segunda-feira, janeiro 21, 2013

Reafirmar a pequenez, quem não o faz?

Braga | 9 de Janeiro de 2013 - Qualidade de vida afunda e empurra o concelho de Braga para fora dos 30 melhores.


O concelho de Braga desceu 20 lugares no ranking nacional da qualidade de vida, tendo sido afastado do grupo restrito dos 30 municípios com maior desenvolvimento económico e social, ao ser relegado para a 46.ª posição. A investigação realizada pelo Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social da Universidade da Beira Interior coloca seis dos 24 municípios do Minho entre os 30 piores. Para a “má imagem” da região contribuiu a perda de qualidade de vida na generalidade dos concelhos, que foi mais notória nas economias de maior dimensão. Terras de Bouro foi o município que mais qualidade de vida ganhou e o distrito de Viana do Castelo é o que melhor ficou na fotografia.

O excerto foi retirado da edição do Diário do Minho do passado dia 9 de Janeiro.

Quem teve a oportunidade (e o desperdício de tempo) de ler as duas páginas que o dito "jornal" desbaratou para falar do estudo... ou passou à frente, dizendo para os seus botões "tst tst...", ou... passou à frente a "mandar vir" com o império Mesquita e Associados... ou, ainda, passou à frente dizendo mal do estudo, com pensamento "mas que vem agora um estudo que não é nosso dizer da nossa terra?!"

Queremos extrair e sublinhar algumas expressões que figuram no tão-bem lavrado e promissor "corpo de texto" da "notícia". Só para que tomem conhecimento.  
Exemplos:

"A «auto-denominada» terceira cidade do país (gostámos especialmente desta ironia) (...) surge agora na quadragésima sexta posição";
"No grupo de que a capital minhota foi afastada surge também Coimbra - ocupa a quinta posição -, que é o histórico concorrente de Braga, na disputa do título de terceira cidade mais importante do país.";
"No primeiro trabalho da universidade sediada na Covilhã, a bimilenar Bracara Augusta surgiu na posição 27, tendo melhorado um lugar ao nível da qualidade de vida, segundo o estudo publicado em 2009.";
"No trabalho concluído em 2012, e que já foi alvo de alguma contestação de autarcas, Braga cai a pique para a posição 46, queda que não é apenas explicável pelo facto de o estudo ter agora incluído todos os concelhos do país, quando nas duas edições anteriores incidiu apenas sobre od 278 municípios do continente.";
"À frente da capital minhota ficaram concelhos como Funchal (4º), Marvão, Constância, Cascais, Loulé, Oeiras, Vimioso, Vila do Bispo, Portimão, Lagos, Sines, Alter do Chão, Barrancos, Santa Cruz das Flores, Tavira, Faro, Aljezur, Castro Marim, Vila Real de Santo António, Castro Verde, Lagoa, São João da Madeira, Castelo de Vide, Pedrógão Grande, Góis, Ponta Delgada, Porto Santo, Aveiro, Campo Maior, Matosinhos, Fronteira, Almeida, Évora, Viana do Alentejo, Sardoal, Vila Velha de Ródão, Crato, Figueira da Foz, Nazaré e Miranda do Douro."

Ufa!!! ou seja, apenas não foram mencionadas Lisboa, Porto e Coimbra - que já o tinham sido anteriormente no texto do jornal.

Por isso, o escriba escusava de ter empregue a expressão "ficaram concelhos COMO", bastava-lhe dizer que o de Braga ficou atrás daqueles, que foram TODOS os que ficaram à frente. Eheh. Em termos de Português, esta frase à la palice é péssima, mas aquela expressão, num jornal, lido por mais que  os  habituais quatro ou cinco visitantes do Georden, pode dar azo a interpretações erróneas.

Bem, mas os jornalistas de fraco profissionalismo parece ser mesmo isso que procuram. Já lá iremos com mais uma suspeita.
Bem, mais exemplos não vêm agora ao caso, para não os maçar tanto quanto nós ficámos por ter lido - e esperado, ansiosos - esta prosa vomitiva e vomitada.
Todo o texto trata de subidas e descidas e classificações: quais e em que lugares.

Na página ao lado surgem títulos como "Maioria dos concelhos do Minho perdeu qualidade de vida"; "Vida com mais qualidade nos municípios do Alto Minho", "Terras de Bouro dá salto de gigante e Cabeceiras foge aos últimos" e, por fim, "Seis minhotos estão entre os piores do país".

Não sabemos se depreendem daqueles títulos que o pobre escriba, pensando, coitado, que estava a fazer jornalismo, estava apenas a transferir dados numéricos para texto... Isto é, limitou-se a fazer uma transcrição dos resultados quantitativos do trabalho. Este é o vazio de que enformam os "rânquingues": ordenam, mas não explicam. A explicação e os porquês - trabalho central do jornalismo - não coube aqui. É só mais um caso em que pensámos ter ficado mais bem informados, nós, a opinião pública dos "orinóis". Ou a retrete.
Que leva com toda a porcaria, entenda-se.
Que leva com o que não foi aproveitado e foi importante para um qualquer organismo, entenda-se.

E no texto, somos prendados, mas apenas por uma nesga, com "porquês" que subjazem aos resultados e de tão "precipitada queda" do concelho de Braga. São, parecendo que escaparam à tolice, estas:
"fraco dinamismo económico" e o "envelhecimento da população existente", "entre outras das 48 variáveis analisadas".

Ou seja, o escriba considerou que aquelas duas eram as mais relevantes para explicar - explicação que não parecia ser o que se pretendia (tão só reafirmar o pequenismo de quem, com aquelas expressões acima, gosta de se pôr em bicos de pés e pôr a língua de fora para quem passa - só que desta vez a língua veio o gato e comeu-a...) - a "queda a pique do concelho de Braga".
Como se - talvez a interpretação seja abusiva da nossa parte - não pudesse haver envelhecimento e qualidade de vida compagináveis num mesmo concelho. Ou, pior (porque pode ser sinal de que estamos a interiorizar aquela ideologia fascista do "este país não é para velhos", daí decorrendo os habituais cortes nas pensões e o abandono dos mesmos ao mau-olhado pela sociedade "produtiva"...), como se não pudesse haver lugar a envelhecimento. 
Ponto final, pura e simplesmente parágrafo.

Pode ser que o jornalista, para a tão-boa informação que nos ministrou, a nós, os cidadãos bem-informados, a fonte lhe não tenha relevado mais que aquilo. O que torna a coisa ainda mais censurável: não só não fez o trabalho de apurar e compreender, como, por consequência, limitou-se, como a correia de transmissão em que se tornaram os jornalistas que estão nas mãos do poder económico, a passar a pouca informação que lhe foi dada a saber.
Mas deixemos a notícia e passemos ao sumo do trabalho do senhor Pires Manso e associados.

Está correcto apresentar, primeiramente, a definição (ou as várias) de "qualidade de vida" (objecto do trabalho) e do que por "desenvolvimento" podemos entender coisas diversas, consoante o objectivo do trabalho e do seu "trabalhador".

Os indicadores baseiam-se em dados estatísticos.
Dificilmente poderia ser doutro modo. A questão é que o senhor Pires Manso poderá, mercê da sua visão parcelar como economista, esquecer-se de valorizar indicadores doutra índole. Mas vamos ver (baseamo-nos nos dois estudos anteriores e a crer, face a não termos encontrado o mais recente, que foram nele utilizados):

Condições Materiais
(i) Equipamentos de Comunicação (estações e postos de correio por 1000 habitantes);
(ii) Equipamentos Culturais (número de bibliotecas por 1000 habitantes, número de galerias de arte e outros espaços culturais por 1000 habitantes e número de museus por 1000 habitantes);
(iii) Equipamentos de Saúde (centros de saúde e suas extensões por 1000 habitantes, farmácias por 1000 habitantes, enfermeiros ao serviço dos centros de saúde por 1000 habitantes e médicos ao serviço dos centros de saúde por 1000 habitantes);
(iv) Equipamentos Educativos (estabelecimentos de ensino pré-escolar por 1000 habitantes, estabelecimentos do 1º ciclo do ensino básico por 1000 habitantes, estabelecimentos do 2º ciclo do ensino básico por 1000 habitantes, estabelecimentos do 3º ciclo do ensino básico por 1000 habitantes, estabelecimentos do ensino secundário por 1000 habitantes e escolas profissionais por 1000 habitantes); e
(v) Infra-Estruturas Básicas (população servida por sistemas de abastecimento de água, população servida por sistemas de drenagem de águas residuais e população servida por estações de tratamento de águas residuais).

Condições Sociais:
(i) Dinâmica Cultural (despesas em cultura das câmaras municipais per capita e utilizadores das bibliotecas por habitante);
(ii) Educação (taxa de analfabetismo e taxa de abandono escolar);
(iii) População (taxa bruta de natalidade, taxa bruta de mortalidade e índice de longevidade);
(iv) Saúde (nº de consultas nos centros de saúde por 1000 habitantes e taxa de incidência de doenças de declaração obrigatória);
(v) Segurança (percentagem de crimes contra o património e percentagem de crimes contra as pessoas); e
(vi) Ambiente (despesas das câmaras municipais na gestão de águas residuais por 1000 habitantes, despesas das câmaras municipais na gestão de resíduos por 1000 habitantes e despesas das câmaras municipais na protecção da biodiversidade e da paisagem por 1000 habitantes).
Condições Económicas:
(i) Dinamismo Económico (despesas das câmaras municipais por 1000 habitantes, empresas por 1000 habitantes e sociedades por 1000 habitantes);
(ii) Mercado de Habitação (licenças concedidas pelas câmaras por 1000 habitantes, contratos de compra e venda, em milhares de euros, por 1000 habitantes e crédito à habitação por habitante);
(iii) Mercado de Trabalho (taxa de emprego e postos de trabalho por 1000 habitantes); e
(iv) Rendimento/Consumo (rendimento médio mensal por conta de outrem e valor dos levantamentos nas caixas Multibanco, em milhares de euros, por 1000 habitantes).

A nós é-nos muito cara a ocupação que a população faz dos seus tempos livres e de quanto tempo livre dispõem. Para isso, - coisa que parece escapar à análise dos economistas economicistas - seria interessante aferir o grau de satisfação das pessoas com o seu trabalho e quantas horas do seu trabalho perdem FORA do horário de trabalho. O cansaço é - em si e já - um sinal da qualidade de vida.
Como não?

Parece-nos um bocado hílaro aquela das "despesas das câmaras municipais na protecção da biodiversidade e da paisagem por 1000 habitantes".

Ficam a faltar, por exemplo, a existência de espaços de recreio, a qualidade do ar e um indicador de ruído não ficava nada mal, também. Se as pessoas vivem com tensão e pouca saúde mental - coisa que pode não levar a pessoa ao hospital, mas pode levá-la, lentamente, à tumba - isso não cabe numa análise da qualidade de vida?

Talvez fosse aferidor de qualidade (e de empenho das Câmaras (as tais cujos elementos são - dizem-nos - por nós elegidos) em cuidar dos seus concidadãos um indicador de taxa de ocupação dos edifícios urbanos, do seu estado de conservação; além do número de crimes contra pessoas, também o número de queixas apresentadas por essas mesmas pessoas contra crimes ambientais (perpetrados pelas Câmaras, empresas ou outro tipo de indivíduos). Também o grau de satisfação com as obras que as Câmaras levam a efeito... sempre para o bem-estar das populações...

Talvez fosse também importante avaliar a vontade e possibilidade do uso dos transportes públicos por parte de quem tem a... possibilidade de não os usar. E o tempo perdido, num mesmo percurso, por uma pessoa a pé e um autocarro.

Talvez fosse também relevante avaliar o estado de conservação dos espaços públicos e do grau de utilização destes para iniciativas privadas.
Enfim, mas parece que os indicadores usados bastaram para "quantificar" e "demonstrar" que o concelho de Braga está a ir mal.

E - mesmo que não possam todos ficar em primeiro ou em último - ficámos com uma péssima imagem deste burgozito de burgomestres e pequenos deuses caseiros de meia-tigela.

Se quiséssemos ser mesmo chatinhos, poderíamos puxar pela cabeça e desencantar mais indicadores que um estudo de economistas adora deixar de lado. É trabalho de secretária. Que os economistas usam gravata e não sujam as mãos no terreno para poderem ir à televisão ficar bem na fotografia dos debates da naçãozita.
Enfim, valem o que valem, cada um faz o que pode e cada um aparece onde lhe cheira a guito.
A questão é que, depois, alguns estudos têm certa projecção e acolhimento ou eco na "sociedade" da latrina.
Ou - se forem noticiados com tanto substrato como o fez o jornalista do Diário do Minho - não.

Géografos precisam-se.
E se se precisam geógrafos não é simplesmente por defesa da classe ou da casta ou o que quisermos chamar-lhe: é que os geógrafos têm - cheira-nos - uma tendência a olhar mais que o seu umbigo, integrando saberes doutras áreas, desvalorizadas, assim, pelos ricos economistas, classe dirigente do mundo a ser conduzido para o abismo.
E se precisamos de geógrafos a fazer estudos e a ter uma voz mais activa e crítica na sociedade tal não deriva da posição de subserviência em que se põe quem demanda e reivindica: trata-se de aspirarmos a outro mundo.

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