainda resistam (simplesmente, onde ainda existam) campos agrícolas ou monte com árvores, se vêem as plaquinhas anunciando, ameaçando:

"Vende-se terreno. Com projecto aprovado"
(esta é que é espectacular. Diremos melhor, estas é que são escancaradamente especulativas / especulares!)

ou

"Licença de construção. Obra adjudicada a (etc.)
Prazo de conclusão da obra (de x) e (não sei quantos milhares de euros. No caso de ser uma obra de cariz dito público)"

A área urbana tem alastrado em mancha de óleo, usa-se, mas essa mancha, em tempos de economicismo como nunca antes houve (o capitalismo no seu auge e esplendor), vai atrás das vias de comunicação.

Se queremos destruir algum espaço, construamos um caminho.
Porque temos a impressão de ser difícil construir um caminho sem ele, com o tempo, ser alargado e dar azo a outras ocupações?

Os campos ou os montes, que antes, simplesmente, eram / existiam, passam a ser olhados, especulativa e lambosamente, como espaços a potencializar, a lucratizar, a pôr a render nas mãos deste ou daquele novo terratenente (termo caído em absurdo, que o terreno perde o aspecto de terreno cultivável, no qual antes se empregava). Ou seja, tudo o que existe tem de ter um fim, no caso, uma finalidade, humana, pois. Ao serviço do capital.

O oxigénio ainda abunda, mas um dia também plantaremos árvores para controlarmos a sua produção e o vendermos engarrafadinho a troco de uns patacos.

E o que feito está, não parece ter solução nem volta atrás.
Este carácter irreversível das construções humanas (aliado à memória e a uma concepção da vida cíclica, e não linear) está a ser ruinoso.

Dantes, as portagens da A4 em Celeirós eram noutro sítio. Acontece que a ligação, alcatroada, lá continua, desactivada.
De quem é a responsabilidade?
Uma barragem também vai ficar naquele sítio ad aeternum?

Que sentido é que isto faz?

Uma cidade que se vai esvaziando, envelhecendo, encarecendo no centro, por dentro, não pode desenvolver-se e manter-se. Viva.
Apodrece por dentro, como que a justificar o crescimento e alastramento do betão nas suas periferias.
E assim se vai destruindo um país.
Ou construindo, segundo o outro ponto de vista.

O negócio da recuperação vai valer mesmo a pena quando todo o país estiver alcatroado e ocupado com construções de betão e cimento.

A taxa de construção acompanha a taxa de crescimento da população?
Qual a relação óptima?
Constrói-se uma casa para uma pessoa?

Braga viu a sua população crescer 10,7% e o número de famílias residentes disparar 26,5 pontos percentuais no mesmo período de tempo.
Os valores avançados pelo INE atribuem ao concelho de Braga uma pressão construtiva de 17,35 %

E quanto às taxas de ocupação?

Mas afinal o que é que nós queremos viver??

Ui, está a discussão inquinada e já todos se foram embora...

"O mundo é de quem manda e o resto é propaganda"*



E hoje o Georden faz 7 anos...

*  "Canção dos Despedidos",
José Mário Branco

quinta-feira, junho 28, 2012

Braga, cidade a querer parar a vida

Entretanto, lá veio o considerado dia mais quente do ano (de uns abafados 37 graus, talvez) e um mini-exército de jardineiros a cumprir ordens superiores dos generais habituais retirou as flores que lá estavam nos canteiros do cimo da avenida da Liberty e lavrou a terrinha.
E nem vestígio de plantas ficaram na terra, de manhã preta e à tarde seca.

No dia seguinte, hoje mesmo, lá voltaram os ditosos senhores, exército de trabalhadores, cavadores e embelezadores a pôr... flores.

Ciclicamente se dá este estranho fenómeno de retirar o que uns meses se pôs.
Porque as pessoas precisam de comer e este arranjinho-empreitada mais foi, uma vez mais, muito bem feito.


Diziam embelezar a avenida e dar panorama até ao fundo (já falámos oportunamente disto aqui há uns tempos) mas o tunelzinho que dá passagem aos motores não será corrigido por plantas de maior porte que uns amores perfeitos sempre a morrer.

Queremos mais exemplos de não-sustentabilidade?
Se nos pormenores as coisas não funcionam duravelmente, que faria nas grandes se as implementassem com as adequadas propagandas e areias pròs olhos dos ceguinhos do costume...

Vamos fazendo estas obras de meia-tigela, cegas e cegadoras, que segam quaisquer hipóteses de contrariar a tendência para a desertificação.

Sim, sabemos que nas cidades se costuma dizer "Despovoamento", mas neste caso é mesmo de "Desertificação" que queremos falar. Pois, se ele fosse levantado, o betão ou alcatrão ou pedra, por baixo só há areia, não solo.
O solo tem estrutura. O solo é composto por matéria orgânica e ar.
Com a compactação e o sufoco, deixa de haver solo.
Por isso, areia, sem estrutura, mais facilmente se formam buracos inesperados. Normalmente, junto de condutas de água.

Contrariar a tendência do deserto em que se vai transformando o país não é  connosco.

Porque nós vivemos na cidade, afastados, e nem damos conta.
Porque a água continua a jorrar na torneira, portanto, "o que é que estás pra aí a dizer com isso da seca?"


...


E as obras em curso, que vão ganhando forma e feitiozinho, absorvem o erário público e reflectem o sol e o calor e aquecem-nos a valer.
A valer.

E nem uma nesga de sombra, nem uma aragem de humidade.
Porque esta cidade está há anos a saque dos betonizadores burgo-mestres.

quarta-feira, junho 27, 2012

Cidade de gatunos (enciclopédias inteiras deles...)

Ficámos a saber hoje que os administradores da TUB, EM. ganham mensalmente mais de 2 mil euros por mês, mas que ao fim do ano, em vez dos cerca de 20 e tal mil tinham auferido o dobro.

Gastam em mordomias, metendo ao bolso tanto quanto puderem, até quando der.

Será que estes abusos,

porque se trata sempre de dinheiro, que é a forma mais corrente do poder que se adquire, rouba ou chupa às massas para o concentrar nuns quantos que tudo, titeriteiramente, possam manipular as coisas do poder.

Uma das características do Poder é, também, o Poder de escolher os sucessores e o Poder. Se percebermos bem, aqui está o que se verifica há anos nesta porcaria de Município, com o Jornal, o Clube, a Congregação religiosa, os empreiteiros e uns poucos bufos mais estrategicamente colocados na urbe.


E, como ninguém quer deitar o Poder a... perder, aqui reside a razão pela qual o Poder elitista é sempre conservador.
Além de reaccionário e prepotente.

.... Será que estes abusos e sacanços de dinheiro se relacionam, de alguma maneira, com a ineficácia e o imobilismo, empedernido, do sistema de transportes, se de sistema se pode falar, na cidade de Braga?

Não, não estamos a entender bem a coisa: nós não estamos a ligar uma coisa à outra.
A verdade é que uma (meter dinheiro, roubado, claro, ao bolso impunemente) funciona muito bem e a outra (o uso dos autocarros por quem tenha carro) continua a ser anedótica.

E a notícia prossegue, no conservador e reaccionário Diário do Minho de ontem (26.06.12), a dizer que terá que ser injectado mais dinheiro na empresa municipal. Nada de escandalosamente novo.

Entranto, aqui há uns dois meses a notícia (via Correio do Minho) era, só pra citar, "Maioria socialista na Câmara de Braga aprovou contas das empresas municipais Transportes Urbanos de Braga, Bragahabit e Parque de Exposições. Resultados que foram considerados satisfatórios." (O negrito é nosso.)

Obviamente que os resultados devem ter sido considerados satisfatórios (gostava de saber que idoneidade terão os votantes que assim... votaram), mas a eficácia e o serviço de tais empresas nem parece vir à discussão...
Nada de estupuradamente novo.



O dinheiro existe para ser roubado. Com Estados, Bancos e demais instituições não e muito mal eleitas como sorvedouros, nalgum lado há-de ele se concentrar. Afrontantemente.

Aí, teremos o alvo.

E venham com o paninho manso chamado Justiça que, com direito a recurso, só funciona para o arco do Poder, mas a verdade é que já estamos a ficar fartinhos desta piolheira.
Porque estamos a perder as estribeiras - já perdemos as carteiras - e a nobreza de espírito que ainda resta(va)...


Nota: teríamos apresentado hiperligações se as tivéssemos achado pela rede. Daí...

terça-feira, junho 26, 2012

Acordai, imbecis!

Sim, sabemos que o vídeo já por cá foi posto, mas... quantas pessoas já o viram realmente?




E é por isto que as ajudas dos bancos, dos éfémis e do raio que os parta que foram paridos todos da mesma ganância não vão salvar ninguém nem ajudar ninguém. Nem a Grécia, nem Espanha, nem Portugal, nem a Itália. Nem quem mais que há-de vir (..."Cabrões de vindouros!)

E todos os partidos que estiverem a aplicar estes programas assassinos e cobardes irão cair. Porque nenhum há-de resolver o que quer que seja.
Porque, tal como a "Europa" suspira de alívio por não votarmos naqueles que recusem estes programas assassinos, iremos sempre manter e acreditar que... "Agora é que vai ser...! enquanto continuarmos a votar no centrão e nos partidos do poder apoiados pelos "mercados".

"Agora é que vai ser...!"

Mas não vai ser coisa nenhuma.
E depois vamos dizer que "São todos iguais."
(Dizei, quantas pessoas não ouvimos já proferir esta deslúcida frase?)

E depois, nós próprios, descrentes de todos os governos que poremos no poder, por incapacidade matematicamente necessária dos anteriores, iremos acusar que a Democracia é o pior dos sistemas políticos e que não resolve os nossos problemas. Agora chamados "problemas das pessoas"...

Mas, amigos, deixai-me que vos diga:

ISTO QUE ACUSA(RE)MOS NÃO É DEMOCRACIA

e, por conseguinte vamos apoiar todas as forças beligerantes e todos os grilos falantes e bem pensantes e todos os demagogos de toga e qualquer arauto que enfeitice as massas...

E aí vamos perceber melhor o "eterno retorno do fascismo" que sempre reside na propagação da ignorância, da confusão e no obscurantismo entre as massas.

As massas, numa histeria colectiva mais, que são sempre as primeiras a apoiar quaisquer verdugos que há em cada esquina de nós.

Porque a verdade é que talvez nunca tenha havido na história forma de controlar e de imbecilizar tanta gente tão facilmente.
E esse trabalhinho tem vindo a ser feito.

E, once again, estamos a ver o novelo a desenrolar-se sem lhe podermos tocar. Temos as mãos sujas.

Fazemos parte dos PIGS!
Condenados à submissão.

(Salazarismo, Fascismo, Coronelismo e Franquismo redux!
Em breve, numa casa perto de si.)


segunda-feira, junho 25, 2012

Braga, cidade terceiromundista

Ao contrário do que por cá se vai fazendo, há já outra maneira de pensar a componente física das cidades.
Quando aqui há uns anos, numa reportagem ou em crónicas opinativas, ouvimos turistas a criticar Benidorm e o Holegarve, pensámos que, sim, finalmente, algo começa a mudar na cabeça de quem realmente alimenta o erro.

A verdade é que um organismo morre se deixarmos de o alimentar. É uma inacção que tem consequências efectivas. E que vêm contra todas as propagandas que por todo o lado nos incitam ao consumo.

A economia é inseparável da destruição a que temos assistido, da destruição de que temos sido, directa ou por tabela, os únicos responsáveis.
Desde que começámos a basear o dito desenvolvimento (vulgo "crescimento") na exponenciação da produção e do consumo.

"Seja original: consuma isto!"

"Atreve-te a experimentar" ...

e demais alegrias sempre infecciosas que grassam pela publicidade que nos invade por todos os poros do nosso ser...

Bem, íamos a dizer que pouco tempo depois estavam previstas não sei quantas camas (gostam tanto de escolher palavras bonitas, inócuas e obscurecedoras para calar possíveis críticas e críticos) para o litoral alentejano.

E, portanto, o problema da sobreconstrução e do alcandoramento do betão e do cimento que ao que parece alguns começavam já a criticar, e dos quais urge afastar-nos de vez (assim mudem as concepções dos turistas e do turismo, que se quer mais inteligente, ou, dito não massificado) ia, apesar dos erros já cometidos, continuar a multiplicar-se por ali e por ali.
Os inteligentes na linha da frente...

É como os também países do terceiro mundo, que almejam o nível de poluição dos ditos evoluídos. Claro, caramba, eles também têm direito! Vamos agora nós andar a criticá-los porque, se formos a ver bem, eles não devem mesmo querer isso.

"Não querem pensar melhor?", parecemos estar a dizer...

Isto significa que os que já erraram, já sabem qual é o erro e não o desejam a ninguém.
E isto significa também que os que ainda não erraram não puderam ou não quiseram aprender com os erros que os primeiros cometeram.

Pois... a velha história:

os que querem, não podem,
os que podem, não querem

ou, transmutadamente,

os que querem, não sabem,
os que sabem, não querem...

Mas, caramba!, basta analisar e perceber o que se passa para empreendermos as mudanças, simples, mesmo que custosas (mais em dinheiro e intervenção urbana que propriamente em vontades e esforços colectivos), que urgem.

Deixemos a terra respirar.
Aumentemos a concentração vertical das águas. Aumentemos a sombra, o verde, diminuamos o aquecimento, aumentemos a evaportranspiração, reduzamos o desperdício, aproveitemos (não melhor, sequer, mas... de facto) o valioso recurso que aqui cai, penico do céu assim transformado em latrina. "Há já muito tempo irrespirável..."

Diminuem os custos. (Ah, era isto que queríeis ouvir... ok, daqui cópi, ai guétit... Parolos somos...)

Vejamos o vídeo e alimentemos a esperança.
Ou a esperança de ficarmos... à espera que algo mude nas nossas cabeças atrasadas de terceiro mundo em que ainda nos atolamos.
Braga incluída, obviamente.
Na linha da frente.




Parabéns, Filadélfia
Esta é a pólis que vale a pena.


domingo, junho 24, 2012

País de Parolos (tomo terceiro)

Alegam, vendem, acenam que com menor trânsito o ar da cidade de Braga vai melhorar.

Com as obras em curso (largo da Senhora-a-Branca, Campo das Hortas, Rua dos Chãos, Av. Central, Rua do Raio e Rua de S. Lázaro, Praça Municipal, sobretudo estas, mas vêde por vós mesmos aqui), uns vão dizendo:

"Mira, que bonito, no es verdad?"

Outros queixam-se do barulho, da poeira, das dificuldades para, neste ou naquele ponto, passar para "aquele lado", e nem estamos a falar de pessoas com cadeira de rodas ou de cegos, cujos obstáculos não carecem de obras.... Pois, também aqui encontrais espaço avesso às vossas locomoções e flanagens:

EMIGRAI, PAROLOS, QUE OS PAROLOS QUE VOS QUEREM LÁ, EMBORA ELES CÁ CONTINUAM PORQUE TÊM DE FICAR A TOMAR CONTA DAS COISAS, OS LACAIOS, OS CHACAIS...!

Mas pelo que vemos, ouvimos e visitamos (sempre pelos passeios possíveis, que não queremos incumprir e passar por espaços que os construtores nos vão mantendo vedados) concluímos:

(excepto para o que está previsto para o Largo Carlos Amarante, como a imagem no-lo pinta, bonito, bonita)

- em nada estas intervenções urbanas parecem contribuir para aumentar o espaço não-betonizado (em todas elas vence a pedra que, como já dissemos noutro tomo desta parolice, é condição sine qua non destes belos planos), pelo que de intervenção terão muito pouco.
Assim, persistem a elevada taxa de escorrência (e o concomitante desaproveitamento das águas pluviais) e o bem sentido aquecimento do cidade (já várias vezes falámos nisto), pois os raios solares não descansam mais com isto. (Experimentem olhar para o termómetro da vossa viatiure dentro e fora da cidade. Sobretudo de dia, que é o que está em questão. Mas também de noite se regista.

- assim, do alcatrão transfigurado em pedra ou da pedra renovada, escassas ou inotórias parecem estas intervenções: a fluidez de trânsito permanecerá a mesma.
Fazem umas mudanças aqui e ali, mas não as complementando com outras obras, talvez mais oportunas - dizei de vossa justiça - e que não de mais e mais impermeabilização para bracarense ver e calar e chupar no dedo...

(CHUPA, PAROLO, QUE PENSAS QUE É BONITO E PARA TEU BEM!)

...talvez agrave até os problemas que dizem, acenam, vendem, vencem, estar a querer resolver.

Perdem.
Ponto.

PERDE, PAROLO, "QUE ELES TRATAM, ELES DECIDEM, DECIDEM TUDO POR TI".

Perdemos.
Porque eles sabem muito bem que estas obras não vão mudar a qualidade de vida dos munícipes (os empreiteiros dessas britalares e dê-ésses-tês  e quejandos recrutam, só para o efeito e coerência desta acusação, os trabalhadores fora do município de Braga: por isso, são apenas parasitas que não ténias.), mas apenas cumprir o servicinho do arranjinho, do trabalhinho, do roubozinho do costume.


Há quem, criticando, ainda acredita estes estrategos acreditam, bem lá no fundo de si, que, com estas obras, algo vai melhorar... Dou o benefício da dúvida. Porque tenho confiança nesse amigo. Não porque acredite que eles acreditam. 

E, não querendo falar da anedota que é aquela via verde, dita ciclovia, ali por Gualtar, Nogueiró etc, com carros a cortar os pés, as rodas, aos "verdes", e não o contrário, que os "verdes", e são tantos ao fim da tarde, que "caminhar até faz bem, dizem, unânimes, os médicos!", é que têm de se submeter, pelos desníveis dos passeios, à circulação motorizada...
... esperamos para ver no que vai dar a intervenção, dita requalificação do ... glup... rio Este...
Uma coisa é certa: aqueles prédios construídos em cima da ... glup outra vez... margem não foram implodidos. Alguns são até bem recentes (ver ali ao lado das piscinas). 
Talvez não seja bom prenúncio.

"Mas... deixai-nos governar, caramba!"!

(Quer-se dizer: estiveram a desgovernar estes anos todos e agora querem fazê-la bonita para apagar a memória do que foi andar a betonizar esta cidade. Apagar a memória, não a betonização da cidade...)




Em prol da melhoria ambiental obras a sério urgem. Não empreitadas de fachada!
E O PAROLO SOU EU??

sexta-feira, junho 22, 2012

País de Parolos (tomo segundo)

O que alegam, defendem, vendem, acenam aos munícipes é que a circulação automóvel vai ser mais fluida.

Sim, mas para isso não era preciso fazer obras. Porque "obrar" até sugere, precisamente, o contrário.
Por conseguinte, também não era preciso fazer barulho.
Nem cortar o trânsito.
Nem encher de areia e água, portanto, suja as ruas intervencionadas.

Bastava cortar com os estacionamentos onde a circulação é estrangulada.
Acabar de vez com, nem dizemos carros em segunda fila: DIZEMOS PRIMEIRA! Que em certos casos bastam para fazer do burgo uma brincadeira de peões e passageiros. Parados.
Onde os autocarros, equiparados aos automóveis (até nem levam mais pessoas, nem nada...), são obrigados a esperar para prosseguir o seu periclitante percurso e a fazer-nos concluir:

"Puxa, da próxima vou a pé, que é mais rápido!"

Não vale a pena andar a motor e quatro rodinhas numa cidade tão pequena.
Só que / Mas que, de tão pequena, não devia ter os problemas e as demoras de tráfego que tem.

SAI, PAROLO, PARA A RUA E VEM VER A PORCARIA DE TRÂNSITO QUE NÃO APANHAS E PERSISTES EM PROJECTAR!

As cidades são problemáticas para o trânsito pois o buraco em que as vamos tornando não cresce para o que lá queremos meter dentro.
Desculpai-me a, porventura, metaforização feminina barra insinuação sexual acima e abaixo, porque, se quisermos ver no que o capitalismo torna os espaços urbanos (prossegu(i)ndo a reflexão do tomo anterior deste artigo), não são as cidades lugar onde nos compramos e nos vendemos?

Que é das cidades sem os tráficos (o do dinheiro, o das pessoas e das mercadorias)?
Talvez pudesse ser um espaço mais humano, já sabemos e imaginamos, com espaços de fruição, lazer e criatividade, de uma criatividade e de uma fruição que não estivesse sempre a ir cair na porcaria da economia e do consumo... Os lugares onde confraternizamos... porque têm de ser sempre acompanhados ou de cerveja, vinho (ou piores nem bebidas...) ou de algo pra trincar ou degustar?

"Ah, e tal, consumir é um acto social"

Mas, neste caso, antes de mais é um acto económico e uma cidade tem ou devia ter uma noção bem mais alargada do que aglomerar uns pobres seres condenados à indigência do betão e da desapropriação.

PÁRA, PAROLO, DE SER APENAS PORCO E PASSA A SER OUTROS ANIMAIS MAIS!

Cria! Protesta! Canta! Pinta! Toca!
Não consumas e destruas, somente.
MEXE-TE! MOBILIZA-TE! MORDE-TE!

Eu não uso, mas tenho de pensar como se quisesse usar. Como se tivesse de usar.
Assim, ao materializar a minha vida, eu veria com mais olhos e de uma forma menos estanque as respostas, diversas, que são procuradas...

Eu não uso, mas tenho de pensar como se quisesse usar. Como se tivesse de usar.
Porque eu posso, e tenho de ter o direito e a possibilidade de usar os transportes públicos.
Bem como outras coisas públicas. 
Senão não o são.

(Um rio, sob o sol a pôr-se, Paredes, Tejo ou Mondego a estas horas da madrugada... eterno és, quase a cambalear, de olhar sorridente por entre a multidão trabalhadora...)

Ponto.

quinta-feira, junho 21, 2012

Em breve iremos saber o que argumenta o vulcanólogo Franck Lavigne, da Universidade de Panthéon-Sorbonne, sobre o arrefecimento global por que passou a Terra ali pelo século XIII.

(Era eu ainda muito pequenino.)

A notícia vem dada pelo Ciência Hoje, aqui.

quarta-feira, junho 20, 2012

País de Parolos (primeiro tomo)




Enquanto obras inúteis vão enruidando, regenerando, dizem, as ruas deste burgo que (nos) vai empequenecendo... 


Inúteis não são: 


- vão reduzir o número de viaturas automóveis, quer a circular, quer a estacionar, uma vez que o espaço será ainda mais condicionado -- por consequência, mais pessoas que se deslocam, pendularmente, da periferia (que cresce) para o chamado "centro" da cidade (que assim também vai crescendo, aumentando o vazio) se verão obrigadas a concluir: 


"Vem, parece que vou mesmo que meter as quatro rodas no parque" (do senhor que até esteve preso e tudo... não num dos seus, claro!) 


PAGA, PAROLO!!!! 


- servirão para dar vazão às toneladas de granito que um empreiteiro tinha lá acumuladas -- por as ter extraído do então tornado "espaço" onde se encaixa o novo estádio municipal de Braga, coisa pela qual se fez pagar e que a excelentíssima Câmara Municipal obviamente que pagou 


PAGA, PAROLA QUE NOS FAZES À TUA IMAGEM E DIZES REPRESENTAR-NOS 


--- toneladas de pedra, agora muito bonitinha e aplainada sob os nossos futuros pés cada vez mais de chumbo, que o senhor empreiteiro / construtor (só não revelamos o nome porque o desconhecemos: mas dizei se estes anónimos não deviam já ter um nome mais digno que "criaturas descendentes de progenitoras assalariadas à noite?) agora vende à... Câmara Municipal para as excelentíssimas e bacocas obras e ela, claramente nos seus propósitos, propalando o interesse público, picando o ponto, persiste em pagar: 


PAGUEMOS, PAROLOS, QUE É DISTO MESMO QUE NÓS GOSTAMOS (todos temos filhos e enteados nestas empresas corruptas que nos fazem à sua imagem e que, nós, orgulhosos, ostentamos ao peito e na cabeça desmiolada pelo tilintar batente do som sagrado do dinheirinho ao fim do mês e até algum, quanto mais melhor, por fora e nos entretantos...) 


E como o sector até está em crise (- talvez não seja o principal, mas o lugar que ocupe na lista permite-nos pensar um pouco nos factores e manifestações da mesma...), os mesmos concursos de sempre abertos às mesmas empresas de sempre, ditas locais, que podem, em polvorosa, dinamitar, cidades inteiras... economicamente, basta quererem, e elas, a acenar com os empregos, já aprenderam a lição dos governantes, governantes se tornaram, ouvem-nos a gritar


NÃO!! NÃO FAÇAIS ISSO


Daí...:


EMPREGA LÁ UNS CONSTRUTORES, COITADINHOS, QUE TÊM FILHOS PRA CRIAR E PÃO PRA DAR DE COMER


Ponto.


Estes são, à primeira olhada, os factores determinantes por que estas obras, abrigadas sob nomes bonitos e vazios, embora ruidosos, se fazem e vencem e vão sempre avante, imparáveis e alheios ao que dizem aqueles a quem vão afectar no quotidiano. Daí por diante. 


PORQUE APÓS O PAGAMENTO, PAROLO, O EMPREITEIRO PÕE-SE A ANDAR E VAI PREGAR PRA OUTRO LUGAR! PARA TRÁS DEIXA PAISAGEM... PARTIDA, FRACTURADA... CORRUPTA... (Deixa obra. À sua imagem, portanto.) 


"É assim que faz o empreiteiro!


Há anos. Nesta cidade.
Neste país.
Por extensão.
Betonizada.




(Mas não os culpemos, pobres coitados, porque há países com máquinas bélico-político-económicas que levam isto ao extremo: destroem para construir. E claro, fazem-se pagar. Aí está o ganho, embora não o único, maior do processo.)


E VOCÊ: PARTILHA?

terça-feira, junho 19, 2012

B R A G A (pelos Mão Morta)






As capas das quatro compilações À Sombra de Deus (editadas, por ordem, em 1989, 1994, 2004 e, recentemente, em 2012) 




O seguinte texto, que muito apropriado cabe, foi originalmente publicado no blogue amigo TrompaAqui:



B - BRAGAS: É uma velha palavra, ainda comummente usada no ramo galego do galaico-português e no castelhano, sinónima de cuecas. É equivalente à palavra francesa “culotte”, que originou a expressão “sans culottes” (sem cuecas) para designar aqueles que nada tinham e cujo ímpeto revolucionário foi essencial ao desfecho vitorioso da Revolução Francesa; já as nossas bragas originaram o termo desbragado, isto é sem cuecas, para designar aquele que é guiado pelo ímpeto desenfreado dos sentidos. A ironia do acaso fez com que Braga (termo que remonta à expressão “galli braccate” (celtas bragados, isto é “de calças”) com que os romanos identificavam o povo da região, génese do nome Bracara Augusta com que baptizariam a cidade, de que Braga é deriva directa) viesse a ser a urbe onde o poder eclesiástico das “Hespanhas” assentou sede, criando assim uma paridade psicológica entre a cueca e o regramento da moral e dos sentidos representado pela Igreja. Deste modo, para um bracarense, desbragado apresenta o significado adicional do acto de libertar-se de Braga, isto é da cueca mental, do espartilho comportamental que a cidade religiosa modela. Daí o nosso apego ao desbragamento, a única acção que nos liga indelevelmente à cidade de Braga e, simultaneamente, nos aparta dela…

R - ROMA: É o cognome de Braga, sobretudo porque, à semelhança da capital italiana, as suas ruas e praças estão infestadas de igrejas. Infelizmente, a escala é bem mais modesta na nossa Roma, quer na dimensão urbana quer na monumentalidade das construções. E também a luz não tem qualquer comparação, aproximando-se mais o nosso “penico do céu” do cinzentismo de uma qualquer cidade inglesa do que dos ocres e azuis fulgurantes que emprenham a cidade italiana… Mas para além da profusão de igrejas, também Roma marcou a cidade dos arcebispos, quando epicentro do império romano, ao dar-lhe o nome e ao deixar-lhe as suas mais provectas ruínas.

A - AMOR: É um anagrama de Roma e talvez a palavra mais gasta do léxico bracarense, sempre na ponta da língua de curas e demais dignitários da Santa Madre Igreja – ele é o amor a Deus, o amor de Deus, o amor ao próximo, o amor divino, etc.… Paradoxalmente, é uma das palavras mais vazias de sentido no quotidiano da cidade, marcado pela convivialidade perversa, a raiar a crueldade infantil, com que o tédio se entretém a enganar a frivolidade do custoso passar do tempo. Esse tédio contra o qual a música, para quem não migra em busca de paragens mais afáveis, constitui refúgio e antídoto eficaz.

G - GUIMARÃES: Local de vilegiatura dos Condes Portucalenses, onde nasceu e foi baptizado o seu filho Afonso, futuro fundador do Reino de Portugal. Continua a ser Espanha para os bracarenses mais empedernidos, quando têm de puxar dos galões, numa expressão da rivalidade provinciana e pacóvia que germinou com o revisionismo nacionalista do Estado Novo. É o espelho conformador com que Braga gosta de ajeitar a sua identidade, num retorno imberbe ao grau zero da existência. Já para um bracarense mais arejado é uma bela cidade, que dá prazer visitar, e onde pode colmatar a falta de oferta cultural que, hoje, asfixia a velha capital dos Suevos.

A - ANTIGA: É o melhor adjectivo para descrever a cidade, cuja existência remonta à época pré-romana. Apesar disso, os vestígios físicos da sua antiguidade são raros – desde o velho castro da Cividade, sobre o qual, cerca de 20 a.C., foi fundada a Bracara Augusta romana, que no séc. II viria a ser uma referência na Península Ibérica, até às muralhas construídas no séc. III, nada resta a não ser algumas, parcas, ruínas desenterradas. Também nada resta de visível do tempo em que foi capital da província romana da Galécia, no séc. IV, ou do reino dos Suevos, no séc. V, nem da passagem dos Godos (séc. VI e VII) ou dos Mouros (séc. VIII). A exemplo da sua Sé Catedral, erigida no séc. XI, a história de Braga é feita de sucessivos

arrasamentos e reconstruções, tradição que ainda hoje se perpetua. O resultado é que já só restam, na malha urbana, vestígios do séc. XVIII em diante. O que não impede que Braga
continue a ser uma cidade antiga…

segunda-feira, junho 18, 2012

Comparação do dia...

"Enquanto se governar do mesmo modo do que na Turquia e enquanto perdurarem na Bósnia as circunstâncias actuais, não há lugar nem para estradas nem para comunicação. Ao contrário, e por motivos muito diferentes, tanto os turcos como os cristãos estão contra qualquer nova construção ou manutenção das vias de comunicação. Hoje mesmo tive a oportunidade de o constatar claramente durante a conversa que mantive com o meu amigo, o gordo pároco de Dolac, frei Ivo. Queixei-me de como é íngreme e cheio de rodeiras o caminho entre Dolac e Travnik, dizendo-lhe que me admirava por os habitantes da povoação não fazerem nada para o arranjarem minimamente, já que são obrigados a percorrê-lo todos os dias. O frade primeiro olhou-me com ironia, como se eu fosse uma pessoa que não soubesse do que estava a falar, depois, manhoso, piscou-me um olho e disse cochichando:

- Senhor, quanto pior a estrada, menos frequentes são as visitas turcas. O que mais gostaríamos era de podermos colocar, entre nós e eles, uma montanha intransitável. E, no que a nós se refere, esforçamo-nos para percorrer qualquer caminho quando é preciso, pois estamos habituados a que sejam maus e a todo o tipo de ruindade. Na realidade, vivemos das dificuldades e, não diga a ninguém o que lhe vou dizer, mas ouça: saiba que enquanto forem os turcos a governar em Travnik, não precisamos de melhores caminhos. E, aqui entre nós, quando os turcos o arranjam, o nosso povo espera pelas chuvas ou pela neve para o esburacar e escavacar. Isso, até certo ponto, pode acabar por dissuadir os hóspedes indesejáveis.

Só quando acabou de falar, o pároco abriu de novo o olho que mantinha piscado e, orgulhoso da sua esperteza, voltou a pedir que não contasse aquilo a ninguém. É esta uma das razões por que os caminhos não prestam. Outra das razões reside nos próprios turcos. Qualquer das vias de comunicação com o mundo cristão significa para eles abrir portas à influência inimiga e à possibilidade de estas exercerem supremacia sobre a arraia, ameaçando assim o domínio turco. Além disso, senhor Daville, nós, os franceses, acabámos de engolir metade da Europa e não é de estranhar que os países que ainda não dominamos olhem com desconfiança as estradas que o nosso exército está a construir nas suas fronteiras."


"A Crónica de Travnik", Ivo Andric, Ed. Cavalo de Ferro, 2008, pp. 75-76

quarta-feira, junho 13, 2012

O fosso ou o triunfo dos conceitos vagos


Seria um estranho apelo, se não fosse uma metáfora. “Mandem para os nossos países as vossas poluições”, disse, à mesa das negociações, o representante de um país menos desenvolvido. O ano era o de 1972, quando se dividiam as nações do planeta em Primeiro, Segundo e Terceiro Mundo. (in Público)

terça-feira, junho 05, 2012

O parque temático e a realidade (ou como brincar aos comboios)


A CP retoma a 30 de junho as viagens de comboio histórico na linha do Douro.

Entretanto se as gentes entre Coimbra e Lousã não estiverem disponíveis para participar nesse revival, ou simplesmente não tiverem dinheiro para o efeito, poderão eventualmente entreter-se a imaginar o (antigo) ramal ferroviário Lousã – Coimbra, quando neste ainda passavam comboios. É que o dito ramal estava a ser (supostamente) preparado/reabilitado (na realidade destruído) para receber o metro de superfície entre a Lousã e Coimbra, e após se terem gasto uns euros valentes com a obra, esta parou. Nem comboio nem... metro. Mas com algumas estações arranjadinhas, garantem-nos. E administradores bem pagos. A população protesta e exige uma resolução! (ver aqui).

sexta-feira, junho 01, 2012

Estamos no bom caminho (II)


Portugal arrisca pôr-se a caminho do Terceiro Mundo (Público)

Quem o afirma é (apenas) a presidente do Conselho de Finanças Públicas, Teodora Cardoso, acrescentando que a “política de cortes salariais aconselhada pela troika e seguida pelo Governo pode pôr Portugal” nesse caminho. Até aí chegamos nós. E não fomos certamente os únicos. Acresce que estas e outras palavras levam-nos para aquilo que Bourdin designou de “triunfo dos conceitos vagos”, referindo-se ao urbanismo neo liberal, mas que poderá ser transposto para aqui.

Conceitos vagos e palavras vazias: designações como terceiro mundo ou quarto mundo; países em vias de desenvolvimento ou países emergentes; países sub e sobre; G8 e G20; tigres Asiáticos e gatinhos assanhados; geopolítica de cabaré (que esconde uma outra, um tabuleiro onde se joga em grande). Palavra que (tudo isto) por vezes me lembra uma qualquer liga de bola. Tudo menos coisa séria. Cheira a relatórios e enviados especiais; viagens; cargos políticos e meetings. Muitos meetings. E sobretudo, parece, que se fala de coisas sem gente (seres humanos de carne e osso!) lá dentro...


3ºmundo