segunda-feira, dezembro 03, 2007

Aldeia "global" em compras



Somos anjos de pureza
evadidos dos lazeres
carregamos a tristeza
não trazemos mais haveres

Era tudo em vão
um brincar sem dor
sem qualquer paixão
que nos desse ardor

Nosso sonho era o arrepio
deste mundo a ser mudado
Só tivemos o fastio
de um objecto a ser comprado

(...)
Foi apenas um lugar
onde à falta de faca
aprendemos a manejar
os cotovelos e o olhar

Anjos de Pureza, Adolfo Luxúria Canibal


(Então a DECO viu o seu número de associados aumentar por causa da naturalização do jogador...)
Muita gente diz não gostar de política. E dos políticos. Sobretudo destes. Compreende-se.
Fora de discussões já tidas, hoje apetece-me falar da política comum.


No longo processo industrial - que alguns dizem que ainda atravessamos, outros dizem que agora estamos na fase pós-industrial...

Estas concepções são sempre centradas no espaço. O que quer dizer aquela expressão? Que já não há indústrias? Talvez não seja isso. Mas o que acontece actualmente é que os países ricos transferiram a produção para os países pobres. Como uma fábrica suja que vende os seus equipamentos bem limpinhos na parte da frente e se pudéssmos ver por uma nesga, lá atrás a realidade arrepia e repele - as traseiras da aldeia global, já alguém lhe chamou...

... - vimos povos a ser enjaulados, em nome da sobrevivência e do lucro (impondo esta forma de "funcionamento" fica a parecer que nenhuma outra existe!), vimos povos a lutar por um bocadinho de dignidade e respeito. Depois pelo exercício da sua opinião, pela escolha da sua vontade, a conquista dos direitos, árdua e sangrenta, com tanto fascismo e barbárie em forma de governos políticos e repressão militar...


("- Haver emprego duradouro era dantes. Agora JÁ NÃO PODE ser assim.")


Hoje, a aldeia global (aquela, esta, que Adolfo diz ter sido sempre "sinónimo de isolamento e conformismo, de mesquinhez, aborrecimento e mexerico e que, de qualquer modo, o que verdadeiramente importa se mantém secreto") tomou conta das nossas vidas e em todos os aspectos da sociedade recebemos instruções para não a questionarmos (a propósito disto, tenhamos atenção ao livro "A Formação da Mentalidade Submissa, de Vicente Romano (Ed. Deriva, 2006).

Perdemos os direitos políticos. E para constatarmos isto, basta querermos usá-los. Basta isso. E logo nos veremos confrontados com pensamentos de resignação (tais como "Não compensa", ou "Não tenho tempo nem dinheiro para pagar a um advogado que me defenda...").

A violência por parte do cidadão é reprimida, agora com violência pura e dura só se for realmente preciso (que é para isso, tantos estímulos mediáticos servem. Para nos amolecer e limpar de pensamentos perigosos). As manifestações e os confrontos nas reuniões dos 7 países (mais os que se, coitados, querem em bicos de pés, fazer parte da face criminosa do mundo) comprovam isso. Porque os maus são os manifestantes, não as forças militarizadas que reprimem as ideias que os movem. Já não há guerras no mundo rico. Essas foram também transferidas. Para os países que tenham recursos que nos interessam, recentemente descobertos, ou porque agora a sua exploração compensa e dá lucro. Transferimo-las, se ainda as não tinham.

Perdemos os direitos. Já não podemos exercê-los. E nada trazemos (os tais haveres, da canção em epígrafe) senão o mimetismo do acto de consumir. Aqui está a nossa última esperança. E é aqui que venho falar de política. A verdadeira política. Pelo menos enquanto os poderosos conseguirem controlá-la. Depois arranjam outra "linguagem" que não possamos entender e, por consequência, dominar.

No processo de produção, e falo de tudo aquilo que consumimos, necessário à vida ou perfeitamente dispensável à sobrevivência, estão envolvidas muitas organizações e concepções da sociedade. Assim, lentamente, com o desenvolvimento da tecnologia, o crescimento demográfico e o das cidades, fomos transferindo a produção daquilo que comíamos. Passaram dos nossos campos, para os campos d'além muralhas urbanas. Dos nossos quintais para as fábricas e plantações, lá longe da poluição e dos solos alcatroados e estéreis das cidades.

Mais uma vez, um processo de troca. Demos isso, perder o poder e a consciência da produção, em troca da facilidade e da rentabilidade. Porque na cidade não há espaço, nem temos tempo para isso e é muito mais fácil (leia-se barato) apenas comprar que produzir.

(A transferência é o contra-argumento aos que acusam que o poder se perdeu. Não. Nós é que o deixamos escapar e voltar para as mãos dos carrascos que decidem sobre as nossas vidas.)

Da mesma forma, como "o que verdadeiramente importa se mantém secreto", e não podemos averiguar as condições de produção, vamos engolindo e calando. Calando-NOS, porque não se deve falar quando se engole, ou corremos o risco de nos engasgarmos. E morrer, até. (também podia funcionar como metáfora, sim...).

Vêm as instituições, no sistema democrático (sim, sabemos bem o que significa a democracia: pode significar pena de morte, a decisão de ir para a guerra, a coexistência de tetramilionários com milhões de crianças e idosos na miséria, a auto-flagelação para ter pretexto para fazer o que se quer, coitadinhos deles e tal...), e criam algo como o Rótulo Ecológico. Está bem. Não negamos a sua importância. É aliás com isso que temos de jogar. Mas depois vem a parte da informação. E quem no meio desta confusão pode averiguar a veracidade daquilo que lhe dizem ser desta e ou daquela maneira?

De alguma forma, teremos de sair daqui.
Tem de haver uma saída.

E "a erva daninha deve ser arrancada de novo e de cada vez que nasce sobre a fronteira" que nos divide entre cidadãos da democracia participativa e cidadãos da democracia virtual. Agora no campo económico. Porque tudo é economia. E não há mais campos em que batalhar. Não com facas, que é proibido, mas com a consciência.

Em tempo de compras, será que apelos anti conseguem fazer-se ouvir?
E no dia 25, mesmo que as lojas estejam abertas até às 19 horas, nós já teremos saído à rua. Com o nosso silêncio e a nossa força da negação.
De cotovelos e olhares fechados.

2 comentários:

Rogeriomad disse...

Tu escreves o teu artigo na 2ª pessoa do plural...

Quando o fazes, estás a referir-te a "nós portugueses"? ou estás a falar no geral?

Eduardo F. disse...

Bem, de facto é melhor particularizar, ou ser mais preciso.

Quando falo na primeira pessoa do plural dirijo-me àqueles que descobrem algo em que acreditam no artigo.

Mas se for preciso explicar alguma passagem em particular, é só dizer.
;)