quarta-feira, abril 30, 2014

Hoje como outrora

"O programa escolar do 9.º ano em Portugal faz a apologia dos OGM's."

(Acabei de tropeçar neste comentário.)

Hoje como outrora, a propaganda tem de ser difundida, se possível de maneira difusa.
Para que não saibamos um dia saber a fonte e ir indagar os porquês.

Hoje como outrora, o entretenimento tem de ser massivo.
Venha ele sob a forma de produtos mediáticos ou amplificados pelos média, 
da satisfação de "necessidades falsas" (como diz o Marcuse), 
da compra de corpos e almas (via corrupção ou miséria, através dos "bananas" e dos manda-chuvas que cacicam e calcinam as hierarquias).
Para que nunca nos interroguemos como inverter as relações desiguais do Poder e dos exercícios desequilibrantes das instituições do Poder.

Hoje como outrora, os saudosistas gostariam de impor aos outros o que desejam para si.
Para que terminemos mais uma conversa fiada a dizer "que tudo é relativo".

Hoje como outrora, a distribuição do poder que vale e se faz valer é uma montanha que pare os ratinhos que somos.
Para que se encarne no Largo do Carmo o que a Assembleia da República já não representa.

Hoje como outrora, a distribuição geográfica da riqueza de Portugal é visível e chocante.
No desordenamento (florestal, urbanístico, ...).
No povoamento (o des- e o sobre-).
No analfabetismo funcional.
E, agora, no alfabetismo disfuncional.
Na fome e na opulência.
No acesso (económico e geográfico) à justiça, à saúde, à educação, à habitação (sequer digna), à cultura (mercantilizada).
Para que se constitua como escola e todos achemos normal e inevitável.

Hoje como outrora, os institucionalizadores da violência são os que dela excluem a violência económica.
Para que os marginais de baixo, violentos ou não, sejam condenados pelos marginais, não violentos, claro está, que os superintendem, com o poder do bom-senso social, das "discriminações positivas" e demais termos novilinguísticos.

Hoje como outrora, o fascismo.
Para substituir suprir a consciência e instalar a lei da concorrência e do "antes ele que eu".

Hoje como outrora, o hoje como outrora, a história aos círculos fechados ou em espirais metálicas que se estendem e contraem.
Muitas vidas retalhadas pelos ferros durante os iô-iôs dos jogadores profissionais do poder.

Hoje como outrora, o silenciamento.
Agora, no excesso.
Porque tudo é excessivo. Até a crença na abundância, propalada sobretudo aos carentes.

Excesso de informação, de desinformação, do "não há mais pachorra", da fadiga psicológica e dos cansaços mentais e corporais, excesso de riqueza e de pobreza.

Estaremos mais pobres?, Mais ricos?, - hoje que outrora?
Mais conscientes?, mais inconscientes?, - hoje que outrora?

Às expensas do mundo que gira, inevitável mas cada vez mais destruído, vamos fazendo perguntas.
Mais (perguntas)?, Menos? - hoje que outrora?

"Portugal não é um país pequeno".

Pois não.
Pois não.

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