quinta-feira, outubro 08, 2009

O que é ser central?

Já contactei com várias pessoas a quem não dá jeito (entenda-se, ou entendo, a quem fica fora de mão) ir ao centro da cidade.

Ora, o que quererá isto dizer?


Vamos contextualizar.

Vias de comunicação

Em termos de circulação rodoviária, Braga está servida por uma circular onde, por dia, passam milhares de automóveis.
Essa circular, que, como todas, tem por objectivo permitir bons acessos aos lugares onde as coisas se passam (entenda-se, neste caso, serviços, bancos, o comércio retalhista... situados nas freguesias que se confundem com a cidade: Maximinos, Cividade, Sé, São João do Souto, São Vicente, São Victor... estão todas?), apresenta - talvez necessariamente - duas partes mais complicadas, uma em cada lado da cidade:
- por um lado, onde entronca com o tráfego que vem da zona da estação de caminhos de ferro;
- por outro, onde o trânsito é obrigado a abrandar (grandes fluxos), na recta que abrange Lamaçães e São Victor.

Fora desta circular, e mais dentro do burgo, Braga tem dois eixos que rasgam, em cruz, a matriz construída de um lado ao outro:
- por um lado, podemos considerar a Av. da Liberdade (e a ela podíamos equiparar a Av. 31 de Janeiro, sua paralela)
- por outro, a linha que junta Av. João XXI (a oeste daquela) e Av. Imaculada Conceição (a este).

A estes dois conjuntos de estradas podemos acrescentar duas zonas particulares, tão próximas da cidade como já à sua saída (aqueles não-lugares, com a circulação como uso principal ):
- um que fica na direcção de Vila Verde, em que as filas são bem problemáticas mas onde ainda vão tendo espaço... para se avolumarem;
- outra, em direcção a Gualtar (e ao campus de Gualtar da Universidade do Minho), que geram também acrescidos fluxo de automóveis.

Todas as manhãs e todos os fins de tarde, por volta das horas habituais dos movimentos pendulares (entrada e saída do trabalho) é o mesmo frenesim, o mesmo ruído que nos retira qualidade ambiental, sonora e atmosférica, e que nos rouba anos de vida.

A situação é, claro, mais grave nas zonas de maior concentração habitacional e, por coincidência, onde a construção é vertical. Isso ocorre sobretudo na parte este da circular. Só no vale de Lamaçães há filas de prédios em toda a recta. A parte oeste referida está mais afastada de habitações (via desnivelada).

Quanto aos eixos centrais, por mais antigos, as habitações são, em maior medida, moradias ou prédios baixos (dois ou três pisos). A 31 de Janeiro é um bom exemplo disto. Encontram-se também antigas indústrias e armazéns, uma escola... que acabam por ocupar o espaço e funcionar como zona-tampão ou fina barreira para os prédios mais próximos.

Este breve esboço vai ao encontro da imagem da expansão do espaço construído ao longo das estradas, algumas vezes em forma de estrela (não neste caso), com as ramificações que convergem para o suposto centro (funcional) ou para o centro (histórico) da cidade.



Serviços, comércio retalhista, habitação.

Como podemos caracterizar o tipo de ocupação daquelas freguesias?
Bancos, agências de seguros, cafés, quiosques, livrarias e papelarias, mercearias, os mais antigos centros comerciais (alguns completamente desvitalizados e/ou decrépitos - seria interessante averiguarmos os porquês dessa situação), pequenos "supermercados", retrosarias, talhos, lojas de roupa (atraem muitos jovens às ruas do Souto ou dos Capelistas, por exemplo)... além das muitas igrejas, dos museus, de hospitais, centros de saúde, escolas e outras instituições ou repartições públicas...

Sim, ainda há muita gente a viver bem no centro e a tal ajudam os prédios da Av. da Liberdade e suas intersecções imediatas. Os espaços verdes e de recreio são diminutos. Não houve tempo para pensar nisso. No entanto, as zonas de protecção e certas antiguidades controlam a densidade e, ainda assim, arriscamos dizê-lo, há alguma qualidade de vida ambiental.

O problema quanto à habitação é que - e isto não é próprio da capital de distrito - os serviços e o comércio "fashion" e "good-lookin" tendem a ocupar todos os pisos térreos enquanto vamos vendo os prédios degradar-se. Basta caminhar pela zona da Câmara Municipal, pelo Jardim de Santa Bárbara, pela zona da Sé, pela Rua dos Chãos, pela Rua de S. Vicente... tudo a ficar abandonado, castanho, empoeirado e sem vida.

São políticas e valores, prioridades de investimento.
Braga está sempre em obras. Aliás, as cidades portuguesas parecem estar sempre em obras. Seja por prédios que caem, seja calcetar ruas, para criar jardins (quando), ou para restauro ou reabilitação de prédios (quando, e vai havendo algumas intervenções nesse sentido... mas insuficientes para desacelerar o definhamento e a morte por dentro que vai corroendo a cidade)...


Em jeito de conclusão


Temos então o central histórico a ficar despido de pessoas. E as pessoas a residirem mais à margem desse centro. E com a deslocação da razão de ser do razão de ser das cidades, o grande comércio, com maiores hipóteses de expansão, e já pensado para isso, sofreu um arrastamento para partes mais recentes e mais laterais. Ou seja, o centro atractivo (o consumo das massas) marginalizou-se.

Lojas de telemóveis, perfumarias, ginásios, cafés, bancos também lá nasceram. Obviamente as grandes cadeias de roupa, os hipermercados, típicos destes "subúrbios interiores".
A perder e presas ao "centro histórico" ficaram os tradicionais cafés (nas praças e espaços abertos, com estátuas ou pontos de referência, que os "novos centros" não estão a ver nascer junto de si) e as pequenas mercearias.

O que atrai ainda as pessoas ao "centro histórico"?
A necessidade de andar a pé em espaços menos ofegantes?
A inevitabilidade das repartições públicas?

Por outro lado, o que impede as pessoas de a ele acederem?
Uso abusivo do automóvel para deslocações? (Numa cidade tão pequena como Braga?)
Falta de tempo?
Falta de espaço (outra vez a primeira pergunta... espaço onde deixar o carrinho...)?

Centralidades que se vão desenvolvendo à margem da nossa reflexão.
Núcleos que se vão multiplicando, invisíveis, como bolhas de tinta.
Quando rebentam salpicam o que está à volta.

Fica confuso e feio o quadro?
Que diria o barcelonês e "ortogonal" Joan Miró sobre estas pinturas que por cá vamos criando?
Nada sonhadas, pois não, amigo?


Nota: os pormenores (duas primeiras imagens) e a montagem (nossa; terceira imagem) foram obtidos da obra que serve de capa ao disco "Cançons de la Roda del Temps", de Raimon, da autoria de Joan Miró.

5 comentários:

Anónimo disse...

Vai-te lixar, a Rua dos Chão não está assim tão mal.

Eduardo F. disse...

Caro anónimo, não há qualquer necessidade de usar essa linguagem.

Gostaríamos, em vez disso, que sustentasse a sua opinião.

Obrigado.

Daniel D. Pereira disse...

Olha que a cidade de Braga não é assim tão pequena? Cá pra mim ela começa em Viana e acaba em Aveiro.

Como poderemos nós ter uma gestão eficiente do território quando a densidade é extremamente baixa... Alguns (grandes) sacrifícios terão de ser feitos.

Daniel D. Pereira disse...

Mas volto a frisar: "É BOM VIVER, DORMIR, E COMPRAR EM BRAGA"

Corista disse...

Se Braga começa em Viana e termina em Aveiro... Onde ficará o Porto? Parece-me antes o Porto que começa em Viana e termina em Aveiro...

Braga vale a pena pelas mulheres que tem... por isso concordo consigo, "É bom para viver, dormir e comprar..."

;)