Faço greve à morte a alastrar

O assalariado interessa-se apenas pelo objectivo dos seus esforços, pela utilidade que possa colher do seu trabalho; a actividade que pratica não lhe traz satisfação, constitui tão-somente um fardo, uma necessidade incontornável, que de bom grado entregaria a uma máquina. O trabalho só o prende por obrigação e é por isso que o assalariado tem o espírito ausente daquilo que faz e passa o tempo a pensar noutros objectivos que pretende atingir tão depressa quanto possível.
Se o objectivo imediato do trabalhador for a satisfação de uma necessidade pessoal, por exemplo, construir uma casa, produzir os seus próprios instrumentos de trabalho ou confeccionar as suas roupas, então, juntamente com o prazer nos objectos úteis que vai tendo ao seu dispor, há-de ir crescendo a tendência para trabalhar os respectivos materiais segundo imperativos do seu gosto pessoal. Ou seja, uma vez obtido o fundamental, a actividade produtiva orientada para necessidades menos prementes, tenderá a elevar-se o nível de arte.
Mas se o trabalhador aliena o produto do seu trabalho, resta-lhe apenas o valor abstracto do dinheiro, e a sua actividade, não podendo elevar-se acima da produtividade mecânica, representa somente esforço, trabalho triste e amargo. É esta a sorte dos escravos da indústria. A imagem lamentável que dão as nossas fábricas é a da mais profunda indignidade humana: um labor contínuo, tantas vezes quase destituído de objectivos, destruidor dos corpos e dos espíritos.
E também neste ponto a influência deplorável do Cristianismo não pode ser negligenciada. Do ponto de vista do Cristianismo os objectivos do homem são totalmente alheios à vida terrena e concentram-se em Deus, num deus absoluto e exterior ao mundo dos homens. Consequentemente, a vida só pode constituir objecto de preocupação humana no que respeita às necessidades mais imediatas, já que cada um de nós, ao receber a vida, contraiu também a obrigação de a conservar até que Deus entenda ser chegado o momento de nos libertar desse fardo. Tais necessidades, contudo, não devem nunca despertar-nos para uma manipulação apaixonada da matéria de que nos servimos para as satisfazer.
(pp. 71-74)
"A ideia de que o crescimento económico constitui um fim em si implica que a sociedade é um meio." (François Flahaut, "Le paradoxe de Robinson", 2005)
"Não só a sociedade está reduzida a ser apenas o instrumento ou o meio da mecânica produtiva, mas o homem tende a tornar-se o resíduo dum sistema que visa torná-lo inútil e a passar sem ele." (Serge Latouche,"Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno", Ed. 70, 2011, p. 18)
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