segunda-feira, maio 31, 2010

Não estar, Não estar a ser, Não ser


Diz-me que solidão é essa
Que te põe a falar sozinho?
Diz-me que conversa
Estás a ter contigo?
Diz-me que desprezo é esse
Que não olhas para quem quer que seja?
Ou pensas que não existe
Ninguém que te veja?

Sempre Ausente, António Variações.


A cidade é a ilusão
Onde morremos todos os dias.


As pessoas estão a ficar cada vez mais sozinhas.
A "lonely people", com os seus ídolos e amores inalcançáveis, que os Beatles cantavam em Eleanor Rigby (em 1966...).

Projectamo-nos no futuro e ausentamo-nos do presente.
Estamos fora do lugar, fora do tempo.
Estamos para além de nós, aquém de nós.
Cada vez mais sozinhos
Entre a multidão
Cada vez mais sozinha.



"O advento da proximidade virtual torna as conexões humanas simultaneamente mais frequentes e mais banais, mais intensas e mais breves. As conexões tendem a ser demasiado breves e banais para se poderem condensar em laços. Centradas no negócio à mão, estão protegidas da possibilidade de extrapolar e engajar os parceiros além do tempo e do tópico da mensagem digitada e lida - ao contrário daquilo que os relacionamentos humanos, notoriamente difusos e vorazes, são conhecidos por perpetrar. Os contactos exigem menos tempo e esforço para serem estabelecidos, e também para serem rompidos. A distância não é obstáculo para se entrar em contacto - mas entrar em contacto não é obstáculo para se permanecer à distância. Os espasmos da proximidade virtual terminam, idealmente, sem sobras nem sedimentos permanentes. Esta pode ser encerrada, real e metaforicamente, sem nada mais do que o premir de um botão.
A realização mais importante da proximidade virtual parece ser a separação entre comunicação e relacionamento. Ao contrário da antiquada proximidade topográfica, ela não exige laços estabelecidos de antemão nem resulta necessariamente no seu estabelecimento. "Estar conectado" é menos custoso do que "estar engajado" - mas também consideravelmente menos produtivo em termos da construção e manutenção de vínculos."

Zygmunt Bauman, in Amor Líquido, p.86
(Relógio d'Água, 2003)


Estavam cinco meninas no diminuto pátio de uma escola de música desta cidade isolada chamada Braga.
Teriam elas menos de dez anos. Todas, certamente.
Três delas, juntas, pareciam dizer coisas sobre uma flor, que ali observavam.
Restam duas.
Essas duas estavam, cada uma, com o telemóvel na mão.
Não olhavam para ninguém.
Não falavam com ninguém.
Estavam fora daquele lugar.
Fora dali, fora daquele tempo.
Estavam sozinhas com o algo ou o alguém do outro lado do telemóvel.
Na comunicação, incomunicáveis.

A solidão antecipada, porque querida.
Em tão tenra idade.

O suicídio em gestação na sociedade incomunicativa actual.

Esperamos pelo tempo
Das mortes sem lugar.

E para quando a VIDA?


* A capa do disco, ilustrativa desta realidade que sentimos, serve também para uma nota: ao que parece, o Will Oldham (sob o nome Bonnie Prince Billy) vai dar um concerto na Sociedade de Geografia (!). Este sábado, dia 5 de Junho.
* Zygmunt Bauman recebeu recentemente, só por acaso, o Prémio Príncipe das Astúrias.

sábado, maio 22, 2010

quinta-feira, maio 20, 2010

Festa da Geografia

Festa da Geografia: "Territórios de Risco” | Mirandela | 21 e 23 de Maio de 2010

A Festa da Geografia 2010, sob o tema: "Territórios de Risco", ocorre este ano entre 21 e 23 de Maio de 2010, como habitualmente na cidade de Mirandela. Neste ano a Associação Portuguesa de Geógrafos está a organizar o evento conjuntamente com a Câmara Municipal de Mirandela.

Ver programa (em pdf)

terça-feira, maio 18, 2010

Olha!, tem mesmo de ser


Não anda longe de ser um dos meus discos preferidos (dos Moody Blues é-o, claro), mas a capa deste álbum, "A Question of Balance" (Uma Questão de Equilíbrio, para quem não souber Inglês) (disco editado em Agosto de 1970), parece concentrar todas as maiores preocupações que desde cedo me têm feito como sou.
Esta é, de momento, a minha capa de disco preferida (e já vi milhares, acreditem...)

Apresento-a na íntegra (frente e verso), pois só assim está completa.

A autoria é de Phil Travers.
Estávamos em 1970 e parece que todas as inquietações que hoje (talvez desde sempre, desde o pós-guerra) nos assolam já se entreviam, pressentiam, existiam. (talvez falte o aquecimento global...)
São apenas 40 anos, isso é certo.
Mas neste segundo de vida da Humanidade, quanto não mudou?

Pelo que conheço, na música pop (é o caso), os Moody Blues foram pioneiros a demonstrar a sua preocupação pelos problemas ambientais. E este álbum torna evidente que havia já um passado, que aqui veio a culminar.

Mas não foram os únicos.
O ano era o de 1967, ano de grandes revoluções e transpirações no mundo. Social, político, artístico e, dentro deste, obviamente, musical.

Em Setembro, os Doors, de Los Angeles (Califórnia), editam o seu segundo álbum, "Strange Days", que contém a canção "When the Music's Over", onde Jim Morrison diz o seguinte:

"What have they done to the Earth?
What have they done to our fair sister?
Ravaged and plundered and ripped her and bit her
Stuck her with knives in the side of the dawn
And tied her with fences and dragged her down."


Dois meses depois, em Novembro, sai um disco em cuja contra-capa se denunciava o problema do consumismo e, claro está, do desperdício (avançado, não?). No chão (o lixo físico, ainda e só), vê-se sucata de automóveis velhos e muitas latas de bebida. No meio desse monturo, uma placa com um trocadilho inglês intraduzível mas que pouca gente terá dificuldade em perceber:

"Every litter bit hurts"

No disco propriamente dito, "After Bathing at Baxter's", dos Jefferson Airplane, banda de São Francisco (origem que não podemos dissociar do movimento emancipador da década de 60), uma canção incrível e belissimamente interpretada pela Grace Slick: "Rejoice":

"
Chemical change like a laser beam
you've shattered the warning amber light
Make me warm
let me see you moving everything over
smiling in my room
you know you'll be inside of my mind soon."

que também ousa dizer o seguinte
(ninguém o faz hoje em voz alta, talvez porque sem meios para o expressar...):

"War's good business so give your son
and I'd rather have my country die for me."


Nesse mesmo Novembro, os Moodies editam o single "Nights in White Satin", ainda hoje a canção mais celebrada e versionada do conjunto da industrial Birmingham. Pouco notado foi que do lado B estava uma canção que, já na altura, apontava o dedo à insalubridade dos grandes aglomerados urbanos:

"Here the flowers don't grow,
Here the river's just a sewer"
(Aqui as flores não crescem,
Aqui o rio é apenas um esgoto").

Ou seja, a vida tornada morte, a vida, água, tornada, morte e solução (sempre provisória, insustentável) da remoção da poluição que criamos nas cidades.
Vejam lá se 43 anos chegam para aprendermos...
Ainda não, ainda não...

Concepção errada e não pensada, filha da Revolução Industrial, essa mãe alimentada a farelo de engordar a pança de uns poucos capitalistas.
Ainda não a ultrapassámos completamente.
Este rio como metáfora do que por cá se vai passando, que tudo lá vai parar. E o pior é o mar, que é o fim-último de tudo. Os derramamentos de petróleo têm apenas a nossa cara.

Cantam eles, neste álbum de 1970, na faixa "Don't You Feel Small?":

"
Look at progress,
Then count the cost,
We
'll spoil the seas
With the rivers we've lost
"


Da capa, que dizer?
Olhemos bem para ela.
Está lá tudo.

A chaminé de fumo e a morte da ave; o avanço para a lua e o progresso nas formas de matar, a diversão-fuga e o ar preocupado de Einstein; o anonimato do sexo e nisso o atrofiamento do amor, que devia ser criador, colectivizante, e libertador; o assassínio à queima-roupa e o assassino sem vergonha, identificável e conhecido...
Por fim, a noção de que o espectáculo do mundo é aterrador, mas que a única paz que podemos ter é a de sermos espectadores, tranquilos...
Mas que bela paz...
Porra!


Mas que bela capa...

terça-feira, maio 11, 2010

Andanças na minha terra 4

Um destes dias, em finais de Abril, dirigindo-me da Marinha Grande a Cantanhede, percorri uma fantasmática A17 absolutamente vazia, e um troço da A14 tão distraído pela ausência de automóveis que por momentos apreciei a condução e as autoroutes. “Mas para que se constroem as ditas se ninguém nelas circula?”, pensava nisto e no facto de estar tão perto do mar que nem me apercebi da entrada em Cantanhede.

Vidal: Rossio de Cantanhede

Uma praça central com a sua igreja recebe-nos timidamente. À sua volta existe tudo o que um homem pode desejar, dir-me-ão. Uma clínica. Bancos. Uma pastelaria que é pizzaria e hamburgueria, com cadeiras modernas e olhos de vidro. Além, um café, pareceu-me. Todo uniformemente disposto para a nossa felicidade: levantar dinheiro. Tudo arranjadinho e moderno. E nenhum sítio sequer para comer a sandes de leitão que eu trazia na memória. À volta disto, coisas fechadas. Ruas que não vão dar a lugar nenhum. Gente a dormir descansadamente no carro. Casas velhas. E tudo desagua na estrada grande. E ao lado, o centro comercial. Pode-se tentar aí, pelo menos segundo consta, a sandes de leitão ou a bifana.

Vidal: centro de Cantanhede

sexta-feira, maio 07, 2010

"Portugal - O Sabor da Terra", de José Mattoso, Suzanne Daveau e Duarte Belo

Título: Portugal - O Sabor da Terra
Autores: José Mattoso, Suzanne Daveau, Duarte Belo
Edição: Abril de 2010 (2ª ed.)
Editora: Temas e Debates - Círculo de Leitores
ISBN: 978-989-644-099-2
Paginação: 688 páginas

A rubrica Livro do Mês regressa com uma obra publicada pela primeira vez em 1998 e há muito esgotada. Os seus autores, para os mais distraídos, são garantia de termos um excelente trabalho em mãos. José Mattoso, um dos mais prestigiados historiadores portugueses de sempre, Suzanne Daveau, a "esposa de Orlando Ribeiro" e grande divulgadora de Geografia, Duarte Belo, mais conhecido pelo seu trabalho na área da Fotografia que no da Arquitectura, em que se formou em 1991.

Neste hiato de 12 anos que separam as duas edições vimos o país alterar-se bastante. Tal como os autores dizem, no prefácio a esta 2ª edição, entre essas mudanças "pode-se apontar a cada vez maior concentração da população nas áreas urbanas próximas do litoral, o atrofiamento dos equipamentos e serviços do interior, uma alteração do peso da economia do "Norte" em relação com a do "Sul", a influência dos imigrantes na economia e na cultura, o grau de massificação cultural comandado pela televisão e pela internet, a completa generalização da comunicação por telemóvel. Estes fenómenos parecem irreversíveis: tornam cada vez mais residuais ou tristemente moribundas as tradições e a cultura popular."

No meio de tanta perda e descaracterização (a segurança dos tempos em que a nossa capacidade de apreender, sistematizar e problematizar não era tão levada na enxurrada do ruído mediático e do torvelinho urbano-civilizacional..), conhecer e descrever identidades (culturais, regionais ou de outro tipo) apresenta-se como uma tarefa ainda mais complexa.

"A crise económica de 2008 e o seu prolongamento até hoje, em vez de esbater as desigualdades, aprofundou a pior de todas elas: ter ou não ter emprego; o Portugal rural é cada vez mais diferente do urbano, porque se vai aproximando do deserto; na mesma medida, o litoral opõe-se cada vez mais ao interior. Se estamos mais perto de ser "um só pais" [citando o sociólogo António Barreto], é porque o rural, o interior, pelo menos aparentemente, deixa de contar: deixa de ter escolas, serviços médicos, maternidades, polícia, transportes públicos."

No entanto, podemos sempre tentar enunciar traços que nos distinguem e que nos unem. As particularidades são aquilo que nos identifica, e estas são não raras vezes indissociáveis das especificidades regionais. Mais uma vez, a afirmação de que não devemos descurar a nossa relação com a Natureza, tantas vezes "invisibilizada" por uma falta de sentido civilizacional insustentável.

É das raízes que este livro fala e que este livro procura esboçar. Ilustrado com bastantes fotografias (praticamente uma por página... e são muitas, as páginas...), as descrições histórico-geográficas são elucidativas do que somos e/ou do que já fomos.

Além de elucidativo, trata-se, na mesma medida, de uma obra muito apelativa à leitura e à consulta. Tal como consultaríamos um guia de viagem, percorrendo as páginas em busca da referência ou da menção a este ou a tal monumento, evento, povoação ou paisagem. Ou seja, antevê-se uma boa experiência de conhecimento e de auto-conhecimento.

Uma última nota prévia:
Na "olhadela" que demos, não vislumbrámos o motivo por que apenas são centra nas regiões continentais de Portugal. O que, de certa forma, torna esta excelente obra numa obra menos excelente. Não obstante, é um livro que recomendamos a todos os que se interessem por esta terra marginal a que chamamos Portugal.

Boas leituras geográficas.


Nota: Envie a sua sugestão de leitura para georden@gmail.com que posteriormente publicaremos neste mesmo espaço.

quinta-feira, maio 06, 2010

De que falamos afinal quando falamos em regressar?

Sempre nesta premissa:

Reencontrar o sentido da sustentabilidade e recusar / rechaçar o que pode ameaçá-la.

Mesmo nas coisas aparentemente mais insignificantes. Ler.

Porque não podemos mais descurar que a soma de pequeninos dá, frequentemente, coisas grandes.

segunda-feira, maio 03, 2010

Estamos a matar os locais

- Olá, podia dizer-me o nome desta praça?
- Peço desculpa mas não conheço. Não sou de cá.

sábado, maio 01, 2010

Lisboa antes do grande terramoto de 1755 no Second Life



Muito mais sobre o assunto no Ionline aqui.