quarta-feira, julho 24, 2013

Dos sacrifícios (e) dos sacrificados (e da destruição, esperançosa, da tua casa)

Eu cresci aqui e agora tenho de partir.

Anónimo de muitos tempos e muitos lugares, sem lugar


Parece que há oportunidades que esperam por ti, não sejas palerma.

Correcção, piegas: não sejas piegas.

Mas eu quero morrer aqui.
Aceito que me subtraiam uma parte da minha terra para poder continuar a viver aqui.
Sim, aceito que instalem perfuradoras nos meus terrenos para fazerem prospecção de petróleo por fracturação hidráulica.

Pois, o horizonte não fica lá muito bonito, não.
E o barulho...

E as minhas vacas e os meus pastos, doentes.
E tudo aquilo de que me alimento.

Qual é o meu problema?
Ninguém me diz o que é que eu tenho??

Tenho de pagar do meu bolso (a Saúde é um direito, amigo...) (uma garantia de dinheiro que sai do teu para o bolso do conglomerado farmacêutico-industrial-saúdico com seguradoras à mistura...) para todos estes exames, para tentar perceber o que se passa comigo, o porquê destas cascas por todo o meu corpo.

Porque o negócio envolve milhões.
Correcção, milhões de corpos e almas.
E ninguém poderá, quererá, ousará demonstrar a mais pequena relação entre o teu estado de saúde deplorável com os danos da coisa que lá tens no teu quintal.

Os derramamentos e as infiltrações de petróleo e de água salinizada que tudo hão-de comer, depois de te comer a ti.
Afastado o problema, tu!, não há mais contas a prestar.

Mas até dizes:
- Sim, eu sacrifico uma parte da minha terra para continuar a viver no sítio onde nasci.
Sim, eu aceito sacrificar uma mão para continuar vivo.

Diz aquele outro:
Sim, eu também aceito sacrificar uma parte da minha terra para continuar a viver onde nasci.

E vamos recuando, recuando.
Sacrificando o quê?

Sacrificando as pernas para continuarmos vivos.
Sacrificando o corpo para nos mantermos ligados à máquina.

Sacrificando a saúde já, imediata, pura, viva da silva, em troca da morte lenta, quiçá, não é certo, os estudos não comprovam, nem desmentem...


Não, não importa a terreola onde estas histórias de vida se passam.
Tanto faz. É metáfora.

Mas os danos são reais.
As vidas são reais.

(Mas também temos boas clínicas privadas que vos asseguram uma boa esperança de vida.
Mas isso terá um preço. Tudo tem um preço, não é?
E, pode crer, vale bem a pena...!)

Estamos a sacrificar partes para... assegurar cada vez menos nada.

Estas são as massas que já pouco têm a perder.

Estes são

"os que descem cada vez mais
para subir cada vez menos"

porque

"quando mais o mal se expande
mais acham que ser grande
é lixar os mais pequenos."


E lixar é a instabilidade.
Hordas de desempregados começam a pensar em tomar o poder, de sachola, metafórica, e de picareta, metafórica, nas mãos.
Em busca do derramamento do sangue verdadeiro.
Mas dos carrascos.

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