sexta-feira, maio 01, 2009

A aritmética da catástrofe (I)

Uma das ilusões criadas pela globalização económico-mediático-cultural-blá-blá-blá é pôr-nos a olhar para longe e descurar o que está aqui ao pé, que é, pese a nossa megalomania, onde podemos actuar com mais controlo e onde há maior possibilidade de resultados.

Não espanta, por isso, que os que conduzem essa mesma globalização se empenhem tanto em nos chatear a cabeça com "o longínquo". Sabem muito bem que só instigarão em nós o sentimento de impotência, fracasso e resignação. No fundo, as anti-forças do nivelamento universal que insistem em puxar-nos sempre para baixo, para o fundo, para que tudo continue a ser e estar como sempre tem sido e estado: nas mesmas mãos.


Um desses exemplos é quando se põem a gritar, quais cabeças de altifalantes, sobre a destruição da Amazónia. Que por dia não sei quantos campos de futebol são arrasados. Ou que em não sei que período vai à vida uma área do tamanho da Bélgica etc. e tal.

E nós, armados em JFKs de altifalantes sem pilhas, dizemos, solidariamente:
"Nós também somos amazónicos".

No entanto, na nossa pequenez, na nossa pequenez de grãos de milho, grão a grão vamos alimentando a congestão da galinha estéril.

Foto de Eduardo F., Braga, 23.03.2008

Basta olhar à nossa volta, no nosso dia-a-dia. Estando ou não nós em tempo de autárquicas (sintoma péssimo do estado da nossa democraciazinha é associarmos imeadiatamente tempo de eleições a intervenções nos nossos burgos - e com intervenções, entendam-se obras a que costumam apelidar públicas (mais as autarquias) ou ainda de interesse público (mais o governo central), é ir vendo como, aos poucos, o nosso espaço mais próximo vai sendo alterado.

Uma coisa é sabida (mas raramente sistematizada): como a água do lavatório após retirarmos o ralo, 99,9% das obras que se fazem conduzem sempre ao mesmo de que viemos hoje aqui falar.

Proponho um exercício que muito divertirá o caro leitor. Mesmo sem dados concretos (que a matemática dá-nos cabo do juízo), pense então em:

cada parque de estacionamento alcatroado,
cada linha férrea construída,
cada auto-estrada alargada,
cada estrada rasgada,
cada incêndio ocorrido,
cada solo esgotado e tornado areia,
cada estufa montada,
cada átrio de igreja calcetado,
cada loteamento que aguarda,
cada campo de futebol coberto,
cada campo de golfe jogável,
cada telhado pronto,
cada centro comercial aberto,
cada árvore cortada,
cada bloco de pedra extraída,
cada área agrícola convertida em temos sabido bem o quê,
cada heliporto à espera,
cada prédio erguido,
cada retrocesso da linha de costa,
cada deposição de inertes,
cada aterro hermeticamente selado,
cada cidade que se expande,
cada margem de rio artificializada,
cada jardim público que se perde,
...

Pense nestes e em muitos mais exemplos.
Não sei se já nos apercebemos, qual exercício infantil para desenvolver as nossas capacidades cognitivas, no que têm todos eles em comum.


Vá lá, pensemos mais um bocadinho.
Pense na / numa consequência que todos eles têm...

Aceitam-se palpites e sugestões (nos comentários).

Segunda-feira voltaremos a esta aritmética da catástrofe.

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