terça-feira, setembro 20, 2011

Milagre económico abusivo

A minha posição é a de um observador.
A de um observador nivelado por baixo. A minha posição é uma oposição.
Não nego o direito à felicidade, contesto a mesquinhez das formas.
"E o resto é inveja..." Pois claro, pois claro.

Não são 9 da manhã de uma quarta-feira.
Observo os miúdos trazidos pelos pais apressados e babados, pelos pais bem-educados, bem-engravatados, bem-parecidos. Não observo os miúdos. Observo os pais.

Antes do trabalho - porque o têm - lá vêm.
Estacionam por cima do passeiozinho - é só por um bocadinho...
Pegam na sacola / pasta / mala com rodinhas do filhote.
Acabadinha de comprar, a exigências de birra do filhote.
Acabadinha de vender, a insistências de propaganda da marca e do produto.
Inevitável. Inevitàvelzinho. (não estranhem o acento grave...)

Nenhum pai que seja bom pai quer ter um filho a fazer birra.
- Toma lá e cala-te! Puxa, que alívio. Sou tão bom pai, não sou? (quem disse que era preciso tirar um curso?)

O colégio é pequeno. Mas o ruído maravilhoso das crianças no recreio - depois dos novos amigos - será maior. Banda-sonora como ondas do mar, onde poderíamos descansar o olhar.
Se se podem medir espaço e som pela mesma medida da inocência...

Pela rua estreita, de paralelipípedo, perto dos estacionamentos, escassos, em espinha, os carros deixam os miúdos. Como numa gala de cinema. Faltam os fotógrafos, faltam os espectadores meramente observadores. Para além de mim, discreto, os observadores são os observados e os actores da gala e do desfile dos miúdos que os pais e o capital estão prestes a encaixotar.
Quadradificados e carimbados. Estão prontos para consumir. Vão sair de lá com o carimbo da certificação: "Próprio para o mercado de trabalho" e "Pronto para consumir".

Em tempos de confusão e desigualdade de oportunidades, "Pronto para consumir" tanto se refere ao produto como o ao consumidor, que ao consumir é, ele próprio, consumido.

Dezenas de popós dos papás
vêm em fila desfilar o bebé há pouco posto a pé.
Ajeita a gravata, mamã-pata,
encaminha-te para a linha, mãe-galinha.

O teu todo-terreno não é pequeno,
tem pneuzão só para o alcatrão
e ocupa um bocado do espaço escasso.

A maioria dos automóveis que vejo virem agrupam-se - lá estamos nós a seleccionar, a querer extrair conclusões... (pedimos desculpas, foi esta a escola que me ensinaram as faculdades do pensamento) em viaturas compridas, de tom escuro. Como o couro azul dos sapatinhos daquele miúdo com calções que acaba de fechar a porta.

Pormenor importante: as matrículas. Carros entre os dez anos de idade e um ou outro adquirido há semanas. A maioria destes tinha apenas 2-3 anos.
- É o milagre económico, seus estúpidos pobres que não sabeis raciocinar direito. Coitados, perdoai-lhes, que eles não sabem o que não compram...

Há um país onde tudo corre bem. Se te moveres em determinados circuitos, não verás o que vês noutros meios-parados. Uns circulam, outros não vão longe. Uns vão de férias, outros agonizam.

Como é possível tanta gente a envelhecer a cada parcela de dia que não adianta passar; cada vez mais gente a perder o emprego, a recorrer à ajuda das ditas instituições de solidariedade social (que convivem pacificamente, que convivem passivamente, ignorantemente, com as empresas que pauperizam as pessoas que elas têm por missão ajudar...), a abster-se de roçar a mão no fundo dos bolsos esvaziados e rotos...

Como é possível haver gente que pensa no futuro (ter filhos ou é um acidente de percurso já assumido, e carregam o peso do passado inevitável, ou é ter esperança no futuro e crer e querer andar para a frente) com gente que não tem forças para escapar ao presente que os algema?

Um insulto tanto é uma pessoa com fome à beira de um engravatado no seu carrito a caminho do seu emprego como é um engravatado com emprego (e todos os modos de vida que daí se descontrola e adquire) perante uma pessoa com fome.

Há países que nos dizem que são ricos que têm milhões de pobres nas ruas e nos casebres.
Há países que são pobres que têm das capitais mais caras do mundo.

Penso já o havermos dito algures, mas o que é um país rico?
Aferir um país rico é um exercício aritmético de médias e medianas?

Portugal é cada vez mais rico e é cada vez mais pobre.
E é abusivo este milagre económico familiar que vemos a levar os miúdos - coitados, eles são o futuro!... - às escolas públicas e privadas.

Pobreza e riqueza... depende da perspectiva.
Já dizia o padre Américo.
Amorim.

Deixem-nas crescer.
Portugal continua a ser um belo exemplo do capitalismo: o crescendo das desigualdades.

É milagre! É milagre!

3 comentários:

AMCD disse...

Portugal foi um dos pioneiros do capitalismo. Continuamos capitalistas, e muito bem adaptados a esse modo de organização política e económica. A nossa sociedade parece conviver bem com a vitória e a derrota, com os vencedores e os vencidos do capitalismo. Por isso cá, as desigualdades sociais são das maiores da Europa, mas tal não parece afligir o comum dos portugueses.

Mudando de assunto: é pena haver anúncios neste blogue, ainda por cima, a escravizadores bancos de crédito, como esse do Cetelem aí ao lado.

Na nossa Era a verdadeira carta de alforria é o desembaraço do crédito. Homens livres não devem.

Cumprimentos

Anónimo disse...

"Dá-me.Sou o futuro!

Não quero partilhado...quero comprado!Quero ser enganado."

Eduardo F. disse...

Obrigados, amigo AMCD.

Estamos atentos...
"Seremos muitos, seremos alguém."

Abraço.