sexta-feira, outubro 05, 2012

"Está a nascer um negócio na tua cabeça, Zé / Está, sim, está, sim"


"...Corta o mal antes que cresça, Zé..."
 
 
(Povinho)



(Reportagem com propaganda associada, no início:
recomendo calar o som ir ali e só voltar daqui a um minuto)

 
 
É tão engraçado que - honra lhe seja feita, que fala muito bem e tal - o analista chamado a comentar estas alterações demográficas e deslocações geográficas seja, não um geógrafo - coitados deles! onde estão eles? - mas, sim, e mais uma vez - incrível não terem ido bater ao peito de um arquitecto... - um sociólogo.
O erro fica mais ou menos mitigado, contrabalançado, com a intervenção de um ambientalista?
 
(Reparem que enquanto o sociólogo é meramente descritivo e informativo) deve ter sido o que lhe foi pedido...), o ambientalista toma posição. Nem de outra forma poderia ser! O que podia era o sociólogo... sê-lo: fornecer pistas de leitura, semear perguntas e inquietações. Isso era negar a sua demissão de analista do status quo.)
 
Muito bem. Adiante.
 
Esta reportagem destina-se a quem, afinal??

Sim, há pessoas que, mesmo que tivessem, nem teriam tempo para ver televisão...
Algumas pessoas - algumas famílias, vêm eles chamar as coisas bonitinhas pelos seus nomes atractivos - puderam dar-se ao luxo de ir viver para concelhos periféricos ao de Lisboa (são indicados Palmela, Alcochete e Mafra). Com os seus carrinhos e os seus meninos-bem, optaram "por uma vida mais tranquila" e "longe do bulício da cidade". Em moradias, pois então. Isso, ficai amarrados pela corda para o resto da vida. Há uma ideologia por trás disso, que vós seguistes...
(Como é que propalam tanto a "flexibilidade" e defendem tanto o "agarrar de oportunidades" quando o que vemos sempre é as pessoas a procurarem a estabilidade e o "sossego"? Destas duas vontades, qual dela quer, qual delas vai vencer neste jogo do gato e do rato?)

 
Essas pessoas ficaram a ganhar.
Com a população flutuante, em movimentos pendulares, a cidade ficou a perder.

Ao haver um decréscimo dos preços por m2 por ter havido uma explosão imobiliária o sistema económico continua a amordaçar a Terra. Connosco, sem outra hipótese / sem outra visão, a alimentar o monstro que tudo vai tragando.
Significarão as moradias e querer viver nelas que estamos a perder a capacidade de viver encaixotados? Quem, aliás, no-lo foi ensinando senão aquela mesma economia?
Que qualidade de vida? O Homem bem-pensante, quando pensante, estará a tornar-se anti-social? Misantropo?
Para que serve a sociedade?
Usamos a sociedade como papel higiénico?
Quem fica a cheirar mal?
Será que, nestes lugares superpovoados e densificados (pessoas e ruídos sem amortecedores possíveis) apenas temos, fomos ganhando necessidade urgente de "privacidade"?
Como se conjuga a defesa e o direito à privacidade, mais à sacrossanta "propriedade privada", ao "espaço só nosso", com a devassa da vida pública e privada nos média que tudo vão querendo devorar?
 
No entanto, por esta mesma centrifugação, as grandes cidades vão crescendo, alastrando e manchando as periferias, invadindo os campos produtivos (os que) e destruindo equilíbrios e espaços que são necessários como vazios de habitantes e pegada da besta do Homo consumericus.
E, assim, aquilo de que nos vamos queixando, é precisamente aquilo que, por uma qualquer cegueira umbiguista de que ainda não nos apercebemos, vamos alimentando.
 
As imobiliárias e os bancos estão a ganhar.
Nós, enquanto seres sociais, estamos a perder.
Saúde e poder.
 
"Estar longe da confusão e viver às portas de Lisboa".
 
Será que as cidades já não são lugares para habitar?
Lugares aonde vamos apenas fazer "confusão" e que passamos o dia desesperados por deixar?
Lugares aonde vamos apenas fazer "o nosso trabalhinho", dar o nosso "contributo" para a sociedade e que depois, exigimo-lo, temos o direito de abandonar,?
Que sanidade terá então esse "trabalhinho", essa "troca económica e social" que lá vamos "obrar"?
Quem fica para trás, na "confusão"?
Quem foge? Quem pode.
 
 
Mais custos ambientais nas deslocações.
E - pasme-se, para completar o rol e tudo estar em perfeita sintonia (falaremos de que sin...fonia se trata, a musiquinha com que vamos adormecendo, embaladinhos, vitorgasparadinhos) - "os transportes públicos não são opção para muitos dos novos aldeãos".
Paga, povo-bem e não tão-bem, o combustível, já que não pagamos convenientemente a poluição-
Paga, povo-cada-vez-menos-bem, a velha salazarenta portagem sorvedora de dinheiro.

Como? O carro é mais usado em Lisboa que na maioria das metrópoles?
Com um sistema intermodal daqueles??, com metro, eléctricos, comboio, autocarros e quiçá bicla?
Que dizem que funciona tão bem... afinal!
Qual a percentagem do uso destes outros transportes, ditos colectivos (que o são mais, sim)?
Significará que apenas funcionam localmente, dentro do espaço urbano?
Mas... qual é o espaço urbano de Lisboa?
 
"Lisboa tem uma área metropolitana três vezes maior que a área metropolitana de Nova Iorque, mas SÓ a cidade de Nova Iorque tem o triplo de habitantes da área metropolitana de Lisboa"
 
Por causa do mesmo princípio económico da rapidez e ... da "economia", a construção alastra para onde forem sendo traçadas as auto-estradas e grandes alcatrões alinhados. E uma vez que não fugimos a este diktat, os agentes económicos infiltrados nas decisões que afectam a todos e enriquecem alguns já sabem como nos atacar. E sabem-no muitíssimo bem.
A paisagem, ou o que vai ficando dela, é um dano colateral, "necessário" para haver o tão prezado e dêusico "crescimento económico".
 
O ordenamento do território ri-se de nós e diz-nos que não tem nada a fazer aqui.
Portugal provisório que não invertemos e, por omissão de intervenção, vamos tornando definitivo.
Atravessando o tempo, por entre os despojos humanos empilhados que ficam para trás.
Por entre os destroços e as brumas da memória sempre cantada mas nunca entoada pelos que vivem aqui e agora.
 
No meio de toda esta confusão, quem se salva?
Quem se pode salvar?
Que mancha de óleo estamos a tentar limpar? Com petróleo??
Dizem que o petróleo - refinadinho e cor-de-rosinha, claro está, que é bem mais atractivo e vendável (O quê? derrames de petróleo?? aquela coisa com cor tão bonita??) - remove muito bem as nódoas.
Mas, once again, folks, lá estamos nós a alimentar um sistema de desenvolvimento industrial que nos trouxe até este beco populacional, ecológico e económico.
 
"Insanidade é insistir nas mesmas acções e esperar resultados diferentes."
Albert Einstein
 
E esta reconfiguração demográfica configura alguma mudança do sistema de poder até aqui empurrado a seguir?
Quantas moscas podem mudar-se para a esterqueira poder perdurar?
 
Os ditos centros deslocalizam-se, pois o bulício será replicado, tanto quanto possível, nas periferias, reproduzindo novos centros, criando, com o tempo, se o sistema reprodutivo permanece idêntico, os mesmos problemas criados lá longe, longe aonda agora só fantasmas e edifícios vazios (200 mil, em Lisboa) se erguem como cadáveres para dar nome e vida à sociedade.
 
 
Pero, que es la sociedad?...

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