sexta-feira, julho 26, 2013

Dos exércitos (e) da farda que não desbota, renovada

Que força é essa, amigo,
que te põe de bem com os outros
e de mal contigo?

Sérgio Godinho


Somos jovens e ostentamos esta supercor na farda.
O nosso trabalho é distribuir propaganda.
Ela tem de chegar a todas as pessoas que passarem por aqui e mais àquelas a que conseguirmos chegar. 
As palermas!

(E assim começou a guerra, declarada, de uns contra todos...)

Os não-jovens queixam-se que os jovens lhes retiraram o trabalho.
Porque aceitaram ser recompensados (ahaha, ahaha, malevolamente rindo lá das alturas que os pariu) por menos dinheiros que eles.
E, já se sabe, as empresas querem é reduzir os custos fixos...

Os jovens supercoloridos vêem cada pessoa como uma pessoa a atingir.
Um cliente a abater, a fazer tilintar as moedas (Passa pra cá o guito!, o guito que eu não verei, que só vai prò meu patrão...) que são a garantia de eu continuar... a ver cada pessoa como um palerma a atingir, etc., etc.



Estes são os trabalhos indignos.
Alguém tem de o fazer, diz o falacioso capitalista merdoso instituidor do teu bem-estar. Ou, vê lá se votas bem!, na tua ruína.

Distribuidor de panfletos,
Limpador de cloacas,
Cobrador das dívidas,
Poluidor dos rios,
Triturador da inteligência,
pasmaceiro da excitação!

Tu tornaste-te no homem que trabalha.
Tu deixaste de ser o homem que também trabalhava.


(Porque o sistema de opressão económica nunca foi suprimido)


Tu és o exército e vens bem munido.
A cor da tua farda é camaleónica e adapta-se até aos sítios mais esconsos, onde aprendes a tua arte de fazer mal aos outros e de sofreres com isso e de fazeres mal a ti e de fazeres os outros sofrer com isso.

Tu pertences ao exército dos excluídos, dos deserdados, dos desapossados, dos lixos produzidos em massa pelo sistema da exclusão económica do capitalismo mais e também do menos aguerrido (não há tréguas nem quartéis).

Tu és o exército a recrutar mais exército, a fazer baixar os salários, a fazer aceitar o depauperamento da dignidade no trabalho e a impossibilidade da vida sem o trabalho.
És o promotor dos vendedores da propaganda que cada vez menos gente vai comprar.
Porque cada vez mais há exércitos de gente que não pode comprar tal ideologia.
E é por isso que os supermercados estão cheios de ideias de que cada vez mais desconfiamos, venham elas embaladas em políticos, partidos, empresas, bancos, opinadores e todos os vizinhos do lado e até a tua mãe e o teu pai, que isto é guerra que grassa sem piedade nem olhar a quem.

Aqui não se salva nem Deus: assassinaram-no!




São ideias demasiado caras para as nossas posses.
Por isso há interesse num certo equilíbrio das contas: o tal algo que mude para que tudo fique na mesma.
Mesmo que uma crescente maioria possa ir ficando de fora do sistema...

E chamar-te-ão.
Chamarão a todos.
Tu és a vítima e o sinal número um da crise: tu és o produto da crise, da instabilidade dos mercados e dos mercados da instabilidade.

Tu és fonte de lucro inteiro e do abaixamento dos salários e do rebaixamento da condição humana.

És o soldado universal que se soma às fileiras das trincheiras quinzenais dos centros de desemprego por esse mundo fora.

Sim, eu sei, tu queres lá saber se és um conceito marxista!, tu queres ser feliz agora, tu não és nada parvo, porra!
Tu existes.

Fazem com que estejas disposto a tudo.
"Que te compras, que te vendes, é o que pensa o tirano..."
A trabalhar mais horas por semana, horas extra, sem seres por tal pago, sem descanso merecido, exausto do triturar das máquinas infernais do lucro dos patrões que dão a cara para ocultar a dos accionistas.

Tu és a vergonha e o atraso que o capital criou para nós, a sociedade-cloaca!
Tu estás disposto a matar por um naco de comida cada vez mais insignificante.

Tu és o primeiro produto da economia da catástrofe e nasceste muitos anos antes da economia da catástrofe, assim designada, ter sido descoberta para nos renovar o uniforme.
O uniforme do sistema económico, político, mediático e mental do mundo.
O tal do inevitável, e do irreversívelzinho.


Mas tende cuidado, generais, para manterdes o exército bem ocupado.
Pois pode ele começar a pensar.
Em vós.
E a chacina já se desenha em cada rua, em cada praça.
Onde quer que houver um homem que ficou sem trabalho e conservou a cabeça. E que não quer alimentar uma engrenagem injusta e niveladora, por baixo, alcatrão quente e moldável no calor da crise.

Não poderás manter-te oculto e anónimo durante muito tempo.
Somos cada vez mais e nós vamos dar contigo.
Onde quer que estejas.
Fedes na tua natureza e sabemos onde te encontrar.

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