quarta-feira, março 02, 2011

Escopofilia (Sitiações na Cidade)

Cairo, Fevereiro de 2011
(Imagem retirada daqui)


Cold hearted orb that rules the night
Removes the colours from our sight
Graeme Edge


Entre o mundo e a imaginação há um mundo que nos é negado e uma imaginação de que vamos sendo expoliados. Actores e autores (palavras que, já agora, têm a mesma raíz) do nosso empobrecimento, passivos e activos.

Precisarmos de ver o mundo para estimular-nos a entrar no mundo é já uma perda da mente.
Se quiserem, uma perversão da mente humana.
Estimularmo-nos à mínima noção de realidade, então, traduz uma destruição grave da mente. Maus-tratos para com a capacidade humana de imaginar e sonhar.
E essa violência sofrida reside nas aspirações que nos são cerceadas, negadas e sonegadas.


A perversão em pessoa (dentro de nós) diz-nos que é difícil passarmos pelo buraco da agulha, camelos no deserto de humanidade que estamos a ser. Assim, o que nos excita parece ser suficiente. E o que nos excita é o orifício por que olhamos (por que nos olhamos e não vemos) ser tão pequeno e mesquinho.

Babamo-nos com as capas das revistas e o desfile das futilidades, pensando:
- Ah... quem me dera ser fútil.
Escorre-nos saliva pelos beiços ao invejarmos o poder dos ricos e dos corruptos (não pedimos desculpa pelos pleonasmos), magicando de que atoleiro sairia a nossa vida se atingíssemos o orgasmo do dinheiro...

Mas ei-lo que surge: é um fantasma, espectral, junto ao vidro:

As revoluções do homem na rua, o Street Fighting Man rollingstoniano que vemos nas praças do lado de lá...
- Estamos quase lá, quase lá...!!!
... são aquilo que queremos realmente fazer cá.

A televisão estimula, é certo.
Mas, como todo o desejo contém em si a sua auto-destruição, a televisão acaba por amaciar, abrir a tampa da panela que os poderes unificado e unilateral têm cozinhado.
Connosco na panela sobreaquecida...

Deixemo-nos de nos despedir de nós mesmos.
Ou continuaremos a cair num vazio de nós mesmos.
Ficaremos cada vez mais do lado de fora, pobres e solitários a quem até a imaginação e a capacidade do amor humano nos foram roubados para vender.
Queremos tomar-nos de assalto e os interlocutores comerciais que tomaram conta de nós ainda exigem que lhes paguemos!
Que as revoluções trazem muitos inconvenientes (subida dos preços, crises políticas... e demais ameaças e violentações simbólicas quotidianas, propaladas pelos média, produzidas pelo poder instituído...




Yo no sé muchas cosas, es verdad.
Digo tan sólo lo que he visto.
Y he visto:que la cuna del hombre la mecen los cuentos,
que los gritos de angustia del hombre los ahogan con cuentos,
que el llanto del hombre lo taponan los cuentos,
que los huesos del hombre los entierran los cuentos,
y que el miedo del hombre...
ha inventado todos los cuentos.


Poema de León Felipe, interpretado pelos Aguaviva
(Lp Cada vez más cerca, 1970)



Os soldados também são (vão sendo...) homens, iguais e tão pouco livres como os que os confrontam. (Imagem retirada daqui)


Temos direito a ser felizes e queremos ser dignos.
Exigimos que nos deixeis em paz!
Somos pessoas, sabíeis? Temos vontades e aspirações...
Temos necessidade de futuro.

Seus poderosos porcos e perversos, que usais toda a força (sofisticada e bruta) para nos dividir, com vossos "eus-telefones", com os vossos "meus espaços", com os vossos "eus-googles" e toda a treta que fazeis passar por nossa, mas que é vossa e só vossa - porque é para vós que vai o dinheiro.

Tende cuidado, que o dinheiro não é a única forma de poder.
Tem sido a maior, mas não conseguireis destruir a nossa cidade...

Tende cuidado.
Porque o capitalismo sempre teve como a própria estrutura a auto-destruição, de tão perverso e contra-natura que é...

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