terça-feira, junho 29, 2010

Geografia do Quotidiano

Vejo carros a passar,
uma parede de prédios ao sol,
um homem a limpar um vidro,
uma mulher que vem à janela,
(aquele leva película aderente),
bandeiras de Portugal penduradas,
sacos plásticos,
um carro de instrução,
uma cortina ao vento,
o primeiro fumador do dia,
(aquele leva leite),
(aquele leva minis),
um sorriso brando,
colegas de branco a discutir.

Caio em perguntas: porque há-de a realidade ser mais rica que a ficção? E esta que o sonho?
(aquela leva vegetais e papel higiénico)
(aquela croissants e uma garrafa de água bebida).
Sou um escrutinador? Um observador? Observado?

Um olá é maneira que encontrámos para dizer que estamos cá.
No pequeno intervalo, a fumadora não obtém qualquer prazer e só satisfaz o vício.
Segunda-feira, 10 e 44 da manhã e eu tenho de estar aqui. Não leio e observo. Com ar sonhador enquanto o tempo passa.

Cara linda e tímida.
Que públicos atrai este centro? Categorizá-los por género? Porquê logo isso? Quantas vezes por dia têm de se abrir estas portas automáticas?
"500 anos" inscrito nos sacos plásticos não intimida ninguém, porquê?
Não é agradável caminhar junto ao movimento ruidoso e perigoso dos carros, sob o sol cada vez mais agressivo.
Há duas portas que se abrem e a tendência das pessoas é irem para o meio, esperando que seja lá onde elas se abram.
Miúdo de braço engessado.
Homem que só veio pagar as contas.

Ao longo dos anos o meio moldará o nosso linguajar.
O auto-isolamento é a esperança de ainda termos controlo sobre a violência a que estamos sujeitos.
Para quê as estatísticas?

O que abranda um andar? Que valores? Atractivos, repulsivos, quais? Visíveis? Alguns invisíveis?
Fila para o multibanco. Dia 28 de Junho de 2010.
Uma bengala.
Porque somos tão hostis com quem é ávido por descobrir o mundo? A reprodução da educação acumulada. Que forças da violência nos esmagam a sensibilidade? Tenho que me desviar num súbito porque vou desatento.
As férias não-laborais e o tempo dos desempregados, desvalorizado num espaço tomado ao domínio público e privado. Água que não tem vontade de contrariar a sua direcção, lenta ou rápida, para o buraco escoador das nossas energias legais e reconhecidas.

Um camião enganado? E todos os amigos que por aqui não passam. Gostava de saber tocar guitarra. Acto individual partilhável, forma de comunicação encantadora.
O mero entretenimento televisivo é deformativo para os que não agarram as suas estruturas.
Camião do lixo.
Contas para pagar.
Uma viúva da ruralidade, vestida no negro habitual, poderia ser considerada ofensiva para o bem-estar colorido do centro de comércio da moda.
(Aquele leva fruta e pão).

À vista do sorriso de uma criança tudo desaparece, desimportante.
(Aquele leva moedas a tilintar no bolso).
Coacção do meio contra a liberdade e paz interpretativas, sob um suposto agradável que inunda toda a praça.
As mesmas ideias de sempre ditas sempre doutras maneiras.
As mesas do consumo não estão feitas para a tua altura, miúdo.
(Aquele leva fraldas de bébé).

Estarão de baixa, ou desempregados, os que têm problemas locomotivos que aparecem por aqui?

Malabarismos com o maço de tabaco.
Pelo menos nesta data, um público jovem e maioritariamente feminino.
As pessoas que fumam não são mais feias que as que não. As pessoas que fumam podiam ser mais bonitas se não.

Motivos de alegria que passam, porque nalguma altura os prendemos ou nos prenderam a eles. Ou nos prenderam a nós.
Preferimos a cor ao cinzento. Que a vida não é neutra.

A inspiração é o que vem de fora.
"Quantos pobres são precisos para manter um rico?"
Quanto lixo para manter um corpo?

Por quanto tempo é possível manter o entendimento? O desentendimento é o afastamento dos corpos, a aproximação e o entendimento com outros corpos. Um entendimento de cada vez? Só?

O meu templo é o tempo da contemplação do mundo
(aquela leva uma barra de chocolate).
Usamos o chapéu dos outros porque não conseguimos fazê-lo nosso.
(Aquele leva três pacotes de tostas).


Normal é que a precariedade nos leve à demissão.
Queremos uma vida inteira, digna e justa. Aquilo que nos é devido e negado. Muito para lá daquilo por que temos de lutar e por que outros nós lutaram antes de nós.
O homem bidimensional, anti-quadrado, encaixável, interactivo, contra-demissionário.

Preponderância dos olhinhos azuis, sociedade arianizada.
Em Roma sê romano. Para não destabilizares muito.
As pessoas que adequam o seu andar ao andar de quem acompanham. Para o acompanhar.
Os médicos não deviam fumar. Mas a racionalidade é limitada e as necessidades apreendidas.

Sorrisos do passado no presente. Sorrisos retroactivos?
Miúdo com pai na Alemanha prestes a ir de férias para o Canadá.

Não é que o espaço privado se tenha tornado público. Essencialmente prossegue nos seus intuitos definidos, lucrativos. Face à retracção do espaço público, o privado tornou-se mais "publicável".

Pensamentos ociosos, que direito? Contornáveis?
"A produtividade, ora aí está, quer dizer, há tanto nesta terra que ainda está por fazer."
Pensamentos julgamentos. Censuradores tanto como a si mesmos. Questionadores, instead.
Grandes solas de sapato popularizadas pelas raparigas picantes.
Uma travagem brusca, quase acidente.
Ser leve não implica só ver leveza. Talvez implique mesmo sentir o peso à nossa volta.

Como envelhecemos... A noção da intermitência dá-nos a noção do tempo contínuo.
Comunicar continua a ser uma das maiores necessidades do Homem. Onde pára ela na pirâmide, Maslow?

"Keep metal heavy" Bota o Emo no lixo.
Almas sonhadoras. Sonhar, que direito? São 13:18 e o meu estômago existe.

Se os olhos se vendessem teríamos marcas e logotipos nos olhos. Mas os olhos só consomem, devoram, penetram, descobrem, inquirem, procuram, encontram. São quase quatro horas de tempo para escrever. Uma folha em branco a rasurar-se e a inutilizar-se.

Estar no centro das atenções, mas ser atencioso e atento. Centros dos mundos. Estímulos e respostas. Os gostos a delinearem-se no menino e na menina. Crianças-brinquedo que ainda não entendem nem controlam o mecanismo que nos conduz.


Cada um só consome por si, abandonado cada um para seu lado. O consumo de massas será menos individualizante?

Os químicos estão a tomar conta da sociedade e a capacidade da lucidez a ceder-lhe espaço. Efeitos cumulativos que não controlamos por retro-ciência.
Agir é agora.
Se pudermos.
Se quisermos.

Hoje o Georden completa 5 aninhos.

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