domingo, novembro 09, 2014

Fome e Miséria Internacional (sendo os muros uma sua expressão)

"Como posso eu dizer que te amo, 
se não encontro amor em mim?
Apenas mágoa, de tanto calar a raiva
e o nojo da minha condição.

Enxovalhado no trabalho,
maltratado na doença,
humilhado no salário,
aviltado na dignidade,
resta pouco para gostar de mim
e ainda menos para amar."

"Hipótese de Suicídio", Mão Morta


O suicídio é um forma de controlo da população.
As vacinas também o são.
As guerras e guerrinhas.
Também a má alimentação e a sua falta  a que o capital condena milhões.
Exclui seres, ditos inferiores, e inacessibiliza o outro lado, onde, refastelados, os acumuladores consomem.
Sociedade esmigalhada, desvalorizada, esvaziada, ao sabor do rodopio.


Exclusividade e exclusão como formas de violência social
Foto de E. Soja, São Lázaro, Braga, 19.09.2014

São muros da vergonha, onde ainda não cheira a anacronismo.
Pois que a mente tem muitos muros no pensar.



Os ventos uivam, morres pela lei.
E até já vais preso se alimentares um desses halbermensch.

Não, nós não estamos mortos.
pois quanto menos resta,
menos há a perder.
E é a saltar muros que se morre a viver.

quinta-feira, outubro 16, 2014

Por motivos a que somos alheios...

O Georden anda a ser remetido para uma página com publicidade.

Apanhados nas teias do comércio...

Voltaremos.

quarta-feira, julho 16, 2014

Espezinhados na maratona

quinta-feira, junho 26, 2014

Os Jogos da Cabeça

Desde que vivo entre os homens, é sem dúvida o último dos meus cuidados que falte um olho a este, uma orelha àquele e uma perna a um terceiro, e que outros tenham perdido a língua ou o nariz ou a cabeça.

Vejo, e tenho visto, horrores piores, uns de que prefreriria não falar, e outros que nem sequer consigo calar; vi homens a quem tudo falta à excepção de um único membro demasiadamente desenvolvido, homens que apenas são um grande olho ou uma grande goela ou uma grande pança ou outra qualquer deformidade; a esses chamo enfermos às avessas.

Quando abandonei a minha solidão e, pela primeira vez, atravessei esta ponte, nem podia crer no que os meus olhos viam. Olhava de um lado, olhava de outro, e acabei por dizer: "Isto é uma orelha! Uma orelha tão grande como um homem!" Porém, olhando mais de perto, vi que sob a orelha se agitava outra coisa lastimosamente pequena, miserável e débil. E em verdade, a enorme orelha estava poisada sobre um caule fininho e curto, e esse caule era um homem! Com o auxílio de uma lente, podia-se mesmo distinguir um pequeno rosto invejoso e uma pequena alma empolada que pendiam da extremidade do caule. Contudo, o povo assegurou-me que aquela orelha não só era um homem, mas até um grande homem, um génio. Mas eu nunca acreditei no que o povo diz acerca dos grandes homens, e continuei a crer que se tratava de um enfermo às avessas, com muito pouco de tudo, e demasiado de uma coisa só."

"Da Redenção"
in Assim Falava Zaratustra, Friedrich Nietzsche*


A cabeça, a capital, o capital: três designações para uma mesma coisa: a acumulação: de decisões e ordens, de poder administrativo emanatório, de poder económico e seus correlativos sequazes e algozes. 

E vários aspectos atestam o carácter concentracionário da sociedade capitalista em que nos obrigam a sobreviver.

Com o encerramento de escolas e a consequente deslocação dos alunos para "novíssimos centros escolares". Gasta-se num lado para supostamente poupar noutro, se esse é o critério primeiro.
Com a extinção das freguesias e a deslocalização dos serviços (centros de dia, juntas, Gabinetes de Inserção Profissional...) para a freguesia mais rica ou mais povoada. Poupa-se imenso, e ficam imensas pessoas sem acesso. Mas isso é secundário. Essas passam a suportar os custos, que quem lhes disse que tinham direito?
Com o encerramento de hospitais.... (mais do mesmo...)

A regionalização falhou: dissemos não.
Teremos dito não à regionalização ou apenas às propostas das novas regiões com autonomia administrativa?

Uma ideia terá sido boa e posta em prática: as mui afamadas (bem ou mal, que decida cada um) Lojas do Cidadão. Pessoalmente, e entendendo que a forma como designamos o mundo traduz uma forma de o encarar, preferiria que o nome fosse "Espaço do Cidadão", varrendo à partida a índole comercial com que se apresenta. E que, em verdade, também contém.

Com a concentração (lá está a questão) de serviços num só espaço, poupa-se tempo de deslocações dos utentes, criam-se simbioses entre entidades (a recentemente falada intenção de se lhe juntar os centros de emprego seria extremamente positiva, dada a íntima relação destes com a Segurança Social...), facilita nos horários de funcionamento e, - factor que nos é caro - como a localização das Lojas sói ser no centro da vida das cidades e sedes de concelhos / distritos, cria afluência de pessoas e dinamiza essas mesmas zonas.

Em Braga, a deslocação do maior serviço de saúde para a periferia (uma espécie de ilha, que requer pagamento de passagem, com transporte e, na maioria dos casos, estacionamento... em suma, um negócio bem montado de raiz e com autores bem identificados) constituiu uma depressão imensa para o comércio (se querem usar o factor capital como argumento, usemo-lo então!) local. Atente-se no próximo Centro Comercial dos Granjinhos e no (já antes vazio?) São Lázaro. Quem conheceu as duas fases saberá identificar nitidamente muitas diferenças.

A autonomia das autarquias é coisa que sempre fica no papel.
A pensar nas más práticas empregues pelos diferentes caciques, será que vale mais o prejuízo (vulgo roubo e atropelos) estar distribuído pelo país, ou, maior, estar concentrado na capital?
Isto é inquinar a questão, já vos entrevemos a apontar a muleta, seus acusadores hílaros.
Era só uma questão.
Falcatruas e moscambilhas tanto as há no poder central como no poder local.
Além disso, quando as coisas dão "mesmo" prò torto ainda dá para ir apanhar um sol e perder uns quilitos na choldra. Pois então, porque não?

Quando o que se pretende sempre - e com tantas negociatas e novelas de permeio até nos esquecemos do essencial - é que as populações estejam mais bem servidas, que aquilo de que precisam funcione melhor e lhes esteja mais acessível.
O equilíbrio necessário, por achar, entre o poder e a proximidade vai no bom sentido (consoante os adeptos, entenda-se) quando se encara a política como o poder da proximidade e não como a concentração do poder.
Análise, aliás, muito fácil de fazer, se pensarmos um bocadinho. Daí o antagonismo entre uma ditadura (sob qualquer forma e por escudada por qualquer nome) e uma democracia verdadeiras.

A massa dos eleitores delega em alguns (Presidentes, Governos, Assembleias) o poder. Para que quando a democracia afinal não o era descobrirem que esses poucos decidem contra eles. Os traidores que devem ser punidos com bem mais que uma não-eleição. Com processos-crime, se assim se justificar. Sim, os casos podem justificá-lo. Se os interesses são tanto mais lesados. 
É isto que está em jogo nos jogos do poder.
As decisões afectam uns e outros, mais uns que outros e de maneira distinta uns e outros. Favorece uns, prejudica outros.

É a chamada Insegurança Social.
Quando esperamos uma coisa e não sabemos o que nos espera.


A bomba-notícia de encerrar o atendimento geral - de excelência (falo com conhecimento e também como parte interessada - já o explicitarei) - do serviço da Segurança Social na Loja do Cidadão de Braga é uma medida que está na sombra do conhecimento público. Isto é, à sombra e à revelia dos principais interessados na sua manutenção.

Assinem a petição contra esta decisão de um rei-iluminado clicando na imagem.
http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT73960


E esta intenção que ainda não é notícia, mas que estamos ajudar a denunciar, é contrária ao espírito democrático e, contrariamente ao que designa, descentralizador que levou à criação das Lojas do Cidadão pelo país fora.

A vontade não deriva do poder central da capital. Pelo menos, não directamente. Emana do capitão distrital da equipa. Supõe-se que com as directivas "europeias" do Governo português (serviços idênticos de outras lojas não parecem estar em causa), ávido de poupança (? já lá vamos) por trás. Isto não iliba, de maneira nenhuma, a correia de transmissão Rui Barreira, estratégica e coincidentemente colocada após a tomada de posse do presente Governo português: apenas se lhe soma, agravando a malfeitoria antidemocrática e já costumeira destes nossos supostos representantes contentinhamente eleitos.

O objectivo alegado é ter um mega-atendimento na sede distrital. 
A frase está mal-formulada.
Talvez pretenda ter um atendimento atulhado, ou seja, em quantidade, concentrado (lá está...). Um mega-atendimento (lá está) e não necessariamente um atendimento de excelência. Porque esse já os utentes o têm. Num lado e noutro.
A questão é a distribuição. Agora e sempre.
A da facilidade de acesso.
A da disponibilidade do horário: vai uma pessoa perder um dia de trabalho porque vai deixar de ter o sábado para tratar dos seus assuntos para com a Segurança Social? Ah, pode ir ao fim do trabalho. Errado. Vai deixar de poder. A sede fecha às 17h, a da Loja do Cidadão encerra às 20h. Pretendem mudar o horário da sede?

(esta é a minha parte de interessado. Serei o único?)

Não, não, calma, só vamos retirar o atendimento geral. A entrega de documentos permanece na Loja do Cidadão. 
Ai sim?, e o que leva tanta gente lá é a entrega de documentos? Não nos parece, e os números falam por si, somados de parcelas vindas de todo o distrito... (e este factor levar-nos-á a outro interessado). Conjuntamente, o Registo Civil, a EDP e a Segurança Social representam a razão de ser da Loja do Cidadão.)
Ficando esvaziada de sentido a mera entrega de documentos cedo se justificará - e bem! - a retirada da Segurança Social.
E aí é que está a jogada última, o objectivo último desta intenção.
A saída, definitiva, airosa, e a consequente poupança da renda.

E aqui entra o tal interessado.
O Governo português, se assim é do seu interesse, tem à sua disposição espaços e edifícios onde poderia não pagar rendas para os seus serviços.
No caso cá do burgo, foi uma jogada com o cacique local Rodrigues & Névoa. Os contribuintes pagam e não dão por nada.
Tomai, que é para terdes isto aqui à mão, acessível.
Não era isso que queríeis?

Se cai o pilar do tripé da Loja de Cidadão de Braga, isso não fará cair a cadeira? Necessariamente. Será uma questão de tempo.
A administração da Rodrigues & Névoa foi consultada para a tomada desta decisão? Não devia a empresa acautelar-se e impedir o que é bem provável?
Ora, é parte muito interessada. Que será daquele edifício, já de si quase vazio,?

Membros sem cabeça não fazem nada e uma cabeça que não é suportada pelos membros logo cai ao chão. 
Andar aos caídos é andar com uma cabeça que ninguém, nem nada suporta.
O divórcio entre as vontades de quem decide e quem mais é - negativamente - afectado pelas decisões tem de ter necessariamente consequências.

Estamos aqui, do lado da base, do lado dos membros desapossados, a corroborar a declaração de guerra.
Estes jogos da cabeça darão cabo da cabeça.
Mas parece que nenhuma das partes sairá ilesa...


"O povo assegurou-me que aquela orelha não só era um homem, mas até um grande homem, um génio. Mas eu nunca acreditei no que o povo diz acerca dos grandes homens, e continuei a crer que se tratava de um enfermo às avessas, com muito pouco de tudo, e demasiado de uma coisa só."



* Volto a insistir, prefiram a tradução de Carlos Grifo Babo e esqueçam as outras.

quarta-feira, abril 30, 2014

Hoje como outrora

"O programa escolar do 9.º ano em Portugal faz a apologia dos OGM's."

(Acabei de tropeçar neste comentário.)

Hoje como outrora, a propaganda tem de ser difundida, se possível de maneira difusa.
Para que não saibamos um dia saber a fonte e ir indagar os porquês.

Hoje como outrora, o entretenimento tem de ser massivo.
Venha ele sob a forma de produtos mediáticos ou amplificados pelos média, 
da satisfação de "necessidades falsas" (como diz o Marcuse), 
da compra de corpos e almas (via corrupção ou miséria, através dos "bananas" e dos manda-chuvas que cacicam e calcinam as hierarquias).
Para que nunca nos interroguemos como inverter as relações desiguais do Poder e dos exercícios desequilibrantes das instituições do Poder.

Hoje como outrora, os saudosistas gostariam de impor aos outros o que desejam para si.
Para que terminemos mais uma conversa fiada a dizer "que tudo é relativo".

Hoje como outrora, a distribuição do poder que vale e se faz valer é uma montanha que pare os ratinhos que somos.
Para que se encarne no Largo do Carmo o que a Assembleia da República já não representa.

Hoje como outrora, a distribuição geográfica da riqueza de Portugal é visível e chocante.
No desordenamento (florestal, urbanístico, ...).
No povoamento (o des- e o sobre-).
No analfabetismo funcional.
E, agora, no alfabetismo disfuncional.
Na fome e na opulência.
No acesso (económico e geográfico) à justiça, à saúde, à educação, à habitação (sequer digna), à cultura (mercantilizada).
Para que se constitua como escola e todos achemos normal e inevitável.

Hoje como outrora, os institucionalizadores da violência são os que dela excluem a violência económica.
Para que os marginais de baixo, violentos ou não, sejam condenados pelos marginais, não violentos, claro está, que os superintendem, com o poder do bom-senso social, das "discriminações positivas" e demais termos novilinguísticos.

Hoje como outrora, o fascismo.
Para substituir suprir a consciência e instalar a lei da concorrência e do "antes ele que eu".

Hoje como outrora, o hoje como outrora, a história aos círculos fechados ou em espirais metálicas que se estendem e contraem.
Muitas vidas retalhadas pelos ferros durante os iô-iôs dos jogadores profissionais do poder.

Hoje como outrora, o silenciamento.
Agora, no excesso.
Porque tudo é excessivo. Até a crença na abundância, propalada sobretudo aos carentes.

Excesso de informação, de desinformação, do "não há mais pachorra", da fadiga psicológica e dos cansaços mentais e corporais, excesso de riqueza e de pobreza.

Estaremos mais pobres?, Mais ricos?, - hoje que outrora?
Mais conscientes?, mais inconscientes?, - hoje que outrora?

Às expensas do mundo que gira, inevitável mas cada vez mais destruído, vamos fazendo perguntas.
Mais (perguntas)?, Menos? - hoje que outrora?

"Portugal não é um país pequeno".

Pois não.
Pois não.

domingo, março 23, 2014

Para além de toda a ironia

Erguem-se Muros


Os patos-bravos 
são árvores migratórias.
Cucos que expulsaram dos ovos 
os ninhos da imaginação.





Ossos do nosso corpo a definhar, 
ficamos atrofiados 
depois de explodirmos em esporas, 
cogumelos sem tempo.


"O mundo é mudo / pertence às cobras /
que trepam escadas / no arvoredo"*





Adormecemos de espectadores
em cefaleias sobretudo oculares, 
destruidores do dia,
esvaziadores de lugares.










E as escadas são cobras / a trepar o mundo
no arvoredo-mudo...
E se dos anteriores vazios
andamos faltos
será talvez por já nascermos velhos.


Que as ânsias da juventude
são febre passageira,
diz o sensato, 
sensanto, 
senhor santo.







Um campo de concentração,
sob o olhar da técnica
E sem saberes
nem poderes querer,
transformaram-te também em pato,
via farelo de engorda.




O mais barato 
é o que te convém
que o fim do mês
roubou-te já o palato.


O que fica bem
ao teu dente
é o que o teu dente
finca bem.

Deu Deus dentes
a quem não tem posses
e ele não te faz andar prà frente,
prisioneiro dos desejos possíveis...





E todos os dias tropeças
em metáforas incríveis
a que não achas já
qualquer graxa,

Tu!, que estás aquém
do mundo da ironia, 
da fantasia,
em agonia.

Um passeio que ficou pelo caminho




São difusos teus pensamentos transeuntes.
Dizes-lhes olá para mais bem os ignorares
e és tu que te esqueces de migrar,
aclorofílico de brilho azeviche.



Não podes fugir: arfas de cansado.

A ideologia é um jugo
e tu és a bolinha a saltitar 
na roleta OMC/OIT
que também pões a girar.




A escola legitima 
e passa certidão às desigualdades.
E o produto da subtracção
foi ficares sem vinho,
e sem pão.
Mas com a religião 
(de falsas necessidades)
Que só te desanima.

 O direito à habitação sucumbe a muros...

...para que enquanto houver pessoas sem casa 
possa continuar a haver casas sem pessoas...


Todas as fotografias captadas em Braga (São Lázaro e Fraião) na tarde de domingo de 23.3.2014 por Edward Soja.

* Excerto do poema "A Noite dos Poemas", de António Barahona da Fonseca e cantado por Adriano Correia de Oliveira

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

domingo, fevereiro 16, 2014

Não propriamente a discussão sobre o sexo dos anjos...

La distincion... 
(Ou la la!... ma ouais!)




Retomamos a foto do mês de Setembro passado para frisar duas coisas.

Primeira, que entre uma coisa e outra existe ainda uma terceira (a síntese, a contradição, a soma, a anulação, e ainda, importante, o desconhecido, com o qual devemos contar sempre em cada equação). Mas esta, no presente caso, não será definitivamente uma seta que esteja entre as duas representadas...

Segundo, que, levando-nos ambos os caminhos ao mesmo ponto do percurso (e já dissemos que cada ponto de chegada é mais um ponto numa recta, que continuaremos nós ou nós-outros, parafraseando, vá, talvez, o eterno retorno nietzschiano) temos uma escolha fulcral a fazer na nossa postura de vida:

(porque o espaço e o caminho, tal como a forma e os meios, não são alheios nem indiferentes ao estar-ser e ao como caminhar, nem ao conteúdo ou aos objectivos, respectivamente)

Ou seguimos pelo caminho da esquerda, que poderíamos apelidar de Ecológico (malgrat o cimento, não é?)

- que demora mais tempo e que - para quem reconhece kavafiamente que é mais importante a riqueza que colhes pelo caminho que a que esperas encontrar no destino - te faz viver mais tempo (e tampouco isto é indiferente);

- que nesse tempo a mais ele te oferece uma probabilidade mais alta e uma apetência maior a deteres-te nas coisas que te rodeiam e assim as inspirando seres mais rico e consciente;

(...)

Ou seguimos pelo caminho da direita, que poderíamos apelidar, entre os antónimos existentes e imaginários, de Económico

- que, por oposição - já se percebeu, basta ver - é mais curto e menos demorado face ao destino e te educa para o finalismo e para o desrespeito pelos meios (é isso a primeira consequência visível: voltemos a olhar para o resultado que lá está);

- que nesse tempo a menos ele te permite pensares noutras coisas (foi por exemplo para isso que se criaram os relógios e se aceleraram os processos produtivos, mediante as máquinas e a seriação

(Donde, talvez como lemos do postulado de Jane Jacobs, subscrito por Soja, de que o desenvolvimento intelectual e da técnica é filho do crescimento composto pela economia e a intensificação dos processos...)

(...)

Isto pode ter que ver com tudo, o que sendo impressionante não deve deixar de nos merecer atenção: somos ou não somos homens??

São duas vias: e dizemos que preferimos uma a outra, porque preferimos.
Porque, mesmo sem intelecto, já que somos bebés a pensar com a cabeça estragada dos adultos, salta à vista que um deles estraga o caminho e o outro não estraga o caminho.
Os fins não justificam os meios, e embora os fins sejam um produto dos meios, os meios também podem alterar a natureza dos fins que queremos encontrar.

Eis aqui os caminhos do vive e deixa viver e o do não penses no amanhã, que só tu contas (já se entrevêem mais oposições: colectivo/individual, público/privado, presente-futuro/futuro-e-fim, etc...)

Com base neste exemplo da geografia física (dimensões, pontos, linhas e seus percursos e possibilidades), convidamo-vos a reflectir um bocadinho sobre a forma de fazer geografia humana (filosofia no espaço).


É a entrar, meninos e meninas
a ver o que por aí se lavra.

sábado, fevereiro 15, 2014

Edward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical (IV)

Estivemos com o geógrafo estadunidense Edward Soja, por nós conhecido através do delicioso livro:

TítuloEdward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical
Autores: Núria Benach e Abel Albet
Edição: 2010 (Junho)
EditoraIcaria
ISBN: 978-84-9888-243-8
Paginação: 285 páginas



Para terminar, resumindo o mais relevante nas palavras de Benach e Albet:

"A dialéctica da espacialidade-historicidade-socialidade (ou “trialéctica do ser”, segundo Soja), juntamente com o reconhecimento implícito da causalidade urbana, leva Soja a enfatizar nos apelos que Lefebvre, e em menor medida, Foucault, tinham feito na década de 60 quando reclamavam a centralidade do espaço e a espacialidade como elementos constitutivos fundamentais da quotidianidade da vida social. Impunha-se uma reteorização transformadora das relações “triplamente dialécticas” existentes entre a história, a geografia e a sociedade, como única garantia para um modo de pensar espacializado.
Para combater a distorção ontológica espácio-temporal criada no século XIX, as persistentes forças do historicismo social, e para introduzir um modo diferente de pensamento e de práxis críticas espaciais, é necessário que o espaço se situe estrategicamente em primeiro lugar enquanto marco interpretativo da realidade.
A formulação desta trialéctica e a denúncia da persistente priorização concedida ao tandem sócio-histórico face ao sócio-espacial e ao espácio-temporal, dá a Soja uma nova abordagem interpretativa sobre o porquê de a Geografia, e em concreto, da reflexão espacial crítica, ter sido tão menosprezada sob o ponto de vista relativo e tão secundarizada no meio académico e intelectual durante, pelo menos, o último século. O pensamento espacial, a imaginação geográfica, e a geografia como disciplina, foram enterradas de uma forma muito eficaz sob o dogma do historicismo social; trata-se de uma oclusão epistemológica activada pela priorização do social e do histórico face ao espacial, que continua a configurar o pensamento social contemporâneo. A crítica também se dirige à geografia contemporânea, uma vez que falhou redondamente na hora de perceber as suas limitações internas, ignorando as fortes críticas de, por exemplo e mais uma vez, Foucault e Lefebvre."

(pp.35-36) 

(todas as traduções que temos estado a ler, do Castelhano, são nossas)

A introdução a Edward Soja, feita pelos geógrafos barceloninos Núria Benach e Abel Albet, é exemplar. 


Nesta síntese, traça-se um breve percurso pessoal e académico, inclui-se uma entrevista, realizada pelos próprios e feita e amadurecida por várias horas e encontros ao longo de anos, uma antologia de textos com passagens centrais dos seus três livros mais relevantes (pelo menos, até à data, pois o mais recente "Seeking Social Justice"  deve andar a dar que falar...por cá, não temos ecos...), um texto inédito, "Mesogeografias: sobre os efeitos geradores das Aglomerações Urbanas", e uma bibliografia possível (mais completa e actualizada na página da editora, aqui). 

É o primeiro número da série "Espacios Críticos", da editora Icaria. Outros títulos "Franco Farinelli: Del mapa al laberinto" ou "Richard Peet: Geografía contra el neoliberalismo". Devem ser também muito bons livros...

Fica a inspiração para ideias editoriais.


Bibliografia seleccionada:

(1983) - "Uma interpretação materialista da espacialidade" in Bertha Becker, R. da Costa & C. Silveira (eds.). Abordagens Políticas da Espacialidade. Río de Janeiro: Universidade Federal de Rio de Janeiro, Departamento de Geociências; pp. 22-74

(1989). Postmodern Geographies. The Reassertion of Space in Critical Social Theory, Londres, Verso.
tradução portuguesa:
(1993) - Geografias Pós-modernas. A Reafirmação do Espaço na Teoria Social Crítica, Rio de Janeiro, Zahar editora, 324 pp.

(1996) - Thirdspace. Journeys to Los Angeles and Other Real-and-Imagined Places. Oxford: Blackwell.

(2000) - Postmetropolis: Critical Studies of Cities and Regions. Oxford: Blackwell.
tradução castelhana: 
(2008) - Postmetrópolis. Estudios Críticos Sobre las Ciudades y las Regiones, Madrid: Traficantes de Sueños

(2010). Seeking Spatial Justice. Minneapolis: Minnesota University Press.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Edward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical (III)

"Com alguma surpresa da sua parte, Soja redescobre, já nos anos 90, que Jane Jacobs também menciona Çatalhüyük no seu texto seminal “A Economia das Cidades” (de 1969), de onde extrai o seu postulado de que as cidades e os processos de urbanização podem ter sido a fonte primária geradora de criatividade, de inovação e desenvolvimento social desde Çatalhüyük e durante os últimos 12 mil anos. Segundo Jacobs, a faísca inicial da vida económica urbana foi a causa primária de todo o crescimento e mudança económicos, incluindo o pleno desenvolvimento da agricultura e da pastorícia, além de muitas outras actividades produtivas especializadas. E não o inverso. É, portanto, o factor urbano, a existência do urbano, o que gera a mudança e o desenvolvimento económico (e a implantação da agricultura e da pastorícia) e não o contrário, se bem que o desenvolvimento da agricultura permitirá a consolidação de uma população sedentária e de uma economia excedentária tipicamente urbana. Ou seja, e segundo as palavras de Jacobs: sem as cidades seríamos pobres, já que não se teriam desenvolvido novas formas de economia e de relação social. Este impulso economicista de Jacobs que era uma resposta à abordagem historicista e passiva (fatalista) de Lewis Munford em “A Cidade na História” (1961) cairia durante anos no desprestígio e na marginalidade (que Soja paraleliza com o menosprezo das propostas de Foucault e Lefebvre) até ser recuperada muito recentemente pela teoria económica, embora já sob uma óptica economicista e percebida como uma “externalidade”. Só muito recentemente as economias da urbanização, entendidas como evocações de causalidade espacial urbana, começaram a ser aceites como a causa primária do desenvolvimento económico."


(pp.39-40)


Como pudemos deixar que o espaço socialmente construído não fosse considerado central na leitura das sociedades capitalistas, economicistas, desequilibradas, transformadas e urbanizadas contemporâneas?

Soja já o disse, mas outro argumento, também por ele aduzido, faz todo o sentido:

é que uma das características vitais, inerentes, ao funcionamento do capitalismo 

- e todos vivemos afectados por ele, uns em cima, a rirem-se de cachimbo, outros em baixo, a chafurdar no lixo em busca de comida; uns no dito centro, com tempo para os lazeres e o pensamento intelectual e o ócio, outros na por conseguinte periferia a trabalhar (alguns bem-) mais de quarenta horas por semana para continuar a levar pra casa os salários de miséria que nos mantêm coarctados para viver outra realidade que não a de pagar dívidas e sobreviver - 

é o direito de propriedade.

Ora, como pudemos descurar que a propriedade é, inicial e essencialmente, espacial, territorial?

Este carácter da propriedade é a primeira forma do exercício do poder.

Imaginem um Banco, uma sede daquelas, central, com edifício de pedra, protegida 24 horas por dia por sentinelas policiais que se revezam na sua mui nobre função... humm... "pública". De proteger os cidadãos, claro está: proteger o poder é essencial, senão ele logo vem com ameaças. Da mesma forma que a crise económica - acusam-nos, a nós consumidores, culpados - é a de temos baixado o consumo... Há que seguir no caminho errado, pois parar faz pensar e isso nunca!

Imaginem um banco desses. Bem, eu já disse para o imaginarem de pedra... mas estão a imaginá-lo do tamanho de um quiosque?
Porque será que não?

Porque o Banco é uma das instituições capitais que regem a forma como vivemos e a de como sobrevivemos, logo, tem de se impor à vista, demonstrar o seu poder, ser credível e respeitado, instituir, portanto, e fazer escola no pensamento das baratinhas tontas (o diminutivo é polissemântico) que somos nós.

Os mendigos são pequenos, não têm poder, não têm voz, passamos por eles a dizer não, a baixar os olhos, a desolhar, a recear caírmos no seu buraco irmão. Vem um polícia manter a ordem e dizer que o senhor cidadão não deve permanecer naquele lugar, que afasta a clientela e um rol de etcetras que evidenciam os valores que lhes disseram para seguir e proteger.

Mas não há polícias, militares, blackwaters ou canhões de água ainda que varram os Bancos: são seus filhos-acólitos e temos de inventar formas outras de contra-opressão e contrapoder.

Olhemos à nossa volta e vejamos onde estão (a palavra-chave é sempre e em primeiríssimo lugar o onde) os poderes. O económico à cabeça, mas o político, que é o seu cão de trela. Vejamos onde estão as pessoas com vencimentos acima de x e onde vivem as pessoas sem vencimentos ou com salário mínimo ou de reinserção:
CARAMBA, será que isso não nos diz nada sobre a centralidade do espaço para uma leitura possível da realidade?

Está claro que não é a única: mas também não podemos ver tudo pela óptica só da economia, nem das classes sociais, nem da história, nem da organização social.

É isso que Soja reitera: ter o espaço ao mesmo nível de importância que a história e os factos sociais.

Esta abordagem integrada acrescenta a tal "terceira dimensão", necessária por exemplo ao pensamento geométrico, que expande as capacidades do intelecto e nos permite, no fundo, uma leitura mais ampla e relacional do caos bruto que se nos apresenta a cada dia.

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Edward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical (II)

Redefinindo a problemática espacial

O desenvolvimento de uma análise espacial marxista sistemática coincidiu em boa parte com a intensificação das contradições sociais e espaciais tanto nos países centrais como nos periféricos devido à crise geral do capitalismo que se inicia nos anos 60. Mas já antes houvera precursores importantes dentro da tradição marxista ocidental que não deviam ser descurados.

Por exemplo, entre 1917 e 1925, na URSS, um movimento de vanguarda de planeadores urbanos, geógrafos e arquitectos trabalharam para conseguir “uma nova organização espacial socialista”, correspondendo a outros movimentos revolucionários na sociedade soviética. Não se encarava a transformação espacial como um subproduto automático da mudança social revolucionária mas, sim, que ele implicava também luta e a formação de uma consciência colectiva. Sem esse esforço, a organização pré-revolucionária do espaço teria continuado a reproduzir a desigualdade e as estruturas de exploração. Tais actividades inovadoras deste grupo de pensadores espaciais radicais nunca foram aceites e a sua experimentação revolucionária na reconstrução socialista do espaço acabou por ficar pelo caminho da industrialização e da segurança militar estalinista. O produtivismo e a estratégia militar dominaram a política espacial da União Soviética, quase enterrando por completo o significado de uma problemática espacial mais profunda na transformação socialista.


Esta planificação, das grandes praças, feitas para ou depois utilizadas (cada um apropria-se do espaço como puder...) para, por exemplo, concentrações, manifestações, demonstrações de poder ou fruição da vista aberta, implica a pré-noção, clara, de que não há neutralidade possível no "contentor" que é o espaço. O espaço ensina, permite umas coisas, impede outras. É, aliás, interessante uma das passagens de Soja, referindo-se ao seu estudo sobre Los Angeles, que, paradigma, segundo o autor, das grandes metrópoles (tal é o objecto do seu livro de 1996), contém em si a arquitectura da opressão. Não falando necessariamente no securitarismo da vigilância, nem das cidades-prisão, aponta alguns aspectos, citando Mike Davis e o seu livro "City of Quartz", como: bancos anti-mendigos, ausência de casas-de-banho públicas (humm, onde é que eu já ouvi isto?...), contentores do lixo protegidos e sistemas de rega que se ligam aleatoriamente durante a noite para dissuadir as pessoas de dormir na rua...

E se a organização urbana de estilo soviético faz isso, ela foi construída para inculcar valores e concepções que se insurgem contra aquelas, mais ou menos inconscientemente, instituídas pelo espaço urbano capitalista.

Mas continuando.

O capitalismo foi capaz de atenuar (senão resolver) as suas contradições internas durante um século e, consequentemente, nos cem anos decorridos desde a edição d”O Capital”, conseguiu alcançar o “crescimento”. Não podemos calcular a que preço, mas sabemos os meios: ocupando espaço, produzindo espaço.


Henri Lefebvre, A Sobrevivência do Capitalismo, 1976


Lefebvre relaciona este espaço capitalista avançado directamente com a reprodução das relações sociais de produção, ou seja, os processos pelos quais o sistema capitalista em conjunto pode expandir-se mantendo as suas estruturas definidoras. Ele define três níveis de reprodução e argumenta que a capacidade do capital para intervir directamente e afectar estes três níveis se incrementou com o tempo, com o desenvolvimento das forças produtivas. Em primeiro lugar, existe a reprodução bio-fisiológica, essencialmente no contexto da família e das relações de parentesco; em segundo lugar, a reprodução da força de trabalho (a classe trabalhadora) e dos meios de produção; e em terceiro, a reprodução ainda maior das relações sociais de produção. Sob o capitalismo avançado a organização do espaço passa a estar predominantemente relacionada com a reprodução do sistema dominante das relações sociais.


Vejam-se as cidades em que os espaços verdes, públicos, e os equipamentos colectivos são "des-alvo" de investimento e cuidado, sendo reduzidos e depauperados a cada novo censo que constitui um PDM. Já repararam que as árvores que temos, por exemplo, em Braga, são árvores que herdamos? E que herdámos de um passado já remoto: não tem havido expansão de área verde nem plantação de novas árvores com carácter duradouro em Braga. Tal traduz uns valores e, a nosso ver, trata-se de uma colonização dos espaços privados e das actividades económicas a substituírem a fruição livre da sociedade. Nada de novo, mas é também este o "direito à cidade" de que nos fala Lefebvre.

O espaço construído, sim, esse mesmo, fisicamente, a sua disposição, o que podemos fazer com ele, como nos movemos e o que realmente fazemos nele... ensina, transmite valores. E não é de admirar que seja uma corrente muito presente na sociedade portuguesa o pensamento único, separatista, xenófobo e fascista. Os ciganos, atirados para um canto. Os velhos, a ruírem por dentro da decadência, central ou periférica, da cidade. As crianças só vão ao centro para as creches, infantários e escolas: nada mais há lá para eles, já que os grandes centros comerciais, grande chamariz hipnotizadora, só podem expandir-se fora dos "cascos" ou das "cidades velhas". Há no centro de Braga uma praça, dita da República, e é sintomático como ela tem vindo a ser esvaziada: de pessoas, de actividades, de sentido. Isto, ironia, apesar de ser centralíssima para as actividades económicas... É estranho, não é?


Tais condições reproduzem-se no espaço produzido socialmente (tanto o urbano como o rural), numa espacialidade produzida e que foi sendo crescentemente “ocupada” por um capitalismo expansivo, fragmentado em pedaços, homogeneizado através de mercadorias diferenciadas, organizado através de localizações de controlo, e estendido à escala global. A sobrevivência do capitalismo dependeu desta produção e ocupação diferencial de um espaço fragmentado, homogeneizado e hierarquicamente estruturado, alcançado em grande medida por um consumo colectivo controlado burocraticamente (isto é, pelo Estado), pela diferenciação de centros e periferias a várias escalas, e pela penetração do poder do Estado na vida quotidiana. A crise final do capitalismo só poderá dar-se quando as relações de produção já não puderem reproduzir-se mais, e não só porque se pare a produção (estratégia permanente do operariado).

Assim, a luta de classes (sim, ainda há luta de classes) deve incluir e focar-se no ponto vulnerável: a produção do espaço, a estrutura territorial de exploração e dominação, a reprodução, espacialmente controlada, do sistema como conjunto. E deve incluir também todos os que são explorados, dominados e “periferizados” pela organização social imposta pelo capitalismo avançado: camponeses sem terras, pequenos burgueses proletarizados, mulheres, estudantes, minorias raciais, bem como a própria classe trabalhadora. Nos países capitalistas centrais, a luta, argumenta Lefebvre, assumira a forma de “revolução urbana”, lutando pelo direito à cidade e pelo controlo da vida quotidiana dentro do contexto territorial do Estado capitalista. Nos países menos industrializados, também se centrará na libertação e na reconstrução territorial, na tomada de controlo da produção do espaço e do seu sistema polarizado de centros dominantes de periferias dependentes dentro da estrutura global do capitalismo.


Com esta argumentação, Lefebvre define uma problemática espacial no capitalismo e eleva-a a uma posição central dentro da luta de classes ao colocar as relações de classe dentro das condições que configuram o espaço socialmente organizado. Não defende que a problemática espacial tenha sido sempre tão central. Nem apresenta a luta pelo espaço como substituta ou alternativa à luta de classes. Argumenta sim que nenhuma revolução social pode triunfar sem ser também simultaneamente uma revolução conscientemente espacial.”