sexta-feira, março 25, 2011

Ridículo (diferente de "risível")

Imagem de uma cidade fantasma.
Retirada daqui.


"As centrais nucleares são obras-primas da Ciência e da Engenharia do Séc. XX. Desde que existem, há 56 anos, ocorreram três acidentes graves: Three Mil Island (TMI-EUA, 1979), Chernobyl (URSS, 1986) e Fukushima Daiichi (Japão, 2011). No entanto, nem TMI nem Fukushima, até agora, produziram qualquer morte ou caso de doença aguda. Em Chernobyl, a libertação de radioactividade causou 62 fatalidades. Dos 134 heróis que em Chernobyl enfrentaram as doses maciças de radiação (6000 milisieverts), acabaram por falecer 28 nas semanas que se seguiram ao acidente e mais 19 nos 20 anos seguintes, embora não por causas atribuíveis ao acidente, tendo sobrevivido 87. Dos 6 mil casos de cancro da tiróide infantil, contraídos por não ter havido distribuição de pastilhas de iodo, 15 resultaram em morte. Não foram detectadas outras consequências nas populações sujeitas à passagem da nuvem radioactiva.
Em Chernobyl, nem o tipo de reactor nem os sistemas de segurança se assemelhavam aos do mundo ocidental, incluindo Fukushima. Não havia confinamento de aço, a que se sobrepõe um outro de betão. Foi por isso que a explosão, motivada pelo sobreaquecimento, projectou o conteúdo do reactor na atmosfera, tendo o reactor ficado a arder 10 dias a céu aberto. Nada disto aconteceu em Fukushima.
Para comparação, durante os últimos 50 anos houve vários rebentamentos de barragens hidroeléctricas, dos quais os mais mortíferos foram um na Itália que matou 2 mil pessoas (Vajont, 1963) e outro na China (Banqiao, 1975) que matou 170 mil!...
A centrall de Fukushima Daiichi, a mais antiga do Japão, foi projectada na década de 1960 e os seus seis reactores instalados durante os anos 1970. É do tipo que se usou no início da energia nucelar, de "água ebuliente". O violento cataclismo natural que se abateu sobre o Japão matou pelo menos 17 mil pessoas. Mas nenhuma foi vitimada pelo acidente nuclear, ao contrário do que aluns média alarmistas tentam fazer crer, ao colocarem o número de mortos causado pelo tsunami em subtítulo das notícias sobre o acidente nuclear...
Foi preciso um tsunami gigantesco, após um terramoto cataclísmico, que afectou 15 reactores nas quatro centrais da costa leste do Japão, para que quatro reactores, de uma central de seis, avariassem gravemente. Todas estas centrais tinham sido concebidas para serem imunes a tsunamis com ondas até 5,7 metros de altura. Este tinha dez metros e os serviços auxiliares das centrais foram inundados. Felizmente, é cada vez mais provável que o acidente de Fukushima acabe tão inócuo para as populações como o de Three Mile Island. É altura de iniciar o debate. Terminada a actual crise e analisadas as suas consequências, assistiremos, sem dúvida, ao renascimento da energia nuclear civil."

Pedro Sampaio Nunes, engenheiro, especialista em energia.
Visão, 24.3.2011, p.90


Uma opinião a favor do nuclear, num artigo sobre os perigos e receios do acidente da central de Fukushima, torna-a - a esta opinião - num momento de um ridículo gritante que não suscita qualquer riso. Apenas alguma raiva, quanto muito.

À Visão, e aos autores do artigo, Isabel Nery, Luís Ribeiro, Paulo Chitas e Sara Sá, não posso deixar de agradecer tal opção. Penso que não tiveram consciência disso, mas é isso que paira após a leitura de algo assim com um tal enquadramento. Num padrão de matizes verdes lá vem um vermelho gritante e ainda querem que fiquemos indiferentes, não?

Se tivessem tido consciência dessa, digamos, reacção nos leitores CONTRA o nuclear, e se, com ela, o tivessem feito deliberadamente (o que implica, portanto, dar opinião; o que corrobora, portanto, que a neutralidade é muito difícil, quando não impossível) ainda mais agradecia aos redactores do semanário.

Queria só acrescentar que - julguem por vós próprios - a opinião deste senhor, engenheiro, reflecte muito a mesma ética que tem servido para esventrar a Terra e dividir os homens em gananciosos e indiferentes, em decisores e acatadores das decisões, em poderosos e submissos.

Em superiores e inferiores.
Isto, num mundo em que pensávamos que todos éramos humanos.

Ah, mas uns são mais humanos que outros...!
Quais dos dois são eles?
Os que morrem pela Terra, os que vivem na Terra, os que vivem da Terra, e não da exploração da fraqueza dos outros.

"Quem escolhe ser assim,
quando chegar ao fim
vai ver que errou o seu caminho.
Quando a vida é hipotecada,
no fim não sobra nada
e acaba-se sozinho."

E estando no mesmo mundo, no único que temos, poderemos viver sozinhos?
Podemos continuar a conviver com pessoas que põem em causa a convivência?

Não será isto um caminho insustentável?
Mesmo antes das consequências: no plano das ideias, à partida - Será isto sustentável?
Porque temos aguentado até aqui, isso serve-nos de resposta, tranquilos,?

Sim, mas quantas mortes, quantas destruições, quantos estropiamentos podemos continuar a suportar?

"How many years can some people exist,
before they're allowed to be free?"

Quantas violências, quantos atropelamentos, quanto desrespeito pela vida?

Não nos obriguem a sermos como vós.
"Não me obriguem a vir para a rua gritar."

Ou a coisa vai mesmo acabar mal.
Muito mal.


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