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segunda-feira, abril 18, 2016

sexta-feira, dezembro 04, 2015

Do they know it's... a Republic?

Um sonho estranho.
Emergiu talvez como água a brotar das fissuras da rocha, a qual pensamos impermeável.

Um jovem, de cara tapada, pintava num muro, a trincha, palavras de ordem contra a opressão.
Contexto inferível: estamos em ditadura, talvez franquista.
Por entre os carros que passam, algumas pessoas, paradas e outras que também passam, observam com olhar medonho. Algumas com olhar persecutório, prontinhas a apanhar o larápio.
Nada contra a Nação, talvez.
Mesmo que dela muitas haja.

Num outro tempo, mas no mesmo lugar, a mesma cena:
Um jovem, de cara tapada, a pintar num muro, a trincha, palavras de ordem contra a opressão.
Mas... outro tempo, agora: é que a ditadura foi deposta.
Não sei se anos da transição, ou pós.
Estamos em Espanha, e não sei porquê.
Mas por entre os carros que passam, algumas paradas e outras que também passam, observam com olhar medonho. Algumas com olhar persecutório, prontinhas a apanhar o larápio.

Este foi o sonho.
E acordei a perguntar-me: estas últimas não sabem que a ditadura foi vencida?

E questiono-me se as estruturas não podem, por vezes, ser, ao invés dos agentes da opressão, ser os garantes dos valores democráticos?

Que pode o regime ser republicano mas os governados serem fascistas.

E penso como, pela lassidão da tarefa de promover os seus valores, a democracia e o republicanismo deixam as pessoas resvalar para o simplismo, para a conversa de títulos de jornal, para a intolerância, a xenofobia e para as explicações e justificações de estarem assim ou terem que ser assim ou assado.

Pondo as coisas claras, é óbvio que a democracia, no seu estado são, contém, tem de conter, uma dose inquebrantável de intolerância: intolerância para com os valores que lhe são contrários e que a põem em causa. De acordo com tal tábua de valores se julgam os que sob ela coexistem.
Já não é tão óbvio que a democracia tenha de conter e usar da violência para aplicar tal intolerância, uma vez que a primeira, em primeiro lugar, a limita, e em segundo, lhe é contrária.

E assim chegamos aos que usam o sistema democrático para destruir, por dentro e em sede própria, a democracia. Legislando, por exemplo, no sentido de restringir o poder de decidir, instituir a outorgação, a empreitada, a nomeação directa. Legislando contrariamente à tendencialização da igualdade de oportunidades e da gratuitidade dos direitos e valores que enformam e definem o regime republicano e democrático: Paz, Alimentação, Saúde, Educação, Habitação, Mobilidade. A que acrescentamos o respeito pelas / e fomento da saúde ecológica, diversidade e riqueza culturais, geográficas (paisagísticas, biológicas e humanizadas).

Como a Justiça faz sentido é para os mais fracos: para que precisa o poder (económico, sobretudo) de ir a tribunal? Só se for para corroborar, numa credibilização social equiparável à sacrossanta ciência, o seu poder. Também no domínio da Justiça, onde supostamente os critérios económicos não devem ter interferência.

Estamos longe das querelas sobre as aritméticas e as virtualidades constitucionais da representação parlamentar do novo governo. Até porque esta é bem mais que aplicável, uma reflexão filosófica e conceptual.

Podem continuar os governados a pensar o contrário do que pensam aqueles que elegem, mas sempre haverá alguma coincidência nas ideias. Daí a importância, também aqui, da diversidade representada.
E é tudo uma questão de proporção. Dentro, uma vez mais, da representatividade possível ou vigente.


O remate desta dissertação é o de que numa República, a Assembleia e o Governo que governa DEVEM gerir as coisas públicas, a "res" "publica". Não a coisa privada, nem muito menos as coisas PARA os privados. Falamos aqui, em primeiro lugar, do que se pode constituir como materialização de poder económico.

Acaso saberão eles que isto é uma República?

O postulado inerente a todo este raciocínio é o seguinte:
Se a República promover e souber fazer valer os seus valores, através da forma como funciona, atingindo os valores que defende, as pessoas governadas tenderão a respeitá-la / -los e, a promovê-la/-los e defendê-la.
E, ao contrário,
Se a República for minada, se mediante instituições e legislação se tender a contrariar os seus valores, as pessoas governadas tenderão a afastar-se dela. Por exemplo, deixando de acreditar nela, deixando de participar. Quando dermos por isso já nos transformámos em fascistas.

Acaso saberemos nós que vivemos numa República?
Se não nos sentimos bem nela, não somos nós que temos de nos mudar, mas sim temos de mudar o regime.
Agora, vivendo num tal regime, ou é ele que vai moldar-nos para que o respeitemos e fomentemos, ou vamos fazendo os possíveis para o minar.
Às vezes basta não tomar posição.
Isso (não tomar posição incluído) define a nossa posição, os nossos valores, e, em princípio, clara e obviamente, se somos fascistas ou democráticos sãos.






segunda-feira, janeiro 26, 2015

Os Mapas Possíveis


O RSOE EDIS, serviço de informação de situações de emergência, apresenta, numa representação mapeada legível e simples, as situações de risco que estão a ocorrer (quando noticiadas, obviamente).

Como riscos são contemplados os naturais e antropogénicos. Isto é, não só sismos, tufões, cheias, deslizamento de terras, mas também riscos biológicos, radioactividade, desastres industriais.

Outros mapas haverá de conflitos militares, económicos e religiosos.
E hoje, alguns, receosos - quais guardiões da democracia - deverão estar a imaginar o alastramento da esquerda nos países com eleições vindouras.

Como outrora o perigo vermelho.
Ou a ameaça imperialista nazi.

Desculpem lá a mençãozita mas, só para quem não souber:
aquando das primeiras eleições livres por cá, em 1976, se o Partido Comunista tivesse tido a maioria, os EUA estavam prontos para entrar no país com uma intervenção militar. Frank Carlucci, o tal embaixador que negava sempre ser da CIA (mas que era), dixit. Está nos livros. Procurem.

Ah, os tempos eram outros, quando havia a divisão mundial em dois blocos ideológicos.
Ainda bem que isso pertence ao passado.
Hoje só pode haver um bloco.
E se só há um, não há bloco.
Somos um todo.

Cuidado com as ovelhas tresmalhadas.
Logo os mercados e suas regulações-estrangulações se põem em marcha.
Para as pôr na fila.

Arbeit macht frei, diz a nossa divina austeritária providência financeira mundial sem rosto e de braço armado.

Que pobreza andarmos ainda a viver na pegada destruidora do século XX.
A evolução e o modernismo são meramente tecnológicos.
Pois miséria real, a da fome, do ambiente, da economia e a da mente aí persistem, sussurrantemente anacrónicas.

quarta-feira, julho 16, 2014

Espezinhados na maratona

quinta-feira, junho 26, 2014

Os Jogos da Cabeça

Desde que vivo entre os homens, é sem dúvida o último dos meus cuidados que falte um olho a este, uma orelha àquele e uma perna a um terceiro, e que outros tenham perdido a língua ou o nariz ou a cabeça.

Vejo, e tenho visto, horrores piores, uns de que prefreriria não falar, e outros que nem sequer consigo calar; vi homens a quem tudo falta à excepção de um único membro demasiadamente desenvolvido, homens que apenas são um grande olho ou uma grande goela ou uma grande pança ou outra qualquer deformidade; a esses chamo enfermos às avessas.

Quando abandonei a minha solidão e, pela primeira vez, atravessei esta ponte, nem podia crer no que os meus olhos viam. Olhava de um lado, olhava de outro, e acabei por dizer: "Isto é uma orelha! Uma orelha tão grande como um homem!" Porém, olhando mais de perto, vi que sob a orelha se agitava outra coisa lastimosamente pequena, miserável e débil. E em verdade, a enorme orelha estava poisada sobre um caule fininho e curto, e esse caule era um homem! Com o auxílio de uma lente, podia-se mesmo distinguir um pequeno rosto invejoso e uma pequena alma empolada que pendiam da extremidade do caule. Contudo, o povo assegurou-me que aquela orelha não só era um homem, mas até um grande homem, um génio. Mas eu nunca acreditei no que o povo diz acerca dos grandes homens, e continuei a crer que se tratava de um enfermo às avessas, com muito pouco de tudo, e demasiado de uma coisa só."

"Da Redenção"
in Assim Falava Zaratustra, Friedrich Nietzsche*


A cabeça, a capital, o capital: três designações para uma mesma coisa: a acumulação: de decisões e ordens, de poder administrativo emanatório, de poder económico e seus correlativos sequazes e algozes. 

E vários aspectos atestam o carácter concentracionário da sociedade capitalista em que nos obrigam a sobreviver.

Com o encerramento de escolas e a consequente deslocação dos alunos para "novíssimos centros escolares". Gasta-se num lado para supostamente poupar noutro, se esse é o critério primeiro.
Com a extinção das freguesias e a deslocalização dos serviços (centros de dia, juntas, Gabinetes de Inserção Profissional...) para a freguesia mais rica ou mais povoada. Poupa-se imenso, e ficam imensas pessoas sem acesso. Mas isso é secundário. Essas passam a suportar os custos, que quem lhes disse que tinham direito?
Com o encerramento de hospitais.... (mais do mesmo...)

A regionalização falhou: dissemos não.
Teremos dito não à regionalização ou apenas às propostas das novas regiões com autonomia administrativa?

Uma ideia terá sido boa e posta em prática: as mui afamadas (bem ou mal, que decida cada um) Lojas do Cidadão. Pessoalmente, e entendendo que a forma como designamos o mundo traduz uma forma de o encarar, preferiria que o nome fosse "Espaço do Cidadão", varrendo à partida a índole comercial com que se apresenta. E que, em verdade, também contém.

Com a concentração (lá está a questão) de serviços num só espaço, poupa-se tempo de deslocações dos utentes, criam-se simbioses entre entidades (a recentemente falada intenção de se lhe juntar os centros de emprego seria extremamente positiva, dada a íntima relação destes com a Segurança Social...), facilita nos horários de funcionamento e, - factor que nos é caro - como a localização das Lojas sói ser no centro da vida das cidades e sedes de concelhos / distritos, cria afluência de pessoas e dinamiza essas mesmas zonas.

Em Braga, a deslocação do maior serviço de saúde para a periferia (uma espécie de ilha, que requer pagamento de passagem, com transporte e, na maioria dos casos, estacionamento... em suma, um negócio bem montado de raiz e com autores bem identificados) constituiu uma depressão imensa para o comércio (se querem usar o factor capital como argumento, usemo-lo então!) local. Atente-se no próximo Centro Comercial dos Granjinhos e no (já antes vazio?) São Lázaro. Quem conheceu as duas fases saberá identificar nitidamente muitas diferenças.

A autonomia das autarquias é coisa que sempre fica no papel.
A pensar nas más práticas empregues pelos diferentes caciques, será que vale mais o prejuízo (vulgo roubo e atropelos) estar distribuído pelo país, ou, maior, estar concentrado na capital?
Isto é inquinar a questão, já vos entrevemos a apontar a muleta, seus acusadores hílaros.
Era só uma questão.
Falcatruas e moscambilhas tanto as há no poder central como no poder local.
Além disso, quando as coisas dão "mesmo" prò torto ainda dá para ir apanhar um sol e perder uns quilitos na choldra. Pois então, porque não?

Quando o que se pretende sempre - e com tantas negociatas e novelas de permeio até nos esquecemos do essencial - é que as populações estejam mais bem servidas, que aquilo de que precisam funcione melhor e lhes esteja mais acessível.
O equilíbrio necessário, por achar, entre o poder e a proximidade vai no bom sentido (consoante os adeptos, entenda-se) quando se encara a política como o poder da proximidade e não como a concentração do poder.
Análise, aliás, muito fácil de fazer, se pensarmos um bocadinho. Daí o antagonismo entre uma ditadura (sob qualquer forma e por escudada por qualquer nome) e uma democracia verdadeiras.

A massa dos eleitores delega em alguns (Presidentes, Governos, Assembleias) o poder. Para que quando a democracia afinal não o era descobrirem que esses poucos decidem contra eles. Os traidores que devem ser punidos com bem mais que uma não-eleição. Com processos-crime, se assim se justificar. Sim, os casos podem justificá-lo. Se os interesses são tanto mais lesados. 
É isto que está em jogo nos jogos do poder.
As decisões afectam uns e outros, mais uns que outros e de maneira distinta uns e outros. Favorece uns, prejudica outros.

É a chamada Insegurança Social.
Quando esperamos uma coisa e não sabemos o que nos espera.


A bomba-notícia de encerrar o atendimento geral - de excelência (falo com conhecimento e também como parte interessada - já o explicitarei) - do serviço da Segurança Social na Loja do Cidadão de Braga é uma medida que está na sombra do conhecimento público. Isto é, à sombra e à revelia dos principais interessados na sua manutenção.

Assinem a petição contra esta decisão de um rei-iluminado clicando na imagem.
http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT73960


E esta intenção que ainda não é notícia, mas que estamos ajudar a denunciar, é contrária ao espírito democrático e, contrariamente ao que designa, descentralizador que levou à criação das Lojas do Cidadão pelo país fora.

A vontade não deriva do poder central da capital. Pelo menos, não directamente. Emana do capitão distrital da equipa. Supõe-se que com as directivas "europeias" do Governo português (serviços idênticos de outras lojas não parecem estar em causa), ávido de poupança (? já lá vamos) por trás. Isto não iliba, de maneira nenhuma, a correia de transmissão Rui Barreira, estratégica e coincidentemente colocada após a tomada de posse do presente Governo português: apenas se lhe soma, agravando a malfeitoria antidemocrática e já costumeira destes nossos supostos representantes contentinhamente eleitos.

O objectivo alegado é ter um mega-atendimento na sede distrital. 
A frase está mal-formulada.
Talvez pretenda ter um atendimento atulhado, ou seja, em quantidade, concentrado (lá está...). Um mega-atendimento (lá está) e não necessariamente um atendimento de excelência. Porque esse já os utentes o têm. Num lado e noutro.
A questão é a distribuição. Agora e sempre.
A da facilidade de acesso.
A da disponibilidade do horário: vai uma pessoa perder um dia de trabalho porque vai deixar de ter o sábado para tratar dos seus assuntos para com a Segurança Social? Ah, pode ir ao fim do trabalho. Errado. Vai deixar de poder. A sede fecha às 17h, a da Loja do Cidadão encerra às 20h. Pretendem mudar o horário da sede?

(esta é a minha parte de interessado. Serei o único?)

Não, não, calma, só vamos retirar o atendimento geral. A entrega de documentos permanece na Loja do Cidadão. 
Ai sim?, e o que leva tanta gente lá é a entrega de documentos? Não nos parece, e os números falam por si, somados de parcelas vindas de todo o distrito... (e este factor levar-nos-á a outro interessado). Conjuntamente, o Registo Civil, a EDP e a Segurança Social representam a razão de ser da Loja do Cidadão.)
Ficando esvaziada de sentido a mera entrega de documentos cedo se justificará - e bem! - a retirada da Segurança Social.
E aí é que está a jogada última, o objectivo último desta intenção.
A saída, definitiva, airosa, e a consequente poupança da renda.

E aqui entra o tal interessado.
O Governo português, se assim é do seu interesse, tem à sua disposição espaços e edifícios onde poderia não pagar rendas para os seus serviços.
No caso cá do burgo, foi uma jogada com o cacique local Rodrigues & Névoa. Os contribuintes pagam e não dão por nada.
Tomai, que é para terdes isto aqui à mão, acessível.
Não era isso que queríeis?

Se cai o pilar do tripé da Loja de Cidadão de Braga, isso não fará cair a cadeira? Necessariamente. Será uma questão de tempo.
A administração da Rodrigues & Névoa foi consultada para a tomada desta decisão? Não devia a empresa acautelar-se e impedir o que é bem provável?
Ora, é parte muito interessada. Que será daquele edifício, já de si quase vazio,?

Membros sem cabeça não fazem nada e uma cabeça que não é suportada pelos membros logo cai ao chão. 
Andar aos caídos é andar com uma cabeça que ninguém, nem nada suporta.
O divórcio entre as vontades de quem decide e quem mais é - negativamente - afectado pelas decisões tem de ter necessariamente consequências.

Estamos aqui, do lado da base, do lado dos membros desapossados, a corroborar a declaração de guerra.
Estes jogos da cabeça darão cabo da cabeça.
Mas parece que nenhuma das partes sairá ilesa...


"O povo assegurou-me que aquela orelha não só era um homem, mas até um grande homem, um génio. Mas eu nunca acreditei no que o povo diz acerca dos grandes homens, e continuei a crer que se tratava de um enfermo às avessas, com muito pouco de tudo, e demasiado de uma coisa só."



* Volto a insistir, prefiram a tradução de Carlos Grifo Babo e esqueçam as outras.

domingo, março 23, 2014

Para além de toda a ironia

Erguem-se Muros


Os patos-bravos 
são árvores migratórias.
Cucos que expulsaram dos ovos 
os ninhos da imaginação.





Ossos do nosso corpo a definhar, 
ficamos atrofiados 
depois de explodirmos em esporas, 
cogumelos sem tempo.


"O mundo é mudo / pertence às cobras /
que trepam escadas / no arvoredo"*





Adormecemos de espectadores
em cefaleias sobretudo oculares, 
destruidores do dia,
esvaziadores de lugares.










E as escadas são cobras / a trepar o mundo
no arvoredo-mudo...
E se dos anteriores vazios
andamos faltos
será talvez por já nascermos velhos.


Que as ânsias da juventude
são febre passageira,
diz o sensato, 
sensanto, 
senhor santo.







Um campo de concentração,
sob o olhar da técnica
E sem saberes
nem poderes querer,
transformaram-te também em pato,
via farelo de engorda.




O mais barato 
é o que te convém
que o fim do mês
roubou-te já o palato.


O que fica bem
ao teu dente
é o que o teu dente
finca bem.

Deu Deus dentes
a quem não tem posses
e ele não te faz andar prà frente,
prisioneiro dos desejos possíveis...





E todos os dias tropeças
em metáforas incríveis
a que não achas já
qualquer graxa,

Tu!, que estás aquém
do mundo da ironia, 
da fantasia,
em agonia.

Um passeio que ficou pelo caminho




São difusos teus pensamentos transeuntes.
Dizes-lhes olá para mais bem os ignorares
e és tu que te esqueces de migrar,
aclorofílico de brilho azeviche.



Não podes fugir: arfas de cansado.

A ideologia é um jugo
e tu és a bolinha a saltitar 
na roleta OMC/OIT
que também pões a girar.




A escola legitima 
e passa certidão às desigualdades.
E o produto da subtracção
foi ficares sem vinho,
e sem pão.
Mas com a religião 
(de falsas necessidades)
Que só te desanima.

 O direito à habitação sucumbe a muros...

...para que enquanto houver pessoas sem casa 
possa continuar a haver casas sem pessoas...


Todas as fotografias captadas em Braga (São Lázaro e Fraião) na tarde de domingo de 23.3.2014 por Edward Soja.

* Excerto do poema "A Noite dos Poemas", de António Barahona da Fonseca e cantado por Adriano Correia de Oliveira

domingo, fevereiro 16, 2014

Não propriamente a discussão sobre o sexo dos anjos...

La distincion... 
(Ou la la!... ma ouais!)




Retomamos a foto do mês de Setembro passado para frisar duas coisas.

Primeira, que entre uma coisa e outra existe ainda uma terceira (a síntese, a contradição, a soma, a anulação, e ainda, importante, o desconhecido, com o qual devemos contar sempre em cada equação). Mas esta, no presente caso, não será definitivamente uma seta que esteja entre as duas representadas...

Segundo, que, levando-nos ambos os caminhos ao mesmo ponto do percurso (e já dissemos que cada ponto de chegada é mais um ponto numa recta, que continuaremos nós ou nós-outros, parafraseando, vá, talvez, o eterno retorno nietzschiano) temos uma escolha fulcral a fazer na nossa postura de vida:

(porque o espaço e o caminho, tal como a forma e os meios, não são alheios nem indiferentes ao estar-ser e ao como caminhar, nem ao conteúdo ou aos objectivos, respectivamente)

Ou seguimos pelo caminho da esquerda, que poderíamos apelidar de Ecológico (malgrat o cimento, não é?)

- que demora mais tempo e que - para quem reconhece kavafiamente que é mais importante a riqueza que colhes pelo caminho que a que esperas encontrar no destino - te faz viver mais tempo (e tampouco isto é indiferente);

- que nesse tempo a mais ele te oferece uma probabilidade mais alta e uma apetência maior a deteres-te nas coisas que te rodeiam e assim as inspirando seres mais rico e consciente;

(...)

Ou seguimos pelo caminho da direita, que poderíamos apelidar, entre os antónimos existentes e imaginários, de Económico

- que, por oposição - já se percebeu, basta ver - é mais curto e menos demorado face ao destino e te educa para o finalismo e para o desrespeito pelos meios (é isso a primeira consequência visível: voltemos a olhar para o resultado que lá está);

- que nesse tempo a menos ele te permite pensares noutras coisas (foi por exemplo para isso que se criaram os relógios e se aceleraram os processos produtivos, mediante as máquinas e a seriação

(Donde, talvez como lemos do postulado de Jane Jacobs, subscrito por Soja, de que o desenvolvimento intelectual e da técnica é filho do crescimento composto pela economia e a intensificação dos processos...)

(...)

Isto pode ter que ver com tudo, o que sendo impressionante não deve deixar de nos merecer atenção: somos ou não somos homens??

São duas vias: e dizemos que preferimos uma a outra, porque preferimos.
Porque, mesmo sem intelecto, já que somos bebés a pensar com a cabeça estragada dos adultos, salta à vista que um deles estraga o caminho e o outro não estraga o caminho.
Os fins não justificam os meios, e embora os fins sejam um produto dos meios, os meios também podem alterar a natureza dos fins que queremos encontrar.

Eis aqui os caminhos do vive e deixa viver e o do não penses no amanhã, que só tu contas (já se entrevêem mais oposições: colectivo/individual, público/privado, presente-futuro/futuro-e-fim, etc...)

Com base neste exemplo da geografia física (dimensões, pontos, linhas e seus percursos e possibilidades), convidamo-vos a reflectir um bocadinho sobre a forma de fazer geografia humana (filosofia no espaço).


É a entrar, meninos e meninas
a ver o que por aí se lavra.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Edward W. Soja - A Perspectiva Postmoderna de Un Geógrafo Radical (III)

"Com alguma surpresa da sua parte, Soja redescobre, já nos anos 90, que Jane Jacobs também menciona Çatalhüyük no seu texto seminal “A Economia das Cidades” (de 1969), de onde extrai o seu postulado de que as cidades e os processos de urbanização podem ter sido a fonte primária geradora de criatividade, de inovação e desenvolvimento social desde Çatalhüyük e durante os últimos 12 mil anos. Segundo Jacobs, a faísca inicial da vida económica urbana foi a causa primária de todo o crescimento e mudança económicos, incluindo o pleno desenvolvimento da agricultura e da pastorícia, além de muitas outras actividades produtivas especializadas. E não o inverso. É, portanto, o factor urbano, a existência do urbano, o que gera a mudança e o desenvolvimento económico (e a implantação da agricultura e da pastorícia) e não o contrário, se bem que o desenvolvimento da agricultura permitirá a consolidação de uma população sedentária e de uma economia excedentária tipicamente urbana. Ou seja, e segundo as palavras de Jacobs: sem as cidades seríamos pobres, já que não se teriam desenvolvido novas formas de economia e de relação social. Este impulso economicista de Jacobs que era uma resposta à abordagem historicista e passiva (fatalista) de Lewis Munford em “A Cidade na História” (1961) cairia durante anos no desprestígio e na marginalidade (que Soja paraleliza com o menosprezo das propostas de Foucault e Lefebvre) até ser recuperada muito recentemente pela teoria económica, embora já sob uma óptica economicista e percebida como uma “externalidade”. Só muito recentemente as economias da urbanização, entendidas como evocações de causalidade espacial urbana, começaram a ser aceites como a causa primária do desenvolvimento económico."


(pp.39-40)


Como pudemos deixar que o espaço socialmente construído não fosse considerado central na leitura das sociedades capitalistas, economicistas, desequilibradas, transformadas e urbanizadas contemporâneas?

Soja já o disse, mas outro argumento, também por ele aduzido, faz todo o sentido:

é que uma das características vitais, inerentes, ao funcionamento do capitalismo 

- e todos vivemos afectados por ele, uns em cima, a rirem-se de cachimbo, outros em baixo, a chafurdar no lixo em busca de comida; uns no dito centro, com tempo para os lazeres e o pensamento intelectual e o ócio, outros na por conseguinte periferia a trabalhar (alguns bem-) mais de quarenta horas por semana para continuar a levar pra casa os salários de miséria que nos mantêm coarctados para viver outra realidade que não a de pagar dívidas e sobreviver - 

é o direito de propriedade.

Ora, como pudemos descurar que a propriedade é, inicial e essencialmente, espacial, territorial?

Este carácter da propriedade é a primeira forma do exercício do poder.

Imaginem um Banco, uma sede daquelas, central, com edifício de pedra, protegida 24 horas por dia por sentinelas policiais que se revezam na sua mui nobre função... humm... "pública". De proteger os cidadãos, claro está: proteger o poder é essencial, senão ele logo vem com ameaças. Da mesma forma que a crise económica - acusam-nos, a nós consumidores, culpados - é a de temos baixado o consumo... Há que seguir no caminho errado, pois parar faz pensar e isso nunca!

Imaginem um banco desses. Bem, eu já disse para o imaginarem de pedra... mas estão a imaginá-lo do tamanho de um quiosque?
Porque será que não?

Porque o Banco é uma das instituições capitais que regem a forma como vivemos e a de como sobrevivemos, logo, tem de se impor à vista, demonstrar o seu poder, ser credível e respeitado, instituir, portanto, e fazer escola no pensamento das baratinhas tontas (o diminutivo é polissemântico) que somos nós.

Os mendigos são pequenos, não têm poder, não têm voz, passamos por eles a dizer não, a baixar os olhos, a desolhar, a recear caírmos no seu buraco irmão. Vem um polícia manter a ordem e dizer que o senhor cidadão não deve permanecer naquele lugar, que afasta a clientela e um rol de etcetras que evidenciam os valores que lhes disseram para seguir e proteger.

Mas não há polícias, militares, blackwaters ou canhões de água ainda que varram os Bancos: são seus filhos-acólitos e temos de inventar formas outras de contra-opressão e contrapoder.

Olhemos à nossa volta e vejamos onde estão (a palavra-chave é sempre e em primeiríssimo lugar o onde) os poderes. O económico à cabeça, mas o político, que é o seu cão de trela. Vejamos onde estão as pessoas com vencimentos acima de x e onde vivem as pessoas sem vencimentos ou com salário mínimo ou de reinserção:
CARAMBA, será que isso não nos diz nada sobre a centralidade do espaço para uma leitura possível da realidade?

Está claro que não é a única: mas também não podemos ver tudo pela óptica só da economia, nem das classes sociais, nem da história, nem da organização social.

É isso que Soja reitera: ter o espaço ao mesmo nível de importância que a história e os factos sociais.

Esta abordagem integrada acrescenta a tal "terceira dimensão", necessária por exemplo ao pensamento geométrico, que expande as capacidades do intelecto e nos permite, no fundo, uma leitura mais ampla e relacional do caos bruto que se nos apresenta a cada dia.

quinta-feira, janeiro 30, 2014

Os Executores

A noite passada um paredão emergiu e eu senti que me afundava.

Afixaram a propaganda em todas as paredes
para dar de comer aos olhos dos papalvos,
que para isso os mandaram ir à escola.

Aos poucos se foram dirigindo para a praça pública.
Estavam lá e estavam espalhados,
desconhecendo os porquês de não estarem sozinhos,
mas assim continuando.

Os caídos paravam pelos cantos
pedindo a moeda dos outros.

O seu maior erro foi acreditar
e isso é algo muito profundo 
com que se brincar.

Aos poucos uma e outra arma
a eles apontada
arma-partida-perdida
de todo o lado erguida pelo pelotão invisível.

E o medo a instalar-se
ergueu paredes por dentro dos corpos
Cada vez mais nítidos, identificáveis, concentrados,
culpados, os caídos juntavam-se mais,
como combatendo um frio que não parava de vir.

A única forma de escaparem era
pagarem para sair daquele buraco,
mas era precisamente a eles a quem isso era negado,
sem moeda para que os entendessem.

E homens chegaram e se puseram 
atrás das armas (por quem?) apontadas.
De olho na mira, tapado.
O outro, fechado
e eram anónimos,
sem identificação
ou apelo possível.

Mas já nada disso interessava.

Armas-pinkerton,
pistolas-panópticas do medo
que petrificam os corpos.

Milhares de armas 
assim apontadas na praça pública
assim transformadas em campo de concentrados.

Os pobres corpos
sem protecção
amalgamavam-se, todos iguais,
numa massa cor-de-creme.

E quando um momento certo 
chegou, alguém deu ordem para abater
e o gado do interior usava os corpos de fora como escudos.

No vórtice do metralhar sem descanso
os golpes perfuravam, certeiros,
Unidos por baionetas sem tempo
eram espetadas no fogo cruzado.

E os que estavam à volta
iam passando, indiferentes,
E cavavam trincheiras 
cada vez mais fundas,
cada vez mais longe do mundo
para se abrigarem
dos estilhaços que choviam.

Num grito de raiva
vociferavam todos os executores
VÓS SOIS O MILAGRE ECONÓMICO!!!
e nos seus esgares riam
como trovões contínuos.

EU SOU O SISTEMA, gritavam, irados,
e assim se sentiam fortalecidos no seu poder.
Prescindiam dos pobres humanos pobres
não prescindindo de os chacinar.

E os caídos nunca chegaram 
a saber dos porquês:
eram o milagre económico.

Nós somos executores, hierarquizados,
cumpridores,
estrategicamente distribuídos.
Em cada cidade uma praça pública.
- Todos os quarteirões foram privatizados,
restam as vias e as praças públicas,
onde podem penar, pernoitar, sangrar livremente, 
a cada dia,
os caídos.

A justiça virada do avesso,
feita crime sob forma de lei a executar
na sociedade fascista.

São perigosos os grupos assassinos
que emergem na sociedade, 
sempre à espreita,
prestes, prontos para atacar,
esquadrões da morte
com as mãos à espera nos coldres
e nos lança-chamas para limparem as cidades.

Já não são perigosos,
já deixaram de ser perigosos
os executores que fazem escola
e são organizados e previsíveis,
para eliminar não a pobreza mas os pobres.

São anónimos
Não lhes vemos os olhos.
Uns não se salvam,
outros, por eles, por isso,
são saneados.

"E tu ficas aqui
e tu morres aqui
e daqui ninguém sai!"

A noite passada foi um sonho mau que não passou.

Somos anónimos
e não nos vemos nos olhos.



Francisco de Goya

terça-feira, janeiro 07, 2014

Boa Educação

O que existe respira connosco e inspira-nos.
Ou, se não nos demover (normalmente comove-nos...), obriga-nos a respirar e a inspirar o seu ar, então, semeado de morte.

O sistema de ensino de que se fala é o do ensino escolar.
Ficam fora de questão todos os outros.

Um, depauperado, falha.
Os restantes, tomados, não têm falhado.
A não ser que.
Hipótese remota, mas, a ser imaginada, é uma hipótese, portanto.

A tal boa educação que nos diz pra lavarmos as mãos antes de irmos prà mesa.
A mesma que nos diz pra não deitarmos lixo prò chão.

Insuficiente, a boa educação da má consciência.
A do pica-o-ponto e prossegue nas práticas dogmáticas: são feitas com boa intenção, com boa educação.
E isso basta-nos.

It's all about the money!
Milhares de seres a explorarem-se uns aos outros, numa rodinha cujo começo não nos questionamos.
E para quê?, não é?

O dinheiro não ensina: impõe-se e, com isso, impõe a não-educação.

É fácil ter filhos, difícil é educá-los; não te ensinam o sexo, mas tens mesmo de aprender a educar.
As infra-estruturas culturais não criam necessariamente cultura: permitem e, em certa medida, fomentam a que ela exista, mas não fazem magia e, plof!, aí tens.

(A cultura já esteve fora do império da mercadoria: quando descobriram que o petróleo ardia, inventaram o carro a combustão.
Temos uma televisão, por favor, arranjem-se os "conteúdozinhos" para ela passar caixa vazia, agora ecrã plano com ligas de metais raros sacados aos habitats longe da tua vista, seu comprador de boa-nenhuma consciência que contribuis alegremente sem esforço para a salvação do planeta, ui!)

Tens o hardware, rico opulento, mas não tens o software e assim revelas o teu atraso mental.
Falámos disto no artigo anterior.

O progresso propagado pelo capital não passa de crescimento económico.
Enquanto os senhores comandantes estiverem de pança inchada, tudo está bem.
Depois vem a tal hipótese remota.

Dizem os sociólogos de boca cheia: as estruturas sociais... blá, blargh!
Mas que estruturas sociais?!?
Como é que funcionam realmente? Materializam-se em quê?
É preciso pensar muito e elaborar teorias complicadas, seus ilegíveis?

Mostrem-se ao mundo, gritai na praça pública, com cartazes iguais aos do 

QUERO COMER.

ou

QUERO SER FELIZ, PORRA!

e denunciai as coisas, seus encafuados e arredados daqueles de quem gostais de falar e estudar!

Assim:

"A obsolescência e o entretenimento planificados são só mais algumas excrescências da moral protestante, inquinada, anacrónica e ruim de ultrapassar do modelo individualista e destruidor do capitalismo.

O relógio foi-te colocado no pulso para andares a toque de caixa.
O desporto educa-te para a concorrência e produz os falhados.
O futebol é espectáculo fálico a sublimar as tuas frustrações de causas identificáveis, normalizando-as, "naturalizando-tas".
A verticalidade dos edifícios urbanos ensina-te para a hierarquia e para a concentração, estruturas basilares do funcionamento capitalista.
(Salvador Dalí)

A tecnocracia invadiu os espaços de potencial reflexão e vende-tos como mercadoria.
E vende-tos com esquemas incompreensíveis que servem para te preencher de vazio o espaço mental, o da liberdade que te restava.

No meio de tudo isto, tu assobias por entre os outros hormens como forma de te sentires contigo.

Desestruturado e desenraizado, individual e socialmente, só um entretenimento cada vez mais viciante consegue ocultar o sem-sentido com que nasceste e que carregas contigo até à morte. 

As crises do capitalismo são estruturais, porque, como qualquer sistema, ele defronta-se com as variáveis que desestabilizam a teoria, secundadas, portanto, pelos teólogos e profetas da beleza e do melhor dos mundos.

As crises do capitalismo são recorrentes, mas a sua recorrência também demonstra a frequência dos obstáculos com que se defronta: sejam eles:

- a finitude dos meios naturais (vulgo recursos) (A teoria diz que o capitalismo tem de crescer sempre. Para onde, depois, ? importa perguntar.)
- a inadequação do que ele quer produzir ao que ele vende para se impor (A criação de empregos numa área não vai afectar muito as pessoas desempregadas da sua região, uma vez que estas são importadas como escravas. Por exemplo.)
- as massas de deserdados (a distribuição incompatível com a concentração.

(Ouvi esta hoje: "se os ricos pudessem pagar aos pobres, só estes iam à retrete da morte."
Com o prejuízo - que pena! - que assim sendo, um dia alguns ricos teriam de ser "despromovidos" a pobres, para os restantes continuarem vivos.)

- a fome e a raiva.

Ou vai o sistema apanagiar-se de todas as causas das suas crises?, como se pretendesse governar sozinho, sistema quase suspenso no ar, como aquela pintura do Dalí, nada querendo ter a ver com a Terra, essa imunda!


Cada um de nós pode enfraquecer o capitalismo.
Impondo fronteiras erguidas em ideias que lhe são contrárias.

Sim, haverá mortes.
Grandes dramas humanos e convulsões sociais.

(Quando as não há, só concebo que tudo esteja mesmo muito bem controladinho. E isso é muito mau sinal, porque é a maioria que está a perder.)

Mas não é isso o que acontece desde que este extra-terrestre veio subjugar a Terra?