quinta-feira, março 15, 2012

O líder da destruição (Luta desigual 2)

For now one million bombs are stored,
But they keep building more and more.
Can't you hear the warning sound?
Don't you know there's still time to turn around?´

"Rivers of the Blood", Phil Ochs

Não contamos nada.
Nem contamos para nada.
Não discutimos.
Não questionamos.
A autoridade. Tal como qualquer Salazar proferiria.
O canal Arte difundiu ontem, dia 13, um documentário sobre o tabu dos resíduos nucleares. A cada dia que passa produzimos mais e mais lixo tóxico.
Onde estamos a pô-lo e o que estamos a fazer com ele?
Segue-se um resumo do dito: Dechets: Le cauchemar du nucleaire (Resíduos: O pesadelo do nuclear) (Pode ser visto na íntegra, em Francês, aqui.)
As traduções são nossas (estão em itálico). Acho que em Português poucos mais lugares o terão. Porque "era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto."
Começa lindamente...

"Em menos de 50 anos os países nuclearizados afundaram mais de 100 mil toneladas de resíduos nos diferentes oceanos. Só o Reino Unido, por si, rejeitou 80% do total. E a Suíça, que nem sequer tem costa, fica em segundo lugar." (Dados da Agência para a Energia Atómica)

Em 1993, um tratado das Nações Unidas proibiu finalmente a rejeição de qualquer resíduo nuclear. A França foi a última a ratificar o acordo.

O nuclear foi desenvolvido pelas forças armadas e é difícil saber o que se esconde. Muitas informações são protegidas por segredo militar.


Hanford, Noroeste dos EUA

O primeiro lugar nuclear do mundo foi construído em 1942, em plena segunda guerra mundial, no meio do deserto, sob a administração Roosevelt (Projecto Manhathan), com nove reactores nucleares e cinco fábricas de plutónio. Hoje o terreno de Hanford parece um campo abandonado, mas está cercado. Foi aqui que foi fabricada a bomba atómica de Nagasaki. Usavam a água do rio para arrefecer os reactores e para rejeitar materiais radioactivos.

Na altura, os responsáveis do local deixavam os habitantes de Hanford tomar banho no rio sem os informar do perigo que corriam.


- As pessoas estavam a par desses resíduos?
- Claro que não: era um segredo protegido pelo projecto Manhathan e pelo exército americano.

Perante tantos resíduos químicos, foram construídas gigantes 170 cubas de betão que, para reduzir os riscos, foram afundadas no solo. Esta solução de armazenamento seria provisória. Infelizmente, nos anos 80 os engenheiros descobriram que 60 delas tinham fugas e estavam a contaminar os níveis freáticos. Hoje, restam 200 milhões de litros de melaço altamente radioactivo que urge neutralizar. Esvaziar as cubas é um enorme desafio tecnológico. Enquanto esperam, a contaminação radioactiva continua.


Em 2002, um relatório oficial relatava que 13 de 15 peixes (carpas) apanhados no rio Columbia estavam contaminados (com estrôncio-90). O consumo frequente multiplica o risco de cancro.


Tcheliabinsk (perto de Mayak, Montes Urais, Rússia)

Durante a Guerra Fria, na corrida ao armamento, a União Soviética construiu, desde 1945, dez complexos atómicos. Durante 30 anos, nada se soube do outro lado da cortina de ferro. Em 1976, um dissidente soviético revelou que houvera um grave acidente nos Urais, uma antecipação de Chernobil. Em 29 de Setembro de 1957 uma cuba de resíduos nucleares explodiu - um mega-Hanford - e durante 20 anos ninguém disse nada. Quando Medvedev fez tal revelação, os cientistas ocidentais não acreditaram.

- Porque não acreditaram em si?

- Porque em 1976 todos os países ocidentais ponderavam desenvolver a energia nuclear. Era um problema falar de resíduos nucleares, de contaminação e de riscos de explosões e, para evitar o pânico na opinião pública ocidental, diziam que tal era uma conspiração do KGB. O responsável dos assuntos nucleares da Grã-bretanha declarou que o que eu dizia era falso, que era impossível. De facto, a CIA sabia que era verdade, mas guardou segredo.
- Porquê?
- Provavelmente pela mesma razão. Não deviam querer causar problemas à indústria nuclear. Mas o problema dos resíduos existe hoje. Existe no Japão, existe nos EUA, na França, na Rússia, na Inglaterra e noutros países. Mas como eles gerem os resíduos nucleares, isso ignoramo-lo.

Há poucas informações sobre essa explosão, escondida por todos os serviços secretos, mas ela demonstrou que os resíduos não são apenas tóxicos mas também explosivos.

A explosão na zona de Mayak cobriu o céu e foi o equivalente ao rebentamento de 15 mil toneladas de TNT. Os elementos radioactivos foram projectados a mais de um quilómetro de altitude, contaminando uma área estimada de 15 mil quilómetros quadrados. 200 pessoas morreram no local e mais de 200 mil foram expostas às radiações. Esse foi o acidente mais grave conhecido antes de Chernobil. Mas tudo foi guardado em segredo. 800 quilómetros quadrados de território contaminado foram vedados.
No início dos anos noventa, mercê de uma certa abertura perestroikiana, uma equipa de jornalistas pôde entrar no local e viu como o lago Karashaia eram usados como repositório dos resíduos tóxicos. A céu aberto. Face à quantidade de resíduos, outro lago foi usado. Os lagos são a fonte da contaminação do principal curso de água da região, o rio Tetcha, que atravessa muitas povoações. Muslimovo (a primeira) e ao longo do rio resta toda uma geração de habitantes sacrificados em nome do segredo nuclear. O governo dá um milhão de rublos (cerca de mil euros) aos habitantes para deixar a aldeia. Mas alguns decidem ficar.


- Quantos aldeões não morreram já de cancro, mas para onde é que podemos ir? Com as nossas pequenas reformas ficamos aqui até morrermos. Não temos escolha.
- Explicaram-vos o que podíeis consumir?
- Eles dizem que tem de vir tudo de fora, mas que é que eu posso comprar com 80 euros por mês?
- E o vosso leite, bebei-lo muitas vezes?
- Sim, é o nosso leite, como não o haveríamos de beber. Eles analisaram o leite, a água..
- Quem é que analisa?
- È um serviço de controlo sanitário que analisa tudo o que comemos. Vêm quase todos os anos fazer análises.
- E sabeis os resultados?
- Eles não nos dizem nada: fazem as análises para eles.

As análises da terra do rio Tetcha acusam quase 2200 bequeréis por quilo. Quando deviam ser de ZERO.

Aqui diz-se aonde também vão parar estas águas radioactivas.

O plutónio é o material das bombas atómicas. Militares ou civis, as fábricas nucleares têm sempre um ponto em comum: elas produzem OBRIGATORIAMENTE resíduos radioactivos, que elas rejeitam em parte no ambiente.

La Hague (Noroeste da França)

A França também possui a sua fábrica atómica (de tratamento de resíduos). É idêntica à de Mayak.

- Estamos precisamente na conduta de rejeição dos resíduos da fábrica. Por aqui sai o equivalente a 30 milhões de litros de resíduos que todos os anos, desde 1993, passam por esta conduta e são enviados para o mar.
A resolução de 1993 interditou a rejeição de resíduos no mar, mas somente a partir de barcos. Paradoxalmente, a rejeição através de condutas terrestres continua legal. A conduta da fábrica de La Hague rejeita por dia 400 metros cúbicos de material radioactivo nas correntes (do Canal) da Mancha.
- Através de medições das emissões gasosas analisamos a dispersão do kripton-85 acima da chaminé da fábrica e concluímos que estamos numa situação de acidente contínuo. É como se tivéssemos um acidente nuclear permanente, mas legal.
A concentração de kripton-85 na atmosfera tem vindo a acumular-se.


Desde a criação da fábrica que pedimos aos responsáveis um exercício de comunicação impossível: têm de reconhecer que a sua actividade deposita resíduos no ambiente sem empregar o termo "contaminação". E que "há apenas vestígios".


As fábricas de tratamento de resíduos são responsáveis por 80% dos resíduos nucleares na Europa. Os ambientalistas contestam esta actividade. Para quê o tratamento?
Na página da Areva, o ciclo do combustível é-nos apresentado como um ciclo aparentemente fechado. Os resíduos nem sequer são mencionados.

Quando reciclamos o vidro reutilizamos 100% do material. E qual é a percentagem para os resíduos nucleares?

Depois de tratados os resíduos da produção de energia, ficamos com 1% de plutónio, 95% de urânio e 4% de resíduos finais. Isto demonstra que o tratamento dos resíduos não faz desaparecer totalmente a radioactividade, como muitos pensam, mas que esta é concentrada nos resíduos finais, que são extremamente perigosos porque, em si, representam 99% da radioactividade. Resíduos que são postos em "pilhas" de ferro fundido e armazenados.
Quanto a estes 4%, nada a fazer. A sua produção total para o consumo da França é negligenciável, mas a sua radioactividade manter-se-á durante CENTENAS DE MILHARES DE ANOS.
O plutónio é tratável, porque contém muita energia, e pode ser reintroduzido no processo de produção eléctrica.
Mas a maior parte dos resíduos tratados diz respeito ao urânio: 95%. E se o processo é realmente fechado (reciclado),
como são utilizados estes 95%?

Um porta-voz da Areva
(empresa de energia nuclear) diz-nos que ficam armazenados para quando o CLIENTE quiser usá-los - uma vez que estes resíduos ainda podem gerar energia. Assim, enviamo-los para a Alemanha, para os Países Baixos ou para a Rússia, pois não dispomos da tecnologia de enriquecimento do urânio.
- E esse urânio enriquecido, o que fazem com ele?
- Isso tem de perguntar aos nossos clientes: a partir daí, esses resíduos são sua propriedade.
Seguimos o rasto dos resíduos.

Tomsk (Sibéria)

O material que vem de França parte, em verdade, para Tomsk, na Sibéria.
Quando chega a Tomsk estes material altamente perigosos percorreram cerca de 8 mil quilómetros.

A imagem destes contentores (de 10 metros, daí poderem ser vistos por satélite) é impressionante, pois são guardados a céu aberto.

- Depois de serem enriquecidos com urânio-235 para criar combustível para as centrais nucleares, reenviamo-las de volta para França.
- Quer dizer que tudo o que chega aqui (Rússia) volta para donde veio?
- Não, de maneira nenhuma. Cerca de 80%, talvez mais - não tenho bem presente o valor - fica aqui, armazenado.
Isso representa 9% dos materiais, confirma a EDF (Éléctricité de France). Este novo dado muda as contas da reciclagem: cerca de 80% dos resíduos não são reutilizados. Recalculando, o tratamento dos resíduos não consegue senão abranger 10% da matéria. Ficamos muitíssimo longe da taxa de 96% anunciada pela Areva, que usa estes números para apresentar a energia nuclear como energia reciclável.

Só três países optam pelo tratamento dos resíduos: a França, a Inglaterra e o Japão. Os outros ainda não decidiram o que fazer.
Estamos a fazer da Sibéria o nosso caixote do lixo.
O tratamento dos resíduos não existe.
Uma ex-ministra do ambiente francesa diz:

- Em primeiro lugar, não a tenho a certeza de que a energia nuclear seja de facto rentável. Mas aquilo de que tenho a certeza é que ela está na origem de muitos males da sociedade francesa, da opacidade na qual o sistema se fechou, que transvasou para outras coisas, que esconde o facto de que tudo é feito para o nuclear, e, em segundo lugar, está na origem de uma parte das dificuldades da economia actual, na medida em que investimos tudo no nuclear em detrimento do desenvolvimento nas energias renováveis, na eficácia energética, nos novos materiais, etc., etc. e é por isso que a nossa indústria está atrasada.

Mesmo se o nuclear está em causa, isso escapa às pessoas: ela tem sido imposta desde o começo.

Ao nível político, ninguém se interessa pelo sector da energia.

(RIR / CHORAR COM OS PRIMEIROS MINUTOS DO VÍDEO)

Ségolene Royal (SR) - Você sabe qual é a parte do nuclear (no consumo da energia em França)?
Nicolas Sarkozy (NS)- (...) metade da nossa energia é de origem nuclear.
FALSO

SR - 17%, apenas, 17%!
FALSO

(...)

NS - É preciso que os franceses saibam.
VERDADEIRO!

É preciso que os franceses saibam, mas ninguém lhes explica.
Desde o princípio, que se faz crer aos cidadãos que o nuclear é demasiado complicado e que devemos deixar isso para os engenheiros.

- O que faz a riqueza de uma sociedade: é a inovação, e a inovação supõe, a meu ver, uma ligação estreita com a democracia. Não se faz a inovação contra a população, mas PARA a população e a população deve aceitar a sua inovação.


A história demonstra que as populações têm sido SISTEMATICAMENTE DESINFORMADAS.
...
Os lugares onde são armazenados estas bombas relógio não estão protegidos para a nossa escala temporal, quanto mais para o tempo de decaimento radioactivo...!!
Assim é a globalização (só um globo...) da porcaria que vamos fazendo.
Consumir mais energia é demandar mais produção da mesma. Alguém decide por nós de que forma.

Por cá, há Patricks Monteiros de Barros... mas isso só demonstra a pobreza destes caciques que se querem infiltrar na opinião pública. E quanto mais progredir a ignorância, a estupidez e o controlo mediático e institucional neste país, mais perto estaremos de ter a energia nuclear... COM TODO O GOSTO!, diremos nós.

Vendem-nos o futuro sem acautelar o presente.
Prometem-nos o presente sem pensar no futuro.

Não é preciso dizer que o termo "sustentável" é estranho a estas orientações morais / amorais / imorais.

Não contamos para nada?
6000 gerações, o equivalente a 200 mil anos é muito tempo.
É a duração da radioactividade dos resíduos nucleares.
Porque, Ah, esquecemo-nos de dizer, tudo isto entra facilmente na cadeia alimentar...

E mais cedo ou mais tarde virão bater-nos às costas.
LITERALMENTE.
(Nota: este documentário vai ser redifundido no dia 22 de Março, pelas 9h30. Para quem tiver acesso por satélite ou por zóne. Quem tem méu, está impossibilitado. São novas formas da velhinha censura...)

1 comentário:

Anónimo disse...

É importante ler-te.