domingo, outubro 31, 2010

A sociologia como crua (e o sal como ferida)




1

Nós também queremos viver...!

Num dia da semana, por volta das 17h, é vê-los:
Estacionados em cima do passeio
(põem os quatro piscas).
Põem os quatro piscas,
porque estacionam em cima do passeio
(são bem educados).

Um BMW, um Audi, um jipe Nissan
(um jipe. Com pneus sem lama nem terra).


Obrigam-nos a parar.
Obrigam-nos a penar
e a pagar o que já não temos,
anjos de pureza.

Fazem de nós espectadores, amestrados.

E os lucros astronómicos da banca
são o fracasso que nos obrigam a comer.

Que podemos nós fazer?

Tirem-nos tudo.
Somos os impotentes.

Mas ainda podemos matar.


2

Nós já declarámos guerras...

E não teria havido
a cena do ódio
sem o FMI.
(E não teria havido FMI
sem A Cena do Ódio.)

Odeio-te, capitalismo bem educado!
Dóis-me, trabalhador precário,
operário sem saída.

Tu, que dormes mal de noite
(Como é que se pode ter calma?...)

Odeio esta guerra que nos separa!

As maiores perdas,
as perdas dolorosas,
que nos levam tudo.

Odeio-te, capitalismo.
Tenho-te raiva!
Odeio-te para sempre!!!!!!!!!!

Leva tudo.
Não ponhas os quatro piscas.
Leva tudo!


Somos os impotentes.

Mas ainda podemos morrer.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Manifesto Anti-Consumista

Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.
Garbiel Celaya



Dizem que os marxistas padecem de uma visão simplista da sociedade: acusam-nos de verem tudo baseado no trabalho.
Não me interessa, sem me interessar sequer que vejam nisto um qualquer seguimento, da minha parte, de uma visão marxista da sociedade.

Mas melhor ainda direi, para não enganar ninguém com ambiguidades:


Tudo assenta no consumo e produção.
São as tetas desta nossa alienação.

(Adolfo Luxúria Canibal)


Tomara eu que assim não fosse, afirmando, portanto, que tomo eu que assim é.

Em alguns artigos passados tenho vindo, pessoalmente, a dar ênfase a este assunto. O consumismo e a destruição que ele acarreta.
Teríamos todo o direito de o seguir, quais cabras mandadas para o matadouro, se esse dano apenas recaísse em nós próprios. Exclusivamente.

Importa dizer quantas vezes forem precisas:
Não recai.

Para trás deixamos paisagens decepcionantes que não escondem a vergonha daquilo em que nos transformámos: uma fábrica de lixo. E o lixo, como se sabe, atrai mais lixo.

"Saímos de uma sociedade rural, muito subdesenvolvida, para um consumismo irracional que provoca profundos traumas na juventude."

Isto foi dito há 25 anos por José Afonso.

Quais as formas de sair de um beco?

Acusem-me de básico, mas a resposta é muito simples:
Recuar.

A economia, tal como tem vindo a ser construída, e consolidada (e aplaudida pelas massas que a ela se conformam e que ela própria formata)... não tem futuro.

Não é já a questão existencialista de que toda a vida contém em si a semente da destruição. De que a mesma mão que salva é a mesma que pode afagar. Que a mesma água que nos sacia a sede num segundo nos arrasa o corpo em vagas.

Muita coisa está já feita.



"For now million bombs are stored, but they keep building more and more".
Phil Ochs


Se o Homem é vontade irreprimível de criar, que aprenda a criar o necessário.
A evolução tecnológica tem sido tão impressionante desde a história da Humanidade...
Mas não nos impressiona que o progresso social, por sua vez, continue tão... atrasado?
Nos próprios países cheios de técnica e inovação científica coexiste, uma que seja!, uma pessoa sem tecto.
Uma que seja!

Como explicar isto?
Como explicar, e justificar, este desequilíbrio, esta desigualdade, estes extremos?

Forças maiores que nós?
Não nos demitamos mais!
Nós somos as peças desta engrenagem!

(Tudo assenta no consumo e na produção!)

Somos nós os consumidores, somos nós os produtores.

O que importa é, no que está já criado, fazê-lo durar: reintroduzi-lo no ciclo do consumo. Já falámos sobre isto
aqui e repescámo-lo outra vez agora.

O ciclo normal, sem lupas nem espinhas, é:
Produção - Consumo - Destruição

Ora, muito do que consumimos não fica destruído depois de consumido.
São esses produtos que temos de renovar, reintroduzindo-os no ciclo.

Que consequências é que isso tem?

Uma vez, um professor resumiu o funcionamento da economia nestas palavras simples:
Se vocês, no bar, optarem por um croissant, isso serve de estímulo a que quem o vende compre um croissant no dia seguinte.

E isso serve de estímulo a que o fabricante de croissants produza um croissant no dia seguinte.


QUEREM DEMONSTRAÇÃO MELHOR DO NOSSO PODER NA ECONOMIA?


No caso, fala-se de um ente perecível. Fala-se de alimentação. (Mas ressalve-se que nem todo o produto alimentício tem o mesmo valor (nem ético nem nutricional) na hora de satisfazer a necessidade básica que é a subsistência do corpo.

Mas, em relação aos entes que se não destroem com o consumo, é obrigação nossa, MINHA, de os renovar, partilhando-os. Reafirmar e reconstruir a solidariedade.

Ora, que consequências é que isto tem? (novamente perguntamos)

Tem a consequência contrária do que dissemos:
Não estimulamos mais produção.

Que consequências é que este não-estímulo pode ter?

Em poucas palavras, pura e simplesmente...
... a quebra da economia.

Qual é o nosso poder?

Esteremos condenados a ser prostitutas para sempre? O varão em que roçamos os nossos corpos sujos todos os dias é o da submissão ao consumismo.
Estaremos sempre a ser ameaçados com a mordaça do desemprego, da fome, com o argumento do colapso da economia?

ESTÁS DOIDO?? - acusai-me, pois.

Mas é precisamente aqui que eu queria chegar.
Qual é o nosso poder de mudar?

Se não temos poder, nem este, o de escolher NÃO CONSUMIR (imagino-vos a meterem-me lixo pela goela abaixo... ou então, a misturar vacinas de H5N1 nas vacinas contra a gripe sazonal!), então, amigos, aí temos a liberdade em que temos vivido.
A liberdade do sistema que temos, dia a dia, erigido para nós.
O sistema económico e social que dia a dia, com o suor e o medo da morte, temos construído para vivermos. Que temos construído para morrermos.

Porque o consumismo tem um fim.
Porque temos, de uma vez por todas, de demonstrar que o Capitalismo contém em si a sua própria destruição.
Neguemos ao nosso corpo (o capitalismo) os alívios, as escapatórias, as contínuas águas na fervura que têm tornado este planeta insustentável, horrendo e injusto.

Se bem lemos o exemplo do
artigo anterior então sabemos que não teremos fuga possível senão... RECUAR.

Não é dar meia volta e seguir em frente!, Não podemos esquecer nunca o muro de qual temos de nos afastar.

Não me preocupo com seguidores.
Cada um faz o que quiser.
De acordo com a sua consciência.
Que seja cada um o seu próprio comité central.

Qual o hino?
O silêncio.
Qual a cor da bandeira?
Nenhuma.
Qual o símbolo?
Uma faca espetada na Terra não será...


Eu sabia que mais cedo ou mais tarde viria aqui ter.
Há cerca de dez anos escrevi uma ideia com que vim a tropeçar há dias numa imagem.

"E só com uma arma apontada à cabeça é que eu descobri que o capitalismo podia ser uma boa experiência para mim."

Eu sabia que mais cedo ou mais tarde viria ter aqui:

(Trade Mark, diz ele!)

Pessoalmente, e sem vergonha da minha privacidade, que o meu corpo é tão conhecido e vergonhoso como o de qualquer um, eis a anatomia do Homo Consumens que sou:

Não consumo estupefacientes, não fumo, não mastigo chiclete, não sou alcoólico, nem bebo café.
Estas dependências não só não são essenciais à vida, como, numa questão de tempo, a negam.

Há outras drogas, que não passam por substâncias químicas com existência física.
Também dessas, já as tenho todas. E são renováveis:
A música e as palavras.

Será esta dimensão essencial à vida?
Sim, tal como a necessidade do amor e da amizade, essenciais a uma vida intelectual e afectiva sã.

Consumo energia (não alimentícia), alimentos e água (para ingerir, literalmente) e recursos (água, sabão...).

Que, respectivamente, ajudam à manutenção do meu corpo social e económico, que são a base da existência do meu corpo individual e que ajudam à manutenção da saúde física do meu corpo.

"Ah, em tempos de carestia e privação é fácil quereres gerir o que consomes: pois a isso te vês obrigado!..."

Vivemos tempos de carestia como vivemos em tempos de abundância. Depende do lado em que estivermos...

Temos o direito à greve de fome?
A sociedade reconhece-nos o direito a desistirmos da vida? Desta vida-morte?
ah... tão inquietante é um homem a chorar entre os que consomem.
Desestabiliza os seus risinhos mesquinhos de sacos na mão.

"São tão duras as pessoas felizes..."
Coitados.

"Dão-se loas a quem nos encerra na servil condição de demanda". (Adolfo Luxúria Canibal)

"Quanto mais se possui tanto mais se é possuído." (Nietzsche)


Consumir o essencial.
Recusar o excedentário.
Acelerar o colapso, o erro da economia do supérfluo.
Sermos, rapidamente e em força, o raio que anuncia a tempestade da nuvem carregadinha e impaciente...

Forçá-lo a mudar e a concentrar-se no que é importante.

Grandes convulsões sociais, redefinição das estratégias (e dos objectivos? Qual é e qual tem sido o objectivo da Humanidade?), remodelação dos sectores de actividade, milhares de pessoas no desemprego porque os seus trabalhos se baseavam no que não importa...

(Já viram o peso económico que tem o sector primário nas economias ditas desenvolvidas? Como é que é sustentável um mundo assim?

Já viram quantas pessoas no mundo vivem concentradas nas cidades? Como é que é sustentável uma Terra assim?)

Economia baseada na inutilidade e na destruição.
Poderiam os supérfluos viver/morrer à vontade, se - já o dissemos - a sua vida não assentasse na destruição da dos outros e dos outros.

Inúteis e destruidores.
Como os especuladores, os banqueiros... quem é que precisa deles?
QUE produzem eles? QUE andamos nós a produzir?
Produzem riqueza? ahahah. Não, amigos, apenas a acumulam. Logo, são os afirmadores da desigualdade.
Produzem dinheiro? ahahah. Não, amigos, o dinheiro não vale nada: são só metal e papel. Ou, dígitos.

No mundo novo que queremos, justo, equitativo e respeituoso para com o Ambiente, o dinheiro não valerá nada... porque somos nós que lhe damos valor.
E no mundo novo que já estamos a construir o nosso valor será dado àquilo que nos mantém vivos e que, para tal, não precisa de destruir a vida dos outros. Nem a vida.

Será, de hoje em diante, o meu dever para com a Terra.
Não há paus que cheguem para engrenagens tão colossais e tentaculares.
Apenas a subtracção vale.
Destituídos dos nossos direitos e da nossa dignidade de seres humanos, já não temos nada a perder.

Nada a perder. A minha forma de me subtrair a mim mesmo, tomado que estou pelo inútil, é negar o consumismo.
Não entendereis a minha linguagem, talvez.
Pode este parecer um manifesto radical. E é-o porque pretende ir às raízes. Mas é tão sensato... tão sensato...

Porque um auto-isolamento assim é, paradoxalmente, a afirmação última da fidelidade à Terra e ao amor que ainda resta dos homens.

Digo NÃO ao consumismo.
Digamos NÃO.
BASTA.

sexta-feira, outubro 15, 2010

Somos os maiores!



Continuemos na boa senda...


(o que vale é que agora o OE vai pôr-nos a todos a mendigar...)

terça-feira, outubro 05, 2010

Espaços vitais

Uma noite de lua cheia
atravessámos a montanha.
Lentamente. Sem dizer nada.
Se a lua era plena
também o era a nossa pena.

Para que se nos perdoe
a guerra, que a estropia,
me ajoelho e beijo a minha terra.
Com a sombra a acaricio,
antes de passar a raia.

Na Catalunha deixei
No dia da minha partida
meia vida adormecida.
A outra metade veio comigo
para não me deixar sem vida.

Na minha terra do Vallés
três montes fazem uma serra,
quatro pinheiros um bosque denso,
cinco quarteirões muita terra!
"Não há terra como o Vallés!"

Hoje em terras de França
E amanhã mais longe, talvez,
Não morrerei de saudade,
Antes de saudade viverei.

Uma esperança desfeita.
Um pesar infinito
E uma pátria tão pequena
que sonho completa.


Joan Oliver (Pere-Quart)
Tradução de Eduardo F.


Espaços vitais

O arrumador de carros afasta os companheiros, aos gritos:
- A minha zona vai daqui até ali!

O colonialista impõe-se, em todas as frentes:
(na quantidade de produtos, meios de expressão, valores e significações...)
mais ou menos ruidosamente.
Na consumo expansivo e incessante, todo o espaço, uma vez conquistado, se torna pequeno.

(...a Terra é finita...)

(...)


Espaços sociais

No autocarro e no comboio, um pressuposto, aceite conforme a densidade, da distância dos corpos (que vai, em último caso, a uma questão de milímetros, ou mesmo ao contacto físico.)
Um ombro que se toca...

Se os transportes públicos estão vazios, aceitamos -esperamos- que as pessoas se sentem isoladas umas das outras.
"Porque têm medo da solidariedade!"...
?

Nas filas para os pagamentos ou para os levantamentos, necessário é, por privacidade e respeito, que se conserve uma certa distância.
Não invasiva. Na ordem dos centímetros até ao metro.

(...)


Espaços íntimos

À mesa com a família, as conversas privadas da vida e da morte, do crescimento e do envelhecimento. Das ilusões e desilusões de cá estarmos, ficarmos, das penas por quem cá deixarmos.
Palavras íntimas que estranhos também terão. Noutra língua. Para designar as mesmas coisas. Precisamente as mesmas coisas...


Os amantes precisam de um lugar, aberto ou fechado, onde mais ninguém exista.
Onde, conforme o poder de abstracção que um invocar no outro, mais ninguém consiga existir.
Ali. Naquele momento.
Durante aquela eternidade.


Não pensar em mais ninguém:
- És só meu / És só minha...
- Sim, mas será para sempre?
Como, então, suportar a ideia da exclusividade que vai durando?

(...)


Espaços desencontrados / Espaços perdidos

Os mendigos não têm espaços íntimos.
Os sem-abrigo não têm espaço social.
Os refugiados não têm espaço vital - têm um não-espaço vital.
Donde não podem sair.

Os exilados e os emigrantes têm de recomeçar tudo de novo.


A nossa vida é
a soma dos lugares em que criámos raízes,
a soma, diferencial, das pessoas em que criámos laços.

A liberdade do indivíduo mede-se com as liberdades das pessoas que o fazem.



À medida que o mundo nos vai estrangulando a paz, invadindo-nos em todos os campos da nossa vida, seja através do ruído, do trabalho ou da falta dele, da economia inelutável, da política do desleixo, da cultura do consumo, dos média sufocantes ..., fugas se impõem.
Necessariamente.

Para mantermos a sanidade.
Para continuarmos vivos.
Precisamos de paz.

Precisamos de um espaço que seja nosso.
Precisamos de uma loucura que seja só nossa...

- O meu vício é só meu!
- Sim, mas já viste quantos milhões como tu têm esse vício?

Pessoas com auscultadores, deixando para longe o mundo à sua volta.
Pessoas ao telemóvel, trazendo para perto o mundo não à sua volta.
Cada um na sua.
Solidão multiplicada.
Desencontros continuamente adiados.
Negação do mundo.


As fugas encontradas, se muito perseguidas e mesmo assim não achadas, podem ir ao ponto de disfunções: reacções químicas, psicológicas, psicossomáticas. Obsessivo-compulsivas. Esquizofrénicas.
Ansiedade. Carências contínuas e irresolúveis.
(Inexoráveis?)

Criação de mundos imaginários.
Mundos irreais que nos respondam ao que o mundo não nos soube responder...
Que nos devolvam a nossa realidade.
O nosso direito de existir.
Não abdicarmos da nossa vida.

Onde nos sintamos nós.
Onde possamos gritar.
Onde possamos finalmente ouvir a nossa voz.

Negação da solidão inútil, estioladora.
Apurada, aprimorada...
...com a solidão.


"Perguntando a um grande filósofo qual era a melhor terra do mundo,
respondeu que a mais deserta.
Porque a mais afastada dos homens!"

"Sermão de Santo António aos Peixes",
Padre António Vieira


Viva a liberdade.