quarta-feira, novembro 04, 2009

"Los domingos siempre son días tristes..."*

No domingo de 27 de Setembro passado, o tempo não esteve especialmente chuvoso. Isso até podia ser um bom prenúncio para os resultados da abstenção. Mas pronto, o défice democrático, que não se mede só em pessoas que deviam ter ido e não foram meter o boletim, é o que é.
Os resultados foram o que foram e - vamos admiti-lo - somos os votantes que somos.

Se a Democracia, o sistema democrático que temos, digo, nos permite eleger os nossos representantes políticos (elegermos os económicos é que era bom...), concluamos que os representantes que temos são a representatividade que quisemos, dentro da que pudemos, ter.

Os domingos de eleições, não importa de que lado se esteja, são sempre dias tristes.
No fim do dia, uns, porque ganharam, fazem a festa, outros, porque quase ganharam, fazem a festa também.
Até a abstenção faz a festa, porque a cada legislatura que passa vai tendo mais apoiantes.
Desta vez 40 % dos votantes, não tendo ido votar, votaram no PA (Partido da Abstenção), contra os cerca de 35 % de 2005.

Os resultados do dia 27 de Setembro de 2009, convém tê-los bem presentes para o que aqui se pretende, foram os seguintes (e apenas mostramos as 6 primeiras forças):


Não vamos, se bem que podíamos... e devíamos, fazer uma análise territorial dos resultados. Ou seja, tentar compreender onde se vota em quem, como quem quer arranjar bodes expiatórios e poder apontar os dedos da vergonha ou da satisfação.
Até porque, por vezes, é preconceituoso estar a associar certo tipo de rótulos a este ou àquele partido ou movimento. (Mesmo que se sinta carência, e muita, de frescura de ideias e de processos que possam levá-las avante.)

O que importa reter é que:
36,55 % da população que votou foi, no acto da votação (sabemos como isto é flutuante; mesmo sabendo de antemão que não valeria esperar pelos resultados se tudo fosse igual, sabemos também que os partidos mais votados têm vindo a alternar-se no poder para incredulidade e desmemória deste povo que, por esta, abortando aquela, continua a teimar em chamar a isto Eleições Democráticas. As eleições democráticas até vão sendo, muito do seu exercício por aqueles que nos supostamente nos representam é que nem tanto...), partidossocialista (não quisemos chamar-lhes socialistas, pois isso é outra coisa),
29,11 % da população que votou, foi, no acto da votação, partidossocialdemocratista (este nome é bem mais engravatado que o dos rosas, antes punhos: até tem democrata no nome, logo só pode ser melhor...)
10,43 % ... (blá, blá) foi centrodireitassocialistapopularista,
9,82 %, blocoesquerdista,
etc., etc.


Nas escolas (aqui um corte abrupto) ensinam-se muitas coisas às nossas crianças. Há tanta gente a escrever para as crianças aprenderem os valores da democracia, do respeito pelo ambiente, da segurança na estrada, os valores da amizade, do não-bufismo e do não-copo-de-leitismo, os valores humanistas que, caso não as obrigássemos a deitá-los fora, com os nossos mesquinhos status quo instituídos e calcinados, fariam deste um povo melhor.
Os resultados eleitorais seriam, com certeza, diferentes, mas até podiam ser semelhantes: o empenho e a abertura mental, que não se traduzem necessariamente em dígitos mas mais em actos, seriam bem maiores.

As crianças têm personalidade. Até jurídica. Mas quem manda nelas são os professores e outros que elas nem sequer vêem na sua sala de aulas. São tuteladas.

Seria bom fazer um inquérito à população escolar do 1º Ciclo sobre as suas preferências partidárias. Como seriam os resultados? Pela representatividade, os estatísticos diriam que "não andariam muito longe dos resultados das últimas eleições".
Mas - continuando a desenvolver esta questão absurda - será que a maioria se absteria de votar, de se pôr do lado deste ou daquele partido ou movimento?

A partir de que idade uma criança tem consciência suficiente, sentido da história esboçado e visão do mundo necessária para optar por este ou por aquele partido, movimento ou ideias?

Não, não: a questão é da maior importância para o que se pretende.

Falando em termos de clubes (claro, neste país, pensa-se logo em clubes de futebol...), que direito tem, quem quer que seja, mesmo sendo pais (há quem trate os filhos como alguns vão tratando o Estado: usam-no como uma propriedade, decidem o que fazer com ela, até a vendem se preciso for), de, aos 0,1 anos de idade da criança, ir "matriculá-la" ou torná-la sócia deste ou daquele clube?
Que direito?
Falando em termos de Catolicismo, que direito têm os pais de baptizar os filhos?
Mas aqui se calhar já estamos a enveredar por fundamentalismo...


O INE, nos Recenseamentos Gerais da População, questiona-nos, em cada decénio, sobre a religião. Mas só o faz à população residente com 12 ou mais anos.

Deixá-los crescer e, quando eles bem entenderem, se assim o entenderem, eles que decidam por si. Vivemos em Democracia, não vivemos? Então apliquemos esse valor também aí.
Que ninguém tenha a arrogância de defender que, como em relação aos aterros sanitários e às auto-estradas, "Democracia, sim senhor, mas no meu quintal não!" (na minha família não!). Se assim se verificar, então a herança fascista ou outro "ista" que não democrática está de pedra e cal por aí, em algumas famílias ou zonas deste país.

Depois, claro, dependendo do grau de "mesmismo" que se reproduz na sociedade e reproduz as estruturas sociais, lá iremos ter tais e tais resultados eleitorais, tais e tais ideias a governar os nossos pensamentos e actos
Como aquela senhora, entrevistada para o efeito e seleccionada para um efeito, que disse que achava mal, porque era católica.
E quem não é católico, não achará bem?


A Democracia é a coexistência das diferenças, mas o exercício da Democracia é pugnar por que essas diferenças não destruam a Democracia.
Isto é, permitindo a diferença e até a oposição, a Democracia não é neutra.
A Democracia defende valores democráticos, não os impõe.
A Democracia nem, tampouco, impõe as diferenças de ideias. Permite-as.
Esta distinção é fundamental. E só os valores humanistas e democráticos no-la podem ensinar


A confusão de valores dá sempre numa salgalhada em que todos discutem e ninguém come o pão.
A polémica que nos trouxe aqui não tem muito que se lhe diga. Aliás, parece-nos uma perda de tempo.
Nesta altura da nossa Democracia
(o que, afinal, nos leva a duvidar da sua real idade...)
andamos ainda a aprender o bê-a-bá do republicanismo?


A Constituição da IIIa República, aprovada em 1976, regula a matéria como "direito, liberdade e garantia", no seu artigo 41º que prescreve:

« 1. A liberdade de consciência, religião e culto é inviolável.

« 2. Ninguém pode ser perseguido, privado de direitos ou isento de obrigações ou deveres cívicos por causa das suas convicções ou prática religiosa.

« 3. As Igrejas e comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto.
(...)


Caso seja possível o diálogo, eis aqui a ideia inviolável:
Defendemos a liberdade de credo.
E com isso defendemos, claro e também, a liberdade.


É claro que a população portuguesa professa inquestionável e maioritariamente - aqui e agora - o Catolicismo. Mas esses números não contam para nada, porque estamos a falar do valor que vigora, da separação das esferas num espaço que é público.
Não venham cá com a tradição, nem com falácias bolas-de-neve.


Imagem original, da Igreja de Santa Eulália (em Tenões, Braga) retirada da Wikipédia.
Intromissão da esfera política na esfera religiosa por Eduardo F.


Acham chocante, anti-religioso até, retirar os crucifixos das escolas?
Ai é?

Então, façam o favor de,
em 36,55 % das Igrejas de Portugal colocar a rosa dos partidossocialistas,
em 29,11 % (blá, blá) colocar o setinha dos partidossocialdemocratistas,
em 10,43 % ... (blá, blá) colocar as setinhas e a bolinha dos centrodireitassocialistapopularistas,
etc., etc.

...

Não.
Isto é estúpido.

Mas é tão triste estarmos a deter-nos nisto.
Como são tão tristes estes monólogos domingueiros (do "dia do senhor")...


*Alusão ao primeiro verso de "Los Domingos", do asturiano Víctor Manuel.

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