sábado, agosto 15, 2009

Que canções para 40 anos depois?

Pouca gente sabia ao que ia. Era apenas um concerto.
Mas as mais de 500 mil almas que ali acorreram tornaram o Woodstock num fenómeno sociológico.


Passavam-se 25 anos da II Grande Guerra, com a prosperidade e a paz, a demografia conheceu outros valores, os países destruídos estavam praticamente de costas direitas, a produção industrial dava grandes passos para o consumo em massa, as cidades expandiam-se e com elas a burguesia, as gerações (jovens e adultos, filhos e pais) dividiam-se: uns deixavam de ter a suposta superioridade moral sobre outros, e estes autonomizavam-se daqueles, buscando, então e sempre, a identidade e um sentido.

Capa de Lp com canções do Festival

O aumento do poder de compra por parte dos jovens, os fenómenos da moda e da mudança dos costumes do início da década de sessenta (que tantas canções ié-ié francesas descrevem: ouçam Françoise Hardy, France Gall ou a Stella), o desenvolvimento das filosofias de libertação (vide Huxley e Leary), a abertura das mentalidades, a noção da história e as lições dos erros bem aprendidas... muitos factores a confluir para nos sussurrar que a revolução estava em curso e que os tempos estavam a mudar.

As lutas entre as duas grandes potências militares da altura, grandes combates ideológicos e no terreno, sangrentos de um sangue absurdo, cego e telecomandado espalhado pelos povos que nunca estiveram na ribalta...

Por trás de tudo, as canções, banda-sonora relato dessas grandes pequenas revoluções: as danças "obscenas" do Elvis e aquela música barulhenta, e vinda dos negros! (finais dos anos 50, EUA), a poesia anarquista de Léo Ferré, antiburguesa de Brel, interventiva de Ferrat (via Aragon), sarcástica de Brassens (50/60, França)...


Já repararam numa coisa?
Num mesmo ano, 1963, foram gravadas "Os Vampiros", do Zeca Afonso, a "Trova do Vento que Passa", do Adriano Correia de Oliveira" e a "Blowin' in the Wind", do Bob Dylan.
Penso que já por mais de uma vez li que as canções folk de protesto estadunidenses (Joan Baez, Pete Seeger, Woody Guthrie, Phil Ochs...) influenciaram e despoletaram em muitos países o surgimento das chamadas "Novas canções"...

Bem, pelo que aprendi até hoje não me abstenho de contra-argumentar, pois no nosso país, orgulhosamente fechado e, talvez mais importante que isso, ainda virado para a Europa (França, entenda-se...), duvido muito que a influência do outro lado do Atlântico tivesse feito sentir-se a esse ponto.

E para quem é pela tese de que foi o Dylan que catapultou a canção de protesto e espalhou as sementes pela Europa, eis um argumento mais:
aqui ao lado, vindo de Valência para Barcelona, surgiu um homem a cantar versos existencialistas. Esse homem chama-se Raimon e o seu primeiro grito foi "Al Vent", canção escrita em 1959, mas apenas editada em... 1963 (coincidência, não é?). Foi essa canção, e mais nenhuma outra, com que em Espanha - primeiro na Catalunha )e demais países de fala catalã), depois no País Basco, depois na Galiza, na Comunidade de Madrid e em todo o resto do país - a canção de intervenção começou. Dylan? Não, Raimon ouvia canções norte-americanas, mas o jazz, os espirituais negros e estava mais virado para França (com Brassens como a maior influência) e para Itália.

Isto foi só um parêntesis da geografia da mudança.
Mas também houve os Beatles, que explodiram em Inglaterra em... 1963 (mais uma vez) e arrastando a multidão de jovens em delírio, ao mesmo tempo que lhes deram inconscientemente a noção do poder que tinham, viraram o curso da história (a meu ver, a passagem do paradigma francês para o anglófono, em termos de capitalização dos valores culturais).

Depois, com os Rolling Stones, os Who e os Kinks o rock ficou mais agressivo. Sintomático e sintético disso e do tempo é a canção "My Generation", (The Who), em que Roger Daltrey canta "You're talking about my generation" e "I hope I die before I get old". Foi também com os Who (Pete e, depois, o Keith) que a violência passou a exercer-se em palco (nos instrumentos). Aqui estávamos já em 1965. As tensões cresciam.

Em 1967 houve o Festival de Monterrey, organizado, entre outros, por Paul Simon. Mítico festival, livre e pacífico como Woodstock não conseguiu ser. Livre teve que ser, porque os milhares de pessoas assim o quiseram (a grande mole humana tem muita força quando vai toda numa direcção), mas houve uma agressão de Pete (sim, aquele mesmo) durante o concerto dos Who. Claro, isso não manchou o evento. Aliás, hoje nem é lembrado.

Como não é lembrado que o Woodstock tinha outros valores além do de paz e amor. O movimento hippie, e o festival muito lhe devia, preconizava a paz com a natureza, contra a produção industrial, pela agricultura biológica, contra a guerra, a nuclear e todas as outras...
Isso hoje não é lembrado. Caiu em desuso.

Em 1971 era fundada a Greenpeace. Processos cumulativos típicos do avanço e da evolução da História humana.

Em 1973, a crise do Petróleo e a afirmação das energias alternativas.

Décadas de 70 e 80: primeiro o poder da raiva punk, depois o grande vazio que ficou após essa força libertada [vazio sentimental: gótico; vazio mental: neo-românticos e pops sintetizados de discotecas onde se ia (ah! dantes era assim) para ouvir música...]

A revolução digital, a suposta democratização da informação, a terciarização da economia, o esvaziamento da praça e do poder públicos, a deterioração da cidade e da cidadania (a abstenção luta contra o voto em branco e vence...), a degradação ambiental e dos recursos, as lutas contra os gigantes económicos (empresas e países), as migrações dos deserdados, a força do gigante que constrói todo um sistema para nos impor uma nova ordem que ainda não percebemos bem no que nos transformou ... e que mais?


Reciclar. Sempre.

Quais são as revoluções que temos estado a fazer em nós, mentalmente, indo ao fundo das questões essenciais? Ah! A reciclagem...
Mas falta a poupança, a recusa do consumismo, o tomarmos o poder nas nossas mãos, nas pequenas coisas do dia-a-dia, falta-nos a energia que perdemos e nos desmobiliza e demite de nós próprios e daqueles que nos são semelhantes. Falta-nos a "recusa deste mundo que nos usa".


As guerras pelos instrumentos de poder prosseguem.
Sinal disso é o estimularem-nos tanto e as vezes que forem precisas a termos as notícias no nosso telemóvel. Informação, propaganda, poder, controlo.

Lá em cima, os senhores que sempre lá estiveram, agora com mais dinheiro que nunca, reproduzem-se na própria cadeira. Não vêm cá abaixo, conspurcar-se na ralé - têm medo de serem como nós. Têm armas, polícias e generais e governos inteiros, bolsas de valores, a inflação, o desemprego colectivo, canhões de água e balas de borracha perdidas para se protegerem. Têm a fome e a guerra para no-las atirarem para cima de nós se se virem apertados...




Com o Woodstock pode-se dizer que começou o consumo em massa de música ao vivo. E, com tanta gente, tantos consumidores, fecharam-se as portas. Para termos que pagar bilhete, pois então!

Vêde quantos festivais há por aí de renome. No nosso país, (houve uma altura em que os países olhavam para nós para ver que tipo de socialismo íamos criar e fazer sair daqui...), excelente aluno e incubadora do capitalismo, é vê-los arrastar os nossos pés por aí. Mas atenção, pois exceptuando o Andanças e o Intercéltico de Sendim, continuamos confinados ao litoral, ou seja, reproduzimos a estrutura do mau ordenamento do território.

E que canções para o nosso tempo? Toques polifónicos?

Também a nós, cidadãos do mundo, (não fales agora, Manu Chao...) nos faltam as grandes canções de hoje.
Para hoje.
Porque o amanhã só interessa se conseguirmos sobreviver hoje.

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