quinta-feira, janeiro 30, 2014

Os Executores

A noite passada um paredão emergiu e eu senti que me afundava.

Afixaram a propaganda em todas as paredes
para dar de comer aos olhos dos papalvos,
que para isso os mandaram ir à escola.

Aos poucos se foram dirigindo para a praça pública.
Estavam lá e estavam espalhados,
desconhecendo os porquês de não estarem sozinhos,
mas assim continuando.

Os caídos paravam pelos cantos
pedindo a moeda dos outros.

O seu maior erro foi acreditar
e isso é algo muito profundo 
com que se brincar.

Aos poucos uma e outra arma
a eles apontada
arma-partida-perdida
de todo o lado erguida pelo pelotão invisível.

E o medo a instalar-se
ergueu paredes por dentro dos corpos
Cada vez mais nítidos, identificáveis, concentrados,
culpados, os caídos juntavam-se mais,
como combatendo um frio que não parava de vir.

A única forma de escaparem era
pagarem para sair daquele buraco,
mas era precisamente a eles a quem isso era negado,
sem moeda para que os entendessem.

E homens chegaram e se puseram 
atrás das armas (por quem?) apontadas.
De olho na mira, tapado.
O outro, fechado
e eram anónimos,
sem identificação
ou apelo possível.

Mas já nada disso interessava.

Armas-pinkerton,
pistolas-panópticas do medo
que petrificam os corpos.

Milhares de armas 
assim apontadas na praça pública
assim transformadas em campo de concentrados.

Os pobres corpos
sem protecção
amalgamavam-se, todos iguais,
numa massa cor-de-creme.

E quando um momento certo 
chegou, alguém deu ordem para abater
e o gado do interior usava os corpos de fora como escudos.

No vórtice do metralhar sem descanso
os golpes perfuravam, certeiros,
Unidos por baionetas sem tempo
eram espetadas no fogo cruzado.

E os que estavam à volta
iam passando, indiferentes,
E cavavam trincheiras 
cada vez mais fundas,
cada vez mais longe do mundo
para se abrigarem
dos estilhaços que choviam.

Num grito de raiva
vociferavam todos os executores
VÓS SOIS O MILAGRE ECONÓMICO!!!
e nos seus esgares riam
como trovões contínuos.

EU SOU O SISTEMA, gritavam, irados,
e assim se sentiam fortalecidos no seu poder.
Prescindiam dos pobres humanos pobres
não prescindindo de os chacinar.

E os caídos nunca chegaram 
a saber dos porquês:
eram o milagre económico.

Nós somos executores, hierarquizados,
cumpridores,
estrategicamente distribuídos.
Em cada cidade uma praça pública.
- Todos os quarteirões foram privatizados,
restam as vias e as praças públicas,
onde podem penar, pernoitar, sangrar livremente, 
a cada dia,
os caídos.

A justiça virada do avesso,
feita crime sob forma de lei a executar
na sociedade fascista.

São perigosos os grupos assassinos
que emergem na sociedade, 
sempre à espreita,
prestes, prontos para atacar,
esquadrões da morte
com as mãos à espera nos coldres
e nos lança-chamas para limparem as cidades.

Já não são perigosos,
já deixaram de ser perigosos
os executores que fazem escola
e são organizados e previsíveis,
para eliminar não a pobreza mas os pobres.

São anónimos
Não lhes vemos os olhos.
Uns não se salvam,
outros, por eles, por isso,
são saneados.

"E tu ficas aqui
e tu morres aqui
e daqui ninguém sai!"

A noite passada foi um sonho mau que não passou.

Somos anónimos
e não nos vemos nos olhos.



Francisco de Goya

domingo, janeiro 19, 2014

Deixemos de comer cinza!


 
"O graffiti faz parte da parada urbana..."
Deixemos de comer cinza!

terça-feira, janeiro 07, 2014

Boa Educação

O que existe respira connosco e inspira-nos.
Ou, se não nos demover (normalmente comove-nos...), obriga-nos a respirar e a inspirar o seu ar, então, semeado de morte.

O sistema de ensino de que se fala é o do ensino escolar.
Ficam fora de questão todos os outros.

Um, depauperado, falha.
Os restantes, tomados, não têm falhado.
A não ser que.
Hipótese remota, mas, a ser imaginada, é uma hipótese, portanto.

A tal boa educação que nos diz pra lavarmos as mãos antes de irmos prà mesa.
A mesma que nos diz pra não deitarmos lixo prò chão.

Insuficiente, a boa educação da má consciência.
A do pica-o-ponto e prossegue nas práticas dogmáticas: são feitas com boa intenção, com boa educação.
E isso basta-nos.

It's all about the money!
Milhares de seres a explorarem-se uns aos outros, numa rodinha cujo começo não nos questionamos.
E para quê?, não é?

O dinheiro não ensina: impõe-se e, com isso, impõe a não-educação.

É fácil ter filhos, difícil é educá-los; não te ensinam o sexo, mas tens mesmo de aprender a educar.
As infra-estruturas culturais não criam necessariamente cultura: permitem e, em certa medida, fomentam a que ela exista, mas não fazem magia e, plof!, aí tens.

(A cultura já esteve fora do império da mercadoria: quando descobriram que o petróleo ardia, inventaram o carro a combustão.
Temos uma televisão, por favor, arranjem-se os "conteúdozinhos" para ela passar caixa vazia, agora ecrã plano com ligas de metais raros sacados aos habitats longe da tua vista, seu comprador de boa-nenhuma consciência que contribuis alegremente sem esforço para a salvação do planeta, ui!)

Tens o hardware, rico opulento, mas não tens o software e assim revelas o teu atraso mental.
Falámos disto no artigo anterior.

O progresso propagado pelo capital não passa de crescimento económico.
Enquanto os senhores comandantes estiverem de pança inchada, tudo está bem.
Depois vem a tal hipótese remota.

Dizem os sociólogos de boca cheia: as estruturas sociais... blá, blargh!
Mas que estruturas sociais?!?
Como é que funcionam realmente? Materializam-se em quê?
É preciso pensar muito e elaborar teorias complicadas, seus ilegíveis?

Mostrem-se ao mundo, gritai na praça pública, com cartazes iguais aos do 

QUERO COMER.

ou

QUERO SER FELIZ, PORRA!

e denunciai as coisas, seus encafuados e arredados daqueles de quem gostais de falar e estudar!

Assim:

"A obsolescência e o entretenimento planificados são só mais algumas excrescências da moral protestante, inquinada, anacrónica e ruim de ultrapassar do modelo individualista e destruidor do capitalismo.

O relógio foi-te colocado no pulso para andares a toque de caixa.
O desporto educa-te para a concorrência e produz os falhados.
O futebol é espectáculo fálico a sublimar as tuas frustrações de causas identificáveis, normalizando-as, "naturalizando-tas".
A verticalidade dos edifícios urbanos ensina-te para a hierarquia e para a concentração, estruturas basilares do funcionamento capitalista.
(Salvador Dalí)

A tecnocracia invadiu os espaços de potencial reflexão e vende-tos como mercadoria.
E vende-tos com esquemas incompreensíveis que servem para te preencher de vazio o espaço mental, o da liberdade que te restava.

No meio de tudo isto, tu assobias por entre os outros hormens como forma de te sentires contigo.

Desestruturado e desenraizado, individual e socialmente, só um entretenimento cada vez mais viciante consegue ocultar o sem-sentido com que nasceste e que carregas contigo até à morte. 

As crises do capitalismo são estruturais, porque, como qualquer sistema, ele defronta-se com as variáveis que desestabilizam a teoria, secundadas, portanto, pelos teólogos e profetas da beleza e do melhor dos mundos.

As crises do capitalismo são recorrentes, mas a sua recorrência também demonstra a frequência dos obstáculos com que se defronta: sejam eles:

- a finitude dos meios naturais (vulgo recursos) (A teoria diz que o capitalismo tem de crescer sempre. Para onde, depois, ? importa perguntar.)
- a inadequação do que ele quer produzir ao que ele vende para se impor (A criação de empregos numa área não vai afectar muito as pessoas desempregadas da sua região, uma vez que estas são importadas como escravas. Por exemplo.)
- as massas de deserdados (a distribuição incompatível com a concentração.

(Ouvi esta hoje: "se os ricos pudessem pagar aos pobres, só estes iam à retrete da morte."
Com o prejuízo - que pena! - que assim sendo, um dia alguns ricos teriam de ser "despromovidos" a pobres, para os restantes continuarem vivos.)

- a fome e a raiva.

Ou vai o sistema apanagiar-se de todas as causas das suas crises?, como se pretendesse governar sozinho, sistema quase suspenso no ar, como aquela pintura do Dalí, nada querendo ter a ver com a Terra, essa imunda!


Cada um de nós pode enfraquecer o capitalismo.
Impondo fronteiras erguidas em ideias que lhe são contrárias.

Sim, haverá mortes.
Grandes dramas humanos e convulsões sociais.

(Quando as não há, só concebo que tudo esteja mesmo muito bem controladinho. E isso é muito mau sinal, porque é a maioria que está a perder.)

Mas não é isso o que acontece desde que este extra-terrestre veio subjugar a Terra?