terça-feira, abril 03, 2012

O cão leva o polícia




Mais vale ser um cão raivoso
do que um carneiro
a dizer que sim ao pastor
o dia inteiro
e a dar-lhe de lã e da carne e da vida
e do traseiro...



O cão raivoso é um animal domesticado, ao serviço de quem o domestica.
Tem de ser condicionado, ensinado, para a boa prática produtiva ou securitária.

Andam com eles os polícias e os ladrões, os terratenentes e os banqueiros, os mafiosos e os simples compradores de acções de Estado.

O cão raivoso dos tempos vivos em que a força estava na rua e nas mãos das gentes está agora na posse dos ricos, para que ele lhes proteja as suas propriedades. Mesmo que em condomínio fechado, com altos muros e sebes, com um belo jardim de relva que eles não cuidam mas mandam cuidar, que o jardineiro - coitado, tem de ganhar a vida, é esse o pão do seu sustento... - precisa de dar de comer aos seus dependentes.

Por onde vamos passando, cada vez mais distanciados do que nos diz respeito, que foi tomado por um qualquer decreto de que não ouvimos falar, mas que foi votado, foi votado, e aprovado e tu é que não quiseste saber, estavas preocupado com a tua vidinha de tanto labor e suor e as tuas complicações do dia-a-dia amesquinhado pela trampa que vais tendo de comer para ires sobrevivendo a outro tipo de... vida.

Por onde vamos passando, estes círculos se fecham cada vez mais, por aqui e por ali, nas encostas e nos sítos salubres, a salvo dos selvagens que tudo sujam na sua pobreza e pouca vontade empreendedora, que se te aplicares e investires verás que serás bem sucedido, o que é preciso é arriscares, no pain, no game, ou em Portchuguize, arrisca e petisca, que os bancos ficam e decidem o que fazem com o que vão avaliar da tua proposta de criação da tua empresa, a economia é mesmo assim, a livre iniciativa, apanágio dos accionistas que produzem o dinheiro a partir do nada e têm para to dar e iludir acenando-o bem à frente dos teus olhos mirradinhos visando, como eles, o lucro de que serás despojado assim tenham oportunidade de criar a próxima crise e alegarem o motivo da tua miséria e a sua enfim tão esperada acumulação...

E por cada fronteira, encercam-se uns e outros. Uns do lado de dentro, outros do lado de fora. Sem uns deles saberem como se viram arredados do acesso ao outro lado.

Lado de fora, lado de dentro. Qual deles, onde está, onde estás tu, que és livre e cidadão multinacional, anfiteatro do mundo e cloaca dos ricos, globetroter da palhaçada e da engrenagem maquinal produtora de cidadãos bem informados e megalómanos que apenas querem crescer e ver e viver e entender e comer e procriar e poder defecar no terceiro mundo que nasce dentro de ti, parvo podre que te estás a matar e tu não vês!

Vira o céu, muda a dança, tu pensas mas não existes, saltam pulgas na balança dos tristes que vasculham no lixo - e nós com isso! - a caravana que tu és fica, cosmopolita, encostada a um canto da estrada com um letreiro a dizer "Vendo-me ao que me der um trabalho", quando o que tu queres é o dinheiro, dinheirinho, porreirinho da "pró-víncia", seu adamastor adormecido e vencido que vais atrás do que te mandam, que te fazem à sua imagem e semelhança, os deuses caseiros e internacionais que tu não vês, não sabes ver e não queres entender nos pequenos e, dizes, insignificantes actos que vais realizando na tua pequenez dos dias sempre iguais.

Se tudo o que fazes vai sempre ter ao mesmo, seja lá por onde for, tens de fazer diferente, ver diferente, entender diferente, mudar de posição, pôr-te em cima da mesa para veres a careca dos padrecas que te dão paulada com a subserviência do registo civil, bancário e horário, da conformação e da legitimação das regras sociais, instituídas por pessoas que não foram elegidas mas que bem mereciam cair da cadeira abaixo, dizemos mais, bater com a cabeça na parede para verem se não dói, ah! pois que pensas?, a mim também quantos meses saem do meu ventre para a pança dos burgueses?, que tenho o meu cabedal a dar a dar e as costas a lamentarem-se todos os dias, mas lá tenho de ir dar com os miolos no chão de tanto olhar por baixo, de baixo e para baixo. Tá quietinho ou lavas o focinho, que o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito.
Com o teu respeito, és o polícia do dinheiro, o operário da opressão, por isso tu és o cão a ver as caravanas sempre a passar e tu a ficar a ver a tua vida em pantanas, preso a um pau, e é um pau!...
Perde-se a geografia no meio de tudo isto quando os elementos de análise se tornam indistintos e perde-se a análise de todos os elementos quando deixamos de analisar a civitas em degenerescência, excrescência, maledicência, impotência sexual, anal, divinal, imperial, seu cão com pedigree que te põe pisar a porcaria que o teu patrão diz pagar-te ao fim de cada período laboral...

Se tudo o que fazes é ladrar o dia inteiro à espera que chegue o teu dono para ele te dar de comer... olha, quando ele chegar...

COME-O A ELE
(que cão raivoso és tu?
Tu és a tua e única propriedade)

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