quinta-feira, abril 28, 2011

A fome como holocausto

Neocolonialismo agrário

(inédito)

por Ignacio Ramonet

Uma das grandes batalhas do século XXI vai ser a batalha da alimentação. Muitos países, importadores de alimentos, vêem-se afectados pelo aumento dos preços. Os Estados ricos foram suportando esse aumento até que, na Primavera de 2008, se assustaram com a atitude proteccionista de nações produtoras que limitaram as suas exportações. A partir de então, vários Estados com crescimento económico e demográfico, mas sem grandes recursos agrícolas e hídricos, decidiram assegurar as suas reservas alimentares comprando terras no estrangeiro.

Ao mesmo tempo, muitos especuladores puseram-se também a comprar terrenos para fazer negócio, por estarem convencidos de que a alimentação será o ouro negro do futuro. A seu ver, até 2050 a produção de alimentos vai duplicar, para satisfazer a procura mundial. «Invistam em quintas! Comprem terras!», repete Jim Rogers, guru das matérias-primas. George Soros investe também nos agrocombustíveis, tendo adquirido terrenos na Argentina. Um grupo sueco comprou meio milhão de hectares na Rússia; o hedge fund russo Renaissance Capital comprou 300 000 hectares na Ucrânia; o britânico Lankom, comprou 100 000 também na Ucrânia; o banco norte-americano Morgan Stanley e o grupo agro-industrial francês Louis Dreyfus compraram dezenas de milhares de hectares no Brasil, etc.

Mas foram principalmente os Estados com petrodólares e divisas que se lançaram na compra de terras por todo o mundo. A Coreia do Sul, primeiro comprador mundial, adquiriu 2,306 milhões de hectares; segue-se a China (2,09 milhões), a Arábia Saudita (1,61 milhões), os Emirados Árabes Unidos (1,28 milhões) e o Japão (324 000 hectares). No total, foram comprados ou arrendados no exterior 8 milhões de hectares de terras férteis.

Regiões inteiras passaram a estar sob controlo estrangeiro em países com uma fraca densidade populacional e nos quais os governantes estão dispostos a ceder partes da soberania nacional. É um fenómeno preocupante. Numa declaração alarmante, a organização não governamental (ONG) Grain denuncia «um açambarcamento de terras a nível mundial» [1].

Os países do Golfo Pérsico, sem campos férteis nem água, foram os que se lançaram mais depressa nesta iniciativa. O Koweit, o Qatar e a Arábia Saudita estão à procura de terrenos disponíveis, onde quer que seja. «Eles têm terras, nós temos dinheiro», explicam os investidores do Golfo. Os Emirados Árabes Unidos controlam 900 000 hectares em Pequim, estando a pôr a hipótese de desenvolver projectos agrícolas no Caziquistão. A Líbia adquiriu 250 000 hectares na Ucrânia em troca de petróleo e gás. O grupo saudita Binladen conseguiu terrenos na Indonésia para cultivar arroz. Investidores de Abu Dabi compraram dezenas de milhares de hectares no Paquistão. A Jordânia vai cultivar alimentos no Sudão. O Egipto conseguiu 850 000 hectares no Uganda para semear trigo e milho…

O comprador mais compulsivo é a China, pois tem que alimentar 1,4 mil milhões de bocas e só dispõe de 7 por cento das terras férteis do planeta. Além disso, a industrialização e a urbanização destruíram neste país cerca de 8 milhões de hectares e algumas regiões estão a desertificar-se. «Temos menos espaço para a produção agrícola e é cada vez mais difícil aumentar o rendimento», explicou Nie Zhenbang, que dirige a Administração Estatal dos Cereais [2]. A China passará a deter terras na Austrália, no Cazaquistão, no Laos, no México, no Brasil, no Suriname e em toda a África. Pequim firmou uns trinta acordos de cooperação com governos que lhe dão acesso a terras. As autoridades de Pequim por vezes enviam mão-de-obra da China, paga a menos de 40 euros por mês, sem contrato de trabalho e sem cobertura social.

Por seu lado, a Coreia do Sul controla no estrangeiro uma superfície superior à totalidade das suas próprias terras férteis… Em Novembro de 2008, o grupo Daewoo Logistics estabeleceu um acordo com o governo de Marc Ravalomanana, presidente de Madagáscar, para arrendar 1,3 milhões de hectares, ou seja, metade das terras cultiváveis dessa grande ilha…

O governo sul-coreano comprou também 21 000 hectares para a criação de gado na Argentina, país em que 10 por cento do território (uns 270 000 quilómetros quadrados) se encontra nas mãos de investidores estrangeiros que «beneficiaram da atitude dos diferentes governos para arrendar milhões de hectares e recursos não renováveis, sem restrições e a preços módicos» [3]. O maior proprietário de terras é a Benetton, industrial italiana da moda, que possui uns 900 000 hectares e se converteu no principal produtor de lã. Também o milionário norte-americano Douglas Tompkins detém uns 200 000 hectares, situados nas imediações de importantes reservas de água.

Regra geral, a cessão de terras a Estados estrangeiros traduz-se em expropriações de pequenos produtores e em aumento da especulação. Sem esquecer a desflorestação. Um hectare de floresta proporciona um lucro de 4000 a 5000 dólares se for plantado com palmeiras, ou seja, 10 a 15 vezes mais do que se for aplicado à produção de madeira [4]. Isto explica a por que motivo as florestas da Amazónia, da bacia do Congo e do Bornéu estão a ser substituídos por plantações.

É um retorno a odiosas práticas coloniais e uma bomba ao retardador. Porque a tentação dos Estados estrangeiros é a de saquearem os recursos, como faz a China, com mão-de-obra importada e pouco benefício local. Mas a resistência está a organizar-se. No Paquistão, os camponeses estão já a mobilizar-se contra a deslocação de aldeias para o caso de o Qatar comprar terrenos na região do Punjab. O Paraguai aprovou uma lei que proíbe a venda de terrenos a estrangeiros. O Uruguai está a considerar essa possibilidade e o Brasil a estudar a introdução de alterações na sua legislação. O neocolonialismo agrário rouba o trabalho ao campesinato e cria um «risco de empobrecimento, tensões sociais extremas e violência civil» [5]. A terra é um assunto muito sensível. Sempre provocou paixões. Representa uma parte da identidade dos povos. Tocar neste símbolo pode acabar mal.

quinta-feira 12 de Fevereiro de 2009

Notas

[1] www.grain.org/m/?id=213.

[2] China Daily, Pequim, 9 de Maio de 2008.

[3] Daniel Enz e Andrés Klipphan, Tierras SA. Crónicas de un país rematado, Alfaguara, Buenos Aires, 2006.

[4] Le Nouvel Observateur, Paris, 23 de Dezembro de 2008.

[5] Le Monde, Paris, 23 de Novembro de 2008.


Texto retirado do Monde Diplomatique

quarta-feira, abril 27, 2011

A Praça

Sinais de nós

"Qatar arrenda terra por 49 anos

A companhia estatal do Qatar Hasat Hud quer comprar milhares de hectares de terra agrícola turca, para prover as necessidades de alimentação do seu país, mas a lei de Ancara proíbe-o, pelo que o emirado se deverá limitar a um arrendamento por 49 anos.
Tem sido prática de vários países árabes, que importam entre 50% e 90% dos seus produtos alimentares, a compra de terra para este fim, mas normalmente em África.
O facto de o preço da comida estar hoje no nível mais alto desde que a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) começou a efectuar registos, há 20 anos, e a suspeita de que a subida tenha um papel nas revoltas que varrem o globo justificam o «negócio», que terá o aval do Ministério das Finanças turco. Quase 45 milhões de pessoas, em todo o mundo, foram empurradas para a pobreza pela alta dos preços agrícolas."

Visão de 24.03.2011, p.66
(sem autor, nem fonte)

Uma vez ouvi o conhecido meteorologista Costa Alves dizer que a crise no Darfur foi provocada, na sua base, pelas alterações climáticas.
Que afectaram a agricultura e a disponibilidade de água.

As pessoas serem empurradas para a pobreza pela alta dos preços agrícolas é um mecanismo artificial, criado pela economia monetarista, para expulsá-las dos lugares onde vivem e, assim, os gigantes das negociatas poderem açambarcá-las à vontade.

As pessoas são empurradas para a pobreza, economicamente, e empurradas para onde possam viver, geograficamente.

Continuemos, homens lobos dos homens.
E destruamos, pois, a nossa casa.
Para reduzir a população dos chamados inúteis.

terça-feira, abril 26, 2011

Reduzir a população

Destruindo os habitats.


Há 25 anos, num dia assim.





"But for now one million bombs are stored,
But they keep building more and more."

"Rivers of the Blood", Phil Ochs

E abortar, não?

domingo, abril 24, 2011

sábado, abril 23, 2011

Dias da Terra

"Para salvar o planeta, livre-se do capitalismo."


(Foi ontem, dia 22 de Abril, está a ser hoje e terá de ser amanhã.
Pelos melhores e piores motivos.)

quarta-feira, abril 20, 2011

Casinhas de Santana


Foto de Rogério Madeira, Santana (Madeira), 17.04.2011.

Parque Natural da Terceira

Decreto Legislativo Regional n.º 11/2011/A. D.R. n.º 78, Série I de 2011-04-20

Região Autónoma dos Açores - Assembleia Legislativa

Cria o Parque Natural da Terceira

terça-feira, abril 19, 2011

O Enigma do Capital, de David Harvey

Título: O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo
Edição Original: The Enigma of Capital - And the Crises of Capitalism (2010)
Autor: David Harvey
Tradução: Maria Carvalho
Edição: Março de 2011
Editora: Bizâncio
ISBN: 978-972-53-0477-8
Paginação: 334 páginas


"Para criar uma nova geografia urbana a partir dos destroços da velha, é muitas vezes necessário recorrer à violência. Haussmann destruiu os velhos bairros pobres parisienses, recorrendo à expropriação para benefícios supostamente públicos, em nome dos melhoramentos cívicos, da restauração ambiental e da renovação urbana. Concebeu deliberadamente a remoção de grande parte da classe trabalhadora e de outros elementos indisciplinados, bem como de indústrias insalubres, do centro de Paris, onde constituíam uma ameaça à ordem e saúde pública e, evidentemente, ao poder político. Criou uma forma urbana na qual se pensava ser possível (incorrectamente, como se viu na Comuna de Paris de 1871) estabelecer níveis de vigilância e de controlo capaz de assegurar o fácil domínio pelo poder militar das classes agitadas.
Na realidade, como disse Friedrich Engels no seu opúsculo de 1872, A Questão do Alojamento:

[...] a burguesia só tem um método para resolver o problema da habitação à sua maneira - isto é: resolvê-lo de tal maneira que a solução crie sempre um novo problema. Este método tem um nome, o de «Haussmann» [...] Por «Haussmann» entendo a prática generalizada de abrir brechas nos bairros operários, sobretudo nos situados nas grandes cidades, quer isso corresponda a uma medida de saúde pública, de embelezamento, à procura de locais comerciais no centro, ou a exigências de circulação - como instalações ferroviárias, ruas, etc. [que, por vezes, parecem ter como objectivo dificultar o levantamento de barricadas]. Qualquer que seja o motivo, o resultado é sempre o mesmo: as ruelas e os becos mais escandalosos desapareceram e a burguesia glorifica-se altamente com estes grandes sucessos - mas ruelas e becos reaparecem imediatamente e frequentemente muito próximos. Os focos de epidemias, as caves mais imundas, nas quais noite após noite o modo de produção capitalista encerra os nossos trabalhadores, não são eliminados, mas sim... transferidos. [...] A mesma necessidade económica fá-los nascer aqui como ali.*

Os processos descritos por Engels reaparecem vezes sem conta na história urbana capitalista. Robert Moses «levou o cutelo para o Bronx» (nas suas infames palavras), e muitos e vigorosos foram os lamentos dos grupos e movimentos da zona, que acabaram por se agregar em torno da retórica reformista urbana Jane Jacobs, perante a inimaginável destruição do valioso tecido urbano mas também perante a perda de comunidades inteiras de residentes e das suas redes de integração social estabelecidas havia muito. Quando o poder brutal das expropriações pelo Estado e a destruição de bairros mais antigos deu lugar à construção de auto-estradas e à renovação urbana enfrentaram uma resistência bem sucedida e foram contidos pelas agitações políticas e de rua de 1968 (com Paris novamente como epicentro, mas com violentos confrontos em toda a parte, desde Chicago à Cidade do México e a Banguecoque), iniciou-se um processo muito mais insidioso e canceroso de transformação, por meio da imposição de disciplina fiscal a municípios urbanos democráticos, da eliminação do controlo dos mercados imobiliários, da especulação imobiliária e da afectação da terra a utilizações que geravam as mais elevadas taxas de rendibilidade financeira.
Engels compreendia muito bem este processo.

[...] A extensão das grandes cidades modernas dá aos terrenos, sobretudo nos bairros do centro, um valor artificial, que cresce por vezes em enormes proporções; as construções que aí estão edificadas, em lugar de aumentarem este valor, pelo contrário o diminuem, pois já não correspondem às novas condições e são demolidos para serem substituídas por novos edifícios. E isto verifica-se sobretudo para os alojamentos operários situados no centro, e cujo aluguer, mesmo nas casas superlotadas, não podem nunca ultrapassar um certo máximo, ou pelo menos só o podem de uma maneira extremamente lenta. Por isso são demolidos, e em seu lugar são construídas lojas, grandes armazéns e edifícios públicos.*

É deprimente pensar que tudo isto foi escrito em 1872. A descrição de Engels aplica-se directamente aos processos urbanos contemporâneos que ocorrem em grande parte da Ásia (Deli, Seúl, Bombaim), bem como à «gentrificação» contemporânea dos bairros nova-iorquinos de Harlem e Brooklyn, por exemplo. A criação de novas geografias urbanas implica inevitavelmente deslocação e expropriação.

Vejamos o caso de Bombaim, onde seis milhões de pessoas são consideradas oficialmente como vivendo em bairros de lata, construídos, na sua maior parte, em terras sem cadastro de propriedade (nos mapas da cidade, os lugares onde vivem estão em branco). Na tentativa de transformar Bombaim num centro financeiro global capaz de rivalizar com Xangai, o surto de crescimento imobiliário acelera e os terrenos ocupados pelos bairros de lata tornam-se cada vez mais valiosos. O valor do terreno em Dharavi, um dos bairros de lata mais importantes de Bombaim, é calculado em dois mil milhões de dólares, e acentuam-se diariamente as pressões no sentido de o limpar, alegadamente por razões ambientais e sociais. As potências financeiras, apoiadas pelo Estado, pressionam no sentido de uma limpeza forçada, nalguns casos com expropriação violenta de um terreno ocupado há uma geração pelos seus habitantes. A acumulação de capital por intermédio da actividade imobiliária é um negócio florescente porque a terra é adquirida quase a troco de nada. Será que as pessoas forçadas a sair recebem uma compensação? As afortunadas recebem alguma. Mas, embora a constituição indiana especifique que o Estado tem a obrigação de proteger a vida e o bem-estar de toda a população independentemente da sua casta ou classe, e de garantir os seus direitos de habitação e protecção, o Supremo Tribunal indiano reescreveu este requisito constitucional. Os ocupantes ilegais que não consigam provar em definitivo que residem há muito tempo na terra que ocupam não têm direito a indemnização. Conceder-lhes esse direito, afirma o Supremo Tribunal, equivaleria a recompensar os carteiristas pelos seus actos. Por conseguinte, os habitantes dos bairros de lata vêem-se obrigados a resistir e lutar ou a pegar nos poucos pertences e acampar na berma da auto-estrada ou onde quer que encontrem um espacinho.

Também nos Estados Unidos é possível encontrar exemplos semelhantes de expropriação (embora menos brutais e mais legalistas), por abuso dos direitos de expropriação para fins públicos, quando se desalojam residentes de longa data de habitações decentes, tendo em vista a utilização dos terrenos para fins mais lucrativos (condomínios e grandes superfícies). No Supremo Tribunal dos Estados Unidos, os juízes liberais venceram os conservadores e consideraram perfeitamente constitucional que as jurisdições locais se comportem deste modo para aumentarem a sua base fiscal fundiária. Ao fim e ao cabo, progresso é progresso!

Na década e 1990, em Seul, as construtoras e imobiliárias contrataram esquadrões de lutadores de sumo para invadirem bairros inteiros e destruírem com marretas não apenas habitações mas também os pertences das pessoas que tinham construído as suas casas na década de 1950, nas colinas da cidade, em terrenos que se tinham tornado valiosos. Neste momento a maior parte dessas colinas está coberta de torres altas que não guardam vestígios do processo brutal de limpeza dos terrenos que permitiu a sua construção. Na China, milhões de pessoas estão neste momento a ser expropriadas dos espaços que ocupavam há muito. Como não possuem direitos de propriedade, o Estado pode expulsá-las da terra, oferecendo-lhes um pagamento mínimo em dinheiro para as ajudar a sair (antes de entregar os terrenos a imobiliárias com uma elevada taxa de lucro). Em alguns casos, as pessoas saem voluntariamente, mas também há notícia de actos generalizados de resistência, a reacção usual é a repressão brutal do Partido Comunista. As populações de zonas rurais mais próximas das cidades também estão a ser expulsas sem cerimónia, à medida que as cidades se vão expandindo. O mesmo se passa na Índia. Os governos centrais e os dos Estados estão a favorecer as zonas especiais de desenvolvimento económico, o que desencadeia violência contra os produtores agrícolas: o acontecimento mais grave foi o massacre de Nandigram em Bengala Ocidental, orquestrado pelo partido marxista no poder, destinado a abrir caminho ao capital indonésio, tão interessado no desenvolvimento imobiliário como no desenvolvimento industrial."

(pp. 194-198)

* A Questão do Alojamento, trad. de Ribeiro da Costa, Porto: R. da Costa, 1971 (Cadernos para o diálogo, 3)




Voltámos com a rubrica Livro do mês.
Deste interessante e pertinente livro do geógrafo inglês David Harvey, que já tínhamos trazido aqui ao Georden, optámos por transcrever (é longa, sabemo-lo...) uma parte acutilante e que nos importa mais. A saber: as implicações geográficas, espaciais, do modelo de reprodução capitalista.

Durante a leitura, várias referências nos foram sugeridas / lembradas / corroboradas. Duas delas (e só para citar livros): a forma destrutiva como a cidade invisível de Leónia (As Cidades Invisíveis) vai deixando inutilizado o espaço, por um lado; a investida impiedosa, terrorista e imparável da especulação económica e propagandística das empresas e dos Estados no sentido de expropriar o homem a favor de alguns homens (A Doutrina do Choque, de Naomi Klein).

Não tenhamos ilusões: estamos a perder a cada dia que passa.

O único objectivo é retirarem-nos todos os direitos.

Esta é a forma como vão crescendo os espaços construídos por todo o lado em que o poder coercivo do Estado não está ao serviço das pessoas.
Quando vemos milhões, milhares, centenas, dezenas que sejam, uma família ou uma pessoa que seja, a ser pressionada no sentido de abandonar o lugar onde vive (Alqueva, lembrei-me), importa perguntarmo-nos: em nome de quê?
Importa perguntarmo-nos: em nome dessas pessoas?

Em tempos de globalização, que é feroz e nos expurga a capacidade de sentir e de discernir as coisas (como a de compreender que a globalização é impulsionada apenas por motivos económicos) importa fazer perguntas. E que elas sejam concretas e definidas, assumidas e o mais comprometidas possível:
Se algo é posto em causa, temos de perceber se o que está a ser desestabilizado vai ficar melhor.

O que tem acontecido nestes casos é que essas pessoas não saem beneficiadas em nada. São apagadas do mapa. Transferidas.
Transferidas.
Num mundo finito.
Transferidas.
Seja para mais longe, onde esta "cidade" (onde "o capital") ainda o não ameace, seja para uma prisão (por não acatar as decisões "que importam a todos", por estar contra a lei, contra o bem comum, por atentar contra a autoridade, por ser terrorista e violento num estado democrático...) seja para um hospício para apanhar choques eléctricos (por ser / para ser / por ser considerado maluquinho, alienado...).
As pessoas precisam de um lugar para viver.
Retirar-nos o direito a existir é das maiores violências (simbólicas ou efectivas) que podem exercer sobre os seres humanos.

Querem violência, violência terão.
Continuem a juntar cada vez mais espoliados de um lado, que não esperais pela demora. Esta violência já dura há séculos!
As vossas maquinações para nos controlardes não serão eficazes para sempre!


Ao longo das estradas, os campos agrícolas, uma vez abandonados, vão sendo alvo da cobiça dos construtores (destruidores).
Por todo o lado, dos montes se erguem placas a vender lotes para urbanizar.
O arrasamento de árvores e mato de um lugar para um empreendimento imobiliário significa um CRIME.
(Antes que venham acusar-nos de impedir o progresso, com o argumento de que as pessoas precisam de um tecto, respondemos. E respondemos de duas formas:
Há muita gente sem casas.
Dessas não falais???
e
Há muitas casas sem gente.
Dessas não falais???

A perda dos espaços biológicos e (mais ou menos) naturais para construir casas ou centros comerciais é CRIME!
Mas como está na lei, baixamos a cabecinha e engolimos em seco.
Crime, porque um espaço assim, com árvores ou vegetação, beneficia todos os seres vivos e o novo espaço, ocupado com casas e cimento, apenas beneficia quem para lá for.
Por outras palavras, caso queiram, significa a transferência de algo do público para o privado.
Sim.
É de coisas concretas que estamos a falar.
Parecem migalhas?
Juntemos as migalhas todas e vejamos quantos pães teremos.

Foi assim que milhares de deserdados foram engrossar "As Vinhas da Ira" para o Oeste dos Estados Unidos.
É assim que temos assistido, impotentes (mas somos nós os beneficiados, acenam-nos...), à destruição dos espaços públicos (dos espaços de cidadania) e dos espaços verdes (dos espaços livres, livres do totalitarismo do consumo e do desperdício, da ideologia e do pensamento único da troca comercial) : montes, rios, florestas, pântanos....espaços húmidos, geralmente falando.
(Depois queixamo-nos das alterações climáticas sem sabermos identificar muito bem as causas...).

É assim que as nossas cidades estão cada vez maiores e ao mesmo tempo mais desumanizadas, vazias e feias, a apodrecer por dentro.
O desenvolvimento? onde é que ele já vai... (na periferia)!
(No capitalismo - não no capitalismo selvagem, pois é redundante dizer capitalismo selvagem - não há outra forma de espacialização, nem outra definição para crescimento.)

Os impostos imobiliários são outra forma de violência para pôr a corda na garganta de quem lá vive.

A transferência tem de ser!
Tudo tem de passar para as mãos dos privados.
O trabalho, a Segurança Social, a Água, a Electricidade, a Saúde, o Ensino - TUDO, ABSOLUTAMENTE TUDO tem de passar para a gestão de uns quantos que, não nos deixemos levar em ficções, têm como único objectivo o lucro.
Se são empresas, estão ao serviço do capitalismo. E os capitalistas têm de se reproduzir. Impreterivelmente. Por duas razões: para crescer e fazer face às outras empresas. E esta pela segunda razão: por causa da concorrência.
Concorrência porquê? Porque o capitalismo não combina com igualdade.

E aqui temos, portanto, o ímpeto maravilhoso da mão invisível dos terroristas capitalistas e de todos os que advogam o bom funcionamento do mercado. Mercado? O que é o mercado?
O mercado são as pessoas?
São só algumas.
Então não quero o mercado.
Temos de querer melhor.
Somos capazes de melhor.
Temos de EXIGIR melhor.

As regiões (os países) são postas em crise (postas em cheque)?
Para forçar e fazer aceitar intervenções estrangeiras que as vão salvar.
Salvar de quem?
Da imensa mole de caídos empobrecidos que sofrem a dor, a humilhação, a privação e a impossibilidade quotidiana de aceder à tão afamada dignidade humana...?
Não.
Quem importa salvar primeiro são as empresas e os bancos.
As empresas e os bancos são as pessoas?
Sim, em parte.

Pronto, e com este argumento final, acabamos vendidos.
Com a corda na garganta e o garrote no estômago.
Submetidos aos interesses que a única coisa que sabem fazer é extrair-nos cada vez mais de nós mesmos.
Levando-nos à loucura.

Como

"Eles não sabem nem sonham
que o sonho comanda a vida...",
eles descuram o poder
de quem não tem nada a perder.



Uma nota importantíssima à tradutora, Maria Carvalho, e à revisora, Sandra Pereira - em tempos de tanta insanidade mental isto sente-se muito mais! -: não encontrámos um único erro ortográfico no texto.
Ao mesmo tempo que dizemos isto estamos a descredibilizar-nos.
Mas comprove e teste quem tiver a ousadia e possibilidade de ler este livro.
Parabéns, Bizâncio.

segunda-feira, abril 18, 2011

Utilizações não-agrícolas na RAN

Portaria n.º 162/2011. D.R. n.º 76, Série I de 2011-04-18

Ministérios da Economia, da Inovação e do Desenvolvimento, da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas, das Obras Públicas, Transportes e Comunicações e do Ambiente e do Ordenamento do Território

Define os limites e condições para a viabilização das utilizações não agrícolas de áreas integradas na Reserva Agrícola Nacional

quinta-feira, abril 14, 2011

Ora aí estão os chacais a bater a todas as portas

"Não é padrão de saúde estar perfeitamente adaptado a uma sociedade profundamente doente."
Jiddu Krishnamurti


Isto é muito grave! Não podemos permitir que os gigantes da biotecnologia e dos transgénicos se apoderem do pouco que resta da agricultura europeia. Já se apropriaram dos continentes americano, asiático e africano. E em Portugal já têm demasiado poder. Não se consegue comprar quase nada que não tenha saído das mãos da Monsanto ou da Syngenta. Por favor, assinem a petição. Não deixem que as sementes, base da alimentação, se tornem propriedade de multinacionais sem escrúpulos: os donos das sementes serão os donos do mundo.


"Sabem que no próximo dia 18 de Abril será aprovada em Bruxelas uma directiva sobre as sementes para a agricultura?


Que 75% das sementes lançadas anualmente à terra são sementes guardadas pelos próprios agricultores e que isso será absolutamente proibido a partir de então?


Que vão ser certificadas meia dúzia de marcas / empresas para fornecer à agricultura, acabando com identidades nacionais nessa área?


Que apenas podem chegar ao mercado couves, alfaces e outros produtos provenientes dessa certificação?


Que, para poder produzir, uma exploração terá de ter um mínimo de 10 hectares?


Que tudo isso se faz exclusivamente com base no interesse de algumas empresas produtoras de sementes?

Que a maioria dessas empresas beneficiaram de apoios económicos e financeiros em larga escala, programas oficiais da CE e empréstimos da banca que hoje são pagos pelos contribuintes, à conta de tornar pública uma dívida que é privada?


Que iremos ter a ASAE a correr mercados municipais a analisar, apreender e inutilizar todos os produtos não certificados pelos donos das sementes?


Informe-se melhor nos respectivos sites

Pode ler e assinar a petição aqui:


Difundido via correio electrónico.

quarta-feira, abril 13, 2011

Viajar para dentro de nós

Está bem, mas não só

- Recomenda ao Governo a adopção de medidas urgentes a implementar no sector dos combustíveis em Portugal


A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, recomendar ao Governo que:

1 — Promova uma avaliação, por uma entidade independente, sobre a formação dos preços dos combustíveis em Portugal que permita retirar conclusões concretas sobre se existe ou não um clima verdadeiramente concorrencial no sector, designadamente:
a) Explique com detalhe a formação do preço final dos combustíveis pago pelos consumidores nas suas várias etapas: refinação, transporte e armazenamento;
b) Ao nível do tipo e qualidade dos combustíveis vendidos nos diferentes postos de abastecimento, esclareça se se justifica o diferencial de preços que hoje existe entre as
diferentes categorias de combustíveis vendidas nos postos de abastecimento;
c) Retire conclusões relativamente a outros países europeus no sentido de saber se a existência de concorrência ao nível da refinação, transporte e armazenamento de combustíveis permite aumentar o clima concorrencial no sector e, consequentemente, garantir a existência de preços mais competitivos.

2 — Ao nível da fiscalidade que incide sobre os combustíveis, se debruce nos seguintes pontos:
a) Com carácter de urgência, se disponha a rever toda a política fiscal que incide sobre o preço dos combustíveis em Portugal;
b) Estude a possibilidade de traduzir o recente aumento da receita fiscal proveniente da subida do preço dos combustíveis (ISP e IVA) em medidas de apoio de carácter fiscal aos consumidores.

3 — Seja finalmente publicado o decreto -lei específico para o subsector do petróleo que passa a permitir que haja concorrência e novos actores no mercado ao nível da refinação, transporte, licenciamento e armazenamento, complementando assim o Decreto -Lei n.º 31/2006, de 15
de Fevereiro, conforme a Resolução do Conselho de Ministros n.º 29/2010, de 15 de Abril.

4 — Juntamente com as empresas do sector dos transportes em Portugal, estude eventuais medidas de apoio a aplicar a curto prazo que tenham como objectivo aliviar o peso da recente escalada do preço dos combustíveis na estrutura de custos das empresas.

Aprovada em 18 de Março de 2011.
O Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama



Preocupados em saber por que motivos os preços dos combustíveis fósseis são o que são por cá.
Tudo bem.
Mas não era uma boa oportunidade de "meter uma colherada" no sentido de "... incentivar a diversificação das fontes de energia, visando reduzir a dependência externa de um produto de que o país não dispõe"... etc., etc.

Parece-nos que alguém pensa que os Estados ganham muito com os impostos com que tributam os combustíveis fósseis. MESMO que não disponham deles e tenham de os importar.
Mas esses alguéns estão muito enganados.
Até lá, até mudarem, mudarmos, fazermo-los mudar, fazermo-nos mudar, continuamos a pagar.
E não é só do bolso que nos sai.
Mas da saúde e da paisagem em termos gerais.

terça-feira, abril 12, 2011

As adversativas que fedem

Transcrição integral com sublinhados deliciosos para quem já se conspurcou por completo nesta matéria radioactiva.

Fez ontem um mês que um sismo seguido de tsunami que afectaram o Japão danificaram os sistemas de arrefecimento de vários reactores da Central Nuclear de Fukushima dando origem a uma crise nuclear.

Os esforços para conter a dimensão do desastre prosseguem em Fukushima e, recentemente, as autoridades japonesas elevaram o nível de alerta de 5 para 7, que corresponde ao nível máximo.

Esta alteração da classificação do grau de gravidade da crise nuclear no Japão não reflecte uma deterioração repentina da situação, mas apenas uma reavaliação da situação que em vez de considerar os reactores por separado combina os resultados relativos à radiação que já libertaram.

Esta classificação, que só tinha sido atribuída numa ocasião, ao desastre de Chernobyl , significa que se trata de um “acidente grave” com “amplas consequências” como reflectem a contaminação do ar, dos vegetais, da água canalizada e do oceano já detectadas.

No entanto, calcula-se que a radiação que foi libertada no Japão corresponde a apenas 10% daquela que foi libertada na Ucrânia, explicou um porta-voz da Agência de Segurança Nuclear, que é a responsável pelo sistema de níveis de alerta, e o Primeiro–Ministro japonês já afirmou que a libertação de radiação tem vindo a diminuir.

Entretanto, a terra voltou a tremer no Japão com os abalos de ontem e hoje a provocarem a evacuação dos trabalhadores da Central que, no entanto, não sofreu novos danos estruturais.

Fonte: www.bbc.co.uk


Retirado de CiênciaHoje


Um texto assim tresanda a propaganda
e a comunicados mansos para tansos.

Mas é apenas para inglês ver, porque não obstante o problema persistir, também os valores que o suportam continuam a resistir.
E o que é insustentável - está na sua definição e natureza intrínseca - não pode durar para sempre.
(Nem sequer o do decaimento - e olhem que é bem longo... - dos materiais radioactivos, seja por césio, seja por plutónio, seja lá pelo que for.)

Estão a proceder a medidas de segurança, aprovisionamento e deslocalização, como produtos, das pessoas. Que, simplesmente, têm direito (lá está a inferiorizaçãozinha do costume) a uma vida digna e tal e etc. que faz e acontece em todo o lado. Constituição dixit!

Todavia as vozes iradas dos novos migrantes que se exaltam não vão ouvir mais falinhas mansas.

Contudo, a lixeira vai durar.

No entanto, o poder opressor de uns quantos vai tentar a via da conciliaçãozita, mediante mais desinformação e estupidez, medo e crenças virtuais.
Para condicionar e demover, coarctar e - se preciso (está em curso) - reduzir os anti.

Mas esquecem-se de uma coisa.
Seremos cada vez mais.

Cada vez mais do mesmo lado.
É isso mesmo o que significa "desequilíbrio".

Só que.

Estamos fartos que decidam por nós.
FARTOS.
Fartos de levarmos o mundo à destruição e de levarmos com os "danos colaterais" das suas mui dignas e mui legais actividades económicas.
FARTOS.

Sonhamos? Sim.
Não fazemos outra coisa.

Não descuremos a mobilização de que são capazes os sonhos...
Não ignoraremos a violência que os sonhos reprimidos e mal-curados causam.

Está na altura de dizermos NÃO ao que nos destrói como seres vivos.

Menos estranho...

Imagem: NASA/MODIS Rapid Response Team [GSFC])


Tínhamo-lo referido aqui há uns dias e eis novamente o fenómeno, desta vez com a explicação para o que afectou tantos terráqueos que não souberam a quantas andaram...
(Imaginam-se as lentas, paulatinas e progressivas alterações que se avizinham a tirar do sério as formigas... tão inocentes que elas... somos...)


Basicamente aquela nuvem enorme que na fotografia de satélite bem se vê no Atlântico causou o calor abafado que se fez sentir na semana passada.


"Portugal foi atingido, na semana passada, por “um dos mais intensos”episódios de aerossóis do deserto do Sahara da última década, provocando um acentuado decréscimo da visibilidade e o agravamento da qualidade do ar."

Notícia via CiênciaHoje

Almada vence prémio

A cidade de Almada ganhou o Prémio Europeu da Semana da Mobilidade de 2010


Um grupo de especialistas em mobilidade destacou esta cidade pelo seu fomento das alternativas ao automóvel e dos aspectos positivos que outros meios de transporte têm na saúde humana e no meio ambiente.
A cidade espanhola de Múrcia e a capital letã, Riga, foram finalistas.

A Semana Europeia da Mobilidade de 2011 vai celebrar-se dos dias 16 a 22 de Setembro e centrar-se-á na mobilidade alternativa.

+ mais informações

domingo, abril 10, 2011

Umbiguismos?

Até prova em contrário,

continuam a ser derramadas águas radioactivas para o oceano Índico.

Era só pra lembrar.

sexta-feira, abril 08, 2011

Não há perigo.

"O pesadelo nuclear do Japão vai prolongar-se. Três semanas depois do terramoto e tsunami de 11 de Março, que devastaram a costa nordeste, o Governo de Tóquio admitiu que a radiação continuará a sair, durante vários meses, da central nuclear de Fukushima."

(...)

"Uma zona de 20 a 25 quilómetros em redor da central nuclear, com ramificações ao Noroeste do país, em alguns casos até mais de 50 quilómetros de distância, onde o vento depositou partículas radioactivas, ficará interdita, durante cerca de meio século.
Embora a radioactividade, nessa área, esteja com níveis longe de poderem ser considerados mortais, o perigo (nomeadamente a nível cancerígeno) da radiação a longo prazo, impõe aquele tipo de medidas. Todos aqueles terrenos ficam assim inutilizados para a agricultura e para a vida humana. Entre 80 mil e 150 mil habitantes ver-se-ão, desta forma, obrigados a reiniciar a vida longe das casas em que habitavam até 11 de Março.
Até ao momento, já foi detectada a presença de iodo, césio e plutónio. Este último elemento foi encontrado em quantidades ínfimas, mas possui a particularidade de emitir radioactividade durante milhares de anos e é o mais agressivo para a saúde, embora somente por inalação. (...)
O iodo, muito volátil e que liberta radioactividade durante três meses, desaparecerá a curto prazo. O perigo vem, assim, do césio, também volátil e que perde um quarto da sua radioactividade ao fim de 64 anos. O seu principal perigo advém do facto de penetrar no organismo sem necessidade de inalação. «É esse o maior problema, que obrigará a desalojar os habitantes da zona, durante 50 ou 60 anos», calcula Hans Vanmarcke, um especialista do centro de investigação nuclear belga."


Visão de 7.4.2011, p. 76.


Não há perigo para a saúde, dizem eles...
Primeira pergunta como espada para encostá-los à parede pelo pescoço:
Não há perigo????

Segunda pergunta:
Para a saúde de quem?

quarta-feira, abril 06, 2011

Estranho...

Hoje foram batidos máximos de temperatura na Galiza (para a época). Valores nunca registados (Corunha, por exemplo) em toda a história (dos registos).

Uma massa de ar quente africano, apontam.

Estima-se que a camada de ozono está 40% mais fina que o normal e que este "buraco" que anda ali pelo Ártico "desça até às nossas latitudes.

Por isso, a recomendação é a de evitar a exposição solar.

(notícia, há poucos minutos, da TVG)

Quem andou pelo Norte e Centro litorais de Portugal sentiu o ar abafado e a temperatura alta.
No sul, as temperaturas foram mais "normais" (20º em Faro)...

terça-feira, abril 05, 2011

Estas cidades...

Esta iniciativa parte do jornal Público e vimos aqui partilhá-la e promovê-la.


As cidades são espaços de contrastes. Há aspectos que nos agradam, que nos satisfazem. Outros nos perturbam, nos irritam. Hoje, três em cada cinco portugueses vivem em espaços urbanos. Em 2050, serão quatro em cada cinco.

O PÚBLICO gostaria de ouvir a opinião dos leitores sobre este dilema. Diga-nos, em poucas palavras, do que gosta e do que não gosta na cidade em que vive. Conte-nos o que o faz morar na cidade e o que o faria pensar numa outra alternativa.

Uma síntese desses testemunhos será incorporada num trabalho que publicaremos no próximo dia 22 de Abril.

Envie o seu comentário – incluindo o seu nome e a sua cidade – para leitores@publico.pt.

segunda-feira, abril 04, 2011

E NINGUÉM PEGA NUMA ARMA E DÁ UM TIRO A TODOS?

E NINGUÉM SE MANIFESTA?

É uma questão de tempo.

É uma empresa que decide.

IN THE NAME OF???!!?!??!!?!?!?


Quem decide?

"Uma zona sujeita a tremores de terra e maremotos, povoada com 127 milhões de pessoas, é um lugar muito pouco razoável para 54 reactores nucleares."

Ler opinião do físico Amory Lovins, aqui:


(texto em inglês)

domingo, abril 03, 2011

Braga: plano B

Já por aqui abordamos este assunto em baixo. Muitas vezes. Talvez por isso, sejamos forçados a reconhecer que as pessoas em geral convivem muito bem com isso. Parece.

Primeiro era o hipermercado - a anteceder a urbanização. Depois acudiram mais prédios. Depois ainda, mais prédios a ocuparem os espaços prometidos para o estacionamento e os tais jardins que nunca chegaram. Entretanto chegou mesmo foi o centro comercial precedendo mais prédios e a circular com as suas rotundas. Tudo isto sem qualquer hierarquia de vias, passeios, bermas ou praças. Enfim, após o repasto, caiu do céu um tal retail parque, sem que ninguém se lembrasse dos acessos. Finalmente, chega-nos o hospital, lá bem no cimo, como os antigos conventos, talvez para estar mais próximo dos deuses. E constroem-se no meio, ou melhor, por cima disto tudo os acessos necessários. Bastaria apenas um passeio matinal, por exemplo, pela rua Quinta da Armada, para perceber a amálgama alucinada que infesta toda esta área: rua sem passeios, estreita, muralhada literalmente por casas e prédios e ainda assim sempre repleta de automóveis estacionados, cortada por um cruzamento (entre outros) inventado à socapa e sem visibilidade. Por ela circulam, veículos pesados de mercadorias, de transporte, autocarros, automóveis ligeiros, seres humanos adultos e crianças a caminho da escola, cães e gatos e bicicletas e motorizadas…

in O tio foi em viagem

E o que é que eu tenho a ver com "isso"?

Imagem retirada daqui

"A violência a que ninguém liga

A comunidade internacional foi (relativamente) rápida a assegurar uma zona de exclusão aérea na Líbia, mas esqueceu-se da terrível situação na Costa do Marfim - acusa o ministro dos Negócios Estrangeiros da Nigéria, país que, actualmente, preside à Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental. Esta organização tem pressionado para que Laurent Gbagbo abandone o poder, após a derrota que sofreu nas presidenciais de 28 de Novembro. As forças de Gbagbo foram acusadas pelas Nações Unidas e pela ONG Human Rights Watch de crimes de guerra e contra a Humanidade, de que já resultaram mais de 400 mortos. As forças leais a Alassane Outtara, reconhecido pela comunidade internacional como líder legítimo da Costa do Marfim, que é o maior produtor de cacau do planeta, avançam do seu bastião tradicional, no norte, em direcção a oeste e há notícias de confrontos em Abidjan. Por seu turno, Gbagbo continua a recrutar jovens para as suas fileiras - para que o der e vier. Os mais de 9 mil capacetes azuis presentes no terreno deverão ser reforçados em breve (mais 2 mil). Resta saber se a tempo de evitar uma guerra civil."

Notícia, pequena, sem importância, extraída da Visão de 24.3.2011, p. 65.

sábado, abril 02, 2011

Como se amordaça um povo

Pegar nas terras, incentivá-lo (eufemismo para forçá-lo) a deixar de as trabalhar.

Enviar o gado para as cidades, trabalhar nos serviços, em actividades especulativas e não sustentáveis.

Deixe marinar, até a região, ou país, ou Estado (ahah! Estado....) se tornar completamente dependente do exterior.

Continue a bater bem a massa, até parecer que tem um aspecto sólido, de algo que se aguenta por si.

Pegue em petróleo e em bens de primeira necessidade (alimentação e vestuário) e misture com o todo o lixo que conseguir apanhar pelas televisões, jornais, rádios e internets.
Junte tudo para dentro do buraco.

Continue a bater bem na massa, até deixar de sentir que alguém está a tratar bem dela.

Et voilá!
O seu pitéu, 100% preparado por si, está no ponto.

Apostamos que vai gostar.
Prepare-se: a festa vai começar.

sexta-feira, abril 01, 2011

A dívida do Krakatoa

I



"O Grito", de Munch
(imagem via Wikipédia)


A história é conhecida...

Alto lá!... Algo ser conhecido depende de quem conhece.

- Pronto..., posso continuar?
- Claro, mas corrige lá a frase, que eu fico a ver.

A história é conhecida, MAS vamos contá-la para quem ainda não a conhece.

(a censura deu o seu aval; posso, então, continuar? Está bem assim, ou é preciso mudar alguma coisa?)

No dia 27 de Agosto de 1883, na ilha de Krakatoa (uma das mais de 17 mil que constituem o Estado da Indonésia), um violento vulcão entrou em erupção.
Segundo a Wikipédia (clique, claque), a ilha quase desapareceu, tal foi a força da explosão. A mais violenta, aliás, de que "o homem moderno" (não me perguntem o que querem dizer com "moderno"...) tem conhecimento.

Impactos / consequências da dita, dura:
a) uma, já a enunciámos: a ilha onde estava o vulcão ficou irreconhecível (por quem a conhecia, claro).
b) se lá alguém esteve (e esteve...) para a ouvir (à explosão), ficou surdo. (num raio de 15 quilómetros, calculam. Não me perguntem como, ou se há registos / testemunhos).
c) .... (mais de 36 mil mortos humanos, causadas sobretudo pela consequência abaixo) (as outras espécies não estavam recenseadas... se bem que mencionem que a diversidade da vegetação foi "ao ar" com a erupção...)
d) maremotos cujas ondas chegaram a atingir 40 metros de altura e que chegaram a ser sentidas na Europa (isto é, mesmo com as Américas pelo meio a servir de "amortecedor"...)
e) no ar: as cinzas vulcânicas foram expelidas até uma altura de (calculam, também...) 27 mil metros.


"No ano seguinte à explosão, a temperatura média da Terra caiu até um máximo de 1.2 °C (2.2 °F). A "normalidade" foi restabelecida apenas quatro anos depois (1888).

[Vamos lá decompor isto que aconteceu]:

-A erupção introduziu grandes quantidades de dióxido sulfúrico na alta estratosfera que foi depois transportada pelos ventos à volta do planeta.
--Isto levou a um aumento da concentração de ácido sulfúrico nos cirros.
---Isto levou a um aumento do albedo das nuvens (já aqui falámos do albedo) que
----fez com que houvesse maior reflexão da luz solar que o habitual, que, por sua vez,
-----fez com que o planeta arrefecesse até o enxofre ter caído sob forma de chuvas ácidas."

(tradução da entrada em Inglês)


Edvard Munch [isto é só para compreendermos que a arte pode / deve estar / está (intimamente ou não) ligada ao tempo e ao espaço], disse que "de repente, o céu ficou vermelho".
O seu conhecido quadro "O Grito", reproduzido acima, data de 1893.



II


Aos quinhentistas (não os de hoje, não os que têm isso como salário mensal) que navegaram altos mares (mares porreiros, pá!: "Eia!, Alto mar, pá!"...) e foram expandir a "civilização" europeia, cristã, a povos nunca "dantes explorados", apontam-nos como sendo os pioneiros da globalização.
Levaram - e isto é importante - o ímpeto colonial e comercial nas veias: dominar povos, para explorar recursos que seriam depois enviados para as ditas metrópoles. Fossem esses recursos canela ou homens com cor de canela. Era igual. Desde que se pudessem vender...

Estamos a falar da globalização. Portanto, a globalização económica.
Que mais não é outro nome para a expansão global dos princípios orientadores de um sistema que dá pelo nome tão giro e insípido e sem mácula de capitalismo.

Os princípios orientadores do capitalismo são a acumulação de capital.
Sempre mais e mais.
Através do lucro. Daquela maquia que se "cria" do ar quando acrescentamos um intermediário que transformou ou não o produto (e que transportou ou não o produto) até chegar ao consumidor final.
(E será o consumidor final, final, de facto? Chegaremos, como com o questionamento da "ordem divina", ao começo de "tudo", subindo na escala da pirâmide, a ver se descortinamos a origem das coisas? Ah, Lavoisier, Lavoisier... que só te deixam andar pelo Beco da Desmemória...)

Sim, globalização. Económica, portanto.
Globalização. Outro nome bem inventado, não acham?
Os francófonos optam por "Mundialização".

Deixemo-nos de querelas linguísticas.
Antes delas, uma outra, escondida - e de que cada vez mais estamos cientes - unia os povos do mundo.
Se me dão licença (que tenho tanta autoridade como qualquer comunicador), vou chamar-lhe:

Planetarização

A "planetarização" é um termo referente à Terra, (anterior ao Homem, portanto), baseia-se em alguns princípios:
a) o devir;
b) a tendência para o equilíbrio (seja através da isostasia, da eustasia, ou de quaisquer outras entropias ou "nivelamentos universais" não-humanos); e
c) a luta pela permanência da vida.

(deve haver mais princípios, mas acho que são basicamente estes.
Agradeço sugestões e pensamentos de mais.)

Convém dizer que sendo o devir o que é, por sua própria natureza, a tendência para o equilíbrio nunca é atingida.
Convêm também dizer que no ciclo da natureza, a vida - que pretende manter-se pelo tempo e pelo espaço - tem em si a morte.

"You know the day destroys the night
Night divides the day..."

(assim são as primeiras frases do primeiro álbum dos Doors..
ah!... Jim...
Quanta sabedoria, a dos poetas.

- Sublinhados provocadores...!)


A planetarização diz-nos que tudo na Terra está relacionado. Não se trata de defender que a Terra é um sistema fechado, porque não é. E a luz do sol faria logo cair por... terra essa teoria.
A planetarização diz-nos que todos fazemos parte do mesmo planeta. Sim, somos diferentes. Da diversidade que permite a Vida (e esta, mais ou menos precária consoante aquela. E vice-versa).

Na natureza, uns processos influenciam outros, uns são causa outros consequência, numa relação de dependência necessária (mas diferentes graus de "parentesco", por assim dizer).
"Na natureza, nada se cria, nada se destrói: tudo se transforma."
Não foi isso que te ensinaram?
Ai não te ensinaram?!?

A evolução tecnológica do Homem e a acção do Homem como modelador da paisagem, como criador do seu destino ("Deus é uma criação do Homem, o contrário está por provar", compartilhava-nos o Serge Gainsbourg), levou-nos à globalização (com as caravelas quinhentistas... embora já antes os nórdicos e os chineses tivessem velejado por aí... parece...!), trouxe-nos a expansão do capitalismo e das suas consequências.
Vou ater-me a consequências ambientais negativas da globalização: a criação, aqui e ali, de espaços degradados, a destruição de habitats e suportes de vida (terra, ar, água).

A extinção de espécies (e as animais são as mais notadas...) deriva de retirarmos condições para a vida e criatividade para a vida (dessas espécies) subsistir aí.
Não é "subsistir aí e nesse tempo", pois extinção é extinção. Ponto final.
Kaput? Fim.
Não há mais.
Sabemos o que quer dizer?
Não, não é tu ou eu morrermos. É tu seres um homem, não haver mais nenhum homem no planeta e morreres. Percebes?
Isto não te preocupa?

Já tiraste o teu bilhete.
Agora espera na fila, se fazes o favor.


A tua vez está a chegar, Homenzinho.

Porque a tua subsistência, a permanência da tua vida, depende (dissemo-lo acima) de outras vidas e suportes (i.e., orgânicos e inorgânicos, da química e da física de que dispões na natureza).

Os processos destrutivos que tens vindo a criar, aqui e ali, desde essa tua megera que o capitalismo criou para te masturbar (falo da chamada "Revolução Industrial") estão há muito tempo a somar-se. Estão a tornar-se, lenta e surdamente, processos cumulativos.

Só há uma Terra.
Uma.
Só.
Só uma.
Terra.

Tu estás nela.
O que lhe infligires virar-se-á contra ti mais cedo ou mais tarde.
E olha que é cada vez menos cedo para ser tarde...


III


Os meios de transporte mais rápidos são aqueles que mais contrariam o atrito.
Um caracol põe-se a milhas bem depois de um gato.
O que distingue estes dois seres? A capacidade de locomoção, que se baseia nas suas perninhas ou músculos.

Um foguetão vai à lua bem mais rapidamente que um comboio.
Sim, é verdade que um comboio não vai à lua.
Mas também é verdade que um foguetão não pára em todos os apeadeiros...

Das esferas da Terra (biosfera, litosfera, atmosfera, hidrosfera....), uma - salta à vista - parece ser "mais lenta" que as outras. Qual é ela? A litosfera. As rochas.
Mas...
Convém dizer que as areias (ou sedimentos) estão a ser transportadas pela água (as águas do Amazonas têm uma cor diferente das águas do mar, não têm?) e pelo ar (tempestades no deserto, já ouviram falar?)
Convém dizer que os blocos erráticos são-no por causa dos glaciares (por exemplo, o Poio do Judeu).

Estas deslocações de elementos da natureza (daquelas esferas acima enunciadas) implicam maior ou menor energia.
A água, a dos mares, a dos rios, a das chuvas, desloca-se, move-se pelas forças da gravidade e da variação da temperatura.
Grandes nuvens que se avizinham nos céus, que se avolumam e tornam espessas, carregadas, cinzentas...
- grande acumulação de energia...
O raio!
O trovão!
Enxurradas de água que cai "a cântaros" nas carecas dos homenzinhos que vão trabalhar, a compasso e de malinha na mão...

Chegados a este ponto
Repescamos o que dissemos aqui:



"
Só para relativizar um bocadinho, apetece-me dizer que o tempo de residência da água é:

- de algumas horas, nas células vivas;
- de cerca de 16 dias, nos rios;
- de 8 dias, no ar;
- de 1 ano, no solo;
- de 17 anos, nos lagos de água doce;
- de 1400 anos, nos mares interiores;
- de 1600 a 9700 anos, nos glaciares;
e
- de cerca de 2500, nos oceanos.

O que querem dizer estes números e o que quero eu dizer com tudo isto?
Em primeiro lugar, aqueles números querem dizer que a água, como elemento móvel, tem o seu ritmo.
"

Fim de citação.
Vamos agora à quarta parte, muito lógica e fulminante, desta divagação reflexiva.


IV

Será que ainda não aprendemos nada?

"O sistema educacional [- que pertence a estas estruturas, do capitalismo, que visam o lucro e a permanência num mundo infinito, que não existe; que pretende produzir, portanto, o imobilismo, o "fim da história" - ] tem minado a nossa criatividade e pensamento da mesma forma que nós destruímos e minamos a Terra em busca dos recursos. Para sua própria comodidade.
E no futuro isso de nada nos servirá."
Ken Robinson [adaptado]

Temos de repensar a forma como nos relacionamos uns com os outros e com a Terra.
É inútil pensarmos que somos uma forma superior de vida. (superior é um termo relativo. Retiremos-lhe as formas ditas "inferiores" de vida que logo essa ideia cai no vazio.) - NÓS NÃO EXISTIMOS SEM AS OUTRAS FORMAS DE VIDA NEM SEM OS SEUS SUPORTES NATURAIS.

Estamos a ir mal.
Estamos a ir mal há demasiado tempo.


Depois destes anos todos de estragos, não devemos nada ao Krakatoa?
Ao que ele nos ensinou?


Salvar Fukushima?
O Japão??

(ler notícia, não suficientemente tóxica...)


A radioactividade vai espalhar-se. Esta e outras.
Não há solução humana para as consequências do nuclear.
Os resíduos e a poluição ou se evitam (dizendo não ao nuclear, INTRANSIGENTEMENTE), ou se espalham (mais cedo ou mais tarde, porque os riscos estão sempre lá).



"Se todos os insectos desaparecessem da Terra,
em 50 anos toda a vida na Terra desapareceria.
Se todos os seres humanos desaparecessem da Terra,
em 50 anos todas as formas de vida se desenvolveriam."


Este homem, este homenzinho, está para a Natureza como a fé para a evolução da Humanidade.
O homem capitalista representa um retrocesso.
É anti-natura.
Auto-destrutivo.

O tempo, sob os grilhões da fé no monetarismo, está parado.
O tempo da criatividade e da evolução tem estado a ser emperrado pelo próprio Homem.
O Homem é que está parado, é uma peça de museu que ainda não olhou à sua volta para tomar consciência do seu lugar,
Este Homem está fossilizado, indiferente ao que a Natureza o obriga cada vez mais a aprender.
E ele recusa-se a aprender.
Eis que, por isso mesmo, o tempo do Homem está em contagem decrescente.