terça-feira, fevereiro 12, 2013

Ces gens la! *

Moscovo, 10 de Outubro de 1944.

Conferência no Kremlin.

"O momento era favorável para agir, e por isso declarei: 

- Solucionemos os nossos problemas nos Balcãs. Os vossos exércitos encontram-se na Roménia e na Bulgária. Nós temos interesses, missões e agentes nesses países. Evitemos, pois, entrar em choque por questões que não valem a pena. No que respeita à Grâ-Bretanha e à Rússia, que diríeis de uma predominância de 90% na Roménia para vós, de uma predominância de 90% na Grécia para nós, e da igualdade de 50-50 na Jugoslávia?

Enquanto traduziam as minhas palavras, escrevi numa meia folha de papel:


Roménia:

        Rússia..................................................................90
        Os outros.............................................................10

Grécia:

        Grâ-Bretanha 
        (de acordo com os Estados Unidos)................... 90
        Rússia..................................................................10

Jugoslávia..............................................................50-50

Hungria..................................................................50-50

Bulgária:

       Rússia...................................................................75
       Os outros..............................................................25

Empurrei o papel para a frente de Estaline, a quem já fora feita a tradução. Teve um leve tempo de espera. Depois pegou no seu lápis azul, traçou um grande risco à maneira de aprovação e devolveu-o. Tudo ficou resolvido em menos tempo do que o necessário para o escrever... Houve em seguida um longo silêncio. O papel, riscado de azul, conservava-se no centro da mesa. Eu disse, finalmente:

- Não acha um pouco cínico parecermos ter traçado a sorte de milhões de seres de uma maneira tão cavalheiresca? Rasguemos este papel.
- Não, guarde-o. - disse Estaline.



Este excerto das Memórias sobre a Segunda Guerra Mundial de Winston Churchill, citado por Mikis Theodorakis no seu Cultura e Dimensões Políticas (Ed. Europa-América, 1975, p.93-93) é eloquente sobre a gente com que temos de trabalhar.

O poder concentrado.
E as ovelhas circunscritas, leão domesticado.

Imagem daqui


É com esta gente que temos de trabalhar.
É esta gente que temos de trabalhar.

E assim se traçam os mapas e as culturas e as influências, armadas ou colonialistas, em territórios a explorar ou a manter sob jugo.

No tempo dos dois blocos, ainda podíamos tentar descortinar as diferenças que os opunham. Um desses blocos ruíu e já nada há a comparar. E o que ficou a mandar propagandeia, aos sete ventos e em tudo por quanto é ecrã e média, por si controlado, a noção - até ficarmos convencidos de que não há alternativas.

Pois bem, mas tal como está, está mal. Muita coisa.
E se o sabemos, trata-se de irmos no sentido oposto.
Tal como o faziam.



* Canção, magistral, de Jacques Brel.

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