terça-feira, setembro 06, 2011

Braga, Senhora Nossa da Agonia

Pela grande avenida, a cidade desperta.

Um livro de história despaginado que se apanha do chão.
Um homem, de sacola, aguarda. O pilar do prédio atrás dele não conhece o calor das suas costas.
Uma mulher retoma o ritmo do dia de ontem, acelerando o passo por entre os olhos a reconhecerem a luz.
Os carros escasseiam a esta hora. Antes do burburinho empresarial e económico programado há tantos anos...
Quase não há ninguém à espera do autocarro, à espera ainda do pára-arranca miúdos e sobre-graúdos por entre as ruelas de carros apertados e semáforos descontinuados.
Há um mostrador electrónico que nos estima o tempo de chegada do autocarro que nos vai recolher desta paragem. Estimativa em minutos. Em minutos que nunca mais andam. Decrescentemente. (Anda lá...!)
Melhor seria calculá-lo em distância, como se faz já noutras urbes com outra organização / planeamento... Com GPS é possível. Ou vivemos na Idade Média das paredes do mofo religioso amesquinhante e provinciano? As always.

Uma mãe, magra, leva pela mão o miúdo com sono.
Pelas manhãs, os miúdos têm sono de mochila às costas.
Logo pela manhã, os idosos aquecem já alguns dos bancos onde pretendem já passar algumas horas. Para ver o diáfano da manhã e o raiar do sol que se ergue aos dias do fim.
Miúdas bem vestidas terminam o café da manhã e entram na loja de roupa em que dobrarão e redobrarão as peças mexidas pelas mãos de clientes indecisos...
Os estabelecimentos abrem para nas suas portas se implantarem figurantes a ver os potenciais clientes simplesmente... passar. Eternos potenciais, efémeros figurantes...


Eu vi nos olhares da gente que espera a solidão do ser humano.
E sinto uma tristeza imensa no silêncio atroz que invade os corpos a flutuar.



Eu venho de um silêncio antigo e longo
da gente que se vai erguendo desde o fundo dos séculos,
da gente a que chamam classes inferiores

Eu venho das praças e das ruas cheias
de crianças que brincam
e de velhos que esperam
enquanto homens e mulheres trabalham
nas pequenas fábricas, em casa ou no campo.

Jo Vinc d'un Silenci, Raimon


Assim canta um Raimon em cada cidade que se ergue a cada dia que não passa.
Que a cada dia se ergue para o nada em que caímos. Aspirados pela opacidade cinzenta das manhãs capitalistas e pobres da cidade de Braga.

Ruas que vão perdendo as janelas, prédios com pedras que se esmigalham com o vento, chãos abandonados que conhecem cada vez mais estranhos, pessoas que apenas passam, que passam cada vez com menos motivos para se deterem nos lugares. Lugares esvaziados de sentido, de valor e de vida.

Uma cidade que o tempo está a tomar às pessoas.
Expulsas cada vez mais de si próprias.
Expulsas dos lugares, exiladas de si mesmas.
Sem lugar são, as pessoas ficam doentes.
Sem outra hipótese.

Uma cidade de centros comerciais-caixão,
uma cidade fantasma,
a tentar sobreviver à força das obrazinhas e das negociatas que, beneficiam uns, prejudicam outros - "é a lei da concorrência! A lei da concorrênciazinha!, não te vires contra o mercado!, assim falou o beneficiado, assim o ouviu o prejudicado e todos os espectadores cadaverizados à sua volta...

Um hospital que já o foi.
Uma "área de lazer" que apenas cumpre o propósito mercantil. Não o do lazer.
Edifícios sobredimensionados, espelhados e quadrados, vorazes de atenção e calor...
O esvaziamento físico e de ideias, perdidas estas com os espaços e as pessoas que os fazem...


Ah, como é duro sobreviver no deserto...
Até quando, diz-me sua cidade velhaca e seca???


Qual é a relação destas pessoas que vivem aqui com este... "aqui"?
Crescentemente, a de um espectador frente à televisão?

Sobretudo se forem elas as mesmas que vêem à sua frente...
Se ainda souberem observar.
Se ainda não lhes tiver sido roubada essa faculdade do juízo, também ele ameaçado pela insanidade do meio e das pessoas e da sacrossanta economiazinha e da sua putéfia propriedade que nos expropria.

As pessoas portam a insanidade, não se revoltam contra ela: revoltar-se contra a insanidade é já ceder-lhe espaço, parecem dizer os seus ombros caídos e as suas caras pálidas.

Mas só as pessoas podem recuperar a sanidade.
Porque é para elas.
Nada mais que para elas.


Quem perde as origens perde identidade.

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