sexta-feira, julho 05, 2013

Os Anjos de Pureza

"- Quem foi o responsável por isto??
Quem é que o deixou entrar?
Vamos abrir um inquérito e iremos punir os culpados!
É tudo por agora.
Não haverá lugar a perguntas."


Imagem daqui

Assim falou, em conferência de imprensa, irado e furioso, inquiridor, acusador e inquisidor, o maior cego dos tempos calcinados.

O louco acabara de descobrir, coitado, acolitado e empalado, que deixaram entrar o sol na terra.


(Sim, claro, mas, obviamente, mais do que o habitual.
E sabemos do que estamos a falar...)

Ai o purista!!
Nem admite dúvidas.


(Ah, só para informar os caríssimos cegos de que os culpados irão ser punidos sem necessidade daquele inqueritozinho persecutório.)


O purismo é igual a nada: pois todas as concepções mentais separatistas acabarão a morrer na praia a debater-se entre os dualismos. Sejam os do corpo e da alma ou, primordial, o da forma e do conteúdo.

Mesmo assim, admitem, hipocritamente, quais pregadores da mortífera religião católica, que uma coisa nada tem que ver com a outra e que a independência é um facto.

Só à custa de muita propaganda é que lá chegam.

E se esta julgam necessária é já sinal de que tal ideia não decorre de cada um a descobrir.

Os sistemas fechados, física e geofisicamente, não ocorrem na Natureza. Há sempre algo que escapa, sempre algo que, mesmo que em quantidades diminutas, entra nele.

A água da Terra interage com a biosfera, ela própria tendo-a como constituinte.
E se tudo fosse fechado, sem intervenção do exterior, a luz nem sequer entrava, amigo de óculos escuros e bengala a dar a dar.


Imagina o teu ser, já que podes, antes de ser ser capaz de pensar. Pois seria isso o que serias se não interagisses com o meio, que - já nem vou falar de "ingerires" as coisinhas suculentas e sucurrápidas do meio - a luz não entrava, que o oxigénio não entrava, nem o dióxido de carbono saía...


Tu não existes, ó purista!
E eu aqui te denuncio de uma vez por todas!

As fronteiras são arbitrárias e existem apenas para não perdermos a consciência de que elas são transponíveis. E que é NECESSÁRIO que assim seja.

Para seres o que és e para sermos o que somos.

És um ideólogo quase perfeito da manipulação.
O tal da mão invisível.

Dos mercados.

Sem quaisquer intevencionismo - MANTENHAM OS ESTADOS FORA DA ECONOMIA! - assim gritou o senhor Friedman e seus sequazes petizes boys chicaganos a borrar o mundo.



Mas algo falhou, estúpido.

E não foi a economia.
Foste tu e a tua besta criada teoria.
A dita abertura, a ditadura dos mercados, da economia livre e todas as balelas que nos tens feito engolir, qual merda em vez de pão, desde a década de 50.

E vou passar a explicar-te porquê.


A economia não levou as coisas ao sítio, normalmente: apenas acelerou a transferência da riqueza para o poder. Não está na normalidade, económica ou o raio que a parta mais for, a insustentabilidade dos ciclos com becos ocultos, mas segurados, securitizados.


Imagem daqui


Essa seria a primeira explicação. Mas ainda não te chega, sei que não. 

Crente sou, a querer fazer ver o cego pior, o cego que não quer.
Mas alguém mais - tu nem me interessas, que nada és sem os que se te submetem - há-de ver as razões.


A tão propalada e defendida não intervenção do Estado, em nome da justiça e da liberdade - ECONÓMICA, claro, seu carecedor de definições, apto às manipulações nas omissões - :


a) "flexibilização" laboral [para despedir melhor, para pagar menos, para reduzir as férias, para impedir liberdade de associação, reivindicação (sim, quem reivindica também está a empurrar-se para a posição de submissão, pois mantém-se na situação de pedir...)... para tomar consciência de que as coisas são ordenadas e que, se assim são ordenadas, de outra forma o podem ser]


e (basicamente)


b) concessão dos serviços aos privados (dizes ser em nome da eficiência económica, mas sua besta, com ou sem ela eu já te descobri a careca!),


e tal inclui tudo o que diz respeito a todos


- a Saúde
- a Educação e o direito à diversidade de opiniões
- a Segurança Social
- a Habitação
- a alimentação
- a água
- os transportes públicos
- as estatísticas
- o DIREITO ao trabalho
- a manutenção dos espaços públicos
- a gestão dos parques florestais e reservas e recursos naturais (detesto o emprego da palavra "recursos", em "recursos naturais", pois faz depender o entendimento de os mesmos são para usarmos... ou que estão ao nosso serviço... económico, até, claro!)
- o poder de decidir sobre estes assuntos
...


Com o cerceamento exacerbado destes direitos, decorre

não o direito de fazer a guerra, que o monopólio, reparámos, está do teu lado, mas o direito de sofrer com ela...


A concessão é a delegação e esta é o princípio da não-representatividade, e, por sinédoque, do funcionamento sempre cambaleante da injustiça. Seja esta praticada em Capitalismocracia, em Comunismo, ou no que mais te apetecer chamar-lhes.


A concessão dos serviços de todos às empresas de alguns (sob as quais se escondem, vermes protegidos, os "accionistas") não é para garantir, necessariamente a sustentabilidade económica, mas - A RAZÃO ESTÁ MESMO À FRENTE DO NARIZ E É POR ISSO, A PROCURAR RESPOSTAS MAIS LONGE, QUE A NÃO VEMOS - para garantir - de imediato e na própria prática presente, sem esperar de resultados futuros - a transferência dos dinheiros públicos para o bolso dos privados.


O que distingue ambos os interesses, não queres perguntar?

É que um, simplesmente, zela pelo interesse da maioria e outro pelo interesse da minoria. Como não se podem confundir, ambos inventaram uma sua correspondente materialização: o lucro para eles, os danos para todos os outros.


O capitalismo é verme por natureza.

Por isso é que nunca deixará de ser injusto, de manter e amplificar as injustiças e as desigualdades.


Vêde bem, como Portugal é dos países onde a desigualdade económica mais tem crescido nos últimos anos.

O Junqueira explicava há dias, que, apesar da crise e da pobreza, os bilhetes dos festivais eram muito caros mas que isso se deve à capacidade para muitos poderem suportá-los, pois que a diferença de rendimentos assim lhos permite. E assim os grandes festivais vão parar às capitais, que são as capitais do capitalismo. Portanto, das maiores disparidades de rendimentos.


E, conclui, é por Portugal ser um país pobre (tratemos de redefinir que a riqueza ou pobreza de um país não é o valor da média dos rendimentos, mas a, respectivamente, menor ou maior desigualdade entre eles) que os festivais campeiam e estão cheios.

E que é por isso que tem tanto sucesso o Rock in Rio, festival exportado, mera coincidência?, de um dos países mais pobres (i.e. injustos) do mundo. O Brasil.

(Vêde como o sobrinho do Cavaco e a sua terratenente-pavilhão-atlanticizada privada empresa nos vai enojando até à exaustão com a publicidade ao maior cartaz de sempre do festival de Oeiras. É um privado a inundar a televisão e a rádio do Estado... são parasitas, como sempre foram e não PIDEm deixar de ser - está na sua natureza imperial).

Imagem daqui

O capitalismo é uma festa, mas a maior parte são convidados que não têm para onde ir, inebriados pelo espírito que não lhes resolve a pobreza, a eles, com a opulência ali escancarada à frente...


E é assim que podemos dizer que a promessa da mão invisível só resultou se este acelerar das desigualdades fosse o primeiro ou o único propalado benefício da desregulação e do esvaziamento dos Estados enquanto moderadores da economia.


Assim, sim. E a economia livre está a funcionar bem e bem de mais!

O problema (e já lá vou) é que isto equivale a dizer que economia livre é contrário de democracia.
Tal como, a par e passo, o desenvolvimento (tido como crescimento, para uns, e destruidor, para todos) é incompatível e contrário da ecologia.
Tal como, qual espelho, o exercício da democracia directa representa uma ameaça ao "normal" funcionamento depradatório e assassino dos mercados.
E é por isso que eles reagem quando algo os pode pôr em causa.
É a censura dos mercados.
Tão livre que ela é...!


Esta perversão deve-se, dizes, a que ainda não houve suficiente desregulação e privatização.

Por isso o pequeno deus caseiro Gaspar dizia que o pior erro era aquele que ainda não tinha cometido, mas que estava prestes a cometer. ("inevitavelzinho a dar c'um pau...") Porque a ideologia do mercado não permite desvios nem intromissões e se o caminho está errado então é porque tem de ser levado até às últimas consequências. Errado para todos os outros, certo para os iluminados da mão invisível. (Mão invisível? A quererem tanta desregulação??)


Mas esta foi a única perversão quiseste iluminar para nós.


Pois o tal purismo que defendes, tu e os teus mal paridos filhos, não deu prò torto só aí: a questão é que nunca o quiseste praticar.

Pois como os sistemas puros, fechados não existem, tu sempre fizeste o teu necessitar do que pretendias combater

- Para impores a ditadura dos mercados, precisaste, helás!, da ditadura militar. 

E o EXÉRCITO é, olha, olha... uma instituição do Estado.
Sim, tens resolvido esse assunto, cortando financiamentos à Defesa e profissionalizando as Forças Armadas, mas só porque começaste a criar mercenários privados. Acaba-se com um serviço estatal e os dividendos ficam todos do teu lado.


- Para garantires os seguros de saúde, as reformas para quem trabalhou e trabalha, criaste empresas e bancos de investimento, enquanto ias depauperando o sistema de segurança social. Mas só se o ESTADO, lá está permitisse que essas tuas empresas pudessem fazê-lo e, MAIS, te pagassem para o fazeres. De que pagamento falo eu então? Não te chega esse dinheiro de todos passar a estar nas tuas mãos??

Assim, acaba-se com um serviço estatal e os dividendos ficam todos do teu lado.


Para forneceres - só a quem pagar, e BEM (leia-se MUITO)! - água, habitação, saúde e alimentação às massas, à ralé, coisas que tu é que decides e classificas e produzes e instituis, crias empresas para o efeito. Delegadas, por despacho administrativo, local e nacional, nunca internacional, que este é o somatório dos grãos a grãos de areia daqui e dali. 

E, para acelerares este processo de transferência, destruíste esses bens enquanto não estivessem ao teu serviço.
Mais uma vez, deu-se a transferência dos dinheiros. Do público para ti.
Por um punhado de milhões.
Que por só estares nisto pelo dinheiro é que te distingue do público.
E assim dita a lei do mercado.
E assim, dita ela, acaba-se com os serviços estatais e os... DIVIDENDOS ficam todos do teu lado.

PERCEBESTE???
SEU ESTÚPIDO...


O Mercado só existe se o Estado existir.

Pois que ainda não acabaste com ele de vez para continuares a chupá-lo.
A nós.


Porque és de natureza injusta, não representativa, e a tua legitimidade nunca foi referendada...


(NÃO SE ABREM INQUÉRITOS, POIS SE SE ABRISSEM DESCOBRIRIAM A RESPOSTA...
E a resposta seria oficializada: NÃO TENDES LEGITIMIDADE PARA CONTINUARDES A EXISTIR E A "funcionar normalmente".)


... é que precisas do Estado: escondes-te atrás dele para fazeres o teu trabalho sujo que é EXISTIRES.

E queres, via propaganda mil vezes repetida, fazer-nos à tua imagem e semelhança, deus vil e estuporado!
Queres reproduzir o teu sistema de pensamento dentro de nós e por todos os países, terras, povos e sociedades.


O buraco financeiro dos países é uma forma anódina e antónima de falar do dinheiro que os privados sugaram aos Estados. Sim, bancos e empresas chupam tudo e depois vêm com reacções dos mercados e sermões de agências de notificação financeira para imporem o seu pagamento.

E os juros da dívida é para os manterem para sempre acorrentados e garantirem a sua sustentabilidade. Sim, a dos bancos, que as pessoas já não querem ter nada a ver com eles. 
Por isso apelam ao Estado, o Estado de que eles sempre dizem ter querido ver-se livres, para salvar a economia. Pois a economia, tal como ela está e existe, é A DELES

Imagem daqui

Para que o Estado apenas continue a transferir o dinheirinho e o poder para os privados. 

Que o capitalismo tem de crescer e crescer, indefinidamente, sem volta atrás e sem interferências. A ritmo constante, senão... crise!!!!

A crise é o estado permanente, nos que comem muito e nos que não comem ou comem mal (de menos e de mais), por isso, não nos venhas falar que o Capitalismo é o melhor sistema com excepção de todos os outros, seu encurralador NATO implacável que tudo esterilizas...

Se não és puro
se não podes ser puro,
se não consegues ser puro,
se não queres ser puro,
Só podes ser corrupto.
E é corrompendo que te exercitas.



Mas, olha, vê lá:

é que isto está tão mau, tão mau, tão desequilibrado, levaste a um agravamento tal das desigualdades, corrompeste as relações sociais de tal forma, fodeste de tal forma o Estado que, imagina tu, é o próprio ESTADO que está agora a ser posto em causa.


E as instabilidades nos Governos não são senão a antecâmara do que pode chegar a ti. São os Governos e os ESTADOS a linha da frente, a carne de canhão que te protege a rectaguarda enquanto tentas dar à sola.


Mas nós vamos cercar-te.

Tal como nos tens feito durante estas décadas todas.
E, lamento, mas também não vamos ter piedade de ti.

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