quarta-feira, abril 18, 2012

Topofobia traduz um desenraizamento que é também interior

"E as pessoas perguntarão: «Quem será esse senhor de grandes óculos e colete apertado, com aspecto de estrangeiro, tomando notas num caderninho? Que escreverá ele? Do que menos suspeitam, certamente, é que faço contas aos custos da expedição. Aliás, observam que tomamos notas sem imaginar para contar o que vemos, e não o contamos por o termos visto. Viajar por prazer? Não, não se viaja por prazer. Viaja-se para dizer que se esteve aqui ou ali, ou para fugir do sítio em que está; o monomaníaco das viagens é-o por topofobia, foge de todos os lados. Viajar não é natural. As crianças não passeiam indo a um lugar determinado, mas brincam correndo em volta de um ponto. Obrigá-los a percorrer uma légua cansa-os mais do que deixá-los correr três léguas num jardim. E os adultos precisam da caça - aqui, do atavismo - para percorrer os campos."

Miguel de Unamuno, Espinho, Agosto de 1908
in "Por Terras de Portugal e Espanha", p. 55 (Ed. Nova Vega, 2009)


"Mal conseguiam alojamento num sítio, continua Nossack, os fugitivos partiam de novo, para seguir viagem ou tentar regressar a Hamburgo, «ou para salvar qualquer coisa ou para a busca persistente dos familiares», ou pela negra razão que compele um assassino a voltar ao local do crime. Fosse pelo que fosse, todos os dias se movimentava uma multidão incontável de gente. [Heinrich] Böll viria a sugerir mais tarde que estas experiências de desenraizamento colectivo estão na origem do gosto pelas viagens da República Federal, esse sentimento de não ser capaz de permanecer num sítio, de estar sempre a querer mudar."

W. G. Sebald, 2003, in "História Natural da Destruição", pp.37-38 (Ed. Teorema, 2006)



Se assim for, o crescente fluxo de pessoas devido à economia (em negócios de trabalho ou naquele outro de sobrevivência...), está a ser um reflexo do abandono de nós próprios e das nossas razões de ser.

Será que vamos suportar conviver com quem tem cada vez menos a perder?

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