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quarta-feira, abril 27, 2016

"A Rua - Espaço, Tempo, Sociabilidade"

Título: A Rua - Espaço, Tempo, Sociabilidade
Organizadores: Graça Índias Cordeiro e Frédéric Vidal
Edição: 2008
Editora: Livros Horizonte
ISBN: 9789722416085
Paginação: 172 páginas


Tinha este livro há anos na prateleira...

Oscilando entre a sociologia, o urbanismo, a história e a antropologia, trata-se de um conjunto de textos (a maioria, resumos de teses) que procuram perceber como é que a rua (conceito, palco de eventos, conjugação de vontades, objecto estruturador do urbanismo...) acaba por influenciar a vida dos citadinos.
Isto inclui a forma como a vivemos, convivemos e como sentimos e idealizamos o que vemos através dela, como criamos laços com os outros e com os espaços à nossa volta entre outras implicações.

Alguns textos são bem pertinentes, problematizando concepções e questionando os valores que estão por trás delas e dos actores-autores políticos. 

No primeiro, "O «Acampamento», a Cidade e o Começo da Política", Michel Agier dá-nos o exemplo dos acampamentos de refugiados, traçados ortogonalmente (é uma regra?) e colocados, como pára-quedas, no meio de nada (como as lixeiras, que não queremos nem ver...):

Actualmente, coloca-se questão de pensar o lugar como espaço considerado como "liminar, entre-dois, provisórios, transitórios, incertos, intermediários, associados a circulações" necessárias ou forçadas. "Estes espaços formam-se, então, como etapas nessas circulações, ou como refúgios (...).
Que espaços são esses? São de vários tipos: de acampamento de trabalhadores itinerantes, precários; centros de trânsito para agrupamentos de longa duração de estrangeiros com pedidos de asilo; hotéis que são prisões ao mesmo tempo e campos de detenção para imigrantes que esperam regularização ou expulsão perto dos portos ou dos aeroportos; prédios abandonados; antigos espaços industriais abandonados; ruínas vazias que são invadidas; terrenos de acampamento que são ocupados por pessoas que se instalam na periferia das cidades e cujos espaços vazios de acampamento podem ser lugares de moradia duradoura; campos de refugiados; aldeias de refugiados ou sítios em geral das organizações humanitárias, ou do ACNUR, por exemplo, onde as pessoas vivem sob a assistência e controlo humanitário e das organizações internacionais. (...)
Eu tenho pesquisado durante 20 anos em lugares que parece que não são cidades, são lugares de barracas, lugares de acampamentos, lugares onde há um mínimo de materialidade; às vezes não têm materialidade, e são as próprias pessoas que fazem essa materialidade, e ao mesmo tempo elas fazem as relações que vão com a materialidade. E então a gente encontra-se em zonas onde, de forma muito concreta, material, e de forma muito social, as pessoas fazem a cidade. São citadinos sem a cidade." (...)

Onde as pessoas são ajudadas mas também controladas, emergem líderes ou porta-vozes cujas capacidades e estatuto (cultural e educativo), fazem com que as Organizações não os reconheçam como representativos dos pobres refugiados. E eles emergem para reivindicar melhores condições materiais na cidade das tendas... Esta emergência de líderes é já, em si, o início de processo de criação de cidade e identidade, porque configura a convivência entre estranhos que compartem situações.

No segundo texto, "Vestígios de uma Modernidade Apagada: A Paris Popular da Primeira Metade do Século XIX", de Maurizio Gribaudi, o autor desmonta a ideia que perdurou e sobreviveu pelo tempo da Paris que então emergia: a cidade das luzes e dos boulevards.
Acontece, diz o autor, que os espaços esconsos, bairros sujos, mal-frequentados, com população pobre e doente, eram espaços de legibilidade difícil para a nova concepção de cidade (pós-haussmaniana, etc.) e cujos planeadores, políticos, arquitectos e estrategas não se preocupavam realmente em tentar compreender.
Gribaudi fez análise de uma dessas ruas e zonas e demonstra claramente que as funções e profissões que nele se encontram são, além de diversas e numerosas (pequenos artífices e fabricantes de tudo. Mas realmente de tudo, desde relojoeiros, a chapeiros, alfaiates, fabricantes de espelhos, torneiras, envernizadores, e até um médico, um dentista, um farmacêutico ervanário...), um substrato representativo das várias camadas sociais e que, criando uma verdadeira interdependência e organização de necessidades, são a "fábrica das traseiras", a "cloaca a céu aberto" que os habitantes das classes aristocratas e liberais dos boulevards precisam para manter os seus fatos e hábitos imaculados...

Já em "Ruas da Cidade e Sociabilidade Pública: Um Olhar a Partir de Lisboa", de Tim Sieber, temos um autêntico regalo.
Como antropólogo urbano estado-unidense que veio viver para Lisboa custava-lhe perceber a importância que a rua adquire para os povos mediterrânicos, uma vez que a tradição anglo-saxónica "instituiu" o conceito de rua como associado à marginalidade, à classe dos negros, os loosers, os vadios, os falhados e desenraizados, por oposição à classe-média, à gente "decente" que, "cuidando da família e com trabalho, não tem tempo para estar à porta de casa e andar metida em bares ou a deambular pelas ruas". E este conceito vigora e envenena outras formas de ver as relações dos urbanitas com a urbe.
O turista parece andar preocupado em admirar mais as fachadas, monumentos e arquitecturas do que contemplar, viver a rua e contactar com as pessoas que ali vivem. "Parece ser irrelevante quem são as pessoas e quem está na rua - desde que as ruas estejam apinhadas de gente."

O autor viveu largos anos por trás da Casa dos Bicos, na Rua Afonso de Albuquerque, "uma rua popular, de classe operária, com oito prédios, uma residencial de cinco andares que hospedava sobretudo imigrantes das ex-colónias em busca de uma vida melhor, bem como migrantes internos. A rua "Tem apenas 75 metros de comprimento e é bastante estreita..."
"Um dia em que regressei tarde a casa - aí por volta das 4 da manhã - apanhei os padeiros, os almeidas e os lavadores de rua todos em amena cavaqueira, em frente à padaria, cada um envergando o respectivo uniforme de trabalho. Tratava-se de um ajuntamento informal, de conversa espontânea, entre pessoas que nem sequer viviam na rua, sendo na sua maioria simples transeuntes nocturnos, visitantes de passagem. Passageiros do escuro que se apoderam momentaneamente  da rua, enquanto os residentes dormem despreocupados, ou até mesmo satisfeitos por estes trabalhadores aparecerem à noite, sem causar qualquer perturbação às rotinas diárias na vizinhança".

Depois fala como na Expo 98 não houve verdadeira representatividade da cultura portuguesa a exibir, tendo considerado, por exemplo, a música pimba e os desfiles das marchas de Lisboa como cultura menor. Por insistência, as associações de marchas impuseram a sua força e desfilaram na avenida central do espaço do Parque das Nações, mas à margem da programação. Isto é, se a rua nos está vedada, somos nós que fazemos uma nova.

Outros textos interessantes, um mais sobre arquitectura e como ela condiciona a convivência dos moradores, outro mais sobre o lugar da rua nas manifestações e encenações do Poder no século XIX português, outro ainda sobre as práticas religiosas colectivas num bairro perto da Bela Vista... fazem deste livro uma boa e interessante paragem para reflectirmos sobre a Geografia.

Boas leituras geográficas.

Envie a sua sugestão de leitura para
georden@gmail.com que posteriormente publicaremos neste mesmo espaço.

terça-feira, março 15, 2016

"Escotismo para Rapazes", de Robert Baden-Powell


Escotismo para Rapazes
Scouting for Boys
Robert Baden-Powel [*]

Tradução: Rosário Morais da Silva
2.ª edição: Janeiro 2012
Editora: Associação dos Escoteiros de Portugal (AEP)

Escotismo para Rapazes é um livro de fácil leitura que cativa o leitor a imaginar-se um zulu, um guerreiro, um sobrevivente, um batedor, um patrulheiro, um verdadeiro Escoteiro em vários ambientes reais, de cidade, de campo, de floresta. Durante a sua leitura:
- Sonhei que estava na Serra da Arrábida a seguir rasto de uma galinha d'água perdida...
- Sonhei que estava perdido em Lisboa, com mil pessoas apontar-me o dedo e a dizer "IH! Está perdido em Lisboa! Não se orienta no trânsito..."
- Recordei as aventuras no Algarve, com os manos e amigos, as partidas e a proteção que sempre existiu entre nós e entre todos...
- Recordei as vivências vividas no el camiño... turigrinos fabulosos que me fizeram crescer por tudo o que me contaram e que passei com eles...
- Recordei os tempos que estive a seguir o meu caminho nos Açores... a beber água em ribeiros, a analisar as condições meteorológicas e a observar as "Cagarras" com o seus voos rasantes... e o coração a bater forte de medo, de cansaço, de paixão por tudo o que contemplava...
- Sonhei, recordei, sonhei, recordei...
Este é um livro delicioso, apaixonante e muito geográfico, portanto...
Mesmo que não sejas Escoteiro, durante a sua leitura, perceberás o que estou a escrever. E nunca se sabe, se após a sua leitura, te tornarás num...


Podes ouvi-lo aqui.


Transcrevo parte da introdução da edição portuguesa, realizada por Nélson Raimundo:
"O Escotismo é hoje um movimento global e plural, que junta mais de 28 milhões de jovens e adultos, rapazes e raparigas, homens e mulheres, de todos os pontos do globo, sem descriminação religiosa, de género, socioculturais ou étnicas. O objetivo do Movimento Escotista é, desde a sua fundação, o de ajudar a construir um mundo melhor e para todos. Para isso o Escotismo aposta nos jovens e na sua formação, fazendo de cada Escoteiro uma força capaz de contribuir para transformar a sociedade e o mundo."

E finalizo com BP:
"...Pus neste livro tudo aquilo que precisam para serem bons Escoteiros. Por isso, vão em frente, leiam o livro, ponham em prática o que ele vos ensina e espero que se divirtam tanto ou mais do que eu enquanto Escoteiros.
" Baden-Powell of Gilwell

Boas leituras geográficas.

[*] Robert Stephenson Smyth Baden-Powell (Londres22 de Fevereiro de 1857 — Nyeri8 de Janeiro de 1941) foi um tenente-general do Exército Britânico, fundador do Escotismo.


Envie a sua sugestão de leitura para
georden@gmail.com que posteriormente publicaremos neste mesmo espaço.

quarta-feira, setembro 02, 2015

Visões de génio

Planeamento Urbano 
O que aconteceu à Praça?

Os entraves à comunicação são formados não só por edifícios ou partes de edifícios. O próprio desenho duma cidade pode impedir a comunicação e a comunidade. Tomemos a esquina nas sequências do encontro no filme "O Eclipse". Um romance ou filme tradicional poria Vittoria e Piero a encontrarem-se num café romântico. Então porquê esta esquina anónima do EUR? A pálida intersecção não é um mero cenário. Conforma uma ideia geral. Não é só o espaço onde o par de namorados falta ao encontro mas o culpado disso. Exemplifica, ocasional e comprovadamente, a incapacidade geral de a cidade moderna proporcionar encontros.

O que divide passa de um bloco de betão (na Bolsa; nos valores que separam visões do mundo de cada personagem) para uma barra de metal. Um quase oculta a pessoa, o outro mantém a separação, quase união, mas infranqueável.

Quão distinto é um cruzamento rodoviário de uma praça, o tradicional lugar de encontro dos amantes! A intersecção evoca o que é mais transitório, casual e efémero na nossa sociedade: meros contactos, não encontros programados, entre actuais agitados como Piero, que vive na margem das coisas. A arte de marcar encontros em lugares convenientes perdeu-se para a geração apressada, com os seus carros desportivos e a sua superficial abordagem da vida. Noutros tempos, a solução arquitectónica comum para o problema do cruzamento de ruas era a praça - a piazza (Platz, Plaza, do Latim platea, rua larga) -, o locus classicus da comunidade, onde os negócios do dia dão organicamente lugar à socialização da noite. Na Roma de tantos espaços e lugares esperávamos uma alternativa mais interessante àquela pálida esquina. Nas partes antigas, mesmo o bairro mais pobre tem a sua praça e fonte ou, pelo menos, a sua torneira.


Mas no quarteirão do EUR, nenhum consolo desses foi planeado. Uma tradição vital ficou esquecida na amnésia geral do modernismo. As personagens, em particular Piero, precisam desesperadamente de um alívio estético (mesmo se ele provavelmente pense que do único que precisa é alívio sexual). O seu trabalho é cansativo e stressante, ele toma comprimidos e atende logo as chamadas de gente que nem se identifica. Curiosamente, o seu lugar de trabalho, a Bolsa, dá para uma das mais bonitas praças de Roma, a Piazza di Pietra. Mas o lugar tornou-se tão povoado e preenchido por carros que a socialização, embora intensa, é uma anedota do contacto inspirador que o grande arquitecto romano pretendera.

Um dos objectivos de filmar as personagens de costas é dar-nos a mesma perspectiva destes, amplificando o terceiro elemento. No caso, a passadeira.

A ideia original de Antonioni era filmar a sequência do encontro de Vittoria e Piero numa pequena e moderna praça do EUR. Mas o que acabou por ser filmado foi a intersecção marcada pelas faixas da passadeira. Piero diz que vai beijar Vittoria quando eles chegarem ao outro lado da rua. Entretanto, Vittoria pára e diz enfaticamente:
- Estamos a meio.

A decisão de Antonioni de mudar o sítio de uma praça (não importa quão pobre) para um mero cruzamento traduz claramente a sensação de que este está ainda mais abandonado. Na era dos carros desportivos, as pessoas passam por amantes como água na areia da praia. O começo de uma relação amorosa (a própria expressão denota já uma banalidade já pensada) vai já a meio, e o fim está já à vista. Não precisamos que nos mostrem como as coisas acabam. Como os corpos celestes (e o título do filme é indicativo), os amantes modernos convergem apenas durante um breve instante, já que seguem a grande velocidade e em direcções opostas.


Porquê esta esquina suburbana tão indistinta e indistinguível de milhares de outras? O que a rodeia é tão amorfo que dificilmente se pode constituir como lugar. A livre praça europeia, de Danzig a Lisboa possui propriedades visuais que não temos num cruzamento rodoviário. Por uma razão, o espaço da praça é autónomo, sui generis. Não é apenas a ausência de algo. Nem tampouco o que sobra se retirarmos os prédios à sua volta. Ele deve ser planeada, e a sua existência depende dos limites das estruturas que se impõem e lhe dão personalidade. Mas a intersecção do "Eclipse" não tem tal personalidade. É um vazio, não um espaço desejado. Os edifícios que estão à volta não têm alma. Num canto está um muro baixo entre casas indiferentes e a rua. 

Noutro estão alguns prédios de quatro andares ao acaso. Num terceiro encontramos um complexo desportivo, ilegível pelas imagens ao nível da rua. O quarto canto está dominado por prédios em construção ainda sem forma. Não só estas estruturas estão por evidenciar, como as suas relações espaciais com a passadeira estão demasiado distantes e vagas para as percebermos melhor. 

Não, a esquina não pode ser considerada como espaço humano relevante. Não tem fechamento: 
"Linhas-fronteira não servem para encerrar a praça: terminam nos cantos, mas a sua força impele-nos a continuar, não a parar", especialmente quando essas linhas direitas estão ao serviço do automóvel. O piso partilhado pelas duas ruas não foi feito para o pé humano. Demorar-se torna-se crime, uma obstrução ao trânsito. Ao contrário da calçada da praça, o asfalto não constitui um "terreno" paralelo ao céu. O cruzamento é tão-só um produto mecanizado, o mais simples e mais barato e a solução menos humana para o problema da circulação automóvel. Traduz a necessidade de carros, não de pessoas. Em vez de deambulantes, tornaram-se peões, meros piões no jogo do xadrez automóvel. O caso de Vittoria e Piero está em certo sentido condenado só pelo facto de terem marcado um encontro para ali. Não é um ponto de encontro ou de detenção, só serve para seguir rumos diversos.

Os peões que atravessam cruzamentos estão sempre na periferia, nunca no centro. Alheios ao lugar, precisam de marcas especiais - uma passagio zebrato, em italiano - postas paralelas à curva como grandes parêntesis a indicar-lhes por onde é seguro passar. Estas marcas estranhas sugerem que o peão é uma espécie em extinção (lembremo-nos das peles de zebra no apartamento de Marta e das fotos das zebras no "Deserto Vermelho"). As ruas são o habitat natural dos carros; agora são as pessoas que têm de ser conduzidas por entre eles. Estamos tão habituados à autoridade dos carros que competimos sem pestanejar por essas marcas brancas. As passadeiras quedam-se num dinamismo rígido e absurdo. Compelem-nos a avançar. Se as tomássemos à letra, ficaríamos a andar sempre pra lá e pra cá. A sua única função é levar-nos para outra coisa - mesmo que essa outra coisa não tenha sentido nem objectivo.

A intersecção da passadeira não é um espaço próprio. O seu apelo é mecânico, mera fórmula. Como o arranha-céus espelhado, reflecte, num pleonasmo perfeito, apenas a sua função, que é a de atravessar. É uma verdadeira agonia do funcionalismo. A função arquitectónica adquire significado apenas quando joga com o sentido humano. E é precisamente isto que aqui está em questão. Que sentido podem ter vidas humanas reguladas desta forma? As faixas são o emblema da vida agitada de Piero, impulsivamente de um lado para outro, de cliente para corrector, de mulher para mulher. Talvez Vittoria não o deixe beijá-la quando chegarem ao outro lado por reconhecer estes traços.

Não teria aprofundado tanto esta esquina se a câmara de Antonioni não lhe tivesse feito caso. As elevações da câmara, por exemplo, não são inocentes. Quando acompanha a história do caso dos amantes, a câmara sobe de nível com eles, mais ou menos a reboque do enredo. Mas após o desaparecimento do par, a câmara sobe ainda mais, para um ângulo mais objectivo, a perspectiva da indagação científica. Com a perda dos protagonistas, a intersecção muda do objecto para o assunto. A nova narrativa, que termina o filme, é um documentário não-ficcionado. A protagonista é a intersecção. A técnica tinha sido aludida já na cena da vila fantasma [um conjunto de habitações idealizadas pelo regime fascista para alojar trabalhadores mas que nunca chegaram a ser habitadas] na Sicília de "A Aventura". Nele, o par deixa a vila para trás. Neste caso, é o subúrbio que deixa o par para trás. 

Se o objectivo de Antonioni tivesse sido apenas o de mostrar a separação dos amantes, ele teria filmado Vittoria ou Piero a voltar àquela esquina em solitário. O pano de fundo seria na mesma um pano de fundo, nem ser notado por estar igual. Mas com o desaparecimento de ambos, Antonioni releva aquela intersecção banal, fá-nos contemplá-la com tamanha intensidade que sentimos, mesmo sem compreendermos muito bem, a ameaçadora relação entre o tédio urbano e a procura da auto-destruição global. A intersecção do EUR torna-se o presságio da catástrofe. A banalidade do candeeiro de rua transforma-se num ícone como aqueloutra, extrema, do botão vermelho que desencadeia a guerra atómica. Antonioni consegue este efeito espantoso precisamente ao frustrar as expectativas convencionais de um desfecho, transformando o tédio do normal Devir no horror do Fim. 


"L'Avventura" e "La Notte" conduzem-nos a pensarmos as personagens com um conjunto de ansiedades modernas, maioritariamente eróticas, e depois redirecciona a nossa atenção para o aspecto das coisas, especialmente do ponto de vista da arquitectura. Mas em "L'Eclisse", Antonioni vai muito mais longe, para lá da mera aparência. O forte luz do candeeiro e o alto volume da música na cena final são difíceis de aguentar. Nenhum outro filme deixou nos espectadores a perguntar-se "É só isto?", "É só isto que fica de um caso de amor?", "Do nosso destino comum?", "Da nossa civilização?", "Da própria terra?"


Excerto de "Antonioni or, The Surface of The World", de Seymour Chatman, 1985, University of California Press, pp. 108-112
Tradução de Edward Soja.

Houve quem tenha lá ido mais recentemente, ver como a coisa estava.

quarta-feira, agosto 26, 2015

Maravilhar-se, por Rachel Carson

Título: Maravilhar-se - Reaproximar a Criança da Natureza
Edição Original: The Sense of Wonder (1956)
Autor: Rachel Carson
Tradução: J. C. Costa Marques
Edição: Novembro de 2012
Editora: Campo Aberto / Edições Sempre-em-Pé
ISBN: 9789728870362
Paginação: 104 páginas

Esta é uma co-edição da associação de defesa do ambiente Campo Aberto e das Edições Sempre-em-Pé e, para além daquele belo texto de Rachel Carson, contém fotos ilustrativas, uma análise da actualidade do legado e uma pequena biografia sobre a escritora bióloga estadunidense. O que, face à extrema dificuldade de encontrar o seu seminal "Primavera Silenciosa" - sim, houve uma edição por cá, na editora Pórtico, em 1964 - constitui um acrescento valioso, face à singeleza e pequenez do texto originalmente publicado num jornal.

Inspirada pelo seu sobrinho-neto, com quem passava os dias a descobrir a natureza em torno do local onde morava, no Maine (costa este, junto ao Canadá), descreve as razões e as maneiras do porquê empreender tal tarefa, pedagógica, se assim podemos dizer.

Em primeiro, trata-se de redescobrir - mesmo que em tenras idades - os sentidos, exercitando-os com detenção e paixão. Isto implica arrancar da anestesia geral o sentido do olfacto, reaprender a escutar atentamente para discernir os pequenos sons do espaço à nossa volta. A visão será talvez aquele, hegemónico, que a sociedade do espectáculo nos ensina a usar mais vezes. O que não quer dizer usar necessariamente bem. A cada realidade suas necessidades.

Em segundo lugar, e o mais importante doravante, não será tanto inundar-nos de informações ligadas àquilo que vemos, ouvimos e cheiramos, mas sim respeitar, junto dos seres vivos (fauna e flora) e dos restantes elementos da natureza, os ritmos da contemplação e da fruição. O mistério e o descobrimento serão os pêndulos donde nascerá a paixão e o sentimento que, estes sim, ficam gravados desde cedo e não cessarão de dar frutos pelo futuro.
No futuro, então, sim, os nomes e a compreensão, científica ou de senso comum, que ligamos àquilo que presenciamos e vivemos ajudarão a completar o gosto e o respeito pela natureza.


Numa análise crítica - sendo uma auto-crítica, antes de mais - devemos dizer que este ensinamento ficará cerceado se não pudermos conviver com a natureza. Ela está por todo o lado, argumenta Rachel Carson: nos jardins, no vento, nas estrelas, na chuva, nos pequenos animais.
Sendo isto certo e ela passível de fruição, todos conhecemos quantos obstáculos o homem citadino que maioritariamente somos sentiu necessidade de criar para assim - diz, sussurrando - se sentir mais seguro: dentro de paredes (casa, supermercado, centro comercial genericamente falando, que só parecemos saber consumir...) não chove, impedimos o vento de nos bater na cara e à chuva de nos molhar; as luzes que iluminam as cidades poluem a escuridão do universo estelar e impedem-nos de vislumbrar as bolas de fogo.
Resta pouco, sóis e luas para os que não inventámos ainda fuga eficaz.

Ah, também há admiráveis mundos novos que nos transformam em robôs (é para isso que serve o trabalho, que em várias línguas eslavas é o que quer dizer) e em pessoas desprovidas de sentimento. O que é a ocultação da morte senão uma tentativa de anestesia mental e psicossomática profunda? Vai na mesma linha da destruição do que é ser-se Homem. Começa por coagir e limitar as manifestações animais que há em nós. A ver se nos "civilizam" por inteiro...

E, como capitel, a rarefacção do silêncio impede-nos da intimidade connosco mesmos. Mesmo se tiveres tempo, a ausência do silêncio manter-te-á distraído de ti mesmo até ao fim dos teus tempos.

A desumanização que a nossa domesticação proporcionou ao Homem (os animais e as plantas não no-lo pediram, mas também não interessa...) deveria dar lugar a uma selvajaria que não se sentisse tão bem com as sombras dos cemitérios do cimento.

Já seria um começo de algo diferente.


Terminámos com duas últimas notas, imprescindíveis a pretexto: 

- os tóxicos bioacumuláveis que "semeamos" com os pesticidas lembram-nos que a única dose segura é a dose zero. Pois - se é necessário explicá-lo - ao longo da cadeia alimentar, se eles não são elimináveis... é uma questão de tempo. As bombas relógio das doenças inexplicáveis como o cancro já têm explodido há alguns anos, mas isso é porque as bombas, essas, começámos a produzi-las há muito mais tempo atrás. É disto que fala o livro Primavera Silenciosa, das primaveras em que não haverá pássaros.
E numa sociedade sacarínea, sacana e gordurosa (é nos tecidos gordos que se acumulam os metais pesados) é por aí que continuamos a trilhar o rastro de destruição.
Ah, como nota ou curiosidade para os mais distraídos, refira-se que um dos grandes produtores de pesticidas é também um dos papás-papões dos transgénicos. Sim, a fantástica, tentacular e calcinante Monsanto.
- Rachel Carson viu também o que amiúde esquecemos, de tão óbvio:
"As criaturas selvagens, como os seres humanos, precisam de um lugar para viver. À medida que a civilização cria cidades, constrói estradas e seca pântanos, ela ocupa, pouco a pouco, a terra favorável à vida selvagem. E à medida que diminui os seus espaços de vida, as próprias populações da vida selvagem declinam."

E isto já foi dito há muito tempo...

quarta-feira, março 18, 2015

Alegoria do Património, por Françoise Choay (1/3)

O ar morno e sufocante
Penetrava pela janela
Toda a estância balnear
Esmagada pela quentura
Parecia estar deserta
Concentrados à beira mar
Muitos corpos escaldados
Estendidos uns sobre os outros
Como nacos de vianda
Nos balcões dos supermercados
Mais um dia sem demanda
Neste enfado

"Estância Balnear", Mão Morta


Título: Alegoria do Património
Edição Original: L'Allégorie do Patrimoine (1982)
Autor: Françoise Choay
Tradução: Teresa Castro
Revisão: Pedro Bernardo
Edição: Junho de 2010
Editora: Edições 70
ISBN: 9789724412740
Paginação: 308 páginas


Neste livro, a autora começa por uma introdução aos conceitos de monumento e património ao longo da história para perceber a sua evolução e como este culto se tornou num dos princípios modeladores, não só das cidades, mas também das mentalidades e da agudização da economia capitalista.

Pelas diversas conquistas, reconquistas e abandonos dos territórios europeus ao longo dos séculos, os edifícios, em ruínas ou não, foram sendo “notados” pelos poderes (eclesiásticos, feudais, políticos…) ou por individualidades (intelectuais, artistas, antiquários (originalmente, aqueles que prezavam as coisas e os conhecimentos dos antigos) e, muito mais tarde, arquitectos e urbanistas). Tal significa que foram sendo tomados como portadores de uma história sobre os povos e as regiões.

Nos começos, como hoje (e esta é uma constante ao longo dos diversos paradigmas civilizacionais ditos “ocidentais”, onde tal culto começou, para depois se expandir, imperialisticamente, pelos “novos” mundos e não tão novos - Choay cita o exemplo do Japão), essa valorização do passado edificado, sob a forma de edifícios e construções do mais diverso tipo, não é necessariamente sinónimo de protecção.

“(…) o desenvolvimento das colecções e a bulimia dos coleccionadores, quer se trate de inscrições ou de esculturas, encontravam um terreno privilegiado nos edifícios aos quais essas pedras erram arrancadas sem pudor. Este tipo de degradação devia crescer com o número dos amadores e com o progresso do comércio da arte.” (p.58)

A negrito, as duas causas principais que se vislumbram como exacerbamento da situação nos tempos actuais. Parêntesis, nosso, para mencionarmos as tão conhecidas visitas a geossítios (como a pedreira das pedras parideiras, na Serra da Freita, ou a pedreira do Galinha, ou outro, onde, mesmo com medidas de salvaguarda como delimitação do “fenómeno a observar”, nos deparamos com pedras arrancadas por aqui e por ali. Se fosse possível, também levaríamos os buracos das pegadas…)

Mas a autora exprime ainda melhor o paradoxo desta “valorização”:

Finalmente, a atitude contraditória dos papas e da sua corte é ditada sobretudo por políticas económicas e técnicas ligadas à necessidade de embelezar e de modernizar a cidade e de a tornar numa grande capital secular. A urgência da acção exige materiais de construção, de que não se dispõe em quantidades suficientes, e espaços livres para se realizar os seus programas e rivalizar com a obra da Antiguidade. Tal como mais tarde, no contexto da modernização do classicismo, ou ainda na sequência da venda dos bens nacionais iniciada em França com a Revolução, ou mesmo como ainda hoje diante dos nossos olhos e pelas mesmas razões, os empreendedores e os promotores dos trabalhos são, muitas vezes, os executantes das rasteiras obras de destruição.” (p.58)

Em tempos de picos de concentração e de desequilíbrios, escasso fica também o espaço, outra das causas para a degradação daquilo este culto do património pretende precisamente defender.

Mais à frente:

A consagração do monumento histórico não mereceria o seu nome se se limitasse ao reconhecimento de novos conteúdos e valores. Ela está, para além disso, fundada sobre um conjunto de práticas cuja institucionalização foi catalisada pelo poder das forças destrutivas – já não deliberadas e ideológicas [“vamos pilhar e destruir esta marca da civilização / ideologia anterior pois a nossa/s é/são moral e esteticamente superior”], mas inerentes à lógica da era industrial – que ameaçam desde então os monumentos históricos. A mutação que transforma simultaneamente os modos de vida e a organização espacial das sociedades europeias torna obsoletos os tecidos urbanos antigos. Os monumentos que aí se inserem aparecem de repente como obstáculos e entraves a derrubar ou a destruir para dar um lugar limpo ao novo modo de urbanização, ao seu sistema e às suas escalas viárias e parcelares. Para além disso, a manutenção dos edifícios antigos é cada vez mais negligenciada e o seu restauro já não obedece a conhecimentos regulamentados. É-se assim confrontado com dois tipos de vandalismo, que foram, na época, designados em França e em Inglaterra pelos mesmos adjectivos: destruidor e restaurador.” (pp. 150-1)

Françoise Choay vai realçando que, para o crescimento dos instintos protectores dos, portanto, monumentos, se foram conceptualizando formas de preservação como a legislação e o restauro (sob diversos tipos de intervenção, assunto em que os primeiros teóricos divergiam radicalmente. Mais tarde, foi achado um ponto de equilíbrio entre o “deixar apodrecer, porque é assim que ele foi feito e nós não podemos tocar-lhe” e as “obras de protecção para a salvaguarda da integridade do edifício”).

Mais, esta perspectiva protectora foi-se alargando até “tomar conta” dos próprios espaços edificados e de cidades inteiras. Porém, a autora refere que se trata de um fenómeno muito recente: “(…) a história da arquitectura ignora a cidade. Sitte nota com pertinência em 1889: «Mesmo a nossa história da arte, que trata dos fragmentos mais insignificantes, não reservou o mais pequeno lugar à construção das cidades.» Entre a Segunda Guerra Mundial e os anos oitenta do século XX, poucos são ainda os historiadores e os historiadores de arte que trabalharam o espaço urbano.” (p.192)

E prossegue:

Hoje em dia, assiste-se, contudo, a um florescimento de trabalhos sobre a forma das cidades pré-industriais e das aglomerações da era industrial. Este movimento foi impulsionado pelos estudos urbanos (…) A conversão da cidade material em objecto do saber foi provocada pela transformação do espaço urbano consecutivo à revolução industrial: abalo traumático do meio tradicional, emergência de outras escalas viárias e parcelares. É então que, por efeito de diferença e, de acordo com a palavra de Pugin, por contraste, a cidade antiga se torna objecto de investigação.” (p. 193)


(continua)

sábado, fevereiro 15, 2014

Edward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical (IV)

Estivemos com o geógrafo estadunidense Edward Soja, por nós conhecido através do delicioso livro:

TítuloEdward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical
Autores: Núria Benach e Abel Albet
Edição: 2010 (Junho)
EditoraIcaria
ISBN: 978-84-9888-243-8
Paginação: 285 páginas



Para terminar, resumindo o mais relevante nas palavras de Benach e Albet:

"A dialéctica da espacialidade-historicidade-socialidade (ou “trialéctica do ser”, segundo Soja), juntamente com o reconhecimento implícito da causalidade urbana, leva Soja a enfatizar nos apelos que Lefebvre, e em menor medida, Foucault, tinham feito na década de 60 quando reclamavam a centralidade do espaço e a espacialidade como elementos constitutivos fundamentais da quotidianidade da vida social. Impunha-se uma reteorização transformadora das relações “triplamente dialécticas” existentes entre a história, a geografia e a sociedade, como única garantia para um modo de pensar espacializado.
Para combater a distorção ontológica espácio-temporal criada no século XIX, as persistentes forças do historicismo social, e para introduzir um modo diferente de pensamento e de práxis críticas espaciais, é necessário que o espaço se situe estrategicamente em primeiro lugar enquanto marco interpretativo da realidade.
A formulação desta trialéctica e a denúncia da persistente priorização concedida ao tandem sócio-histórico face ao sócio-espacial e ao espácio-temporal, dá a Soja uma nova abordagem interpretativa sobre o porquê de a Geografia, e em concreto, da reflexão espacial crítica, ter sido tão menosprezada sob o ponto de vista relativo e tão secundarizada no meio académico e intelectual durante, pelo menos, o último século. O pensamento espacial, a imaginação geográfica, e a geografia como disciplina, foram enterradas de uma forma muito eficaz sob o dogma do historicismo social; trata-se de uma oclusão epistemológica activada pela priorização do social e do histórico face ao espacial, que continua a configurar o pensamento social contemporâneo. A crítica também se dirige à geografia contemporânea, uma vez que falhou redondamente na hora de perceber as suas limitações internas, ignorando as fortes críticas de, por exemplo e mais uma vez, Foucault e Lefebvre."

(pp.35-36) 

(todas as traduções que temos estado a ler, do Castelhano, são nossas)

A introdução a Edward Soja, feita pelos geógrafos barceloninos Núria Benach e Abel Albet, é exemplar. 


Nesta síntese, traça-se um breve percurso pessoal e académico, inclui-se uma entrevista, realizada pelos próprios e feita e amadurecida por várias horas e encontros ao longo de anos, uma antologia de textos com passagens centrais dos seus três livros mais relevantes (pelo menos, até à data, pois o mais recente "Seeking Social Justice"  deve andar a dar que falar...por cá, não temos ecos...), um texto inédito, "Mesogeografias: sobre os efeitos geradores das Aglomerações Urbanas", e uma bibliografia possível (mais completa e actualizada na página da editora, aqui). 

É o primeiro número da série "Espacios Críticos", da editora Icaria. Outros títulos "Franco Farinelli: Del mapa al laberinto" ou "Richard Peet: Geografía contra el neoliberalismo". Devem ser também muito bons livros...

Fica a inspiração para ideias editoriais.


Bibliografia seleccionada:

(1983) - "Uma interpretação materialista da espacialidade" in Bertha Becker, R. da Costa & C. Silveira (eds.). Abordagens Políticas da Espacialidade. Río de Janeiro: Universidade Federal de Rio de Janeiro, Departamento de Geociências; pp. 22-74

(1989). Postmodern Geographies. The Reassertion of Space in Critical Social Theory, Londres, Verso.
tradução portuguesa:
(1993) - Geografias Pós-modernas. A Reafirmação do Espaço na Teoria Social Crítica, Rio de Janeiro, Zahar editora, 324 pp.

(1996) - Thirdspace. Journeys to Los Angeles and Other Real-and-Imagined Places. Oxford: Blackwell.

(2000) - Postmetropolis: Critical Studies of Cities and Regions. Oxford: Blackwell.
tradução castelhana: 
(2008) - Postmetrópolis. Estudios Críticos Sobre las Ciudades y las Regiones, Madrid: Traficantes de Sueños

(2010). Seeking Spatial Justice. Minneapolis: Minnesota University Press.

terça-feira, setembro 24, 2013

O Direito À Cidade, por Henri Lefebvre

1 - Há dois conjuntos de questões que têm velado os problemas da cidade e da sociedade urbana: as questões do alojamento e do "habitat" e as da organização industrial e da planificação global. As primeiras, por baixo, e as segundas, por cima, têm produzido uma explosão da morfologia tradicional das cidades, desviando as atenções, enquanto se prosseguia a urbanização da sociedade.

2 - Estes dois conjuntos de problemas foram e continuam a ser colocados pelo crescimento económico. A experiência prática demonstra que pode haver crescimento sem desenvolvimento social (crescimento quantitativo sem desenvolvimento qualitativo). Nestas condições, as mudanças na sociedade são mais aparentes que reais. O fetichismo e a ideologia da mudança (dita de outro modo: a ideologia da modernidade) encobrem a estagnação das relações sociais essenciais.
(p.139)


Título: O Direito À Cidade
Edição Original: Le Droit à la Ville (1968)
Autor: Henri Lefebvre
Tradução: Rui Lopo
Prefácio: Carlos Fortuna
Edição: 2012
Editora: Letra Livre / Estúdio
ISBN: 978-989-8268-15-0
Paginação: 142 páginas


No regresso ao livro do mês, trazemos a seminal análise de Lefebvre, "O Direito à Cidade". Nele, o filósofo prenunciava já a crise da sociedade (urbana ou rurbana*) nos seus valores e, por consequência, na sua organização funcional e espacial.

O esvaziamento dos poderes das comunidades, distraídas com os restos dos prazeres (ou impaladas pela cruz da propaganda), vai a par da perda dos espaços de convívio e de outras formas de fazer cidade que não a de consubstanciar e reforçar as práticas... despojadoras do poder. Mediante o servilismo mercantil e suas dependências ocupacionais.

A cidade, tal como ela for e nos aparecer, revela o conjunto dos poderes organizados, espacializados em instituições ou sedes, colonizados em áreas (maiores ou menores) do seu espaço vital visível.

Não existe nenhuma sociedade sem ordem, sem um significado, perceptível e legível no terreno. (p.32)

A materialização do poder organiza-se hierarquicamente, em lógicas que traduzem (convencionámos) a rentabilidade e eficácia da sua acção e pressupostos.

Hoje em dia, tornando-se centro de decisão ou, sobretudo, agrupando os centros de decisão, a cidade moderna intensifica a exploração da sociedade inteira (organizando não só a exploração da classe operária, mas também a de outras classes sociais não dominantes). Isto significa que a cidade não é um lugar passivo de produção ou de concentração de capitais, mas que o "urbano" intervém como tal na produção (nos meios de produção). (p.67)

Urge a inversão das práticas que construíram o inferno para a maioria e o céu para os "deuses do Olimpo".

A multiplicação e a complexificação das trocas, no sentido lato do termo, não podem ser prosseguidas sem que existam lugares e momentos privilegiados, sem que esses lugares e momentos de encontros se afastem dos constrangimentos do mercado, sem que a lei do valor de troca seja dominada, sem que se modifiquem as relações que condicionam o lucro. (...) Se queremos superar o mercado, a lei do valor de troca, o dinheiro e o lucro, não será necessário definir o lugar dessa possibilidade: a sociedade urbana, a cidade como valor de uso? (p.83)

O processo vem desenhando-se desde longe e aparece-nos hoje como dado adquirido, inquestionável e dogmático, e - pior - como se não fosse analisável e desconstrutível.


Ao longo do século XIX, a democracia de origem camponesa cuja ideologia animou os revolucionários poderia ter-se transformado numa democracia urbana. Esse foi, e é ainda para a História, um dos sentidos da Comuna. Mas, como a democracia urbana ameaçava os privilégios da nova classe dominante, esta impediu-a de nascer. Como? Expulsando do centro urbano e da própria cidade o proletariado, destruindo a "urbanidade". (p.28)

A transformação do espaço (qualquer espaço) em espaço urbano, na voragem industrial, acarreta externalidades (reparemos na palavra: externalidades, como sugerindo algo que afecta os que estão fora. No caso, fora dos espaços urbanos...) Mas a crise surge quando tais "danos colaterais" assumiram tal dimensão que se anunciam já DENTRO do espaço urbano. É o caso da sustentabilidade alimentar, caucionada pela praxis betonizante dos modos de vida até então óbvios ou intocáveis.

Nos países ditos "em vias de desenvolvimento", a dissolução da estrutura agrária empurra para as cidades os camponeses desalojados e arruinados, ávidos de mudança; o bairro de lata acolhe-os e desempenha o papel mediador (insuficiente) entre o campo e a cidade, a produção agrícola e a indústria; frequentemente, o bairro de lata consolida-se e oferece um sucedâneo de vida urbana, miserável, no entanto intensa para aqueles que aloja. Noutros países, nomeadamente nos países socialistas, o crescimento urbano planificado atrai para as cidades a mão-de-obra recrutada no campo, e verifica-se o sobrepovoamento, a construção de bairros ou "raios" residenciais cuja relação com a vida urbana nem sempre se consegue distinguir. Em resumo, uma crise mundial da agricultura e da vida camponesa tradicional. (...)
Desde que surgiram os problemas de conjunto, sob o nome de urbanismo, subordinámo-los à organização geral da indústria. Atacada simultaneamente por cima e por baixo, a cidade alinha-se a partir da iniciativa industrial e figura na planificação como motor, tornando-se um dispositivo material próprio para organizar a produção, para controlar a vida quotidiana dos produtores e o consumo dos produtos.
(pp.84-5)

A extensão da cidade produziu o subúrbio, e depois o subúrbio engoliu o núcleo urbano. Os problemas foram invertidos, quando não são ignorados. Não seria mais coerente, mais racional e mais agradável ir trabalhar para o subúrbio e habitar na cidade em vez de trabalhar na cidade e habitar num subúrbio pouco habitável? (...)
Para o Poder, desde há um século, qual é a essência da cidade? ela fervilha de actividades suspeitas, de delinquências: é um centro de agitação. O poder de Estado e os grandes interesses económicos só podem conceber uma estratégia: desvalorizar, degradar, destruir a sociedade urbana. (p.87)

A crise espacial entrelaça-se / é produto da crise da organização, com a sobreposição dos interesses da maioria pelos interesses da minoria capitalista ou institucional (não necessariamente económica, mas visando uma certa racionalidade que pretende atingir a eficácia, o domínio através da acumulação):

Esta crise da cidade é acompanhada, um pouco por todo o lado, de uma crise das instituições urbanas (municipais) devida à dupla pressão do Estado e da iniciativa industrial. Tanto o Estado, como a empresa, como os dois (rivais ou concorrentes, mas frequentemente associados) tendem a apoderar-se das funções, atributos e prerrogativas da sociedade urbana. Em certos países capitalistas, deixa a iniciativa "privada" ao Estado, às instituições e organismos públicos, algo mais do que aquilo que recusa encarregar-se por ser demasiado oneroso? (p.88)

O mundo da mercadoria tem a sua lógica imanente, a do dinheiro e do valor de troca generalizado sem limites. Uma tal forma, a da troca e da equivalência, mantém apenas indiferença em relação à forma urbana; ela reduz a simultaneidade e os encontros aos que praticam trocas, e o lugar do encontro reduz-se ao lugar onde se firmam contratos ou quase-contratos de troca equivalente: ao mercado. (p.91)

O cerco aperta-se, as fugas, dêem por onde derem, vislumbram-se na loucura e na alienação ao virar da esquina. Seja no património, seja no turismo, seja em qualquer aspecto, transformado, kitchizado, para consumo dos ávidos carentes do real.

Se o espectro do Comunismo já não persegue a Europa, a sombra da cidade, o lamento pelo que morreu porque foi morto, porventura o remorso, substituíram o antigo assombramento. A imagem do inferno urbano que se prepara não é menos fascinante, e as pessoas precipitam-se para as ruínas das cidades antigas com o objectivo de as consumir turisticamente, julgando assim obter a cura para a sua nostalgia. (p.102)

De forma muito estranha, o direito à natureza (ao campo e à «natureza pura») entra na prática social desde há alguns anos através do lazer. Esse direito fez o seu caminho através de protestos que se foram tornando banais contra o ruído, a fadiga, o universo «concentracionário» das cidades (enquanto a cidade apodrece ou explode). Estranho encaminhamento, dizemos nós: a natureza entra no valor de troca e na mercadoria. (p.118)

A materialização mais evidente deste conflito de visões do mundo e de valores (públicos e privados) tem, como vimos na primeira citação (que é das últimas passagens do livro), na sua base a discrepância e mútua necessidade (mão-de-obra para escravizar, caixotes para a enfiar, por um lado, e actividades económicas para acumular e reprodução e colonização espacial para crescer e se afirmar, por outro) entre desenvolvimento (social) e crescimento (económico):

As massas, pressionadas por múltiplos constrangimentos, alojam-se espontaneamente em cidades-satélite, em subúrbios programados, em guetos mais ou menos «residenciais», possuindo apenas para si um espaço cuidadosamente medido, enquanto o tempo lhes foge. As massas conduzem a sua vida quotidiana de forma subordinada (sem o saberem) às exigências da concentração dos poderes. Mas não se trata aqui de um universo concentracionário. Tudo isto pode suceder na ideologia da liberdade e sob a capa da racionalidade, da organização e do planeamento. Estas massas que não merecem o nome de povo, de popular, de classe operária, vivem «relativamente bem», tirando o facto de a sua vida quotidiana ser telecomandada, e sobre elas pesar a ameaça permanente do desemprego, o que contribui para um terror latente e generalizado. (p.123)


A materialização conceptual que de tudo isto se releva pode ser lida como paralela à globalização, pois parece ignorar fronteiras e obstáculos. Porque a globalização vigente é a da economia capitalista, não a da cultura da diversidade e da transformação (para melhor) das condições de vida das massas disformes (disformadas) do planeta (cada vez mais cinzento), Lefebvre vê no automóvel o "objecto-piloto no mundo das mercadorias, que tende a levantar [suprimir] esta última barreira: a cidade." (p.129):

Os habitantes do Olimpo, como a nova aristocracia burguesa (quem o ignora?) já não habitam. Eles andam de palácio em palácio ou de castelo em castelo; eles comandam uma frota ou um país a partir de um iate; eles estão em toda a parte e em nenhuma. Exercem assim fascínio sobre as pessoas mergulhadas no quotidiano, eles que transcendem a quotidianidade; possuem a natureza e deixam os seus esbirros fabricar a cultura. (p.119)

Agora não é só a corrosão física das fronteiras jurisdicionais (pelos transportes) que praticam o poder, mas também a das institucionais e mentais, mediante o fluxo de dados e informação via meios de comunicação para as massas. Detidos pelas minorias, claro está.

A salvaguarda da sociedade urbana (da cidade, como o autor a entende) não é (ou nem é, de todo) a mera protecção da memória dos monumentos, ou a organização saudável dos "bairros residenciais", ou a racionalidade (económica) dos comportamentos (visem eles, até, a ecologia), mas sim a prática de valores que contrariem, em todos os domínios da vida social, o valor imperante: o de troca. A apropriação da cidade pelos cidadãos é caminho que desbrava e destrói a privatização da cidade (dos corpos e das almas) pelas empresas e instituições.

É essa a crise basilar que está a inquinar e destruir o mundo.
E Lefebvre, já em 1968, o sabia bem.


Que dia é hoje, hein??


* Rurbano refere-se à interpenetração ou hibridização do rural e do urbano, que representa, aliás, uma grande extensão actual do mundo, quer em materialização espacial, quer comportamental. Esta é também a crítica / análise feita por Álvaro Domingues, em "Vida no Campo".